terça-feira, dezembro 26, 2023

Contra as bombas semióticas da "Empatia" e do "Faça a diferença"

“Empatia” e “faça a diferença” são expressões que marcaram 2023. Apareceram em todos os lugares: no colunismo e editoriais da grande mídia, em vídeos publicitários das grandes marcas globais, nos discursos motivacionais corporativos, na literatura de autoajuda. Viraram palavras mágicas através das quais podemos supostamente fazer uma sociedade melhor e mudar o mundo! Há uma relação direta entre o aumento da polarização política e escalada midiática dessas palavras, consideradas antídotos para todas as mazelas do ódio e intolerância. O mais irônico, é que aqueles que lançam essas palavras mágicas como slogans ou hashtags foram os responsáveis pela doença que supostamente pretendem curar: o jornalismo de guerra que deu visibilidade ao extremismo político e fundações privadas educacionais de bilionários que financiaram a cismogênese brasileira. “Empatia” e “faça a diferença” viraram bombas semióticas do “Sim!” que retroalimentam aquilo que simulam querer sanar.

Uma palavra e uma expressão marcaram esse ano de 2023. Elas já vinham frequentando bastante nos últimos anos postagens em redes sociais, crônicas e textos da grande mídia. Mas nada se comparou a esse ano que termina, repetidas como mantra em dez em cada dez vídeos publicitários ou em propagandas dessas organizações internacionais de ajuda humanitária e ONGs de ações em cidadania pedindo apoio e doações: “empatia” e “faça a diferença”.

“Empatia” como a verdadeira cura para a “polarização política” que cindiu a sociedade brasileira de alto a baixo, seja nas esferas políticas, familiares ou relacionais. Além da “inteligência emocional” necessária para superarmos o ódio, preconceito, intolerância, racismo etc.

E a exortação “faça da diferença” como a solução para todas as mazelas sociais e planetárias como, por exemplo, fome, desigualdade, guerras e crise climática. 

O curioso é que essas palavras que supostamente seriam a solução para uma espécie de humanidade esquecida desde a crise pandêmica da Covid-19 num país em que o presidente Bolsonaro tocava um “f*da-se” com a tese da “imunidade de rebanho”, convivem com expressões popularizadas por esse próprio governo. Cujas origens estão no imaginário militar: “pacificar o problema/questão” (“pacificar” no jargão militar é “derrotar o inimigo”, restituir a paz por meio da guerra), repetido igualmente como mantra entre “colonistas” da grande mídia sobre, por exemplo, as controvérsias em torno do “déficit zero” e austeridade fiscal. 


Bolsonaro e Mourão: na vanguarda semântica da grande mídia


Ou a expressão “zero problema”, outra que vem direto da caserna. Expressões que, salvo engano, passei a ouvir pela primeira vez nas vozes de Bolsonaro e do seu vice “tecla SAP” general Mourão – aquele que traduzia para os repórteres setoristas em Brasília o que o presidente havia tentado dizer... E que a grande mídia acrescentou ao seu glossário, num ato falho do seu apoio envergonhado ao governo de ocupação militar do Estado.

Tudo isso guarda uma profunda ironia: todos aqueles que agora falam em “empatia” e “fazer a diferença” foram os responsáveis por aquilo que supostamente tentam consertar: promoveram o jornalismo de guerra, deram visibilidade a todo o discurso de ódio e intolerância como aliado de ocasião para incitar a cismogênese que conduziu às formas híbridas de golpe em 2016 e 2018. Ou ainda deram apoio logístico e financeiro para as vozes desse discurso para saírem às ruas de verde-amarelo ou alimentar os haters na Internet.

Se não, vejamos.

A jornalista Giuliana Morrone, uma das que fizeram parte da linha de frente em Brasília no jornalismo de guerra da Globo, publica no Estadão coluna apontando para a “absoluta falta de empatia” na “polarização política” e de que é necessário “coragem e autenticidade” para entendermos a “dor do outro”.

Ou ainda o jornalão “Folha de São Paulo” que destaca iniciativas na educação pública e privada, como a plataforma criada pela Fundação Lemann, para auxiliar professores no “desenvolvimento socioemocional dos alunos”: estimular empatia e “flexibilidade” para capacitar alunos ao mercado de trabalho - aulas semanais para trabalhar o respeito, a tolerância, a solidariedade, a perseverança e outras habilidades. – clique aqui.

A Fundação do mesmo bilionário Jorge Paulo Lemann que, através da Fundação Estudar, financiou e deu apoio operacional ao Movimento Vem Pra Rua em 2014 – o ponto zero da cismogênese brasileira – clique aqui.

Enquanto isso, organizações humanitárias como Médicos Sem Fronteiras tem suas instalações bombardeadas por Israel e mais de 100 funcionários da ONU (psicólogos, médicos etc.) morrem na Faixa de Gaza. Tudo que essas organizações fazem são protestos tímidos e protocolares (obviamente, sem a grande mídia dar qualquer destaque), contradizendo o mote do “fazer a diferença” que tanto exortam na sua propaganda para telespectadores que acreditam que podem mudar o mundo fazendo “sua parte”.

Para além da ironia, há uma lógica nessa aparente contradição. “Empatia” e “fazer a diferença” não são a solução. Porque acabaram fazendo parte do problema por estarem mal colocadas. E, por isso, viram instrumentos ideológicos, verdadeiras bombas semióticas que apenas retroalimentam aquilo que os incautos bem-intencionados acreditam ser a solução.

São palavras cheias de boa-fé, otimismo, positividade que, como de resto, todo o chamado “neoliberalismo progressista” (o discurso do identitarismo, das questões de gênero, diversidade etc.) inspira. 

A eficiência da “Empatia” e “fazer a diferença” é que são aquilo que esse humilde blogueiro chama de bombas semióticas do “Sim!”: geram unanimidade instantânea, consenso imediato. Quem pode ser contra ideias tão inspiradoras e otimistas para melhorar o mundo?

Então, vamos fazer a engenharia reversas dessas bombas silenciosas.


Contra a Empatia


Quem pode ser contra a empatia? O professor de psicologia em Yale e autor do livro “Against Empathy” Paul Bloom. Para ele, a maioria de nós está completamente errado sobre o conceito de empatia. E acrescentaria: por isso é a bomba semiótica perfeita para encobrir a perversa lógica da retroalimentação.




Bloom procura um senso mais estrito e científico de empatia: “Percebi que as pessoas significam coisas diferentes por empatia. Algumas pessoas tomam a empatia para significar tudo de bom ou moral, ou para ser gentil em algum sentido geral” – leia BLOOM, Paul. Against Empathy: The Case for Rational Compassion, Vintage, 2018.

A principal questão de Bloom é o seu papel sobre a tomada de decisões morais. Empatia é a capacidade de sentir ou compreender a dor de outra pessoa. O que é muito diferente da compaixão, que significa dar um peso moral ou valorizar essa dor – importamos com o outro, sem necessariamente sentir a mesma dor dele.

A tendência do “design da empatia” é a individualização: 

Se você e eu somos as únicas pessoas na terra e você está com dor e eu posso ajudá-lo e fazer sua dor desaparecer, e eu sinto empatia por você e então eu faço sua vida melhor, a empatia fez algo de bom. Mas o mundo real não é nem de longe tão simples. As falhas de design da empatia têm a ver com o fato de que ela age como um holofote. Aumenta o zoom. Mas os holofotes só iluminam onde você os aponta e, por esse motivo, a empatia é tendenciosa – clique aqui.

Para ele o principal problema é o fenômeno da “inumeração”: a empatia aponta o holofote para um, mas não atende a diferença entre 100 ou um em mil. É por causa da empatia que muitas vezes nos preocupamos com o sofrimento de uma pessoa do que de 100 ou mil, o que transforma sofrimentos verdadeiros em abstração estatística.

Para Bloom, a empatia é uma fonte maravilhosa de prazer ao nível da ficção (identificarmos com um personagem) e na intimidade é fundamental para o sexo. Mas no campo do domínio moral, a empatia acaba se tornando um desvio. 



Como bem demonstra o exercício empático da grande mídia que concentra o holofote em “histórias inspiradoras” – o peso da valoração moral torna-se individual, concentra o foco em casos exemplares, perdendo-se de vista a dimensão coletiva, de classe social – como de resto o faz o discurso do neoliberalismo progressista: dissolve a luta de classes em identidades de gênero, raça etc.

Questões políticas, sociais ou econômicas complexas (porque estruturais relacionadas a modos de produção amplos sedimentados historicamente) deixam o campo da indignação moral para entrar no campo subjetivo do “estar no lugar do outro” ou de “querer sentir a dor do outro”.

Não por menos que a consequência do holofote da empatia é a clivagem da comunicação do “lugar de fala”: com a pulverização da sociedade através da “inumeração” produzida pela empatia, só poderemos sentir a dor do outro desde que ele seja o nosso semelhante identitário: a mesma raça, gênero etc.

Empatia cai como uma luva no discurso do neoliberalismo progressista porque o seu mecanismo da inumeração corresponde a sua visão de mundo microssocial ou microeconômica, lembrando o mecanismo ideológico das “robinsonadas” que tanto Karl Marx criticava no liberalismo clássico - acusava os economistas burgueses de fazerem “robinsonadas”, numa alusão à história de Robinson Crusoé isolado em sua ilha. Marx acusava as análises econômicas de sempre tomarem como ponto de partida o indivíduo isolado, sem determinações sociais. O indivíduo supostamente como um produto da Natureza – leia MARX, Karl. “Introdução à Contribuição para a Economia Política”, 1859.

Com a empatia temos o mesmo princípio: se você e eu formos as únicas pessoas em uma ilha, sentir a dor do outro é muito mais simples. Mas no mundo real, coletivo e social as coisas não são de longe assim tão simples. Elas entram no campo das decisões e valorações morais que implicam políticas públicas ou ativismo coletivo para transformar uma realidade dada.

É o mesmo mecanismo ideológico que, por exemplo, transforma as questões de orçamento e investimento do Estado na simplicidade do pensamento midiático do fiscalismo: transformar as contas públicas em contas de padaria ou a gestão do orçamento doméstico.



“Fazendo a diferença” faz a diferença?


A expressão “fazer a diferença” é uma variação atual do clássico “fazer a sua parte”. Lá pelos idos da chamada “crise hídrica” de 2014 em São Paulo, o slogan da Sabesp era “cada gota conta”: se cada um economizar uma gota, ou seja, fazer a sua parte, mão faltaria água para todos.

Ou ainda o marketing de uma agência de publicidade para bikes compartilhadas em uma ciclovia em São Paulo nas quais estava estampado o slogan “Isso muda o mundo” – se cada um fizer a sua parte, deixar o carro em casa e ir para o trabalho de bicicleta, o meio ambiente seria salvo.

Hoje essa expressão ficou generalizada, seja numa matéria jornalística (um entrevistado fala que se o cidadão fizer tal coisa fará a diferença), uma campanha publicitária de uma organização humanitária (se você nos apoiar “faremos nossa parte” ou “nos apoie e faça a diferença” etc.) ou mesmo no mundo corporativo onde “fazer a diferença” é o mantra da produtividade.

Esse fenômeno linguístico que virou uma bomba semiótica faz parte de um fenômeno mais amplo do século XXI: a ascensão global da extrema direita e o retorno de ideias supostamente superadas pelas revoluções científicas da virada do século XIX-XX. Ideias como o neomalthusianismo, Eugenia e pureza racial, a teoria da Terra Plana, Lombroso e a Antropologia Criminal, Frenologia, Positivismo de Augusto Comte etc. voltaram a ganhar espaço em agendas neoconservadoras ou simplesmente reacionárias.

Por trás dessa expressão esconde-se o estranho retorno da filosofia positivista de Auguste Comte (1798-1857) do século XIX. Para o Positivismo a sociedade funcionaria por meio de um mecanismo newtoniano: causa e efeito e eventos que se acumulam (1+1+1...) até formar um Todo.

Através do estudo de cada parte chegaríamos ao Todo por adição. Desde Hegel (“A verdade é o Todo”) até chegar à fenomenologia e a psicologia Gestalt descobriu-se que, na verdade, o Todo não é a mera soma das partes. Confirmado depois pela Teoria do Caos na Física, na qual a dinâmica é sempre complexa, caótica, marcada por saltos qualitativos (a velha dialética de Hegel) e atratores estranhos semelhante à mecânica dos fluidos.



Isso significa que as mudanças sociais não ocorrem com ações aditivas, mas por quebras de ordens e paradigmas.

Pelo wishiful thinking do “fazer a diferença” acreditamos que um gesto individual fará a diferença, que as mudanças ocorrerão pela simples adição das escolhas feitas por indivíduos genéricos para os quais comunicamos também nossas escolhas. Quando esses gestos se somarem, magicamente através de algum tipo de contaminação viral (a “corrente do bem”), de uma hora para outra, ocorrerá um salto que transformará a sociedade.

Mais uma vez o macrossocial é diluído pelo micro, em outra “robinsonada”: para o neoliberalismo progressista a sociedade é uma soma de ações individuais imbuídas de boa fé e positividade, sem ação coletiva consciente ou projeto público. A sociedade é apenas feita por uma soma de crentes motivados por slogans e hashtags.

Nenhuma ação individual “faz a diferença”. Os sistemas têm uma dinâmica muita mais complexa do que o simplismo semiótico do marketing e propaganda.

Portanto, essas bombas semióticas do “Sim!” têm sua letalidade explosiva exatamente na retroalimentação da cismogênese e polarização: de um lado, a “inumeração” da empatia apenas reforça a divisão pela clivagem da comunicação do “lugar de fala”; e do outro, o narcisismo e autoindulgência do “fazer a diferença” ignora a dimensão pública, coletiva e mesmo grupal.

Do Estado mínimo ao Mínimo Eu neoliberal.


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