Se no auge da Guerra Fria o espaço era o território da conquista e do triunfo da engenhosidade humana, o cinema do século XXI parece ter transformado o cosmos no cenário definitivo da angústia existencial. Entre o vazio do Universo infinito e a liberdade aterradora do indivíduo finito descrita pelo filósofo Kierkegaard, surge o filme ucraniano “Você é o Universo” (Ty – Kosmos, 2024). Mais do que uma ficção científica de baixo orçamento, a obra de Pavlo Ostrikov utiliza a explosão literal da Terra para espelhar as cicatrizes reais de uma Ucrânia em guerra e a solidão hiperconectada da era pós-pandêmica, provando que a busca pelo 'outro' é a única bússola possível diante do abismo.
Um dos
sintomas da atual sensibilidade pós-moderna é a nossa relação com as imensidões
infinitas do espaço.
No futurismo
modernista (que encontrou o seu ápice na ficção científica no cinema durante a
corrida espacial à Lua Guerra Fria) o espaço era representado como um
território vazio à espera da conquista da humanidade – eventualmente até
poderíamos nos deparar com aliens hostis. Mas a coragem e engenhosidade humanas
superariam qualquer coisa.
Mas tudo
mudou. Aquele futuro não se realizou. Restando ou a nostalgia daqueles futuros
(o retrofuturismo na música eletrônica e no cinema), ou uma postura
existencialista ansiosa e angustiada de seres finitos diante de um universo
infinito e eterno.
É quando as
ideias do existencialismo cristão de S∅ren Kierkegaard chegam ao cinema em filmes como o sci-fi
Passengers (2016) ou a comédia dramática Valor Sentimental (2025).
Ideias provenientes principalmente do seu livro “O Conceito de
Ansiedade”.
Kierkeegard
usa o exemplo de um homem à beira do precipício. Quando o homem olha para baixo
ele sente o medo da queda. Mas ao mesmo tempo, sente um grande impulso de se
atirar para o fundo do abismo. Esse sentimento paradoxal deriva da nossa
ansiedade pela descoberta de que somos livres para escolher saltar ou não
saltar. O mero fato de sabermos que temos a liberdade de escolha por sermos
seres finitos diante da eternidade do Universo desperta ao mesmo tempo a
solidão da completa liberdade. Isso criaria tanto a possibilidade do
autoconhecimento como da ansiedade neurótica – a angústia, que impede a
evolução da ansiedade normal em autoconhecimento.
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Mais um
exemplo de como o espaço abandonou as representações épicas para se transformar
num vazio existencial é o filme ucraniano Você é o Universo (Ty –
Kosmos, 2024) de Pavlo Ostrikov.
Histórias
sobre astronautas solitários vagando pelo espaço já foram contadas inúmeras
vezes. Hollywood produziu algumas, incluindo dois sucessos de bilheteria
recentes: Gravidade (2013), de Alfonso Cuarón, e Perdido em Marte (2015),
de Ridley Scott.
Mas o que
distingue Você é o Universo é que o astronauta não está apenas solitário:
ele é o último da espécie humana, depois que viu pela janela da sua nave, através
de um brilho ofuscante, o distante planeta Terra explodir – e a onda de impacto
o alcançar em questão de horas e também matá-lo.
Você é o
Universo é uma daquelas obras raras que prova que o gênero de ficção
científica não precisa de orçamentos de bilhões de dólares para tocar no âmago
da condição humana.
Lançado em
2024, o filme carrega um peso simbólico colossal por ter sido produzido e
finalizado enquanto a Ucrânia enfrentava o início da guerra contra a Rússia.
Embora o
roteiro tenha sido escrito antes da invasão de 2022, é impossível assisti-lo
sem ver as cicatrizes do conflito atual. E como o risco existencial colocado
para os ucranianos nessa guerra é simbolizado pelo filme dentro de uma reflexão
mais universal, envolvendo a própria espécie humana.
A Terra se
foi. Da mesma maneira para muitos ucranianos o lar foi perdido, suas cidades e
casas foram literalmente apagadas do mapa. O sentimento de "não ter para
onde voltar" é o motor emocional da obra.
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Restando
apenas olhar para o imenso aparente vazio cósmico do Universo. Criando a
paradoxal e angustiante sensação de liberdade diante do abismo descrita por Kierkegaard – a angústia de estar finalmente livre – “é só depois
de perder tudo que você está livre para fazer qualquer coisa”, dizia o “filósofo
pop” Tyler Durden no filme O Clube da Luta.
Essa é a sensibilidade pós-moderna espacial explorada por U Are
The Universe.
O Filme
O filme acompanha Andriy (Volodymyr Kravchuk), um caminhoneiro
espacial ucraniano, em uma missão de quatro anos de ida e volta para descartar
o lixo nuclear da Terra na lua Calisto, de Júpiter.
Apesar de contar com a ajuda de seu assistente robô Maxim (Leonid
Popadko), sempre pronto para contar uma piada infame ao astronauta rabugento, a
abordagem despreocupada de Andriy em relação ao trabalho lhe rende a ira de seu
chefe no controle espacial na Ucrânia.
Porém, as reclamações de seus superiores acabam se mostrando
irrelevantes quando a Terra explode repentinamente, não por uma guerra
específica, mas por alguma espécie de colapso total.
Sem saber como lidar com essa nova camada de isolamento (ele é o
último da espécie), além daquela que já vivenciada no espaço, ou quais serão
seus próximos passos, Andriy tenta se manter entretido. Cria uma espécie de
estação de rádio improvisada, ele toca os poucos discos que possui enquanto se
vangloria de ter sobrevivido àqueles que, em algum momento, desejaram sua
morte.
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Sua ostentação de ser a última pessoa viva dura pouco, pois ele
recebe uma mensagem de uma francesa chamada Catherine (dublada por Alexia
Depicker e interpretada por Daria Plahtiy), que está presa em uma estação
espacial distante orbitando uma das luas de Saturno, com uma grave falha – ela
está pouco a pouco perdendo altitude.
Não demora muito para que Andriy e Catherine comecem a trocar
mensagens, apesar do delay de três horas na comunicação. O que começa como uma conversa
para entender melhor suas respectivas situações, aos poucos se transforma em
algo mais para o caminhoneiro espacial ucraniano.
À medida que a dupla cria um laço, o filme de Ostrikov pinta um
retrato humorístico e comovente da conexão humana.
Ao focar-se exclusivamente em Andriy durante a maior parte do
filme, Ostrikov encontra diversas maneiras de dissecar como o isolamento, a
tristeza, a esperança e o amor estão todos interligados como um novelo de lã
bem apertado.
Desvendar a complexidade das emoções nunca parece uma tarefa
árdua, pois o espectador se envolve profundamente tanto com o dilema do
caminhoneiro espacial quanto com seu crescente vínculo com Catherine.
Tudo, desde sua irritação cômica com a cadeira de trabalho
quebrada até a forma como seu semblante se ilumina ao receber uma nova mensagem
da francesa, arranca um sorriso do público. Quando Andriy decide tentar
encontrar a estação de Catherine, uma missão repleta de desafios, o público não
consegue conter a torcida, mesmo ciente dos riscos envolvidos.
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O filme inclui divertidas referências a Solaris e 2001:
Uma Odisseia no Espaço, entre outros. Faz parte do núcleo emocional
que mantém o coração de Você é o Universo pulsando. Através das conversas de Andriy com Catherine, Ostrikov
consegue abordar muitos dos prazeres, medos e constrangimentos que acompanham o
ato de realmente conhecer alguém. Mesmo quando Catherine não está fisicamente
em cena, o público, assim como o caminhoneiro espacial, sente como se a
conhecesse bem.
Solidão digital, pandemia e poeira estelar
Para além do tema Kierkeegardiano da angústia do homem finito diante do
Universo infinito, Você é o Universo captura perfeitamente
três pilares do nosso tempo:
Primeiro, a solidão digital, principalmente explicitada
durante o isolamento social na pandemia da Covid. No século XXI, estamos mais
conectados e, paradoxalmente, mais solitários. O romance de Andriy e Catherine
é a metáfora definitiva das relações via telas e áudios — o desejo por alguém
que está a anos-luz (ou apenas a alguns quilômetros de isolamento social) de
distância.
Além disso, fica evidente no filme o eco da pandemia. Escrito em
2022, reflete a estética do isolamento e a rotina repetitiva de Andriy
ressoam com a experiência global de 2020-2022. O espaço sideral é o
"lockdown" definitivo.
E a destruição da Terra no filme também reflete a ansiedade
climática e a sensação de que o mundo, como o conhecemos, está em um caminho
sem volta.
O filme foge do pessimismo barato. Ele admite que o universo é
vasto, frio e indiferente, mas argumenta que o indivíduo é um universo em si mesmo. A química entre o ator Volodymyr Kravchuk e
o robô (dublado pelo próprio diretor) traz uma leveza necessária que impede o
filme de ser apenas um drama depressivo.
Você é o
Universo é um triunfo do cinema independente e um testemunho
de que, mesmo quando o seu mundo explode, a busca pelo "outro" é o
que nos impede de virar apenas poeira estelar.
Ficha
Técnica
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Título: Você é o Universo |
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Direção: Pavlo Ostrikov |
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Roteiro: Pavlo
Ostrikov |
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Elenco: Volodymyr
Kravchuk, Alexia Depicker, Leonid Popadko |
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Produção: ForeFilms,
Stenola Productions |
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Distribuição: Kinomania |
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Ano:
2024 |
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País: Ucrânia |
sexta-feira, fevereiro 27, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira





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