terça-feira, julho 19, 2016
Wilson Roberto Vieira Ferreira
A
nova série Netflix “Stranger Things” (2016) faz um mergulho em um subgênero dos
anos 1980 que levou as teorias conspiratórias aos blockbusters: “ET”, “Contatos
Imediatos”, “Os Goonies”, “Viagens Alucinantes”, “A Coisa”, etc. Mas também
leva a sério a mãe de todas as conspirações, aquela que os pesquisadores da
área chamam de Teoria da Conspiração Unificada (TCU) por explicar todos os
paradoxos científicos atuais: o chamado “Projeto Montauk”. A série “Stranger
Things” (que originalmente se chamaria “Montauk”) se inspira nas especulações
em torno desse nebuloso projeto do Departamento de Defesa dos EUA dos anos
1970-80 envolvendo guerra psicológica e psíquica, além de controle da mente à
distância. Mas parece que produziu algum efeito colateral que fez o Projeto
terminar abruptamente em 1983. E agora esse efeito ameaça uma pequena cidade
dos EUA.
Desde que um OVNI
caiu em Rosswel, Novo México, em 1947 o mundo não foi mais o mesmo. Seu
resultado foi um imaginário que juntou a Área 51, testes nucleares no Deserto
de Nevada e os decorrentes fantasmas da contaminação radioativa e Guerra Fria. E
tudo amplificado por Hollywood e seus filmes sci-fi de monstros radioativos e
invasões da Terra por discos voadores e ETs prontos para ocupar os corpos
humanos.
A indústria do
entretenimento irradiava a paranoia para todo o planeta e o seu personagem
correspondente: o moderno detetive, aquele que não mais resolve crimes, mas
agora conspirações. O detetive virou um arquétipo contemporâneo, cujo
personagem Fox Mulder da série Arquivo X
é o seu maior representante.
Mas o Detetive
soma-se ao arquétipo do Estrangeiro, personagem que vê no deserto a melhor
metáfora para a condição de estranhamento e alienação com esse mundo – não é à
toa que todo a paranoia contemporânea se originou no Deserto de Nevada. Com
isso, o Detetive, a paranoia e as conspirações se associaram a todos os
“estranhos”: freaks, geeks, losers e
outros habitantes dos undergrounds.
A nova série do
Netflix Stranger Things dos irmãos
Matt e Ross Duffer faz um mergulho retro a uma época que viveu mais um pico
desse clima conspiratório: os anos 1980 da Era Ronald Reagan onde a Guerra Fria
foi reavivada.
Lançada nesse
mês, a série faz uma verdadeira arqueologia de um subgênero que prosperou
naquela década e que levou o imaginário da paranoia e conspirações ao nível do
entretenimento: Contatos Imediatos, ET,
Viagens Alucinantes (Altered States),
Os Goonies, Indiana Jones, A Coisa. Tudo
embalado pelo som sync-pop da época.
Mas na sua
pesquisa arqueológica daquela década, Stranger
Things vai resgatar a mãe de todas as conspirações, considerado por muitos
a Teoria Conspiratória Unificada (TCU) capaz de explicar todos os mistérios e
paradoxos do mundo atual: o chamado Projeto Montauk, a verdadeira Área 51 dos
anos 70-80.
E o que torna a
série um marcante exemplo da sensibilidade pós-moderna atual é que seus
autores, os irmãos Duffer, nasceram nos anos 1990. Ou seja, a série é
atravessada por uma paradoxal nostalgia de uma época que não foi vivida pelos
autores. Por isso, Stranger Things é
ainda mais arquetípica: os Duffer fazem uma reconstituição detalhista de um
subgêneros dos anos 1980 para tentar expressar um imaginário (detetives e
estrangeiros) ainda atual.
A
Série
A ação ocorre em 1983 numa pequena cidade de Indiana onde uma dos nerds locais chamado Will desaparece
abruptamente quando retornava para casa à noite em sua bike BMX depois de jogar
“Dungeons e Dragons” com seus amigos.
Sua mãe Joyce (Winona Ryder) fica histérica e pressiona o relutante xerife Jim
Hooper (David Harbour) a iniciar uma busca. Para Jim, numa cidade como aquela
nada verdadeiramente ruim poderia acontecer.
Mas coisas ruins
e estranhas estão acontecendo. Há uma perigosa criatura à solta em meio a
flashs de luz. E enquanto os adultos demoram para reagir, um trio de garotos e
o irmão adolescente de Will juntam-se para encontra-lo.
No meio de uma
das buscas na floresta local, encontram uma misteriosa e lacônica menina:
Eleven. Ela está suja, descalça e tem a cabeça raspada. Parece estar fugindo de
algo ou teme por alguma coisa muito assustadora. Logo descobrirão que ela tem
fortes poderes psíquicos telecinéticos.
Eleven está sendo
perseguida por misteriosos agentes – com suas maletas e ternos aparentam fazer
parte de alguma agência secreta do Governo. Tudo parece girar em torno do
prédio do Departamento de Energia e Luz da pequena cidade. Logo de cara
descobrimos que não é apenas um mero departamento municipal: esconde-se nos
subterrâneo um complexo de laboratórios onde são realizadas estranhas experiências
(entre elas, tanques de privação sensorial) das quais Eleven foi a principal
cobaia e de onde conseguiu escapar.
Esses misteriosos
agentes são frios e inescrupulosos e farão de tudo para recuperá-la. Quem é
Eleven? Para onde Will foi levado? O que há no Departamento de Energia e Luz da
cidade? Qual o propósito das experiências realizadas lá? O que é aquela
estranha criatura à solta? Essas serão as perguntas que essa primeira temporada
da série responderá.
Muitos críticos
comparam a série ao filme Super 8, uma
grande homenagem a Steve Spielberg, fundador desse subgênero blockbuster com ET e Contatos
Imediatos. Mas Stranger Things é
mais sombrio: a mãe de Will, Joyce, é separada e vive a típica situação de mãe
ausente pela necessidade de trabalhar como caixa. Culpa-se pelo desaparecimento
do filho. Enquanto o trio de garotos (os “goonies” da série) são hostilizados
na escola como nerds e perdedores.
Stranger Things tem um evidente appeal pelos “estranhos”
(os atores infantis parecem ter sido escolhidos a dedo para dar essa sensação), os
estrangeiros – somente aqueles que vivem essa condição de estranhamento com o
seu ambiente é capaz de perceber aquilo todos não percebem porque prisioneiros
da mentalidade limitada pelo senso comum.
Mas ao mesmo
tempo os irmãos Duffer rendem homenagem a todos os clichês que compõem a
narrativa desse subgênero: um grupo de crianças normais se encontra com o
sobrenatural; todos os personagens vivem em uma típica pequena cidade
norte-americana; uma das crianças tem uma mãe solteira/separada; mistura do
estranho com o familiar (por exemplo, o buraco na parede que vira um canal de
comunicação com o “mundo invertido”); o adolescente que vive um triângulo
amoroso aparece para ajudar o grupo de crianças.
O Projeto
Montauk - alerta de potenciais spoilers
Originalmente a
série Stranger Things se chamaria “Montauk”, obviamente inspirada na famosa
lenda do Projeto Montauk.
Montauk foi
supostamente uma série de projetos secretos do governo norte-americano
localizado em Camp Hero, na Estação da Força Aérea de Montauk, Long Island,
Nova York, entre final dos anos 1960 até 1983. Pesquisadores sustentam que secretamente o
projeto pretendia desenvolver um conjunto de armas de guerra psicológica
visando a supremacia na Guerra Fria entre EUA e URSS. A ideia era direcionar
pulsos eletromagnéticos contra o inimigo para induzi-lo a sintomas de
esquizofrenia.
O navio USS Edridge do Projeto Philadéfia
Na verdade, as
origens do Montauk estaria no Projeto Filadélfia na Segunda Guerra Mundial,
pesquisa que envolvia a invisibilidade ótica e por radar de navios de guerra
através de imensos geradores de campos eletromagnéticos. A experiência decisiva
teria sido com o USS Eldridge que teria ficado invisível por três horas. Quando
retornou, sua tripulação estava psicologicamente perturbada e muitos
enlouqueceram definitivamente - há um filme sobre esse Projeto, o The Philadelphia Experiment (1984) de Stewart Raffill .
Vislumbrando
possibilidades de criação de armas, no final dos anos 1960 foi criado uma base
subterrânea em Montauk, pelo Departamento de Defesa, em um local destinado a
ser um parque público. Um parque que jamais foi aberto sob alegação de
contaminação ambiental.
As pesquisas partiram
da tese de que a mente humana emitia ondas magnéticas que seriam decodificadas
por sensitivos. A ideia seria a criação de ondas artificiais na mesma
frequência das naturais, possibilitando o controle de mentes à distância.
Só que as pesquisas
tomaram um rumo inesperado com a construção da “cadeira Montauk” e experiências
em tanques de privação sensorial: ao unir o cérebro a um computador, a mente
foi capaz não só de materializar objetos como também abrir uma fenda
tempo/espaço possibilitando viagens no tempo através da mente – o chamado
“hiperespaço” ou o “mundo invertido” como se refere na série Stranger Things.
Camp Hero, Montauk em Long Island
Essa fenda abriu
também um inesperado loop tempo/espeço com a experiência do USS Eldridge em
1943. Muitos teóricos da conspiração alegam que o Projeto Montauk pode intervir
na Segunda Guerra Mundial (já que os nazistas também faziam estudos avançados
com armas psíquicas). Isso sem falar nos contatos com seres e tecnologias
alienígenas por meio do hiperespaço, de onde vem todas as teorias sobre grays e
reptilianos por trás das decisões políticas mundiais.
O Projeto Montauk
terminaria de forma abrupta: em 1983, numa experiência ao conectar a mente com
o hiperespaço, um pesquisador libertou sem querer um monstro do inconsciente
(outras interpretações falam que essa criatura teria vindo do futuro),
destruindo completamente as instalações e matando diversos funcionários e
cientistas.
E a série é ambientada
exatamente em 1983, ano do suposto trágico final do Projeto. E aparentemente, esse
monstro que escapou do hiperespaço está ameaçando a pequena cidade de Indiana na série.
Se Stranger Things for seguir à risca essa
TCU (como parece nessa primeira temporada) o leitor deve esperar coisas ainda
muito mais estranhas e bizarras na próximas temporadas.
Ficha
Técnica
Título: Stranger
Things (série)
Diretor: Matt Duffer, Ross Duffer
Roteiro:Matt Duffer, Ross Duffer
Elenco: Winona Ryder, David Harbour,
Finn Wofhard, Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin
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Este humilde blogueiro participou da edição de número seis do programa “Poros da Comunicação” no canal do YouTube TV FAPCOM, cujo tema foi “Tecnologia e o Sagrado: um novo obscurantismo?
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Bem Vindo
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Esse humilde blogueiro participou do Hangout Gnóstico da Sociedade Gnóstica Internacional de Curitiba (PR) em 03/03 desse ano onde pude descrever a trajetória do blog "Cinema Secreto: Cinegnose" e a sua contribuição no campo da pesquisa das conexões entre Cinema e Gnosticismo.
Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus.
Neste trabalho analiso a produção cinematográfica norte-americana (1995 a 2005) onde é marcante a recorrência de elementos temáticos inspirados nas narrativas míticas do Gnosticismo.>>> Leia mais>>>
"O Caos Semiótico"
Composto por seis capítulos, o livro é estruturado em duas partes distintas: a primeira parte a “Psicanálise da Comunicação” e, a segunda, “Da Semiótica ao Pós-Moderno >>>>> Leia mais>>>