sexta-feira, julho 15, 2016
Wilson Roberto Vieira Ferreira
As
ricas mansões das colinas de Hollywood escondem estranhas seitas e comunidades
formada por celebridades, diretores e produtores da indústria do
entretenimento. Em uma dessas ricas casas um grupo de amigos que não se via há
dois anos é convidado para um jantar. Lá encontrarão os anfitriões: uma
ex-esposa e seu novo marido, entusiastas de uma nova seita que promete “um novo
recomeço”. Esse é o thriller psicológico “The Invitation” (2015) de Karyn
Kusama onde as seitas de autoajuda se revelam na verdade grandes mecanismos de
negação psíquica onde a linha que separa a sanidade da loucura começa a
desaparecer. Os convidados daquele jantar conhecerão da pior forma possível a
máxima freudiana: “o reprimido sempre retorna”.
Desde o livro
clássico Como Fazer Amigos e Influenciar
Pessoas de 1936 até livros e filmes recentes como O Segredo, um vasto aparato de técnicas, receitas e manuais de
autoajuda vem cada vez mais se expandindo. Ganhar mais dinheiro, descobrir a si
mesmo, superar medos e traumas, sucesso profissional, sucesso no amor etc.,
usar o poder da mente para se motivar, técnicas subliminares de auto-aplicação
etc., são vendidas nesse grande denominador comum da autoajuda.
Desde 1936, das
primitivas técnicas inspiradas nas táticas de sobrevivência das ruas, a
autoajuda se sofisticou através de duas grandes ramificações: de um lado
vulgarização de conceitos neurocientíficos (do poder do “pensamento positivo”
até a programação neurolinguística”); e do outro o que se convencionou chamar
de “New Age” – movimento espiritual buscando a fusão Oriente/Ocidente ao
mesclar autoajuda, parapsicologia, esoterismo e física quântica.
“A vida não vem
com um manual”, dizem os críticos dessa “literatura”. Mas ela pode criar muitos
intérpretes desses “manuais”. Portanto, temos o mais perigoso subproduto da
autoajuda: o surgimento de seitas ou grupos liderados por “mestres”
carismáticos que vão desde os simples charlatões estelionatários até aqueles
mais perigosos que vivem no limite entre sanidade e loucura.
O crítico
literário Harold Bloom considerava essa a “verdadeira religião americana” – um
mix de autodivinização gnóstica, mormismo, pentencostalismo e sulismo batista.
Filmes como O Mestre (2012) fizeram
esse mergulho na “América Profunda” ao se inspirar na história do criador da
Cientologia, L. Ron Hubbard – sobre o filme clique aqui.
O filme The Invitation é mais um exemplar desse
mergulho no obscuro psiquismo da cultura norte-americana, dessa vez ambientado
no coração a espiritualidade daquele país: as colinas de Hollywood com suas
ricas residências onde residem artistas, celebridades, produtores e diretores
da indústria do entretenimento.
E na moderna
Hollywood, fazer parte de cultos, seitas ou grupos de autoajuda torna-se condição
para que uma pessoa crie uma consistente rede de relações que ajude a alavancar
a carreira: Cientologia, The Organite Society, Founded Full Circle, OTO (Ordo
Templi Orientis) ou The Kabbalah Centre são alguns desses exemplos onde a
natureza de grupo de estudo, seita, autoajuda e culto se confundem.
Enquanto o filme O Mestre fez uma abordagem mais
histórica sobre o tema, The Invitation
(2015) concentra-se em uma jantar onde um grupo de amigos se encontra após dois
anos. Amigos que tentam reconstruir relacionamentos que se perderam devido a
traumas do passado. Mas que revela o grande motor espiritual que impulsiona
essas seitas e grupos: o mecanismo psíquico de negação.
O
Filme
The Inivitation é um thriller psicológico que a
diretora Karyn Kusama mantém a narrativa numa lenta tensão crescente com
diálogos e personagens bem realistas.
O prenúncio do
que estar por vir começa logo na primeira sequência quando o carro de Will
(Logan Marshall-Green), junto com a sua namorada Kira (Emayatzy Corinealdi)
atropela um coiote a caminho do jantar com os antigos amigos em Hollywood. Will
é obrigado a sacrificar o animal ferido com golpes de chave de roda.
Os anfitriões do reencontro
são a sua ex-esposa Éden (Tammy Blanchard) e o seu novo marido David (Michiel
Huisman) que recebem os convidados com uma caríssima garrafa de vinho de três
dígitos. E um detalhe principal para aumentar a tensão da trama: a residência é
a mesma onde Will e Éden moraram quando casados e também onde viveram o grande
trauma que causou a separação: a morte do filho.
David, um
produtor de Hollywood que no passado viveu sérios problemas com drogas, recebe
a todos brindando um “novo recomeço”.
Mas entre os
convidados há dois personagens estranhos que destoam do perfil do grupo: Sadie
(uma jovem com um minivestido e sempre exibindo uma falsa alegria) e Pruitt, um
homem corpulento e careca com um olhar desconfiado. David e Éden explicam para
o grupo que os conheceram no México ao visitar uma seita com a qual aprenderam
a lidar com seus traumas do passado. O que faz acreditar que aquele jantar é o
simbolismo de um novo recomeço para a vida de todos.
O atropelamento
do coiote e o reencontro com as memórias de cenas do passado naquela casa,
torna Will cada vez mais introvertido. Mas a gota d’água é quando os anfitriões
abrem um laptop e apresentam para todos um vídeo com uma sequência perturbadora:
gravado no México, apresenta o mestre da seita reunido com todos os discípulos
diante de uma mulher em seu leito de morte por câncer. Ao redor, o grupo faz um
ritual de preparação espiritual daquela mulher até o momento do seu último
suspiro.
O vídeo é uma evidente
estratégia promocional para conquistar novos adeptos àquela seita, o que torna
Will de introvertido a desconfiado e paranoico. Os anfitriões, acompanhados
daquelas duas figuras estranhas ao grupo, podem ter alguma intenção sinistra.
Will passa a
desconfiar das portas trancadas sem chave, das grades que foram colocadas nas
janelas mas... Éden, sua ex-esposa, parece que encontrou algum tipo de paz.
Está aparentemente feliz com sua nova vida. Porém, pequenas coisas nãos se
conectam: telefones celulares sem sinal, telefone fixo desligado.
Mas algo parece fora
do lugar em Éden: a técnica de autoajuda daquela seita de ricaços
hollywoodianos parece não ter ajudado a ela superar ou resolver o trauma da
perda do filho e da separação. Para Will, tudo parece ser apenas uma grande
negação psíquica. Uma forma não de simbolizar e compreender (psicanálise), mas uma
técnica de deletar (para a psicanálise seria nada mais do que negação e
recalque) o passado, até esquecer que um dia teve um filho.
Mas como apontou
Freud, o reprimido sempre retorna. E o que teme Will, é que isso retorne de
alguma forma sinistra naquela noite. Mas a diretora Karyn Kusama conduzirá a
dúvida de Will e do próprio espectador em fogo brando até ferver nos 15 minutos
finais: quem está psiquicamente doente? Will ou Éden? Há algo de real ou tudo é
resultado da paranoia de Will?
Autoajuda
e o retorno do reprimido
Para o filósofo alemão
e expoente da Escola de Frankfurt, Theodor Adorno, toda ideologia não é apenas
uma mentira. Teve o seu momento de verdade. O mesmo pode-se dizer sobre a
ideologia da autoajuda e seus subprodutos em seitas e comunidades.
A autoajuda baseia-se
no gnóstico princípio da autodivinização: o homem já traria dentro de si tudo o
que ele precisa. Séculos de racionalismo o fizeram esquecer disso, passando a
acreditar que é ignorante e que precisa de alguma liturgia, culto, método ou
ciência para encontrar Deus ou a Verdade fora dele.
A própria noção de
“cultura” presente na filosofia grega, derivada do sistema de formação ética e
educacional da Grécia Antiga (a Paideia), já trazia esse princípio de
autodivinização – o cuidado do corpo e da alma, o cultivo do caráter, da índole
e do temperamento. Isto é, o aperfeiçoamento de características já presentes em
cada um.
Ao negar a religião
tradicional e voltar a busca de Deus dentro de cada um (por isso Harold Bloom
considerava como “a religião americana”), a Autoajuda e toda a Psicologia e
Psicanálise, cada um a sua maneira, buscaram retomar essa sabedoria milenar.
Porém, se a Psicologia
e a Psicanálise tentaram simbolizar ou compreender tudo aquilo que nos impede
cultivar a própria alma (traumas, medos, recalques etc.), para a Autoajuda tudo
é uma questão de “deletar” (a técnica da “dianética” da Cientologia, por
exemplo) as “situações negativas” do passado para se tornar “espiritualmente
livre”.
Mas a grande lição
dada por Freud é que “o reprimido sempre retorna” (ou, modernamente, aquilo que
tentamos “deletar” da nossa história). A virtude do filme The Invitation é demonstrar isso dentro de um thriller psicológico,
onde os protagonistas compreenderão a velha sabedoria freudiana da pior forma
possível.
Cinegnose participa do programa Poros da Comunicação na FAPCOM
Este humilde blogueiro participou da edição de número seis do programa “Poros da Comunicação” no canal do YouTube TV FAPCOM, cujo tema foi “Tecnologia e o Sagrado: um novo obscurantismo?
Esse humilde blogueiro participou da 9a. Fatecnologia na Faculdade de Tecnologia de São Caetano do Sul (SP) em 11/05 onde discutiu os seguintes temas: cinema gnóstico; Gnosticismo nas ciências e nos jogos digitais; As mito-narrativas gnósticas e as transformações da Jornada do Herói nas HQs e no Cinema; As semióticas das narrativas como ferramentas de produção de roteiros.
Publicidade
Coleção Curtas da Semana
Lista semanalmente atualizada com curtas que celebram o Gnóstico, o Estranho e o Surreal
Após cinco temporadas, a premiada série televisiva de dramas, crimes e thriller “Breaking Bad” (2008-2013) ingressou na lista de filmes d...
Sexta - Feira, 28 de Março
Bem Vindo
"Cinema Secreto: Cinegnose" é um Blog dedicado à divulgação e discussões sobre pesquisas e insights em torno das relações entre Gnosticismo, Sincromisticismo, Semiótica e Psicanálise com Cinema e cultura pop.
A lista atualizada dos filmes gnósticos do Blog
No Oitavo Aniversário o Cinegnose atualiza lista com 101 filmes: CosmoGnósticos, PsicoGnósticos, TecnoGnósticos, AstroGnósticos e CronoGnósticos.
Esse humilde blogueiro participou do Hangout Gnóstico da Sociedade Gnóstica Internacional de Curitiba (PR) em 03/03 desse ano onde pude descrever a trajetória do blog "Cinema Secreto: Cinegnose" e a sua contribuição no campo da pesquisa das conexões entre Cinema e Gnosticismo.
Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus.
Neste trabalho analiso a produção cinematográfica norte-americana (1995 a 2005) onde é marcante a recorrência de elementos temáticos inspirados nas narrativas míticas do Gnosticismo.>>> Leia mais>>>
"O Caos Semiótico"
Composto por seis capítulos, o livro é estruturado em duas partes distintas: a primeira parte a “Psicanálise da Comunicação” e, a segunda, “Da Semiótica ao Pós-Moderno >>>>> Leia mais>>>