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sexta-feira, outubro 16, 2026

'Digger': "Perfure, baby, perfure" ou como fazer o público rir sem culpa



Vendido pelo marketing como um thriller catastrófico sobre os excessos da indústria do petróleo, “Digger” (2026) pega o público de surpresa ao explodir sua própria premissa logo no primeiro ato. Através de um recurso de “bait-and-switch” que expõe as entranhas do cinema e do teatro, o diretor Alejandro González Iñárritu transforma o mais novo sucesso de bilheteria em uma ácida farsa metalinguística sobre o "antropoceno". A provocação central não aponta o dedo apenas para os figurões da política ou da energia, mas para uma plateia acomodada que converteu o iminente colapso do planeta em mero entretenimento consumível. Fazer rir sem culpa, porque transformou a crise climática num produto cult de entretenimento.

Por que não paramos de perfurar?
A resposta é simples. Porque você não quer que eu pare!
No fundo, você quer que eu continue insistindo e produzindo. De onde? De onde?
Você quer dirigir com gasolina barata e deixar os faróis e o ar-condicionado ligados.
Você quer passagens baratas para Maiorca para torrar seu traseiro branco na sua rede.
Comer um hambúrguer enorme, receber lanches em casa,
Carregar o celular para passar horas no TikTok e no YouTube.
Você quer ter energia para fazer perguntas.
Inteligência artificial para corrigir os desastres que ela mesma provocou.
Você quer liberdade. Liberdade para se entregar ao conforto de uma vida insustentável.

(Digger Rockwell)

“Drill, baby, drill”, “Perfure, baby, perfure!”, exortou o então presidente recém-eleito Donald Trump para os convidados na sua festa de posse em Washington. Para jogar na cara do presidente derrotado Biden e toda a intelligentsia do Partido Democrata que culpa os combustíveis fósseis pelas mudanças climáticas, toda a sua indiferença pela questão do aquecimento global.

Por isso a figura caricata e histriônica de Trump virou a própria encarnação do negacionismo climático, o “meu malvado favorito” responsável por cada enchente, cada tornado, cada tempestade, secas e outros aspectos das mudanças climáticas do chamado “antropoceno”.

A busca por vilões e culpados é a própria essência da mídia corporativa: simplifica a realidade e tranquiliza o distinto público por identificar rapidamente os culpados. É o sedativo diário para reduzir a angústia diante de um mundo tão louco.

Alejandro Gonzaléz Iñarritu (Birdman, Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades) sabe disso, e por isso concebeu a “comédia de proporções catastróficas”, Digger (2026), cuja premissa crua é apresentada nos trailers: “Tom Cruise é Digger Rockwell, bilionário do petróleo arrogante que ignora especialistas e acaba provocando o deslocamento de uma placa de gelo colossal na Groenlândia, ameaçando inundar a Europa”.

Rapidamente o filme Digger estabeleceu-se como um dos artefatos cinematográficos mais polarizadores e ambiciosos do ano. O filme utiliza uma audaciosa manobra estrutural — um "bait-and-switch" narrativo — para subverter as expectativas do público logo em seu primeiro ato.

"Bait-and-switch": é um recurso de roteiro em que o público é levado a acreditar que uma história, um gênero, um personagem ou um desfecho será de um jeito (a isca), mas de repente é entregue algo totalmente diferente (a troca), subvertendo expectativas.

Pela premissa crua entregue no marketing do filme, tudo leva a crer que estaremos diante de mais um vilão negacionista da indústria do petróleo, cujo dinheiro, poder e indiferença colocará o planeta sob risco de extinção.

Digger Rockwell é um Elon Musk + petro-oligarca texano que explora petróleo no Ártico, amigo pessoal de um presidente histriônico (John Goodman) cercado de generais doidos para começar uma guerra nuclear, invadir a Groelândia e ferrar com os russos e chineses. Isso nos parece muito familiar... já vimos isso em algum lugar...

Mas a linha de diálogo que abre esse texto revela a essência desse “bait-and-switch" que Iñarritu joga para o público. Diante de um parlamento europeu hostil, culpando-o pela catástrofe climática europeia provocada por ele. Digger dispara: no fundo ninguém quer que a indústria do petróleo pare de perfurar. Para manter um estilo de vida insustentável - a sociedade de consumo com seus carros, ar-condicionado e muita energia para sustentar um estilo de vida em torno de gadgets eletrônicos.



Iñarritu não pretende entregar uma comédia previsível na qual nos divertimos com um vilão caricatural e a nossa risada se transforma numa racionalização da boa consciência - afinal, rimos porque sabemos sobre as causas das mudanças climáticas. Não somos negacionistas!

Não, Digger entrega uma audaciosa virada metalinguística, a quebra da quarta parede e a farsa logo na primeira meia hora do filme.

Iñárritu não está só satirizando bilionários. Ele está satirizando a nós, que transformamos o colapso climático em conteúdo de entretenimento.

O Filme

O filme começa como um thriller ecológico de alta tensão: Tom Cruise interpreta Digger Rockwell, um magnata do petróleo cuja exploração predatória na Groenlândia desencadeia o rompimento de uma plataforma de gelo colossal, ameaçando o mundo com inundações catastróficas.

O gigantesco bloco de gelo de milhares de quilômetros se desloca para a Europa, projetando cenários catastróficos como tisunamis, enchentes e destruição econômica.



Vivendo isolado em uma imensa mansão, Digger está mais precopao com a saúde do seu gato do que com as dezenas de e-mails não abertos e ligações telefônicas não atendidas que tentam alertá-lo. Até receber a visita do desesperado Ganesh (Riz Ahmed), diretor ambiental da petrolífera de Digger, com as notícias alarmantes.

Digger tem muitos pontos em comum com Não Olhe Para Cima, que satiriza a mesma realidade. A grande diferença é que Digger possui um lado mais dramático, fazendo uso da metalinguagem para tecer um poderoso comentário sobre como a humanidade é capaz de processar tragédias. 

No entanto, após cerca de trinta minutos, o cenário se desfaz literalmente: uma árvore cai de forma artificial, operários de palco entram em cena com miniaturas e projeções, e revela-se que tudo não passa de uma peça de teatro futurista intitulada Fossil Fools, encenada em um mundo pós-apocalíptico. Cruise não é o bilionário, mas Curtis Markson, um ator veterano lutando para ensaiar o papel.



A desconstrução do bode expiatório – Alerta de Spoilers

Temos uma sátira dentro da sátira. O twist estrutural, revelado com 30 minutos: tudo que assistimos até então foi um ensaio de uma peça em que o personagem-título do filme também é, metalinguisticamente, um personagem dentro do próprio filme.

O Digger que conhecemos, assim como os outros personagens que entraram e saíram de cena no primeiro ato, são parte do elenco de uma grande peça que remonta o passo-a-passo que culminou no colapso da sociedade como a conhecemos.

O filme constrói uma narrativa que desconstrói convenções do cinema para criar uma espécie de peça teatral gigantesca, que mistura ficção, documentário, cinema e metalinguagem. 



Na prática, estamos num futuro distópico assistindo a uma peça teatral chamada "Fossil Fools" sobre o nosso presente. É uma fábula de futuro pregresso. Nesse futuro uma montagem teatral está encenando o passado, que é o nosso agora, como revisionismo. A arte está tentando entender como deixamos o mundo colapsar, e ao fazer isso, ela mesma distorce, suaviza e glamouriza.

Digger reflete um mundo onde a própria catástrofe climática e o colapso civilizacional foram digeridos como entretenimento de massa, feeds de notícias polarizados e "conteúdo".

A peça Fossil Fools dentro da história é um produto cultural voltado para uma sociedade que consome sua própria destruição como espetáculo cult.

Com esse plot twist metalinguístico, o filme desconstrói a obsessão midiática contemporânea por encontrar "bodes expiatórios" individuais para crises globais. Ao revelar que o bilionário é apenas um papel representado por um ator em uma farsa aplaudida por uma plateia de privilegiados, o filme aponta o dedo para a cumplicidade coletiva do sistema de consumo tardio, onde todos participam e aplaudem a máquina que os consome.

No fim, o propósito metalinguístico de Digger não é ser esperto. É nos encurralar. Iñárritu usa a metalinguagem não para dizer “olha como o cinema é artificial”, mas para dizer “olha como vocês precisam que tudo seja artificial para aguentar a realidade”.

É por isso que ele incomoda. Ele não quer que você saia do cinema pensando “bilionários são maus”. Ele quer que você saia pensando “eu acabei de me divertir vendo o mundo acabar, e paguei IMAX por isso”.


 

Ficha Técnica


Título: Digger

Diretor: Alejandro G. Iñarritu

Roteiro: Alejandro G. Iñarritu, Alexander Dinelaris, Nicolás Giacobone

Elenco: Tom Cruise, Riz Ahmed, John Goodman

Produção: Legendary Pictures

Distribuição: Warner Bros Pictures

Ano: 2026

País:  EUA

 

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sexta-feira, junho 12, 2026

'A Última Fagulha de Esperança': quando puxar o fio da tomada da IA vira questão de sobrevivência



Seja no uso do ChatGPT para desabafos emocionais ou no bloqueio acidental de um sistema de segurança como o BitLocker em seu notebook, o ser humano contemporâneo vive cercado pela ilusão de controle tecnológico — até que a lógica matemática e binária da máquina falhe, e a única saída seja puxar o fio da tomada. O problema é quando essa alternativa deixa de ser possível e o reset vira uma questão literal de sobrevivência. É a premissa sufocante do filme polonês “A Última Fagulha de Esperança” (W nich cała nadzieja, 2023), onde a última humana na face da Terra se torna refém da programação binária do robô criado para protegê-la, ilustrando a ironia trágica de sermos trancados do lado de fora da nossa própria existência pelos algoritmos que criamos.

sexta-feira, maio 01, 2026

'O Drama': hipervigilância irônica da geração Z, casamento e tiroteio


Entre o brilho de uma cerimônia de casamento "à moda antiga" e o trauma latente de um massacre escolar, o filme “O Drama” (The Drama, 2026) surge como uma autópsia definitiva da psique da Geração Z. Um casal jovem e inteligente está organizando o casamento perfeito, regado a rituais vintage e playlists autorais. Mas, sob a superfície do romance idealizado, reside uma revelação perturbadora que transforma o "felizes para sempre" em um thriller psicológico sobre quase-assassinos e traumas geracionais. “O Drama” coloca em rota de colisão a busca nostálgica por autenticidade com o que se convencionou chamar de "hipervigilância irônica", o cerne do psiquismo dessa geração: um estado mental onde o dia mais feliz da vida está sempre à beira do caos sistêmico. Mais do que um filme de gênero, é o reflexo de uma geração que aprendeu a mapear as saídas de emergência antes mesmo de brindar ao futuro.

sexta-feira, julho 04, 2025

Em '1978' o horror cósmico de H.P. Lovecraft vai à ditadura militar argentina


Enquanto Argentina e Holanda faziam a final da Copa do Mundo, em um cárcere clandestino agentes da repressão militar interrogavam e torturavam presos políticos. Conseguem arrancar o endereço de uma “célula esquerdista”. Rumam até o local para fazer novos prisioneiros. O problema é que eles prenderam os “esquerdistas” errados. Na verdade, membros uma seita satânica em pleno ritual de conjuração do Demônio. Mas os levam achando serem apenas “comunistas pervertidos”. É o início de um mergulho no inferno. Este é o filme argentino “!978” (2024, disponível no MAX), um filme de gênero que usa esse pano de fundo histórico como base para sua narrativa, dando às cenas de violência apavorantes uma realidade ainda mais horrível – o horror cósmico Lovecraftiano. Levando o espectador a questionar se o maior mal em exibição é o sobrenatural ou o humano. 

sexta-feira, maio 30, 2025

A contaminação do real pelas imagens em "Saneamento Básico, O Filme"

 


Foi relançado, com uma edição restaurada e especial, o longa brasileiro '"Saneamento Básico, O filme'", de Jorge Furtado. A produção virou uma sensação na época de seu lançamento em 2007 e conta com um elenco estrelado de nomes premiados que hoje marcam o cinema e novelas nacionais, como Wagner Moura, Fernanda Torres, Lázaro Ramos e Camila Pitanga. A burocracia da administração das verbas públicas municipais coloca moradores de uma pequena cidade em uma situação inusitada: a única solução para obter dinheiro para construir uma fossa séptica e resolver o problema do esgoto a céu aberto é a produção de um vídeo ficcional sobre esse próprio problema real.  A questão é que os moradores não têm a menor noção sobre produção de um vídeo e nem o significado da palavra “ficcional”. “Saneamento Básico, O Filme” não só faz uma didática e divertida metalinguagem sobre os princípios da linguagem audiovisual, mas nos oferece uma oportunidade de reflexão sobre como a imagem tornou-se o centro da sociedade atual, como fetiche, sedução e contaminação do real ao produzir “não-acontecimentos”.

segunda-feira, dezembro 30, 2024

Poder, Nietzsche e fast food no filme "Obediência"



O telefone toca e uma estressada gerente de uma lanchonete fast food ouve a voz de um policial avisando que uma atendente da loja roubou dinheiro de uma cliente que veio prestar queixa. Nas próximas horas ela cegamente obedecerá as ordens de um suposto policial ao telefone para além dos limites dos seus valores e consciência. Baseado num caso real absurdo e bizarro em uma lanchonete McDonald’s nos EUA, o filme “Obediência” (“Compliance”, 2012, disponível na Amazon Prime Video) narra como a tendência humana de ceder à autoridade leva a atitudes tão irracionais como os maiores crimes da História: nós apenas sempre “obedecemos ordens”. Se para Nietzsche a consciência é a principal fonte de enganos como o medo e o espírito gregário, “Obediência” politiza esse insight do pensador alemão: as organizações sociais e corporativas verticalizadas nos tornam ainda mais vulneráveis. Mais uma sugestão do nosso indefectível leitor Felipe Resende.  

quinta-feira, outubro 17, 2024

'Daaaaaalí!': surrealismo com começo, meio e fim, mas não necessariamente nessa ordem


“Uma história deve ter um começo, um meio e um fim, mas não necessariamente nessa ordem”, disse Goddard. E o diretor de cinema mais surrealista da atualidade, o francês Quantin Dupieux, levou ao limite essa frase no filme sobre o gênio surrealista Salvador Dalí. “Daaaaaalí!” (2023) não é um filme biográfico – Dupieux ele adotou na montagem e edição fílmica a mesma abordagem do pintor surrealista para entregar um conto particularmente louco. Os surrealistas viam no cinema a expressão do inconsciente que revolucionaria uma sociedade burguesa e careta. Ironicamente, virou a matéria-prima da revolução publicitária, do pop e entretenimento. E ao ver a realidade superando o surrealismo de suas telas, no final da vida Dalí agarrou-se no personagem que criou para si mesmo.

sexta-feira, setembro 13, 2024

A subversão contra a fascinação e o tédio no entretenimento em 'Yannick'


Desde que filmou um pneu serial killer rodando pelo deserto se vingando dos humanos que o descartaram em “Rubber” (2010), o diretor francês Quantin Dupieux é obcecado pela ideia da desconstrução todas as regras que regem o roteiro de cinema (principalmente a ideia de verossimilhança). Em "Yannick" (2023, em exibição na MUBI), dessa vez Dupieux volta a desconstrução para a relação do público com o entretenimento – no caso, uma plateia e os atores no palco de um pequeno teatro em Paris. Um espectador insatisfeito resolve fazer justiça com as próprias mãos – confronta os atores e, num ousado exercício metalinguístico, decide reescrever a peça em tempo real e dirigir os atores. Com uma arma na mão, pega todos como reféns da sua fúria crítica. Um filme deliciosamente subversivo que tematiza os sentimentos conflitantes de fascinação e tédio que envolvem o consumo do entretenimento comercial.

terça-feira, março 19, 2024

"Zona de Interesse": quando a banalidade do mal vira 'banalidade do bem' na sociedade atual


Oscar de Melhor Filme Internacional, “Zona de Interesse” (The Zone of Interest, 2023) se diferencia de todas outras produções premiadas sobre o nazismo e o Holocausto como A Vida é Bela, O Pianista, O Filho de Saul etc. Vai além da época que pretende retratar. E a fala do diretor Jonathan Glazer na cerimônia do Oscar foi totalmente coerente com o seu filme: “Todas as nossas escolhas foram feitas para refletir e nos confrontar no presente. Não para dizer ‘olhe o que fizeram na época’, mas para olhar o que fazemos agora”, criticando o genocídio de Israel em Gaza. A família de um oficial da SS vive uma vida bucólica e pastoral, indiferentes ao que ocorre do outro lado do muro da propriedade: o genocídio de Auschwitz. A poucos metros do Holocausto, acompanhamos uma típica vida de classe média de comerciais de margarina na TV. Glazer tem um conceito radical: e se a banalidade do mal se transformou em uma “banalidade do bem” na sociedade de consumo pós-guerra?

quinta-feira, fevereiro 22, 2024

A sátira racial ao estereótipo afro-americano no filme 'Ficção Americana'


O filme “Ficção Americana” (American Fiction, 2023), com cinco indicações ao Oscar, é uma incisiva sátira racial sobre os estereótipos afro-americanos criados pela indústria literária e de entretenimento norte-americano para, como diz o protagonista a certa altura no filme, “absolver o sentimento de culpa dos brancos”. Um professor universitário e romancista negro está com dificuldades para encontrar uma editora que publique seu novo livro. “Escreva algo mais negro”, é o que sempre ouve de publishers brancos e liberais. Misturando raiva, frustração e copos de bourbon, ele escreve uma paródia exagerando todos os estereótipos negros dos guetos. Para sua surpresa, vira o acontecimento literário do ano. Ninguém entendeu a piada. “Ficção Americana” é uma reflexão sobre a impossibilidade encontrar uma exterioridade para fazer uma crítica. A não ser que o diretor quebre a quarta parede do cinema.

sábado, janeiro 06, 2024

Culpa e fúria nos 40 anos da série 'Chaves' no Brasil



Está fazendo 40 anos da estreia da série mexicana “Chaves” (El Chavo Del Ocho) aqui no Brasil Criado por Roberto Gómez Bolaños, falecido em 2014, era apelidado de Chespirito - “Pequeno Shakespeare”. Mas ele sempre esteve muito mais próximo de Stephen King e do escritor francês Camus. Se King dizia que o inferno era a repetição e Camus via no homem moderno atualização do mito de Sísifo, Bolaños vai mixar esses insights em uma pequena vila de pobres e remediados em algum lugar no Distrito Federal do México. Uma galeria de personagens que parecem condenados a repetir seus pecados na eternidade, assim como Sísifo rolava uma pedra montanha acima numa tragédia sem fim. Mas se fosse apenas isso, “Chaves” não seria tão cultuado por tantas gerações. Há algo mais: se por um lado a série revela um sentido auto moralizante onde cada personagem repete "ad aeternum" seus pecados mortais, do outro ninguém demonstra o menor respeito pela Ordem, seja a de Deus ou a do Diabo. A receita de um cult: a ambígua da mistura da culpa com a fúria.

sexta-feira, novembro 17, 2023

Dois lados de uma mesma moeda: Guerra Israel/Hamas e fenômenos extremos climáticos


Dois lados de uma mesma moeda: Guerra Israel/Hamas e a onda de calor dos fenômenos extremos climáticos. Quem nos dá esse insight? A improvável jovem ativista Greta Thunberg. “Não há justiça climática para terras ocupadas”, puxou um coro tentando sobrepor as duas agendas. Atirou no que viu e acertou no que não viu: são eventos sincrônicos. Tanto a guerra quanto a urgência climática se deslocaram para um único campo: o retórico e propagandístico. E, mais profundamente, para o campo da simulação dos não-acontecimentos. Na guerra, o meta-terrorismo transpolitico de simulação israelenses de inimigos imaginários criados por "inside job" e "false flag". E a urgência climática: quando o debate científico sobre a discussão de múltiplas causalidades se torna retórica unidimensional no campo da propaganda, marcado por recorrências, figuras aristotélicas de retórica, contaminações metonímicas e inversões entre causas e efeitos. 

quinta-feira, novembro 09, 2023

'Asteroid City': a mitologia americana é artifício e simulação


Wes Anderson sempre foi um admirador do fascínio do diretor alemão Win Wenders pelo imaginário norte-americano dos desertos do oeste americano, freeways, lanchonetes e motéis de beira de estradas perdidos em paisagens áridas e selvagens. Mas, diferente do olhar europeu de Wenders em busca de uma ontologia ou essência por trás desse imaginário, Wes Anderson quer encontrar apenas a superfície, o artifício, a simulação e a hiper-realidade. “Asteroid City” (2023) é um vertiginoso desfile de uma constelação de personagens da mitologia americana em torno de três eventos fundadores no deserto de Nevada: a bomba atômica, o Caso Roswell e Las Vegas. Uma narrativa em abismo metalinguístico sobre o “Dia do Asteroide”, evento comemorativo de um evento astronômico em um vilarejo em 1955 (ano da morte de James Dean) num deserto em cores hiper-reais de um estúdio de TV.

quinta-feira, dezembro 22, 2022

Ironias, guerra cultural e cultura do cancelamento em 'A Caçada"


Em tempos de guerra cultural que gera profunda polarização política, está cada vez mais difícil entender ironias, porque espíritos armados vê tudo na literalidade. O filme “A Caçada” (The Hunt, 2020, disponível na Netflix) foi uma das vítimas dessa polarização – um filme que dispara ironias contra teorias da conspiração e cultura do cancelamento: elites liberais que se reúnem em uma mansão remota para caçar humanos por esporte. “A Caçada” ironiza coisas como o “Pizzagate” (no filme temos o “Manorgate”). Seu lançamento sofreu sucessivos adiamentos. "A Caçada" zomba das elites liberais politicamente corretas, a cultura do cancelamento e a histeria conspiratória de extrema-direita. E, assim como em produções posteriores como “Não Olhe Para Cima”, joga com a histeria online que muitas vezes parece ao mesmo tempo presciente e redundante – como as teorias conspiratórias, de tão caricatas, poderiam virar profecias autorrealizáveis.

sexta-feira, setembro 09, 2022

'O Grande Hotel Budapeste': lapsos de civilização no matadouro que conhecemos como humanidade


No cinema, o imaginário em tornos dos hotéis os torna intrinsecamente estranhos. De Norman Bates em “Psicose” a Jack Torrance de “O Iluminado”, esse imaginário parece traduzir uma ambiguidade desse serviço entre o turismo e os negócios: são lugares transitórios, mas também um lugar que, por um tempo, podemos chamar de lar. Wes Anderson brinca com esse imaginário em “O Grande Hotel Budapeste” (2014): um hotel decrépito entre as montanhas, mas que teve seus tempos aristocráticos de opulência. Com sua linguagem irônica e cenas densamente compostas, com aventuras que mais lembram as HQs de “Tintim”, Wes Anderson nos conta um tema sério e sombrio: como a guerra total nazista destruiu uma bela e frágil civilização da Europa Central, trazendo uma modernidade que alterou drasticamente os hotéis e o turismo – de “lapsos de civilização no matadouro bárbaro que conhecemos como humanidade” a filiais padronizadas e despersonalizadas de grandes cartéis internacionais de turismo.

quinta-feira, janeiro 13, 2022

'Festival do Amor': Woody Allen implacável com o cinema e com ele mesmo


"
Festival do Amor" (Rifkin’s Festival, 2020), 49o longa-metragem de Woody Allen, à primeira vista parece uma comédia leve, romântica e nostálgica. Mas, na verdade, é a produção mais cáustica, melancólica e implacável de Woody Allen dos tempos recentes, não só com o cinema, mas, principalmente, com ele próprio. O dublê da vez do diretor é o ator Wallace Shawn, que faz um escritor com bloqueio criativo e ex-professor de cinema, velho chato vestindo um típico jeans de vovô e que fica tagarelando sobre os mestres do cinema, enquanto sua vida real está desmoronando. Um filme metalinguístico com inúmeras citações dos clássicos, de Orson Welles, Godard a Fellini e Lelouch. Para provar, com o autodistanciamento irônico de sempre, que o cinema abandonou suas questões simbólicas e filosóficas para mergulhar no realismo raso do ativismo midiático.

quarta-feira, dezembro 30, 2020

Ano de 2020 foi a temporada mais audaciosa de Black Mirror na retrospectiva '2020 Nunca Mais'


O criador da série “Black Mirror”, Charlie Brooker, tem ouvido uma piada recorrente: de que 2020 foi a temporada mais ousada de Black Mirror. Certamente foi para dar uma resposta a essa piada que Brooker criou a retrospectiva mockumentary “2020 Nunca Mais” (“Death to 2020”), disponível na Netflix. Uma curiosa retrospectiva sobre fatos reais na perspectiva de personagens ficcionais como um jornalista new yorker, um historiador britânico liberal racista enrustido, uma dona de casa suburbana e supremacista, um digital influencer que passou o ano reposicionando o discurso ao estilo Felipe Neto, a Rainha inglesa que chama os telespectadores de “terráqueos”, a dona de casa que esgotou o acervo de séries da Netflix na quarentena, etc. O ano de 2020 realizou de tal maneira quase todos os pesadelos de Black Mirror que Charlie Brooker propôs um jogo ao espectador: uma retrospectiva de fatos reais feita por personagens ficcionais que narra os acontecimentos de cada mês como um episódio de uma temporada de mau gosto. 

quarta-feira, junho 24, 2020

A hiper-realidade da banalidade do mal em "O Ato de Matar"


O holocausto nazista, com suas milhões de vítimas, foi imortalizado por centenas de filmes e documentários. Porém, o genocídio político ocorrido na Indonésia entre 1965 e 1966, no qual foram massacradas mais de um milhão de pessoas (famílias inteiras, entre mulheres e crianças), é pouco conhecido – um expurgo político perpetrado por paramilitares e milícias em nome da luta contra a suposta ameaça comunista. “O Ato de Matar” (“The Act of Killing”, 2012, de Josh Oppenheimer) é um documentário cujas câmeras mostram como os líderes daquele genocídio ainda gozam do status de heróis e continuam atuantes sob o atual regime de extrema-direita. Tão orgulhosos que resolveram, durante as filmagens, fazer um outro filme dentro do próprio documentário: eles próprios reencenaram seus massacres, enquanto emulavam gêneros hollywoodianos como filmes de gangsteres e musicais. Criando um curioso efeito metalinguístico - um surrealismo medonho ao som de "Born Free".  Como a banalidade do mal pode se tornar hiper-real. 

domingo, maio 31, 2020

Na série "The Midnight Gospel" zen-budismo é a filosofia perfeita para nosso universo simulado


Cada episódio da série de animação “The Midnight Gospel” (2020-) é um intensivo exercício pop de meditação: tentamos acompanhar os longos diálogos sobre vida e a aceitação da morte sobre o ponto de vista zen-budista, enquanto os protagonistas estão em mundos de colorido intenso e muitas vezes com violência gráfica pesada que tenta desviar nossa atenção. Como se a narrativa nos obrigasse a buscar o silêncio interior perante o caos barulhento da realidade. O protagonista Clancy faz entrevistas para um “spacecast” em um Universo dentro de simuladores cuja interface é análoga a games de computadores. É exatamente essa a ironia metalinguística central do filme: seres de um universo simulado cujas reflexões zen-budistas de que “tudo é um vazio de qualidade inerente” ou de que “vivemos em uma ilusão” é a filosofia perfeita para entidades digitais vazias e sem alma. A série flerta com o niilismo e solipsismo: seriam as filosofias orientais perfeitas para a nossa condição existencial de vivermos num Universo simulado análogo aos mundos de “Midnight Gospel”?

quinta-feira, abril 30, 2020

Em "Domain" pandemia realiza projeto oculto de isolamento social das novas tecnologias


Nos agora longínquos anos 1990 surgia a World Wide Web, sob a promessa de que seria uma gigantesca biblioteca universal e que promoveria a “inteligência coletiva”. Isso tudo ficou para trás, quando a WWW se impôs como uma nova sociedade mediada tecnologicamente, isolando os indivíduos absorvidos pelas telas dos seus dispositivos móveis. Porém, uma pandemia global de gripe ameaça destruir a humanidade, confinando ganhadores de uma loteria mundial promovida pela OMS em bunkers subterrâneos. Sobreviventes, unicamente conectados por câmeras e telas numa nova Internet pós-apocalíptica. Uma situação que ironicamente põe em prática o isolamento tecnológico que já existia no mundo da superfície. Esse é o filme independente “Domain” (2016) que, assistido no momento atual em que estamos sob a urgência sanitária do isolamento social, ganha novos significados. 

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