quarta-feira, agosto 21, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Numa ironia perversa, Bolsonaro pode ser considerado o presidente eleito mais sincero e honesto de todos: ele cumpre à risca tudo o que prometeu durante a campanha eleitoral. Ele é o que sempre foi. A tarde paulistana dessa segunda-feira que virou noite pela fumaça da devastação vinda da Amazônia ou a paralisia de programas federais e ministério pela falta de dinheiro são tragédias anunciadas, no mínimo, desde a campanha eleitoral. O que é assustador é o lento desaparecimento da oposição. Motivada pelo desespero “lacrador” nas redes sociais, blogs compartilham vídeos de supostos arrependimentos da grande mídia com o seu campeão. Sem entender nada sobre a tática conjunta mídia/clã Bolsonaro, a esquerda vive compartilhando vídeos do quadro do Fantástico “Isso a Globo Não Mostra”. Além de não entenderem a piada do título contra a própria esquerda, dá mais pilha à tática diversionista de repercutir tudo aquilo que é acessório e superficial na intencional estratégia de ocupar diariamente a mídia com tosquices e bravatas. Mas, ainda pior, não entendem o segundo objetivo (geopolítico) da guerra criptografada: alimentar a chantagem ambiental para criar o “incêndio do Reichstag” que entregará de vez o País à intervenção externa.
sábado, agosto 17, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Editorial de “O Globo” acusa que Bolsonaro é um “risco para o País”. Ao mesmo tempo, para a jornalista Miriam Leitão, Bolsonaro é um “empecilho para a retomada econômica”. A capa da revista Piauí satiriza os dons de chapeiro de Eduardo Bolsonaro que o “credenciam” a ser embaixador nos EUA. Enquanto isso, as esquerdas se assanham, achando que a “ficha tá caindo” na grande mídia que, desesperada, tentaria se descolar de uma figura tóxica. Simultaneamente é lançado o filme “Eu Sou Brasileiro”, drama de “superação” e autoajuda com muitos atores globais, protótipo do tipo de filme que Bolsonaro quer ver a Ancine fomentar... São instantâneos da atual guerra semiótica criptografada que, como de costume, as esquerdas não conseguem fazer uma leitura, a não ser aquela que a grande mídia e Bolsonaro querem que elas façam. Mas há sinais de inteligência semiótica que as esquerdas deveriam prestar atenção: a trolagem do livro “Por Que Bolsonaro Merece Respeito, Confiança e Dignidade?”, com 198 páginas em branco.
domingo, julho 28, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Um “bate-papo” secreto de um servidor público passando informações privilegiadas, em ano eleitoral, num evento secreto para empresas nacionais e internacionais do setor financeiro. As novas informações vazadas pelo “Intercept” sobre a bem remunerada participação do coordenador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, não apenas revelam as relações promíscuas de procuradores e juízes com o mundo político e empresarial. Também mostra como a banca é uma eminência parda: por todo o espectro político, as críticas ao sistema financeiro são apenas pontuais ou genéricas. Nunca está sob o foco da mídia. No máximo, denuncia-se “bad guys” gananciosos, enquanto a estrutura do sistema nunca é questionada – dinheiro, valor, débito, crédito etc. são conceitos naturalizados, reverenciados quase religiosamente. A banca age secretamente como uma religião, com seus templos (sagrados e pagãos) e com seus padres e alto sacerdotes. Dois livros lançam uma luz sobre o fenômeno: “The Theology of Money” do filósofo Philip Goodchild; e “The Cult of Money”, de Chris Lehmann.
terça-feira, julho 09, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Em Política não existem coincidências. Existem sincronismos. É o que revelam as últimas informações trazidas à opinião pública pela Vaza Jato. Primeiro, dando um novo significado às especulações de 2017 sobre o acidente aéreo que vitimou o então relator da Operação Lava Jato no STF, ministro Teori Zavascki. A exaltação “Uha, Uhu!” do procurador Dellagnol, eufórico em confirmar que o ministro substituto, Edson Fachin, era “nosso” explicitou como o “trágico” teve “timing” e “oportunismo”. Demonstrando que as “teorias conspiratórias” eram muito mais do que isso: eram “desconfianças justificadas”, tendo em vista as coincidências e anomalias que cercaram a tragédia. E segundo, a naturalidade como a mídia (e o próprio apresentador) encarou as dicas de “Media Training” dadas por Fausto Silva a Sérgio Moro, então juiz num processo em discussão por diferentes lados do espectro político – o “Faustão” acredita ter uma procuração do “povão”, uma missão manifesta, dentro da atual atmosfera de democracia plebiscitária ou direta.
sexta-feira, julho 05, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Telejornais da mídia corporativa simplesmente omitiram ou relegaram à categoria de "fatos diversos" a notícia mais relevante da última quinta-feira. Uma notícia que à opinião pública avaliar o atual estágio de crise social e econômica: diante do ministro de Minas e Energia e do governador do Estado, um empresário se matou com um tiro na boca em Simpósio do setor em Sergipe. Ato extremo diante da insolvência da sua empresa diante das dívidas do fornecimento de gás natural. Com os terremotos semanais da Vaza Jato, a grande mídia cruzou as fronteiras que separam o jornalismo da propaganda – passou a omitir tudo que, ou esteja fora do script da guerra semiótica criptografada (a usina produtora de crises Bolsonaro/Mídia e geradora de notícias dissonantes), ou que contradiga a atual estratégia de enaltecimento moral do empreendedorismo na massa de desempregados e desalentados: a fé de que é possível a força de trabalho se transmutar em capital com “otimismo”, “determinação” e superação”.
quinta-feira, junho 27, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Tal como os
violinistas do Titanic, a grande mídia sabe que terá que tocar a música até o
fim – as instituições entraram em acelerado estado deterioração: o “aerococa”
da comitiva de Bolsonaro, pego pela polícia espanhola, é apenas um pequeno
indício. Diante da audiência com Glenn Greenwald na Câmara (verdadeira aula de
jornalismo investigativo que valeu mais do que todos os congressos da Abraji),
na qual o jornalista alertou que nenhuma intimidação evitará as publicações do site
“Intercept” porque está amparado pela Constituição, a grande mídia sabe que
chega rápido ao seu “vanish point” – as máscaras terão que desaparecer e o
jornalismo ser rifado. Por isso que, paralelo à bomba relógio que representa a
Vaza Jato, a grande imprensa vem se “ajustando” ao que está por vir: a última
cruzada – afastamentos, demissões em massa e ameaças nas redações para manter
os jornalistas firmes nas rédeas e antolhos.
terça-feira, junho 18, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Finalmente o Brasil se moveu. Na falta das ruas ocupadas de forma contundente e com uma oposição confortável no “wishful thinking” do “quanto pior melhor”, foi preciso o jornalista norte-americano Glenn Greenwald, com a retaguarda bilionária do gênio tech franco-americano Pierre Omidyar, para balançar as peças do xadrez político nacional. Por isso, a Vaza Jato parece ter despertado o nietzschiano “demasiado humano” naqueles que foram tirados do torpor: agora tenta-se encaixar aquilo que se vê na opinião que cada um tem de si - ou colocam sob suspeita o mensageiro, ou ansiosamente tentam criar teorias sobre a misteriosa fonte da equipe do Intercept Brasil. E se esquece da principal oportunidade que se abre: o conteúdo do vazamento e a investigação coletiva.
“O indivíduo quer geralmente por meio da opinião dos outros, certificar e fortalecer diante de seus olhos a opinião que tem de si”, escrevia o filósofo alemão Nietzsche na obra de 1878 “Humano, Demasiado Humano”. Texto que não só marcou a sua ruptura com o romantismo de Richard Wagner como também com o pessimismo de Schopenhauer, buscando libertar o espírito da “cupidez insatisfeita”.
Os vazamentos publicados pelo site Intercept Brasil, liderado pelo premiado jornalista Glenn Greenwald, não só revelaram as perigosas relações promíscuas entre Justiça, grande mídia, procuradores e Polícia Federal. Também despertou o “demasiado humano”, a que se referia Nietzsche, quando a bomba explodiu e espalhou estilhaços para todos os lados.
Jornalistas, grande mídia, governo e os, outrora, super-heróis Moro e Dallagnol, todos agora tentam puxar “a brasa para sua sardinha”. Isto é, encaixar o “ruído” que perturbou a paz de cemitério da (a)normalidade nacional dentro das narrativas de cada um. Isto é, transformar o escândalo da Vaza Jato em oportunidade reforçar a opinião que cada um tem de si mesmo.
Quem é o “Garganta Profunda”?
O curioso é que por todo o espectro político, da direita à esquerda, poucos parecem se deter no conteúdo das conversas vazadas do aplicativo Telegram. A maioria parece querer mesmo especular sobre quem é o “Garganta Profunda”: alguém a mando do STF querendo cortas as asas de Moro e República de Curitiba? Um hacker russo? Guerra híbrida do Deep State norte-americano para justificar um golpe militar no Brasil? Alguém de dentro da PF que por anos veio montando esse dossiê? Ação dos BRICS, coordenada pela Rússia, para evitar que o Brasil se torne um quintal dos EUA?
Como previsto, principalmente para a equipe do Intercept Brasil, Moro e Dallagnol pautam a grande mídia com a narrativa do crime cibernético. Tanto insistiram na criação desse roteiro que esqueceram de um detalhe: essa insistência estava fazendo-os esquecer do conteúdo das conversas comprometedoras.
O silêncio do ex-juiz e do procurador começava a soar como um atestado de autenticidade das informações vazadas. Então o ministro Sérgio Moro, fazendo sua tradicional cara de paisagem com os olhos perdidos no horizonte, passou a falar que “não vislumbrava nenhuma anormalidade” nas conversas vazadas e fugia de perguntas ou entrevistas.
Mais combativo, o procurador Dallagnol divulgou uma nota alarmista denunciando “invasão de celulares” dos procuradores do MPF. Uma “afronta grave e ilícita contra o Estado”, que a Polícia Federal já estaria monitorando há um mês – o que lembrou o clássico script dos atentados na Europa: sempre a polícia afirmava que “monitorava os suspeitos” há meses. O que não impedia dos supostos terroristas do ISIS explodir suas bombas, atropelar pedestres e largar (providencialmente!) qualquer documento de identificação nas proximidades dos incidentes.
Mas, se há uma afronta assim tão grave ao Estado, porque as vítimas Dallagnol e Moro não entregam seus celulares para que a Polícia Federal faça a perícia necessária?
Isso levou-os a mais uma contradição nas tentativas desajeitadas de dar algum tipo de resposta rápida à Greenwald e sua equipe. Sem uma narrativa verossímil, Moro ameaçou partir para as vias de fato: em entrevista publicada na última sexta-feira pelo Estadão, Sérgio Moro sugeriu que o Intercept Brasil estaria na mira da Polícia Federal.
Em sua tradicional tergiversação em "juridiquês" (sempre tentando encontrar algum álibi para a ação política), Moro falou em “crime em andamento”, muito além do que uma “invasão pretérita” – Moro recorreria ao “estado em flagrante delito” e abriria o menu tão conhecido da Lava Jato: diligências, busca e apreensão, condução coercitiva e prisão preventiva.
O próprio pivô da Vaza Jato mandando prender o mensageiro dos vazamentos? Isso pegaria muito mal... mas, convenhamos, todos esses anos da Lava Jato e as condições que levaram o atual Governo ao Poder provam que o País já atravessou há muito o rubicão...
A aposta da Globo
E a Globo está pagando para ver. Mas não sua tensa equipe de colunistas e analistas, que teme ser sugada pelo rodamoinho dos vazamentos que comprovem as notórias relações promíscuas com fontes judiciárias e policiais. Sob as rédeas do jornalismo de ponto eletrônico, estão sendo obrigados a embarcar numa missão que pode definitivamente acabar com suas credibilidades.
Greenwald já havia feito uma parceria com a Globo na divulgação do material das informações vazadas por Edward Snowden. Em 2013 era interessante para a emissora bombar aqueles vazamentos em pleno JN: denunciar que a presidenta Dilma e Petrobrás eram as principais vítimas de espionagem eletrônica da NSA. Para a Globo, mais um ingrediente para acirrar o então clima de desestabilização política – mostrar a tibieza de um governo em descontrole.
Mas agora não. Simplesmente porque a principal arma para a desestabilização política, cuja etapa mais contundente começava naquele ano, era a Lava Jato. Depois de tantos anos, a Globo não pode dar uma guinada de 180 graus na narrativa do combate à corrupção.
Mesmo ao custo de (para criar a percepção popular da ilegalidade da Vaza Jato) inventar o bizarro personagem do senhor Hacker que faria parte de um amplo ataque contra políticos e o próprio Estado. Em rede nacional, com direito a uma caprichada arte, o JN nos apresentou um educado hacker conversando com o hackeado (!), o procurador José Rovalim Cavalcante... um hacker educado, com português corretíssimo, sem ideologias, apartidário e ressaltando o bem que fez ao País a Lava Jato...
Além disso, narrativa do crime cibernético se encaixa perfeitamente à natureza tautista da Globo: ameaçada pelas tecnologias e mídias de convergência (ao lado do rentismo, seu ganha-pão ainda é a TV aberta – vender espaço publicitário em troca de entretenimento), costumeiramente em seus telejornais a pauta que envolve Internet e celulares sempre foi negativa: para a emissora, Internet, redes sociais e celulares são sinônimos de crime, vício, piratas e pedófilos.
É uma aposta alta. Não só poderá ficar mais uma vez para trás na História (como foi no episódio das Diretas Já nos anos 1980), como também poderá implicar no sacrifício de seus profissionais, pegos com a boca na botija pelos vazamentos do “Senhor Garganta Profunda”. E repetir o episódio da punição ao repórter esportivo Mauro Naves – responsabilizar incautos jornalistas individualmente por falha ética, por um modus operandi que é do próprio jornalismo global – clique aqui.
O bilionário Pierre Omidyar: instrumento de guerra híbrida?
Quinta coluna
E na outra ponta, mais à esquerda do espectro político, também o demasiado humano se revela: blogs “quinta coluna” criam uma outra narrativa – a de que Glenn Greenwald é mais instrumento de guerra híbrida do Deep State norte-americano. Uma partitura “made in CIA” para fazer a esquerda entrar no coral diversionista e criar um novo “incêndio do Reichstag” que criaria o álibi para o definitivo golpe militar brasileiro.
Afinal, “hackers russos” estariam por trás de tudo, disparando os alarmes das casernas. Para os EUA, pouco importaria o cenário interno da política brasileira. O mais importante é o xadrez geopolítico mundial de combate à China...
Greenwald seria suspeito. Afinal, por trás do Intercept, está o bilionário franco-americano Pierre Omidyar, fundador do eBay e do grupo de mídia progressista First Look. Cujo principal veículo é o portal de notíciasIntercept. Considerado a “menina dos olhos” do bilionário gênio tecnolológico. Recluso e pouco dado a entrevistas, Omidyar fez um aporte de 250 milhões de dólares no portal em 2013 com o objetivo de fazer, segundo ele, um jornalismo “mais independente” do que o da concorrência.
Mas o fato é que Greenwald com o seu “Garganta Profunda” fizeram, finalmente, o Brasil se mover.
Na falta das ruas ocupadas com manifestações contundentes (ou, como fala o jornalista Mino Carta, “sangue escorrendo pelas calçadas”) que criassem o transe de um país ingovernável (semelhante ao ataque mortal que a guerra híbrida desferiu contra o governo Dilma), e com uma oposição que mais parece apostar no quanto pior melhor e na confortável "Síndrome de Brian" (clique aqui), foi necessário um jornalista norte-americano para por em movimento o xadrez político nacional.
Essa foi a questão que despertou o “demasiado humano” dos personagens que outrora pareciam confortavelmente paralisados. Por todos os lados, ou colocam sob suspeita o mensageiro, ou ansiosamente tentam criar teorias sobre a misteriosa fonte da equipe doIntercept.
Cada um tenta se realinhar, procurando encaixar a Vaza Jato na própria narrativa pessoal. Em termos nietzschianos, certificar-se de que o que tem diante de si possa reforçar a opinião que cada um tem de si mesmo.
Enquanto o mais importante é esquecido: a investigação coletiva – cruzar cada dado dos vazamentos com os fatos e contextos dos últimos anos.
terça-feira, junho 11, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O terremoto
provocado pelo vazamento de conversas comprometedoras entre o então juiz Sérgio
Moro e autoridades da Lava Jato e Polícia Federal está cercado de ironias. O
site “Intercept Brasil”, do premiado jornalista Glenn
Greenwald, revelou relações promíscuas de Moro ironicamente dias depois do caso do jornalista
esportivo Mauro Naves no caso Neymar, outro caso de relações perigosas. Mas Greenwald não revelou
apenas a parcialidade da Justiça. Expôs internacionalmente o provincianismo e
paralisia do jornalismo brasileiro – foi necessário um “gringo” para abalar a
paz de cemitério mantida por jornalistas sabujos com rédeas e antolhos mantidos
pelas “famiglias” de proprietários midiáticos. Agora, Greenwald tornou-se o “Senhor
do Tempo”, com os prometidos vazamentos em conta-gotas, trazendo pânico para
empresários, políticos e, porque não, para ospromíscuos jornalistas que se lambuzaram por anos com os vazamentos das fontes na Justiça e Polícia Federal.
sábado, junho 08, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O veterano repórter esportivo Mauro Naves foi imolado de forma exemplar, em rede nacional, pela “carta aberta para a imprensa” lida por William Bonner no JN, que anunciou o afastamento do repórter. Naves teria “contrariado a expectativa da empresa com a conduta dos jornalistas”. O problema é que uma outra “carta aberta”, dessa vez dos ex-advogados da modelo Najila (revelando a intermediação do jornalista entre o pai de Neymar e os advogados), alarmou a diretoria da Globo. Não porque contrariou uma suposta expectativa ética da empresa. Na verdade, episódio revelou ao público o “modus operandi” tautista (tautologia + autismo midiático) da emissora. A Globo vive uma “promiscuidade estrutural”. O caso de Mauro Naves não foi desvio de conduta individual. É decorrência do próprio sistema de comunicação tautista da Globo. Devido a hipertrofia e obesidade sistêmica, todos os acontecimentos devem ser moldados à sua auto-descrição interna. E também nessa postagem, um “conto de autodestruição”, como bônus...
domingo, junho 02, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Todas as manhãs, os diversos “Bom Dia” (SP, Rio, Minas etc.) do telejornalismo local da Rede Globo desempenham uma função semiótica bem distinta dos telejornais de rede (JN, Hoje etc.) e da TV fechada. Nos telejornais de rede e GloboNews há uma repetição hipodérmica da expressão “Reforma da Previdência” (em torno de 20 a 30 vezes por hora) e más notícias econômicas como chantagem a uma categoria especial de telespectadores: os líderes de opinião. Enquanto nos telejornais locais a estratégia semiótica é outra: exibir “reportagens inspiradoras” e “boas notícias” para elevar a moral da patuleia desempregada, desalentada ou subempregada – “uberizada”. Diferente dos líderes de opinião, a massa dispersa e desatenta precisa ser motivada para elevar o moral no começo do dia. Nesse esforço motivacional nada escapa. Nem a previsão do tempo ou o evento esportivo da “Taça das Favelas”.
domingo, maio 19, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Cadê os black blocs? De 2013 a 2016, em toda manifestação de rua, lá estavam eles fazendo poses épicas para câmera e cinegrafistas em meio a chamas e destruição, enquanto eram incensados por alguns pesquisadores e artistas como “linda anarquia” antiglobalização. Por que desapareceram? Onde estavam nas grandes manifestações de rua, no dia 15, por todo o País contra os cortes na educação? Talvez suas ausências tenham uma relação direta com o atual governo que ocupa Brasília, embora o “manifesto do apocalipse” compartilhado por Bolsonaro nas redes sociais aponte para um governo vítima dos “interesses corporativos”. Ironicamente, um “manifesto” escrito por um espécime do mercado financeiro com seus interesses bem corporativos – um “não-acontecimento”. Sem black blocs, Bolsonaro responde às ruas através de um manifesto semioticamente criptografado para elevar o moral das milícias virtuais e reais. Numa estratégia de manter-se sempre no centro das atenções, seja como herói ou “boi de piranha”. Um discurso monofásico e repetitivo, como apontou o linguista Noam Chomsky em relação à estratégia midiática de Donald Trump, emulada por Bolsonaro.
domingo, maio 05, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O “Hilbert da Polícia Federal”, o policial “hipster lenhador”, a agente federal que posa de biquíni em redes sociais. São exemplos de uma glamourização midiática diária de policiais e agentes federais, com suas armas negras reluzentes, lubrificadas, coldres, metralhadoras empunhadas ao nível da virilha prontas para entrar em ação. Em tudo se assemelha àquilo que em cinema chama-se “product placement” (inserção de produtos de forma natural em cenas) - sistemática construção semiótica da “meganhagem” (o uso do poder de polícia para fins políticos) como diagnóstico e solução para as mazelas nacionais. Assim como fez a SS na Alemanha, transformando-se em poder paralelo no Estado. E a pedra de toque dessa estratégia é a freudiana fetichização das armas - ganhar apoio da opinião pública para o golpe dentro do golpe que se prepara: o Estado policial que manterá nas rédeas a Justiça, a Política e o povo.
segunda-feira, abril 01, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Principalmente a partir das manifestações de rua em 2013, a esquerda perdeu completamente o controle da sua agenda. Desde então, enquanto permaneceu no governo limitou-se a agir reativamente controlando danos. E fora do poder, limita-se a deixar o sangue subir à cabeça e reagir a cada provocação do clã Bolsonaro, aceitando entrar no jogo da guerra semiótica criptografada. Sem conseguir criar uma agenda própria. A recente foi a ordem de Bolsonaro para as casernas comemorarem o golpe militar de 1964 como uma “revolução popular” – escandalizada, esquerda vai às ruas como se quisesse salvar a própria biografia, enquanto o País marcha para “reformas”, uberização do trabalho e extermínio do futuro de uma geração inteira. O linguista Noam Chomsky diria que a oposição está caindo na primeira tática de manipulação: a Distração. Para depois, por em prática as outras nove táticas de criação de falsos consensos na opinião pública.
sábado, março 16, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
“Não tinha percebido, agora é tarde demais. A campanha deles começou há 20 anos... Um lento conta-gotas de medo e ódio...”. Talvez essa linha de diálogo do filme “Brexit” (narrando os bastidores de uma campanha política que disseminou polarização com todas as armas de uma guerra híbrida) seja uma das pistas para um início de discussão em torno do massacre na escola pública de Suzano/SP. Mais uma tragédia numa sucessão tão sincrônica de eventos que demonstra o quanto a psico-esfera nacional foi envenenada. Da recorrência de simbolismos dos sonhos nos períodos que antecederam guerras, constatada por Carl Jung na Alemanha, às “coincidências significativas” que acompanham os recentes massacres, ataques e atentados no Brasil, tudo parece comprovar uma dominância no inconsciente coletivo de “pontos nodais” de energia psíquica que influenciam ações de indivíduos. Há uma conexão entre a hipótese sincromística e Guerra Híbrida? Se existir a conexão, essa guerra semiótica teria um propósito mais profundo: a formação de um verdadeiro exército de zumbis para atuar em dois fronts: tecnologia da informação e disseminação do medo na sociedade.
sábado, março 09, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Muitos afirmam que o governo atual delibera através do Twitter. Parece que essas opiniões estão prisioneiras de uma aparência. Na verdade, esse governo se orienta principalmente pela estratégia de ocupação da pauta midiática de todo o espectro político. O capitão que posta “Xvídeos”?; “Golden Showers?”; declarações de que a democracia só existe por uma benesse das Forças Armadas? É um show que começou em setembro do ano passado e jamais termina: quase diariamente a irresponsabilidade retórica típica de uma eleição persiste num governo já eleito. Uma tática semiótica criptografada: criação sistemática de dissonâncias para cativar a atenção de toda a midiosfera. Enquanto isso, os movimentos da política executiva de terra arrasada seguem em frente, sem a devida atenção da opinião pública. A grande mídia participa do jogo para criar uma aparência de imparcialidade e se livrar de uma cobertura monofásica das “reformas”. E a esquerda perde suas energias com o doce sabor do prato frio da vingança oferecido de bandeja para ela.
sábado, março 02, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Desde o século passado a direita sempre esteve vários passos à frente ao lançar mão das tecnologias de ponta de cada momento. Lá atrás, nazistas usaram o rádio e o cinema. E hoje o nacionalismo de direita manipula algoritmos, inteligência artificial e mídias de convergência. Somente com uma formação interdisciplinar articulando ciências da comunicação, computação e política será possível a esquerda compreender as diferenças entre as dinâmicas de massificação e viralização, reformulando o ativismo e militância política. A esquerda terá que descer ao abismo simbólico para encontrar a si mesma. Esse foi o tema que dominou o workshop “Guerra Híbrida e Guerra Semiótica” ministrado por este editor do “Cinegnose” no último sábado (23/02) em Londrina/PR. Organizado pela Frente Ampla Pela Democracia, com apoio da Associação dos Professores do Paraná, o evento contou com auditório lotado de acadêmicos, estudantes, ativistas e sindicalistas, com muita curiosidade e entusiasmo para o debate.
Este humilde blogueiro esteve em Londrina/PR no último sábado (23/02) para abrir a “caixa de ferramentas” de referências teóricas e práticas fornecidas pela Ciência da Comunicação para servir de instrumento de ação naquilo que este “Cinegnose” vem denominado como “guerra semiótica” – episódio brasileiro da estratégia geopolítica de guerra híbrida que a geopolítica norte-americana vem encetando em países estratégicos e sensíveis às suas ações.
Lá encontrei o lotado auditório da Associação dos Professores do Paraná e um público bem heterogêneo (de acadêmicos e estudantes a ativistas e sindicalistas) e disposto ao bom debate – quando a curiosidade pelo saber motiva a busca por ações e alternativas. Um público vivamente disposto a entender a conjuntura atual e como o papel estratégico da Comunicação nesse momento.
Se a comunicação é a criação de um acontecimento, parece que o debate em Londrina alcançou o objetivo – até agora chegam perguntas e colocações através do grupo, criado após o workshop, no WhatsApp chamado “Guerra Híbrida Semiótica”.
“O que aconteceu?” e “O que fazer?”. Essas duas questões existenciais foram as que nortearam o debate, questões-chave desde os resultados eleitorais do ano passado que parece que ainda não terminou.
Ilusão consensual
Com todo o tempo disponível pela natureza de um workshop, este editor do “Cinegnose” começou definindo os conceitos de “bomba semiótica”, “guerra semiótica” e “guerra híbrida” e, principalmente, uma introdução à ciência da Semiótica. Principalmente a sua latente aplicação política com a noção de “signo”: se o que vemos não é a realidade, mas o signo da realidade, o que entendemos por realidade passa a ser uma “ilusão consensual”.
Em outras palavras, o que entendemos por realidade passa a ser de natureza perceptiva. O que abre margem à existência de “engenharias” de percepções. Portanto, isso altera o que entendemos por “comunicação”: de informação ou sinalização de um conteúdo (ideologia, discursos, doutrina etc.) passa a ser a criação de acontecimentos, “bombas” que criam repercussões destinadas especificamente a alterar essa ilusão consensual.
O workshop demonstrou como os nazistas no século XX compreenderam bem essa natureza, naquilo que Walter Benjamin chamou de “esteticização da política”: líderes que emulavam personagens do cinema mudo (a “canastrice” na política), ridicularizados no começo, mas que depois se tornaram críveis graças à analogia com a ficção cinematográfica. Hoje a TV faz esse papel – como Bolsonaro foi promovido como um mito tosco em programas de humor como Pânico na TV e CQC para depois virar um personagem ficcional que invadiu a “ilusão consensual” da realidade política.
Massificação e viralização
A partir desse ponto, passamos a manhã de sábado tentando compreender a grande novidade que a guerra híbrida trouxe para a comunicação e a política: a passagem das estratégias de massificação para as dinâmicas de viralização.
Muitos analistas ainda tomam como idênticos esses dois conceitos, como fossem regidos pelos mesmos princípios da psicologia de massas. Mas são muito diferentes, principalmente quando o workshop apresentou como a tecnologia algorítmica em Inteligência Artificial utilizado pela Cambridge Analytica e o fundo de hedge Renaissance Technologies de Robert Mercer foi decisiva para a vitória de Donald Trump e Bolsonaro – a aplicação dos algorítmicos probabilísticos da área financeira aplicada na mineração e análise de dados para comunicação política estratégica.
Enquanto a massificação implica em panfletagem, doutrinação ou disparo de discursos de forma indiscriminada para a sociedade como um todo, a viralização significa modular o discurso para perfis específicos que, sabe-se, irá compartilhar para sua rede de relações.
Na realidade, influenciadores ou líderes de opinião já eram conhecidos desde as pesquisas empíricas de recepção de Paul Lazarsfeld nos anos 1930-40 nos EUA. A diferença é que na atualidade a tecnologia de mineração de dados potencializou essa estratégia.
Métodos dedutivo e indutivo na política
Isso significa que no espectro político há duas maneiras bem distintas de atuação política na comunicação: enquanto a esquerda se orienta por um método dedutivo (parte de valores éticos e morais universais para tentar transformar a realidade – do universal ao particular) a direita é indutiva - do particular para o universal, da manipulação das percepções e sensações para depois criar uma narrativa política geral.
Enquanto a esquerda se escandaliza ao ver a sociedade ir contra os valores kantianos universais de dignidade, cidadania e liberdade e tenta conscientizar as massas dessa realidade, a direita induz percepções (signos da realidade) para depois criar narrativas “universais” – conspirações comunistas, LGBTs, midiáticas etc. Não à toa que a direita se apropriou da imagem antissistema ou revolucionária que sempre esteve do lado da esquerda.
Por isso, somos capazes de ver o “filósofo” Olavo de Carvalho (guru da “alt-right” tupiniquim) usar o mesmo discurso da esquerda, mas com sinais trocados – por exemplo, denunciar o “autoritarismo dos meios de comunicação” que quer impor o “politicamente correto”, a “ditadura gay”, o “petismo”...
O que fazer?
A partir desse ponto, o “o que fazer” tomou conta dos debates: como se contrapor ao tripé semiótico no qual se baseia a tática de guerra semiótica da direita? – apropriação (do discurso antissistema, dos símbolos nacionais com a técnica semiótica da iconificação etc.), provocação (formas de comunicação indireta para falar com a maioria silenciosa e não com o interlocutor) e polarização (usar o discurso beligerante para travar qualquer debate público racional).
Discutimos desde a necessidade de modelagem o discurso (direcionar mensagens para perfis ou líderes de opinião para conseguir efeitos virais – o que implicaria entrar na área do “ativismo cibernético”).
E também as polêmicas, por assim dizer, “baterias anti-áereas” contra as bombas semióticas da grande mídia: as táticas de guerrilhas anti-mídia – pegadinhas (“media prank”) e trolagens (“culture jamming”) com o objetivo sistemático de desmoralizar a mídia corporativa.
Principalmente quando sabemos que a mídia clássica ainda tem um importante papel, mesmo com o crescimento das mídias de convergência (smartphones, tablets etc.). Hoje a grande mídia tem um papel de agendamento da pauta e não mais de doutrinação ideológica, como no passado. Daí a importância da existência de uma sistemática ação de guerrilha midiática.
Nesse sentido, a recente trolagem criada pelo ator José de Abreu (se autoproclamando presidente do Brasil, da mesma maneira como a mídia auto empossou Juan Guaidó como presidente da Venezuela) é uma bomba semiótica perfeita. Um exemplo que a esquerda poderia replicar.
Respostas a questões levantadas nos debates no workshop:
(1) Teremos que fatalmente nos apropriarmos dessas armas (elas demandam conhecimento, grana, operadores especializadíssimos e, fundamentalmente, a Munição da Indução, a qual, a ética não tem lá tanta relevância) ou se, descobrindo e construindo Baterias Antiaéreas seria suficiente para resistirmos com danos menores?
Resposta: A direita de hoje possui o mesmo modus operandi do século XX. Se lá o nazifascismo utilizou-se das tecnologias de ponta da época, rádio e cinema, hoje se apropria da inteligência artificial que rendeu milhões para Robert Mercer no mercado financeiro – algoritmos probabilísticos que preveem tendência de ações e títulos. E agora preveem escolhas ideológicas e partidárias de determinados perfis. De alguma maneira, em algum momento, a esquerda terá que se tornar interdisciplinar: sair do campo familiar das ciências humanas e se enveredar pelo ativismo digital no campo das chamadas “ciências exatas”.
Isso nos leva à questão ética: teremos que usar o mesmo condenável modus operandi de indução da direita? Essa é uma questão que esse humilde blogueiro não tem ainda uma resposta pronta, mas também em algum momento a esquerda terá que lutar no mesmo campo simbólico da direita. A esquerda terá que descer no abismo para encontrar a si mesma.
(2) O que explica que mesmo com o uso dessa arma poderosíssima já em ação em toda a campanha, caso não fosse impedido de disputar a eleição, Lula venceria já no primeiro turno, como indicavam todas as pesquisas a menos de um mês para a eleição?
Resposta: Isso talvez seja relativo. Como demonstrou uma reportagem do insuspeito jornal “El País” sobre os motivos que levaram João Doria Jr a ganhar votos na periferia de São Paulo, para muitos a leitura sobre Lula era meritocrática – um metalúrgico que chegou à presidência pelas vias do mérito e do trabalho, aquele que “começou de baixo”... assim como Doria Jr que chegou à prefeitura de SP... (leia “A metamorfose do eleitor petista da periferia que decidiu votar em Doria” – clique aqui). A promoção “Sebastiana” do mito Lula (como o “salvador” e “conciliador”) pode chegar a essas interpretações bizarras.
(3) Será que para termos uma perspectiva de sucesso à nossa Resistência e consequentes avanços, não é necessário juntarmos o aprendizado em identificarmos os disparos desses Mísseis poderosos, aprendermos a operar as Baterias Antiaéreas e, ao mesmo tempo, treinarmos nossas tropas nos quartéis de "média patente" através do resgate de Programas de Formação de Formadores? Programas já desenvolvidos há tempos atrás, com sucesso, pelas Centrais Sindicais nos Sindicatos e CPCs (Centros Populares de Cultura) nas Universidades e comunidades periféricas?
Resposta: Pergunta que faz a gente voltar à primeira questão acima: a partir do ponto em que chegamos, é urgente repensar a formação e formas de atuação política. Na verdade, desde a vitória do nazismo na Alemanha, a esquerda se tornou o cachorro-que-caiu-do-caminhão-de-mudança. Se mal compreendeu o papel do rádio e do cinema naquele contexto entre guerras, o que dirá diante das tecnologias de convergência atuais? Como disse, é necessária uma formação interdisciplinar na atuação política – Ciências da Computação e Comunicação combinadas com a Ciência Política. E muito bom humor, ironia e sagacidade com as “baterias antiaéreas” das pegadinhas e trolagens contra-midiática.
(4) Minha questão que eu gostaria que ele comentasse é a relação da semiótica no Teatro Imagem de Augusto Boal. Lembro que uma frase que sempre repetimos nas oficinas de Teatro Imagem é que " a imagem é real enquanto imagem".
Resposta: Com o Teatro do Oprimido, Boal focava as linguagens não verbais: pensar com as imagens, sem o uso das palavras, usando o próprio corpo do ator e objetos como forma máxima de expressão. Com isso, Boal queria expandir as possibilidades de expressão do oprimido – imaginação, percepção, relacionamento etc.
De fato, uma analogia perfeita para a expansão das táticas de ação política em torno da comunicação: não ficar apenas no campo do discurso verbal e de conscientização (método dedutivo) e se aventurar pelo campo semiótico da percepção, da iconificação e da apropriação imaginativa de todo signo, principalmente daqueles produzidos pela própria grande mídia no sentido de invertê-la.
De novo, a trolagem do ator José de Abreu: ridicularizar a autoproclamada posse de Juan Guaidó, tão levada a sério pelo jornalismo corporativo.
A todos os organizadores e participantes do workshop meu sinceros agradecimentos pela oportunidade e contribuições com novas ideias que todos trouxeram ao debate!
terça-feira, fevereiro 19, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O telejornalismo é um dos principais produtos televisivos. Não importa se as notícias sejam boas ou ruins. No todo, o produto deve garantir uma experiência esteticamente agradável para o espectador. Em suma, ser um “infotenimento”, para atrair prestígio, anunciante e rentabilidade. Porém, a atmosfera pesada desse início de ano baixou nos telejornais: Brumadinho, jovens atletas mortos no incêndio do CT do Flamengo, notícias diárias de feminicídios, câmeras nas ruas mostrando valentões armados disparando e matando em prosaicas brigas de trânsito ou simples disputa de vaga num estacionamento e seguranças matando pobres em supermercados. Conjunções adversativas e adjuntos adverbiais já não dão mais conta de neutralizar o tsunami de tragédias e violência – amenizar as más notícias para garantir a experiência "infotenimento". Agora, repórteres da Globo repetem a expressão “a boa notícia é que...”: encontrar alguma brecha de esperança no "outro lado" das más notícias. A grande mídia perdeu o controle do próprio monstro que criou...
terça-feira, fevereiro 12, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Cansada de tantas derrotas nos últimos tempos, a esquerda
simplesmente comemora como fosse um gol a forma como a Globo detonou a ministra
Damares Alves no quadro “Detetive Virtual” no Fantástico do último domingo. Uma
detonação bem seletiva: enquanto a emissora demonstra toda sua indignação e
furia investigativa nas questões identitárias e de costumes (vide a caça aos
abuso sexuais de João de Deus), as tragédias de Brumadinho e do incêndio no Centro
de Treinamento do Flamengo são encaixadas na narrativa “tragédia-emoção-homenagens”
– com direito a Galvão Bueno narrando os nomes dos jovens atletas mortos... Depois
de colocar Lula na prisão perpétua e por os militares no Governo, agora o novo
papel da Globo é varrer a luta de classes para debaixo do tapete – cônscia de
que, a partir de agora, acidentes como esses e a tensão social tenderão a
crescer sob o modelo econômico de extrativismo selvagem: vender commodities
módicas como ferro, manganês e jovens jogadores. Tudo a baixo custo, no limite
da irresponsabilidade. Enquanto isso, sem se ater à tática semiótica de
dissonância posta em ação pela parceria Governo/Globo, a esquerda reage de
forma reflexa a cada bravata “politicamente incorreta” e esquece da luta de
classes.
quinta-feira, janeiro 10, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Como fazer uma sátira política de um país que parece imitar os estereótipos que a própria mídia faz da América? Como fazer humor de um país que já teve um ex-ator de Hollywood como presidente e, o atual, um dublê de empresário e ex-apresentador de reality show de TV? Esse é o desafio do comediante Sacha Baron Cohen na série “Who is America?” (2018-): como satirizar um país no qual a realidade parece superar a comédia. Cohen interpreta cinco hilários personagens que entrevistam e fazem “pegadinhas” em norte-americanos que vão desde desconhecidos até senadores, deputados e juízes dos EUA, através de todo espectro político e cultural. Cada episódio consegue persuadir os entrevistados (seja de esquerda ou direita) a colocar para fora seus extremismos, preconceitos e qualquer coisa bizarra sugerida pelas ainda mais bizarras caricaturas de Sacha Cohen. “Who is America?” mostra que, na atualidade, estar diante de uma câmera é a nova hipnose: ajuda a revelar o pior de nós mesmos.
quarta-feira, dezembro 12, 2018
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Depois de décadas de controvérsias, acusações de assassinato, pedofilia e abusos sexuais, repentinamente “a verdade bateu à porta”, como disse Pedro Bial, e seu programa deu a partida para a caça ao médium-celebridade João de Deus, com atualizações diárias que já rivalizam com a meganhagem também diária das prisões da PF nas telas. Sabemos que para o jornalismo da Globo não basta apenas a verdade “bater a porta” – é necessário a “verdade” ter timing e oportunismo dentro das estratégias políticas da emissora. Soma-se a isso a também repentina indignação e atualizações diárias sobre o espancamento e morte do cão “Manchinha” em um hipermercado em Osasco/SP, uma notícia que na paginação tradicional dos telejornais seria colocada no bloco das notícias diversas. Tudo na semana do vazamento de movimentação atípica de dinheiro na conta de assessor de Flávio Bolsonaro, pressão da grande mídia por explicações e a resposta “bonapartista digital” de Jair Bolsonaro na sua diplomação no TSE: “o poder popular não precisa de intermediação”, apostando nas novas tecnologias para governar o País sem a grande mídia. Fala-se que a Globo “não dá ponto sem nó”: quais nós a TV Globo está apertando para 2019 com essas “anomalias” jornalísticas no final do ano?
Cinegnose participa do programa Poros da Comunicação na FAPCOM
Este humilde blogueiro participou da edição de número seis do programa “Poros da Comunicação” no canal do YouTube TV FAPCOM, cujo tema foi “Tecnologia e o Sagrado: um novo obscurantismo?
A Semiótica da Matrix - entrevista do Cinegnose ao Conacine
Prof. Wilson Ferreira, editor do blog "Cinema Secreto: Cinegnose" fala como a semiótica pode ajudar a analisar o filme Matrix e a atual matrix tecnológica
Palestra Cinegnose na FATEC
Esse humilde blogueiro participou da 9a. Fatecnologia na Faculdade de Tecnologia de São Caetano do Sul (SP) em 11/05 onde discutiu os seguintes temas: cinema gnóstico; Gnosticismo nas ciências e nos jogos digitais; As mito-narrativas gnósticas e as transformações da Jornada do Herói nas HQs e no Cinema; As semióticas das narrativas como ferramentas de produção de roteiros.
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Coleção Curtas da Semana
Lista semanalmente atualizada com curtas que celebram o Gnóstico, o Estranho e o Surreal
Inspirado no "Livro Tibetano dos Mortos" (uma espécie de guia do mochileiro pós-morte na sua jornada de elevação da consciênc...
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Bem Vindo
"Cinema Secreto: Cinegnose" é um Blog dedicado à divulgação e discussões sobre pesquisas e insights em torno das relações entre Gnosticismo, Sincromisticismo, Semiótica e Psicanálise com Cinema e cultura pop.
A lista atualizada dos filmes gnósticos do Blog
No Oitavo Aniversário o Cinegnose atualiza lista com 101 filmes: CosmoGnósticos, PsicoGnósticos, TecnoGnósticos, AstroGnósticos e CronoGnósticos.
Esse humilde blogueiro participou do Hangout Gnóstico da Sociedade Gnóstica Internacional de Curitiba (PR) em 03/03 desse ano onde pude descrever a trajetória do blog "Cinema Secreto: Cinegnose" e a sua contribuição no campo da pesquisa das conexões entre Cinema e Gnosticismo.
Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus.
Neste trabalho analiso a produção cinematográfica norte-americana (1995 a 2005) onde é marcante a recorrência de elementos temáticos inspirados nas narrativas míticas do Gnosticismo.>>> Leia mais>>>
"O Caos Semiótico"
Composto por seis capítulos, o livro é estruturado em duas partes distintas: a primeira parte a “Psicanálise da Comunicação” e, a segunda, “Da Semiótica ao Pós-Moderno >>>>> Leia mais>>>