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sexta-feira, outubro 09, 2026

Como virar? A bomba semiótica e acontecimento comunicacional da TARIFA ZERO



Enquanto a militância se distrai com a espuma das provocações bolsonaristas e o frenesi dos algoritmos digitais, a campanha de Lula corre o risco de perder a batalha pelo futuro. Presa na armadilha da comunicação reativa e sufocada pela espuma midiática da extrema-direita, a campanha de Lula corre o risco de afundar no segundo turno se continuar apostando apenas no discurso do "defenda a democracia" e na exibição do passado. Para furar o transe hipnótico das redes e a histeria do mercado, o campo progressista precisa parar de reagir e detonar um verdadeiro acontecimento comunicacional: transformar a TARIFA ZERO na grande bomba semiótica arma de guerra informacional do segundo turno. Choque de realidade que desliga a máquina de guerra cultural da direita e obriga todos a jogarem no tabuleiro onde a esquerda é mais forte: a transformação material e concreta da vida da classe trabalhadora.

'O Aniversário': como se destrói uma democracia por dentro



Quando o filósofo alemão Theodor Adorno concluiu, na década de 1950, após pesquisa empírica nos EUA, que o fascismo era uma tendência latente na própria sociedade americana, poucos imaginaram o quão profético seria seu alerta. Sete décadas após a publicação do clássico estudo "A Personalidade Autoritária", o suspense político “O Aniversário” (Anniversary, 2025), do diretor polonês Jan Komasa, transforma o veredito de Adorno em ficção assustadora: a história de como uma democracia sólida pode ser corroída por dentro não por um golpe de Estado, mas pelo ressentimento e pelo autoritarismo adormecido no cidadão comum. Em “Aniversário” acompanhamos o crescimento de uma família, a mudança na dinâmica de poder e a sua desintegração à medida que um movimento autoritário se espalha pela sociedade. 

Entre os anos 1944 e 1947, Theodor Adorno e sua equipe (Nevitt Sanford, Else Frenkel-Brunswik e Daniel Levinson) fizeram uma pesquisa empírica nos EUA, envolvendo questionários, testes clínicos e entrevistas.

Sob o impacto da Segunda Guerra Mundial, Adorno queria saber se numa democracia burguesa como a norte-americana seria possível a ascensão de um regimeme político totalitário fascista. Como foi na Alemanha nazista.

O estudo, publicado em 1950 sob o título "A Personalidade Autoritária", levou Adorno descobriu que sim! Concluiu que o fascismo não era um fenômeno exclusivo da Alemanha ou decorrente apenas de uma crise econômica pontual, mas sim uma tendência estrutural da modernidade.

A pesquisa revelou que uma fatia significativa da população possuía traços de personalidade profundamente autoritários (o tipo "potencialmente fascista"). Essas pessoas não se declaravam abertamente fascistas, mas apresentavam uma estrutura de caráter suscetível à demagogia autoritária.

A "Síndrome Autoritária" e a célebre Escala F (de Fascismo) foi desenvolvida para medir essa predisposição sem fazer perguntas políticas diretas. Adorno identificou características marcantes no indivíduo autoritário: Submissão autoritária: Respeito acrítico e obediência cega às figuras de autoridade do seu in-group; Agressão autoritária: Hostilidade e desejo de punir qualquer pessoa que violasse normas convencionais ou pertencesse a grupos minoritários (out-groups) etc. – sobre isso clique aqui.

O filme O Aniversário (Anniversary, 2025), dirigido pelo polonês Jan Komasa (Suicide Room, Corpus Christi), funciona como uma assustadora construção cinematográfica do exato cenário que Theodor Adorno e sua equipe temiam. A obra ilustra como uma democracia burguesa sólida como a dos Estados Unidos pode ser corroída por dentro.

Não por meio de um golpe militar clássico, mas pela ativação orgânica da "personalidade autoritária" latente em cidadãos comuns por meio de um movimento populista de massa.

Komasa enxerga os Estados Unidos com mais clareza do que a maioria dos cineastas americanos, tendo crescido em um país que foi ocupado pela Alemanha nazista e pela antiga URSS, e tendo dirigido outros filmes sobre a vida sob regimes autoritários, incluindo o híbrido documentário-drama Warsaw 44. 



A princípio, o título do filme parece se referir apenas a um evento familiar que abre a história: o 25º aniversário de casamento de Ellen (Diane Lane), uma professora de ciência política com ideias progressistas que leciona na Universidade de Georgetown; e seu marido Paul (Kyle Chandler), um chef que se tornou dono de restaurante em Washington, D.C., um ponto de encontro para as figuras influentes da cidade e lucrativo o suficiente para financiar a educação de elite dos quatro filhos do casal, três dos quais já saíram de casa.

Mas o filme se constrói em torno de vários encontros que ocorrem ao longo de cinco anos, culminando no 30º aniversário do casal. Acompanhamos o crescimento da família, a mudança na dinâmica de poder e a sua desintegração à medida que um movimento autoritário se espalha pela sociedade. 

Adorno concluiu que o fascismo não era uma anomalia distante, mas uma potencialidade inerente à modernidade.

Em O Aniversário, o autoritarismo não se instaura pelas margens extremas ou por invasores de fardas negras, mas pelo mercado editorial, pelas conversas de jantar e pelo conforto das soluções fáceis. A democracia americana colapsa rapidamente porque a ideologia encontra terreno fértil nas frustrações e desejos da população, ilustrando o veredito de Adorno: a democracia formal de um país cai se a estrutura psíquica do seu povo for predisposta ao autoritarismo.

O Filme

A trama começa como um drama familiar tenso durante a comemoração de 25 anos de casamento da professora universitária Ellen e do dono de restaurante Paul.



A dinâmica sofre um abalo severo quando o filho do casal, Josh (Dylan O'Brien), um escritor em busca de sucesso (e ressentido, cujo primeiro livro foi rejeitado pelas editoras), traz sua nova namorada, Liz (Phoebe Dynevor). Ellen a reconhece imediatamente: anos antes, ela havia sido fundamental para a expulsão de Liz da universidade após a jovem apresentar uma tese acadêmica de inclinações violentamente antidemocráticas.

Liz, com suas convicções políticas de extrema direita, se sentiu rejeitada e humilhada por sua professora. Mas que agora está prestes a se tornar uma estrela da mídia conservadora. O primeiro livro de Liz, "The Change: A New Social Compact" — um livro-manifesto tão grosso quanto uma caixa de sapatos — está prestes a ser publicado. 

Liz e Josh possuem a disposição psíquica principal da Escala F de Adorno: o ressentimento e o sabor autoritário da vingança. Josh se sente um fracassado diante da sua mãe, uma intelectual pública que é convocada pelo chefe de seu departamento para aparecer em um programa de notícias nacional. E Liz nutre um projeto secreto de se infiltrar na família da sua algoz, e implodi-la – e levar o país junto.

Liz é mais falsa que as lágrimas de um desses televangelistas, mas nem todos na festa percebem isso porque ela domina o olhar compassivo e o tom afável.

Um exemplo disso é Paul, que insiste que todos que participam de uma reunião familiar deixem suas opiniões políticas pessoais na porta. Inicialmente, não temos ideia da posição de Paul sobre os assuntos do momento. Ele também é progressista, embora menos expressivo que Ellen, ou um conservador que ama sua esposa mais do que detesta suas posições políticas? Também não temos certeza sobre a filha caçula, Birdie (McKenna Grace), uma cientista promissora que parece focada nos mecanismos da infecção viral e cuja formação política ainda está em desenvolvimento.



Não há dúvidas quanto às outras irmãs. Anna (Madeline Brewer) é uma lésbica cômica, movida por política de esquerda e solidariedade feminista. Cynthia (Zoey Deutch) é advogada e trabalha em casos ambientais com seu namorado Rob (Daryl McCormick)

Com o passar dos anos e sob a fachada do convívio familiar, o rancor intelectual dá lugar a um pesadelo sociopolítico. Josh e Liz finalmente publicam o grosso manifesto chamado The Change ("A Mudança"), que prega um recomeço radical além das estruturas políticas tradicionais e rapidamente se torna um fenômeno cultural avassalador.

Apoiado por uma megacorporação chamada Cumberland Company, o movimento ganha proporções imensas e evolui para um regime totalitário e um Estado policial.

A família Taylor é inteiramente esfacelada pelas engrenagens desse novo mundo. Pensadores e jornalistas fogem ou são expurgados, e Ellen é demitida da Universidade e cancelada nas redes após ser flagrada rasgando a bandeira do movimento. Uma das filhas, Anna, entra para a resistência e vira alvo do governo, enquanto a caçula, Birdie, articula um plano bioterrorista contra a corporação por trás do governo totalitário.



Aniversário e Escala F – Alerta de Spoilers à frente

A relação entre a película e os achados da Escala F de Adorno é profunda e mapeia as estruturas psicológicas do autoritarismo:

Por exemplo, através de suas pesquisas, Adorno mediu a necessidade que indivíduos inseguros têm de se submeter acriticamente a líderes ou movimentos fortes. Na trama, Josh personifica esse homem comum suscetível. Frustrado e ressentido profissionalmente e buscando desesperadamente uma identidade para aplacar suas falhas pessoais, ele abraça cegamente as ideias extremistas da esposa. Ele é a materialização de como a demagogia fascista prospera ao se aproveitar da carência de propósito individual.

Uma das principais marcas do indivíduo autoritário para a equipe de Adorno era a aversão ao intelectualismo. A trajetória de Ellen é simbólica. Ela é perseguida, gravada clandestinamente e expurgada do debate público justamente por ser a voz do pensamento crítico que, anos antes, havia identificado o germe autoritário em Liz. Quando o movimento “The Change” toma o poder, os primeiros a serem esmagados ou forçados a fugir do país são acadêmicos, jornalistas e artistas.

Adorno defendia que a educação emancipatória era o antídoto do autoritarismo; no filme, vemos a erradicação metódica dessa barreira.

O Aniversário ilustra também a Agressão Autoritária e a Punição do "Out-Group" quando a sanidade pública desmorona: vizinhos denunciam vizinhos, drones patrulham os bairros e agentes governamentais do censo ameaçam os cidadãos. O desfecho ultraviolento, em que a polícia usa força letal para intervir e fuzilar os próprios filhos do casal para expurgar a "subversão", retrata exatamente o desejo totalitário de eliminar fisicamente as minorias e os opositores.

A obra funciona essencialmente como uma versão roteirizada do livro A Personalidade Autoritária. O filme reitera o aviso de Adorno: a ascensão de um regime de controle absoluto em solo americano é sempre possível, bastando que líderes mal-intencionados ofereçam ordem, poder e falsas soluções para as fraturas psicológicas dos seus próprios cidadãos.


 


Ficha Técnica


Título: Aniversário

Diretor: Jan Komasa

Roteiro: Lori Rosene-Gambino, Jan Komasa

Elenco: Diane Lane, Kyle Chandler, Madeline Brewer

Produção: Lionsgate

Distribuição: Prime Video

Ano: 2025

País:  EUA

 

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sábado, setembro 26, 2026

Quebra do elo geracional e cismogênese em 'Minha Melhor Amiga'



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sexta-feira, setembro 25, 2026

O Grau Zero do Jornalismo: "Doisladismo" e "Poker Face"



Ao classificar a ingerência geopolítica dos Estados Unidos na América Latina como um mero "olhar de Trump", o jornalismo corporativo expõe o paroxismo de uma nova engenharia de comunicação: o "doisladismo". Ao substituir a histórica expressividade inflamada dos apresentadores dos anos do "jornalismo de guerra" por uma rigorosa estética de “Poker Face”, os telejornais abandonam a indução de pânico para adotar uma frieza retórica. A manobra desidrata conflitos assimétricos, reduz ameaças soberanas a "divergências de opinião" e constrói uma falsa equivalência que, sob o disfarce da neutralidade, atua como uma eficaz tecnologia de manutenção do status quo. O grau zero do Jornalismo.

terça-feira, julho 21, 2026

"Onguização" e "bolsonarização" da linguagem estão contaminando o jornalismo


No último domingo (19), a Folha de S.Paulo estampava em sua primeira página que o movimento político de Michelle Bolsonaro prometia ser "imparável". A absorção literal e desprovida de ironia de uma hipérbole bolsonarista pelo relato jornalístico é a ponta de um iceberg linguístico profundo. De um lado, a "bolsonarização" do jornalismo contaminou a cobertura de Brasília com o jargão da caserna — onde acordos viram "situações pacificadas" e parlamentares viram "tropas de choque". Do outro, a "onguização" da linguagem higienizou o debate social, substituindo denúncias de exploração por eufemismos burocráticos. Embora venham de polos opostos, ambos os fenômenos erodem a esfera pública ao desarmar a denúncia das desigualdades na base e transformar a política institucional do topo em um mero campo de batalha cognitivo.

terça-feira, julho 14, 2026

Mídia detona bomba semiótica para salvar o modelo extrativista de futebol periférico



Quando a mesa-redonda do SporTV mobilizou seus analistas para decifrar a semântica exata do "tu, finish" dito por Jorge Jesus a Neymar, o que parecia apenas preciosismo retórico revelou a engrenagem de uma sofisticada operação de controle de danos. Após a eliminação traumática do Brasil para a Noruega, a mídia esportiva corporativa colocou em campo uma verdadeira bomba semiótica de dispersão e contenção. Sob o pretexto de debater o destino do craque ou denunciar complôs externos (“VARgentina”), o malabarismo midiático opera para um fim muito específico: blindar a cúpula da CBF e salvaguardar o modelo extrativista — o "agronegócio da bola" — que esvazia a identidade nacional em nome do lucro imediato, convertendo o colapso estrutural do nosso futebol em um melodrama pop anestésico.

quinta-feira, junho 04, 2026

A urgência da Inteligência Semiótica: da reação defensiva à estratégia proativa na guerra híbrida



A fabricação de narrativas de pânico moral e a simulação de ameaças políticas deixaram de ser meros boatos de internet para se tornarem armas centrais da guerra semiótica contemporânea. A engrenagem ficou evidente após a Jovem Pan News divulgar uma apuração sobre um suposto plano contra a vida de Flávio Bolsonaro, amarrando figuras midiáticas presas ao fantasma do crime organizado para desgastar a agenda de soberania do governo federal. Alertando para a fabricação da bomba semiótica da simulação de atentado contra o senador, modus operandi alt-right. Esse cenário de "inundação informacional" (flood the zone) expõe a obsolescência das notas oficiais e das checagens tardias. Para sobreviver ao massacre de narrativas da extrema-direita aliada ao trumpismo, o Estado brasileiro enfrenta o desafio urgente de institucionalizar um Grupo de Inteligência Semiótica, transformando a comunicação pública em uma barreira proativa de defesa e imunidade da própria democracia.

terça-feira, maio 12, 2026

A bomba semiótica Ypê: dissonância cognitiva e psicologia reversa



Enquanto a infraestrutura de São Paulo literalmente explode sob o peso de concessões privatizadas e falhas de segurança, a cúpula política da capital se ocupa com frascos de detergente. O recente vídeo do vice-prefeito Ricardo Mello Araújo (PL) em defesa da marca Ypê — alvo de um recall da Anvisa — não é apenas um apoio isolado, mas o pavio de uma bomba semiótica meticulosamente calculada. Entre o risco sanitário de uma bactéria e o risco real de explosões urbanas, a estratégia bolsonarista aciona mecanismos de psicologia reversa e dissonância cognitiva para sequestrar o debate público, transformando um fato administrativo em uma trincheira ideológica de conveniência.

terça-feira, março 24, 2026

Jornalismo de "colonismo" pariu o Powerpoint da GloboNews



O autoelogio de “O Globo” ao reforçar seu time de colunistas para as eleições de 2026 acende um alerta sobre o modus operandi da grande mídia brasileira: a consolidação do "colonismo" como ferramenta de disputa de narrativa. Através de relações promíscuas com fontes em off e da estética da hiper-realidade, figuras como Andreia Sadi operam bombas semióticas que atingem a percepção do público antes mesmo que qualquer crítica racional possa ser formulada. Como o tosco powerpoint da GloboNews sobre as conexões de Vorcaro, emulando aqueles murais de investigação criminal comum na ficção policial das plataformas de streaming. O resultado é um cenário onde o erro técnico serve de álibi para a manutenção de um antipetismo latente, imune a desmentidos e profundamente eficaz na retroalimentação da extrema-direita.

segunda-feira, março 23, 2026

Nova régua da educação: SinproSP oferece curso sobre Letramento Midiático com Wilson Ferreira


Olhamos, mas não vemos; enxergamos, mas não entendemos. É a partir desse diagnóstico sobre o analfabetismo funcional midiático que a Escola de Professores do SinproSP inicia, nessa quinta-feira (26/03), o curso “Alfabetização Visual, Audiovisual e Letramento Midiático”, ministrado por esse humilde blogueiro, colunista do Jornal GGN e editor do Canal Cinegnose 360 do YouTube. Com aulas síncronas e assíncronas, o curso busca combater o fenômeno do analfabetismo funcional midiático (e suas consequências políticas e educacionais), discutindo desde a desinformação até os vieses algorítmicos. Antecipando-se à grande mudança global do PISA, que a partir de 2029 passará a avaliar o letramento midiático com o mesmo peso de disciplinas tradicionais da base curricular. Uma nova régua para a educação. As inscrições já estão abertas no site do sindicato, com gratuidade para professores associados.

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Bananas, "haciendas", Mutantes e Bad Bunny na guerra híbrida



Entre o "Cantor de Mambo" dos Mutantes em 1972 e a apoteose de Bad Bunny no Super Bowl em 2026, a percepção crítica da intelectualidade brasileira parece ter sofrido uma curiosa involução. Enquanto a Tropicália identificava na estética das bananas e das "haciendas" uma paródia do controle geopolítico norte-americano, o progressismo atual celebra o espetáculo da indústria cultural como uma vitória política, ignorando que a cenografia do "quintal ideal" dos EUA continua intacta — apenas devidamente atualizada pelo verniz do empreendedorismo neoliberal. A performance de Bad Bunny, longe de ser um manifesto de ruptura, reafirma o fetiche da "hacienda" colonial e expõe uma esquerda carente de heróis, que hoje confunde a reafirmação de estereótipos com resistência política e soberania cultural.  

domingo, janeiro 04, 2026

Feminicídio e machismo renitente: o gênio não quer mais voltar para a garrafa



Entre trilhas de montanha e discursos de autossuperação, um novo movimento de "masculinidade alfa" cresce no Brasil, alimentado por uma mistura explosiva de religiosidade, coaching e misoginia latente. Mas enquanto grupos como o "Invictos Trekking" prometem resgatar o homem de uma suposta "feminização" da sociedade, uma epidemia de feminicídios registra o custo dessa cruzada. Estaria a grande mídia tentando apagar com o clichê da necessidade de uma "reeducação masculina" um incêndio que ela mesma ajudou a provocar nos tempos do jornalismo de guerra ao libertar o gênio da garrafa do Brasil Profundo? Para além das estatísticas espantosas do feminicídio, o fenômeno do "machismo renitente" revela as cicatrizes de uma guerra híbrida que envenenou o psiquismo coletivo. Ao transformar a crise da identidade masculina em um ativo político da extrema direita, criou-se uma engrenagem de psicologia reversa onde a tipificação do crime e a reação conservadora se retroalimentam, deixando claro que o problema vai muito além de uma simples questão de educação.

sexta-feira, dezembro 26, 2025

Liquidação do Banco Master vira na mídia um filme noir tropical de Natal


Enquanto as luzes de Natal e os votos de esperança tentam ditar o ritmo do fim de ano, as redações do jornalismo corporativo brasileiro decidiram rodar um roteiro diferente: um autêntico filme noir tropical. Entre sombras de fontes em off, "femme fatales" do colunismo e tramas de corrupção urbana, a grande mídia abandona a celebração da democracia para encenar uma narrativa de ambiguidade e cinismo. Neste enredo, o herói de ontem — o STF — é subitamente escalado para o papel de anti-herói, revelando que, no hibridismo da linguagem midiática, a busca por "transparência" costuma ser apenas um pretexto para proteger ativos geopolíticos e os interesses da Faria Lima. Por trás da retórica da transparência do jornalismo corporativo no caso Banco Master, esconde-se a proteção ao espólio da Lava Jato e a inquietação da Faria Lima diante do avanço das investigações sobre o crime organizado.

sexta-feira, novembro 21, 2025

O terror administrativo da ditadura militar em 'O Agente Secreto'



Se a extensa filmografia brasileira do século XXI sobre a ditadura — de "Zuzu Angel" (2006) ao oscarizado "Ainda Estou Aqui" — mergulhou nos traumas dos "Anos de Chumbo" e da resistência, “O Agente Secreto” (2025) ousa trilhar um caminho distinto. Em vez do choque da tortura física, Kleber Mendonça Filho (“Bacurau”, “Retratos Fantasmas”) nos apresenta o horror do "terror administrativo". Situado no ano de 1977, o filme captura com precisão cirúrgica o momento em que a violência do regime deixou os porões escuros para se instalar, sob a luz fria e burocrática, nas repartições públicas, transformando carimbos, papéis e arquivos de aço em institutos de identificação policiais em armas tão letais quanto um fuzil. “O Agente secreto” nos traz um alerta urgente: o Brasil é um país que enterrou seus mortos sem fazer a autópsia completa da história.

sexta-feira, novembro 14, 2025

O caos controlado das bolhas digitais no filme 'Bugonia'


O novo filme de Yorgos Lanthimos, “Bugonia” (2025), sobre teóricos da conspiração que sequestram uma CEO de uma multinacional farmacêutica acreditando que ela é uma alienígena, funciona como uma ilustração precisa do "efeito fliperama" da guerra híbrida. O filme demonstra como o ressentimento pessoal, alimentado por bolhas digitais, é transformado em um caos controlado que, paradoxalmente, serve para manter o status quo e desviar o foco da verdadeira classe dominante. Lanthimos vem assumindo uma espécie de misantropia esclarecida, como ficou claro nos filmes anteriores “Pobres Criaturas” e “Tipos de Gentileza”: somos criaturas pobres e miseráveis, mas temos a capacidade de sermos belos e tolos, assim como assassinos e terríveis.

sexta-feira, novembro 07, 2025

Por que as manchetes trocaram o PCC pelo Comando Vermelho?


A Operação Carbono Oculto durou nas manchetes apenas o tempo das fotos icônicas de agentes da PF na Faria Lima. Assim que a investigação bilionária sobre o PCC no setor de combustíveis deixou a Faria Lima e começou a apontar para conexões políticas na oposição, a grande mídia trocou o PCC pelo Comando Vermelho na pauta. Essa trajetória expõe a "objetividade oportunista" da grande mídia: enquanto as imagens da Polícia Federal na Faria Lima renderam manchetes, a repercussão sobre os elos do PCC com a elite financeira e políticos da oposição foi rapidamente abandonada. Para evitar desgastes, o jornalismo corporativo trocou a complexa investigação financeira pela cobertura ostensiva da violência no Rio, reaquecendo a polarização e beneficiando narrativas da extrema direita. Transformando a Operação Contenção de Claudio castro numa bomba semiótica. Pelo menos as balas, bombas e porradas contra o CV não revelam tantas relações perigosas quanto uma investigação sobre o PCC.  

sexta-feira, outubro 31, 2025

A bomba semiótica do caos com timing e sincronismo no Rio

 


Um ato falho ao vivo da Globo News revelou a verdadeira natureza da “Megaoperação” sangrenta no Rio: enquanto imagens de corpos enfileirados na Penha tomavam o ar, a âncora e a equipe tentavam sem êxito contatar o presidente Lula — incomunicável em voo pelo fato de o avião da FAB não dispor de Internet. A ansiedade do jornalismo corporativo só se equipara a do governador Claudio Castro que na primeira coletiva (com a Operação ainda em andamento) já botava a culpa no governo federal. Como se aguardasse o desfecho letal recorde da Operação. Afinal, o principal planejamento das ações policiais foi midiático – uma bomba semiótica, com timing e sincronismo: na ausência de Lula que voltava com uma vitória da Malásia, vésperas da pré-COP30 no Rio e a expressão “terrorismo” reforçada por três fetiches das imagens televisivas: drones-bomba, blindados e GLO. Essa é a nova guerra híbrida dos EUA: sai o lawfare, entra o “big stick” da “guerra ao terrorismo” no quintal geopolítico da América Latina.

sábado, outubro 25, 2025

O ardil semiótico de Trump: o "Big Stick" como farsa, América Latina e "No Kings"


 

Se no futebol brasileiro há o velho ditado de que, em tempos de crise na Seleção, basta chamar o Chile para levantar o moral, na política externa dos Estados Unidos sob governos republicanos parece haver uma máxima semelhante: quando a popularidade despenca, chama-se a América Latina. Com bravatas militares, ameaças de intervenção e o velho “big stick” de Roosevelt em punho, Donald Trump reedita a cartilha diversionista de seus antecessores — transformando crises internas em espetáculo geopolítico, enquanto jornalistas se perdem na encenação cinematográfica e o verdadeiro jogo de poder acontece nos bastidores. Enquanto os protestos “No Kings” nos EUA tentam salvar as aparências da “maior democracia do planeta” com o ardil semiótico de figurar Trump como um mero psicopata político que abduziu a “democracia”. E não um subproduto de um sistema eleitoral elitista.

sábado, outubro 18, 2025

O ardil da bomba semiótica de Barroso e as viúvas carpideiras do jornalismo corporativo



Nas últimas semanas, Lula entrou no verdadeiro ciclo virtuoso de uma agenda positiva que se retroalimentava. Graças a ajuda insuspeita dos tarifaços e sanções de Trump que criaram a janela de oportunidade para Lula sair das cordas para adotar uma comunicação proativa. Mas entre notícias de que o FMI prevê nenhum crescimento para 2026 e os supostos dilemas fiscais do Governo em ano eleitoral, a grande mídia tenta fechar esse ciclo. E, num timing e sincronia perfeitos, o ministro do STF, Luís Roberto Barroso, dá a sua contribuição anunciando a aposentadoria antecipa. Uma perfeita bomba semiótica, para reacender o discurso das viúvas carpideiras de Biden e Kamala no jornalismo corporativo: reacender a ideia de o STF precisa aplicar o conceito de representatividade na escolha de magistrados do STF – do jornalismo ao entretenimento, reivindica-se a escolha de uma magistrada mulher. Negra, ainda melhor. Para além da discussão acadêmica sobre o tema da representatividade, o ardil dessa bomba semiótica está em outra cena. Talvez, no sincericídio de Angélica, na estreia do seu programa no canal GNT.

quarta-feira, setembro 24, 2025

As aventuras semióticas em um ano pré-eleitoral



Que Trump é um agente do caos, todos já sabemos: a engenharia do caos é a essência da comunicação alt-right. “Flood the Zone!”, como sintetizou Steve Bannon: inundar a mídia com acontecimentos comunicacionais desconexos como jogo diversionista. Que muitas vezes nem a própria extrema-direita brasileira consegue entender. Do tarifaço ao discurso na ONU em que admitiu que rolou uma “química" entre ele e Lula, parece que Trump tirou o Governo brasileiro das cordas e deu de bandeja as armas semióticas que faltavam: a defesa da Soberania, Multilateralismo, ajudou a colocar as esquerdas nas ruas etc. Das milhões de visualizações do vídeo de Nikolas Ferreira, no início do ano, ao discurso de Lula na ONU da última terça-feira, testemunhamos uma verdadeira aventura semiótica num ano pré-eleitoral – o jogo da comunicação que parecia ganho para a extrema-direita até Trump embaralhar as cartas, obrigando a grande mídia a recalcular rotas e fazer o bolsonarismo aceitar a fórceps o jogo da despolarização cobrado pela banca financeira.

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