sexta-feira, outubro 09, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Enquanto a
militância se distrai com a espuma das provocações bolsonaristas e o frenesi
dos algoritmos digitais, a campanha de Lula corre o risco de perder a batalha
pelo futuro. Presa na armadilha da comunicação reativa e sufocada pela espuma
midiática da extrema-direita, a campanha de Lula corre o risco de afundar no
segundo turno se continuar apostando apenas no discurso do "defenda a
democracia" e na exibição do passado. Para furar o transe hipnótico das
redes e a histeria do mercado, o campo progressista precisa parar de reagir e
detonar um verdadeiro acontecimento comunicacional: transformar a TARIFA ZERO na
grande bomba semiótica arma de guerra informacional do segundo turno. Choque de
realidade que desliga a máquina de guerra cultural da direita e obriga todos a
jogarem no tabuleiro onde a esquerda é mais forte: a transformação material e
concreta da vida da classe trabalhadora.
sexta-feira, outubro 09, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Quando o
filósofo alemão Theodor Adorno concluiu, na década de 1950, após pesquisa
empírica nos EUA, que o fascismo era uma tendência latente na própria sociedade
americana, poucos imaginaram o quão profético seria seu alerta. Sete décadas
após a publicação do clássico estudo "A Personalidade Autoritária", o suspense
político “O Aniversário” (Anniversary, 2025), do diretor polonês Jan Komasa,
transforma o veredito de Adorno em ficção assustadora: a história de como uma
democracia sólida pode ser corroída por dentro não por um golpe de Estado, mas
pelo ressentimento e pelo autoritarismo adormecido no cidadão comum. Em
“Aniversário” acompanhamos o crescimento de uma família, a mudança na dinâmica
de poder e a sua desintegração à medida que um movimento autoritário se espalha
pela sociedade.
Entre os anos
1944 e 1947, Theodor Adorno e sua equipe (Nevitt Sanford, Else Frenkel-Brunswik
e Daniel Levinson) fizeram uma pesquisa empírica nos EUA, envolvendo
questionários, testes clínicos e entrevistas.
Sob o impacto
da Segunda Guerra Mundial, Adorno queria saber se numa democracia burguesa como
a norte-americana seria possível a ascensão de um regimeme político totalitário
fascista. Como foi na Alemanha nazista.
O estudo,
publicado em 1950 sob o título "A Personalidade Autoritária", levou Adorno
descobriu que sim! Concluiu que o fascismo não era um fenômeno exclusivo da Alemanha
ou decorrente apenas de uma crise econômica pontual, mas sim uma tendência
estrutural da modernidade.
A pesquisa
revelou que uma fatia significativa da população possuía traços de
personalidade profundamente autoritários (o tipo "potencialmente
fascista"). Essas pessoas não se declaravam abertamente fascistas, mas
apresentavam uma estrutura de caráter suscetível à demagogia autoritária.
A
"Síndrome Autoritária" e a célebre Escala F (de Fascismo) foi
desenvolvida para medir essa predisposição sem fazer perguntas políticas
diretas. Adorno identificou características marcantes no indivíduo autoritário:
Submissão autoritária: Respeito acrítico e obediência cega às figuras de
autoridade do seu in-group; Agressão autoritária: Hostilidade e desejo
de punir qualquer pessoa que violasse normas convencionais ou pertencesse a
grupos minoritários (out-groups) etc. – sobre isso clique aqui.
O filme O Aniversário
(Anniversary, 2025), dirigido pelo polonês Jan Komasa (Suicide Room,
Corpus Christi), funciona como uma assustadora construção cinematográfica
do exato cenário que Theodor Adorno e sua equipe temiam. A obra ilustra como
uma democracia burguesa sólida como a dos Estados Unidos pode ser corroída por
dentro.
Não por meio
de um golpe militar clássico, mas pela ativação orgânica da "personalidade
autoritária" latente em cidadãos comuns por meio de um movimento populista
de massa.
Komasa
enxerga os Estados Unidos com mais clareza do que a maioria dos cineastas
americanos, tendo crescido em um país que foi ocupado pela Alemanha nazista e
pela antiga URSS, e tendo dirigido outros filmes sobre a vida sob regimes
autoritários, incluindo o híbrido documentário-drama Warsaw 44.
A princípio,
o título do filme parece se referir apenas a um evento familiar que abre a
história: o 25º aniversário de casamento de Ellen (Diane Lane), uma professora
de ciência política com ideias progressistas que leciona na Universidade de
Georgetown; e seu marido Paul (Kyle Chandler), um chef que se tornou dono de
restaurante em Washington, D.C., um ponto de encontro para as figuras
influentes da cidade e lucrativo o suficiente para financiar a educação de
elite dos quatro filhos do casal, três dos quais já saíram de casa.
Mas o filme
se constrói em torno de vários encontros que ocorrem ao longo de cinco anos,
culminando no 30º aniversário do casal. Acompanhamos o crescimento da família,
a mudança na dinâmica de poder e a sua desintegração à medida que um movimento
autoritário se espalha pela sociedade.
Adorno
concluiu que o fascismo não era uma anomalia distante, mas uma potencialidade
inerente à modernidade.
Em O Aniversário,
o autoritarismo não se instaura pelas margens extremas ou por invasores de
fardas negras, mas pelo mercado editorial, pelas conversas de jantar e pelo
conforto das soluções fáceis. A democracia americana colapsa rapidamente porque
a ideologia encontra terreno fértil nas frustrações e desejos da população,
ilustrando o veredito de Adorno: a democracia formal de um país cai se a
estrutura psíquica do seu povo for predisposta ao autoritarismo.
O Filme
A trama
começa como um drama familiar tenso durante a comemoração de 25 anos de
casamento da professora universitária Ellen e do dono de restaurante Paul.
A dinâmica
sofre um abalo severo quando o filho do casal, Josh (Dylan O'Brien), um
escritor em busca de sucesso (e ressentido, cujo primeiro livro foi rejeitado
pelas editoras), traz sua nova namorada, Liz (Phoebe Dynevor). Ellen a
reconhece imediatamente: anos antes, ela havia sido fundamental para a expulsão
de Liz da universidade após a jovem apresentar uma tese acadêmica de
inclinações violentamente antidemocráticas.
Liz, com suas
convicções políticas de extrema direita, se sentiu rejeitada e humilhada por
sua professora. Mas que agora está prestes a se tornar uma estrela da mídia
conservadora. O primeiro livro de Liz, "The Change: A New Social
Compact" — um livro-manifesto tão grosso quanto uma caixa de sapatos —
está prestes a ser publicado.
Liz e Josh
possuem a disposição psíquica principal da Escala F de Adorno: o ressentimento
e o sabor autoritário da vingança. Josh se sente um fracassado diante da sua
mãe, uma intelectual pública que é convocada pelo chefe de seu departamento
para aparecer em um programa de notícias nacional. E Liz nutre um projeto
secreto de se infiltrar na família da sua algoz, e implodi-la – e levar o país
junto.
Liz é mais
falsa que as lágrimas de um desses televangelistas, mas nem todos na festa
percebem isso porque ela domina o olhar compassivo e o tom afável.
Um exemplo
disso é Paul, que insiste que todos que participam de uma reunião familiar
deixem suas opiniões políticas pessoais na porta. Inicialmente, não temos ideia
da posição de Paul sobre os assuntos do momento. Ele também é progressista,
embora menos expressivo que Ellen, ou um conservador que ama sua esposa mais do
que detesta suas posições políticas? Também não temos certeza sobre a filha
caçula, Birdie (McKenna Grace), uma cientista promissora que parece focada nos
mecanismos da infecção viral e cuja formação política ainda está em
desenvolvimento.
Não há
dúvidas quanto às outras irmãs. Anna (Madeline Brewer) é uma lésbica cômica,
movida por política de esquerda e solidariedade feminista. Cynthia (Zoey
Deutch) é advogada e trabalha em casos ambientais com seu namorado Rob (Daryl
McCormick)
Com o passar
dos anos e sob a fachada do convívio familiar, o rancor intelectual dá lugar a
um pesadelo sociopolítico. Josh e Liz finalmente publicam o grosso manifesto
chamado The Change ("A Mudança"), que prega um recomeço
radical além das estruturas políticas tradicionais e rapidamente se torna um
fenômeno cultural avassalador.
Apoiado por
uma megacorporação chamada Cumberland Company, o movimento ganha proporções
imensas e evolui para um regime totalitário e um Estado policial.
A família
Taylor é inteiramente esfacelada pelas engrenagens desse novo mundo. Pensadores
e jornalistas fogem ou são expurgados, e Ellen é demitida da Universidade e
cancelada nas redes após ser flagrada rasgando a bandeira do movimento. Uma das
filhas, Anna, entra para a resistência e vira alvo do governo, enquanto a
caçula, Birdie, articula um plano bioterrorista contra a corporação por trás do
governo totalitário.
Aniversário e Escala F –
Alerta de Spoilers à frente
A relação
entre a película e os achados da Escala F de Adorno é profunda e mapeia as
estruturas psicológicas do autoritarismo:
Por exemplo,
através de suas pesquisas, Adorno mediu a necessidade que indivíduos inseguros
têm de se submeter acriticamente a líderes ou movimentos fortes. Na trama, Josh
personifica esse homem comum suscetível. Frustrado e ressentido profissionalmente
e buscando desesperadamente uma identidade para aplacar suas falhas pessoais,
ele abraça cegamente as ideias extremistas da esposa. Ele é a materialização de
como a demagogia fascista prospera ao se aproveitar da carência de propósito
individual.
Uma das
principais marcas do indivíduo autoritário para a equipe de Adorno era a
aversão ao intelectualismo. A trajetória de Ellen é simbólica. Ela é
perseguida, gravada clandestinamente e expurgada do debate público justamente
por ser a voz do pensamento crítico que, anos antes, havia identificado o germe
autoritário em Liz. Quando o movimento “The Change” toma o poder, os primeiros
a serem esmagados ou forçados a fugir do país são acadêmicos, jornalistas e
artistas.
Adorno
defendia que a educação emancipatória era o antídoto do autoritarismo; no
filme, vemos a erradicação metódica dessa barreira.
O Aniversário ilustra
também a Agressão Autoritária e a Punição do "Out-Group" quando
a sanidade pública desmorona: vizinhos denunciam vizinhos, drones patrulham os
bairros e agentes governamentais do censo ameaçam os cidadãos. O desfecho ultraviolento,
em que a polícia usa força letal para intervir e fuzilar os próprios filhos do
casal para expurgar a "subversão", retrata exatamente o desejo
totalitário de eliminar fisicamente as minorias e os opositores.
A obra
funciona essencialmente como uma versão roteirizada do livro A Personalidade
Autoritária. O filme reitera o aviso de Adorno: a ascensão de um regime de
controle absoluto em solo americano é sempre possível, bastando que líderes
mal-intencionados ofereçam ordem, poder e falsas soluções para as fraturas
psicológicas dos seus próprios cidadãos.
sábado, setembro 26, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Entre o
desespero existencial de “Um Amor Inesperado” (2018) e a emancipação cúmplice
de “Minha Melhor Amiga” (2026), o cinema sul-americano registra uma virada
sintomática no zeitgeist contemporâneo. Diante da síndrome do ninho vazio e da
irreversível quebra do elo geracional, a busca por respostas mudou de rumo:
saem os angustiados e infrutíferos malabarismos românticos do casal
heterossexual para dar lugar à autossuficiência e à solidariedade das redes de
apoio femininas. Ao trocar a ilusão do romance perfeito por uma
"autossegregação afetiva", a comédia brasileira traduz uma solução
tão libertadora quanto sintomática. Por trás do humor ágil de Ingrid Guimarães
e Mônica Martelli, desenha-se um quadro de sobrevivência minimalista que, em
última instância, radicaliza o abismo entre os gêneros e alimenta a cismogênese
comportamental de um país politicamente polarizado.
sexta-feira, setembro 25, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Ao
classificar a ingerência geopolítica dos Estados Unidos na América Latina como
um mero "olhar de Trump", o jornalismo corporativo expõe o paroxismo
de uma nova engenharia de comunicação: o "doisladismo". Ao
substituir a histórica expressividade inflamada dos apresentadores dos anos do
"jornalismo de guerra" por uma rigorosa estética de “Poker Face”, os
telejornais abandonam a indução de pânico para adotar uma frieza retórica. A
manobra desidrata conflitos assimétricos, reduz ameaças soberanas a
"divergências de opinião" e constrói uma falsa equivalência que, sob
o disfarce da neutralidade, atua como uma eficaz tecnologia de manutenção do status
quo. O grau zero do Jornalismo.
terça-feira, julho 21, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
No
último domingo (19), a Folha de S.Paulo estampava em sua primeira página que o
movimento político de Michelle Bolsonaro prometia ser "imparável". A
absorção literal e desprovida de ironia de uma hipérbole bolsonarista pelo
relato jornalístico é a ponta de um iceberg linguístico profundo. De um lado, a
"bolsonarização"do jornalismo contaminou a cobertura de
Brasília com o jargão da caserna — onde acordos viram "situações
pacificadas" e parlamentares viram "tropas de choque". Do outro,
a "onguização"da linguagem higienizou o debate social,
substituindo denúncias de exploração por eufemismos burocráticos. Embora venham
de polos opostos, ambos os fenômenos erodem a esfera pública ao desarmar a
denúncia das desigualdades na base e transformar a política institucional do
topo em um mero campo de batalha cognitivo.
terça-feira, julho 14, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Quando
a mesa-redonda do SporTV mobilizou seus analistas para decifrar a semântica
exata do "tu, finish" dito por Jorge Jesus a Neymar, o que parecia
apenas preciosismo retórico revelou a engrenagem de uma sofisticada operação de
controle de danos. Após a eliminação traumática do Brasil para a Noruega, a
mídia esportiva corporativa colocou em campo uma verdadeira bomba semiótica
de dispersão e contenção. Sob o pretexto de debater o destino do craque ou
denunciar complôs externos (“VARgentina”), o malabarismo midiático opera para
um fim muito específico: blindar a cúpula da CBF e salvaguardar o modelo
extrativista — o "agronegócio da bola" — que esvazia a identidade
nacional em nome do lucro imediato, convertendo o colapso estrutural do nosso
futebol em um melodrama pop anestésico.
quinta-feira, junho 04, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
A fabricação de narrativas de pânico moral e a simulação de
ameaças políticas deixaram de ser meros boatos de internet para se tornarem
armas centrais da guerra semiótica contemporânea. A engrenagem ficou evidente
após a Jovem Pan News divulgar uma apuração sobre um suposto plano contra a
vida de Flávio Bolsonaro, amarrando figuras midiáticas presas ao fantasma do
crime organizado para desgastar a agenda de soberania do governo federal. Alertando
para a fabricação da bomba semiótica da simulação de atentado contra o senador,
modus operandi alt-right. Esse cenário de "inundação informacional" (flood
the zone) expõe a obsolescência das notas oficiais e das checagens tardias.
Para sobreviver ao massacre de narrativas da extrema-direita aliada ao
trumpismo, o Estado brasileiro enfrenta o desafio urgente de institucionalizar
um Grupo de Inteligência Semiótica, transformando a comunicação pública em uma
barreira proativa de defesa e imunidade da própria democracia.
terça-feira, maio 12, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Enquanto a
infraestrutura de São Paulo literalmente explode sob o peso de concessões
privatizadas e falhas de segurança, a cúpula política da capital se ocupa com
frascos de detergente. O recente vídeo do vice-prefeito Ricardo Mello Araújo
(PL) em defesa da marca Ypê — alvo de um recall da Anvisa — não é apenas um
apoio isolado, mas o pavio de uma bomba semiótica meticulosamente calculada.
Entre o risco sanitário de uma bactéria e o risco real de explosões urbanas, a
estratégia bolsonarista aciona mecanismos de psicologia reversa e dissonância
cognitiva para sequestrar o debate público, transformando um fato administrativo
em uma trincheira ideológica de conveniência.
terça-feira, março 24, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O autoelogio de “O Globo” ao reforçar seu time de
colunistas para as eleições de 2026 acende um alerta sobre o modus operandi da
grande mídia brasileira: a consolidação do "colonismo" como
ferramenta de disputa de narrativa. Através de relações promíscuas com fontes
em off e da estética da hiper-realidade, figuras como Andreia Sadi operam
bombas semióticas que atingem a percepção do público antes mesmo que qualquer
crítica racional possa ser formulada. Como o tosco powerpoint da GloboNews
sobre as conexões de Vorcaro, emulando aqueles murais de investigação criminal comum
na ficção policial das plataformas de streaming. O resultado é um cenário onde
o erro técnico serve de álibi para a manutenção de um antipetismo latente,
imune a desmentidos e profundamente eficaz na retroalimentação da
extrema-direita.
segunda-feira, março 23, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Olhamos, mas não vemos; enxergamos, mas não
entendemos.É a partir desse
diagnóstico sobre o analfabetismo funcional midiático que a Escola de
Professores do SinproSP inicia, nessa quinta-feira (26/03), o curso “Alfabetização
Visual, Audiovisual e Letramento Midiático”, ministrado por esse humilde blogueiro,
colunista do Jornal GGN e editor do Canal Cinegnose 360 do YouTube. Com aulas
síncronas e assíncronas, o curso busca combater o fenômeno do analfabetismo
funcional midiático (e suas consequências políticas e educacionais), discutindo
desde a desinformação até os vieses algorítmicos. Antecipando-se à grande
mudança global do PISA, que a partir de 2029 passará a avaliar o letramento
midiático com o mesmo peso de disciplinas tradicionais da base curricular. Uma nova régua para a educação. As
inscrições já estão abertas no site do sindicato, com gratuidade para
professores associados.
quinta-feira, fevereiro 12, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Entre o "Cantor de Mambo" dos
Mutantes em 1972 e a apoteose de Bad Bunny no Super Bowl em 2026, a percepção
crítica da intelectualidade brasileira parece ter sofrido uma curiosa
involução. Enquanto a Tropicália identificava na estética das bananas e das
"haciendas" uma paródia do controle geopolítico norte-americano, o
progressismo atual celebra o espetáculo da indústria cultural como uma vitória
política, ignorando que a cenografia do "quintal ideal" dos EUA
continua intacta — apenas devidamente atualizada pelo verniz do
empreendedorismo neoliberal. A performance de Bad Bunny, longe de ser um
manifesto de ruptura, reafirma o fetiche da "hacienda" colonial e
expõe uma esquerda carente de heróis, que hoje confunde a reafirmação de
estereótipos com resistência política e soberania cultural.
domingo, janeiro 04, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Entre trilhas de montanha e discursos de autossuperação, um novo
movimento de "masculinidade alfa" cresce no Brasil, alimentado por
uma mistura explosiva de religiosidade, coaching e misoginia latente. Mas
enquanto grupos como o "Invictos Trekking" prometem resgatar o homem
de uma suposta "feminização" da sociedade, uma epidemia de
feminicídios registra o custo dessa cruzada. Estaria a grande mídia tentando
apagar com o clichê da necessidade de uma "reeducação masculina" um
incêndio que ela mesma ajudou a provocar nos tempos do jornalismo de guerra ao libertar o gênio da garrafa do
Brasil Profundo? Para além das estatísticas espantosas do feminicídio, o fenômeno do
"machismo renitente" revela as cicatrizes de uma guerra híbrida que
envenenou o psiquismo coletivo. Ao transformar a crise da identidade masculina
em um ativo político da extrema direita, criou-se uma engrenagem de psicologia
reversa onde a tipificação do crime e a reação conservadora se retroalimentam,
deixando claro que o problema vai muito além de uma simples questão de
educação.
sexta-feira, dezembro 26, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Enquanto as luzes de Natal e os votos de esperança tentam ditar o
ritmo do fim de ano, as redações do jornalismo corporativo brasileiro decidiram
rodar um roteiro diferente: um autêntico filme noir tropical. Entre sombras de
fontes em off, "femme fatales" do colunismo e tramas de corrupção
urbana, a grande mídia abandona a celebração da democracia para encenar uma
narrativa de ambiguidade e cinismo. Neste enredo, o herói de ontem — o STF — é
subitamente escalado para o papel de anti-herói, revelando que, no hibridismo
da linguagem midiática, a busca por "transparência" costuma ser
apenas um pretexto para proteger ativos geopolíticos e os interesses da Faria
Lima. Por trás da retórica da transparência do jornalismo corporativo no caso
Banco Master, esconde-se a proteção ao espólio da Lava Jato e a inquietação da
Faria Lima diante do avanço das investigações sobre o crime organizado.
sexta-feira, novembro 21, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Se a extensa filmografia brasileira do século XXI sobre a ditadura
— de "Zuzu Angel" (2006) ao oscarizado "Ainda Estou Aqui" — mergulhou nos traumas
dos "Anos de Chumbo" e da resistência, “O Agente Secreto” (2025) ousa
trilhar um caminho distinto. Em vez do choque da tortura física, Kleber
Mendonça Filho (“Bacurau”, “Retratos Fantasmas”) nos apresenta o horror do
"terror administrativo". Situado no ano de 1977, o filme captura com
precisão cirúrgica o momento em que a violência do regime deixou os porões
escuros para se instalar, sob a luz fria e burocrática, nas repartições públicas,
transformando carimbos, papéis e arquivos de aço em institutos de identificação
policiais em armas tão letais quanto um fuzil. “O Agente secreto” nos traz um
alerta urgente: o Brasil é um país que enterrou seus mortos sem fazer a
autópsia completa da história.
sexta-feira, novembro 14, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O novo filme de Yorgos Lanthimos, “Bugonia” (2025), sobre teóricos
da conspiração que sequestram uma CEO de uma multinacional farmacêutica acreditando
que ela é uma alienígena, funciona como uma ilustração precisa do "efeito fliperama"
da guerra híbrida. O filme demonstra como o ressentimento pessoal, alimentado
por bolhas digitais, é transformado em um caos controlado que, paradoxalmente,
serve para manter o status quo e desviar o foco da verdadeira classe dominante.
Lanthimos vem assumindo uma espécie de misantropia esclarecida, como ficou
claro nos filmes anteriores “Pobres Criaturas” e “Tipos de Gentileza”: somos
criaturas pobres e miseráveis, mas temos a capacidade de sermos belos e tolos,
assim como assassinos e terríveis.
sexta-feira, novembro 07, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
A Operação Carbono Oculto durou nas manchetes apenas o tempo das
fotos icônicas de agentes da PF na Faria Lima. Assim que a investigação
bilionária sobre o PCC no setor de combustíveis deixou a Faria Lima e começou a
apontar para conexões políticas na oposição, a grande mídia trocou o PCC pelo
Comando Vermelho na pauta. Essa trajetória expõe a "objetividade
oportunista" da grande mídia: enquanto as imagens da Polícia Federal na
Faria Lima renderam manchetes, a repercussão sobre os elos do PCC com a elite
financeira e políticos da oposição foi rapidamente abandonada. Para evitar
desgastes, o jornalismo corporativo trocou a complexa investigação financeira
pela cobertura ostensiva da violência no Rio, reaquecendo a polarização e
beneficiando narrativas da extrema direita. Transformando a Operação Contenção
de Claudio castro numa bomba semiótica. Pelo menos as balas, bombas e porradas
contra o CV não revelam tantas relações perigosas quanto uma investigação sobre
o PCC.
sexta-feira, outubro 31, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Um ato falho ao vivo da Globo News revelou a verdadeira natureza
da “Megaoperação” sangrenta no Rio: enquanto imagens de corpos enfileirados na
Penha tomavam o ar, a âncora e a equipe tentavam sem êxito contatar o
presidente Lula — incomunicável em voo pelo fato de o avião da FAB não dispor
de Internet. A ansiedade do jornalismo corporativo só se equipara a do
governador Claudio Castro que na primeira coletiva (com a Operação ainda em
andamento) já botava a culpa no governo federal. Como se aguardasse o desfecho letal
recorde da Operação. Afinal, o principal planejamento das ações policiais foi
midiático – uma bomba semiótica, com timing e sincronismo: na ausência de Lula
que voltava com uma vitória da Malásia, vésperas da pré-COP30 no Rio e a
expressão “terrorismo” reforçada por três fetiches das imagens televisivas:
drones-bomba, blindados e GLO. Essa é a nova guerra híbrida dos EUA: sai o lawfare,
entra o “big stick” da “guerra ao terrorismo” no quintal geopolítico da América Latina.
sábado, outubro 25, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Se no futebol
brasileiro há o velho ditado de que, em tempos de crise na Seleção, basta
chamar o Chile para levantar o moral, na política externa dos Estados Unidos
sob governos republicanos parece haver uma máxima semelhante: quando a
popularidade despenca, chama-se a América Latina. Com bravatas militares,
ameaças de intervenção e o velho “big stick” de Roosevelt em punho, Donald
Trump reedita a cartilha diversionista de seus antecessores — transformando
crises internas em espetáculo geopolítico, enquanto jornalistas se perdem na
encenação cinematográfica e o verdadeiro jogo de poder acontece nos bastidores.
Enquanto os protestos “No Kings” nos EUA tentam salvar as aparências da “maior
democracia do planeta” com o ardil semiótico de figurar Trump como um mero
psicopata político que abduziu a “democracia”. E não um subproduto de um
sistema eleitoral elitista.
sábado, outubro 18, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Nas últimas semanas, Lula entrou no verdadeiro ciclo virtuoso de
uma agenda positiva que se retroalimentava. Graças a ajuda insuspeita dos
tarifaços e sanções de Trump que criaram a janela de oportunidade para Lula
sair das cordas para adotar uma comunicação proativa. Mas entre notícias de que
o FMI prevê nenhum crescimento para 2026 e os supostos dilemas fiscais do
Governo em ano eleitoral, a grande mídia tenta fechar esse ciclo. E, num timing
e sincronia perfeitos, o ministro do STF, Luís Roberto Barroso, dá a sua
contribuição anunciando a aposentadoria antecipa. Uma perfeita bomba semiótica,
para reacender o discurso das viúvas carpideiras de Biden e Kamala no
jornalismo corporativo: reacender a ideia de o STF precisa aplicar o conceito
de representatividade na escolha de magistrados do STF – do jornalismo ao
entretenimento, reivindica-se a escolha de uma magistrada mulher. Negra, ainda
melhor. Para além da discussão acadêmica sobre o tema da representatividade, o
ardil dessa bomba semiótica está em outra cena. Talvez, no sincericídio de
Angélica, na estreia do seu programa no canal GNT.
quarta-feira, setembro 24, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Que Trump é um agente do caos, todos já sabemos: a engenharia do
caos é a essência da comunicação alt-right. “Flood the Zone!”, como sintetizou
Steve Bannon: inundar a mídia com acontecimentos comunicacionais desconexos
como jogo diversionista. Que muitas vezes nem a própria extrema-direita
brasileira consegue entender. Do tarifaço ao discurso na ONU em que admitiu que
rolou uma “química" entre ele e Lula, parece que Trump tirou o Governo brasileiro
das cordas e deu de bandeja as armas semióticas que faltavam: a defesa da Soberania,
Multilateralismo, ajudou a colocar as esquerdas nas ruas etc. Das milhões de visualizações do vídeo de Nikolas Ferreira, no início do ano, ao discurso de Lula na ONU da
última terça-feira, testemunhamos uma verdadeira aventura semiótica num ano
pré-eleitoral – o jogo da comunicação que parecia ganho para a extrema-direita
até Trump embaralhar as cartas, obrigando a grande mídia a recalcular rotas e fazer
o bolsonarismo aceitar a fórceps o jogo da despolarização cobrado pela banca
financeira.
Cinegnose participa do programa Poros da Comunicação na FAPCOM
Este humilde blogueiro participou da edição de número seis do programa “Poros da Comunicação” no canal do YouTube TV FAPCOM, cujo tema foi “Tecnologia e o Sagrado: um novo obscurantismo?
Esse humilde blogueiro participou da 9a. Fatecnologia na Faculdade de Tecnologia de São Caetano do Sul (SP) em 11/05 onde discutiu os seguintes temas: cinema gnóstico; Gnosticismo nas ciências e nos jogos digitais; As mito-narrativas gnósticas e as transformações da Jornada do Herói nas HQs e no Cinema; As semióticas das narrativas como ferramentas de produção de roteiros.
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Coleção Curtas da Semana
Lista semanalmente atualizada com curtas que celebram o Gnóstico, o Estranho e o Surreal
Após cinco temporadas, a premiada série televisiva de dramas, crimes e thriller “Breaking Bad” (2008-2013) ingressou na lista de filmes d...
Bem Vindo
"Cinema Secreto: Cinegnose" é um Blog dedicado à divulgação e discussões sobre pesquisas e insights em torno das relações entre Gnosticismo, Sincromisticismo, Semiótica e Psicanálise com Cinema e cultura pop.
A lista atualizada dos filmes gnósticos do Blog
No Oitavo Aniversário o Cinegnose atualiza lista com 101 filmes: CosmoGnósticos, PsicoGnósticos, TecnoGnósticos, AstroGnósticos e CronoGnósticos.
Esse humilde blogueiro participou do Hangout Gnóstico da Sociedade Gnóstica Internacional de Curitiba (PR) em 03/03 desse ano onde pude descrever a trajetória do blog "Cinema Secreto: Cinegnose" e a sua contribuição no campo da pesquisa das conexões entre Cinema e Gnosticismo.
Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus.
Neste trabalho analiso a produção cinematográfica norte-americana (1995 a 2005) onde é marcante a recorrência de elementos temáticos inspirados nas narrativas míticas do Gnosticismo.>>> Leia mais>>>
"O Caos Semiótico"
Composto por seis capítulos, o livro é estruturado em duas partes distintas: a primeira parte a “Psicanálise da Comunicação” e, a segunda, “Da Semiótica ao Pós-Moderno >>>>> Leia mais>>>