sábado, setembro 28, 2019

O todo nunca é a soma das partes no filme "The Square: A Arte da Discórdia"


Distraído por uma afluente vida pós-moderna, cercado por mantenedores de arte milionários e artistas e instalações conceituais, um bem-sucedido curador de um museu de Estocolmo vive em uma bolha social. Lá fora, o crescente problema dos refugiados e sem-tetos deitados nas limpas calçadas suecas. Até que o roubo da sua carteira e celular e a chegada de uma enigmática exposição chamada “O Quadrado” fazem o caos invadir a vida do protagonista:  um incidente catastrófico de relações públicas para o museu somado ao inferno pessoal o fazem descer à realidade. Esse é o novo filme do diretor sueco Ruben Östlund “The Square: A Arte da Discórdia” (2017), no qual a arte continuará alienada da realidade enquanto acreditar que a soma de boas intenções individuais poderá mudar o mundo. Porque o todo é muito maior do que a soma das partes.  

quarta-feira, setembro 25, 2019

Cinco novas ferramentas semióticas de manipulação em tempo de paz de cemitério


O Jornalismo possui duas funções no Sistema: alarme (“jornalismo de guerra”) e autorregulação sistêmica (unir o jornalismo à linguagem publicitária e do entretenimento em períodos de “paz” - de cemitério - para manter o equilíbrio e normalidade do cotidiano). Desde o desfecho bem-sucedido da guerra híbrida brasileira com o impeachment de 2016, a função de alarme deu lugar ao de autorregulação na grande imprensa dos jornalões e telejornais – manter na normalidade o moral do distinto público e a agenda neoliberal nos trilhos. As bombas semióticas do período de guerra dão espaço a cinco novas ferramentas do kit semiótico de manipulação da opinião pública: Naturalização, Empirismo, Contaminações Metonímicas, Rocamboles Informativos e Metalinguagem - autorreferência. É como se diariamente o jornalismo afirmasse para nós: “Não olhe muito de perto!”; “Aqui não há nada demais para se ver!”; “1 + 1 é sempre igual a 3”; “A culpa é mesmo do povo” e, diariamente, “Tenha um bom infotenimento!”

domingo, setembro 22, 2019

Curta da Semana: "Rust in Peace" - perto de Deus, rejeitado por Ele

Um robô velho e enferrujado desperta em um depósito de ferro-velho. Ele se levanta e vai em direção a um deserto para dar início a sua caminhada solitária em busca do seu criador. O curta metragem “Rust in Peace” (2018) adiciona um novo ângulo ao tema clássico das relações disfuncionais entre criador e criatura. Robôs, androides ou replicantes são revivals modernos do impulso humano da “teurgia”: tentar aproximar-se de Deus ao criar vida, assim como a Alquimia e a Cabala idealizavam seres como o “Homúnculo” e o “Golem”. Mas desde Frankenstein de Mary Shelley, o homem decepcionou-se com o seu criador, ao descobrir que, na verdade, ele é um Demiurgo que nos rejeita. Assim como o pobre robô de “Rust in Peace” descobrirá na sua jornada solitária: ele revive a própria condição humana gnóstica.

sábado, setembro 21, 2019

A Luta de classes no Capitalismo Cognitivo no filme "Parasita"

O diretor sul-coreano Joon-ho Bong é um especialista no tema luta de classes. Seus filmes como O “Expresso do Amanhã” e “Okja” são variações sobre um tema cada vez mais aprofundado pelo diretor. Até chegar a “Parasita” (Gisaengchung, 2019), Palma de Ouro em Cannes, sua reflexão mais profunda tomando como cenário o chamado “Capitalismo Cognitivo”: “não-pessoas” com seus celulares e cercados de tutoriais e aplicativos, prontos para subempregos terceirizados – forma avançada de capitalismo na qual os patrões tornam-se invisíveis e a luta de classes oculta em camadas de apps. Desempregados e “uberizados”, a família Kin-taek passa a se interessar pela família Park. Ricos, terceirizam na sua residência todos as necessidades cotidianas. É a chance dos Kin-taek arrumarem um emprego mais estável. Mas uma perturbadora revelação trará consequências catastróficas para todos os envolvidos.

terça-feira, setembro 17, 2019

Guerra Criptografada: Prefeitura faz limpeza semiótica nas ciclofaixas de São Paulo


“Requalificação”, “manutenção”. Assim o prefeito Bruno Covas vem justificando a retirada da pintura em vermelho das ciclofaixas da cidade de São Paulo. De repente incensado pela imprensa progressista como “moderado” e “conciliador”, com esses neologismos Covas na verdade requenta a querela do “vermelho subliminar do PT” das ciclofaixas do prefeito Haddad, como alertou em 2014, imbuída de urgente “dever cívico”, a professora de Semiótica da PUC/SP, Lúcia Santaella. Não importa se a cor é uma convenção internacional justificada pelas pesquisas de percepção visual. A uberização dos desempregados em bikes de entregas de comida por aplicativos e os transportes alternativos de start ups tecnológicas, colocaram em evidência as ciclofaixas. Por isso, se faz necessário uma “limpeza semiótico-ideológica” dessas vias. E dar mais um lance no xadrez da atual guerra semiótica criptografada, para manter em constante estado de beligerância e adrenalina alta as milícias digitais e físicas dentro do sombrio projeto político do clã Bolsonaro.

domingo, setembro 15, 2019

O preço sombrio da felicidade em "A Porta"


Por trás de uma grande fortuna há um crime. O que você faria se tivesse a oportunidade de voltar no tempo e consertar decisões erradas? Essas duas ideias são combinadas em um curioso filme sobre viagem no tempo, sem o tradicional tom sci-fi e muito mais com uma atmosfera de conto de fantasia ao estilo “Alice no País das Maravilhas”. É o filme alemão “A Porta” (“Die Tür”, 2009) sobre um artista plástico bem-sucedido remoído pela culpa com a morte da sua filha, destruindo seu casamento e a si mesmo. À beira do suicídio, descobre uma estranha porta nos fundos de um jardim que o conduz ao dia exato da morte da sua filha. É a chance de consertar o erro. Mas também descobrirá que há um preço sombrio a pagar pela felicidade. Filme sugerido pelo nosso colaborador Felipe Resende.

sábado, setembro 14, 2019

Satanás é o último dos humanistas na série "Lucifer"


Séculos de desinformação e mentiras, das religiões até filmes e livros, fizeram nos confundir a figura de Lúcifer com o próprio Mal – com “Satanás” ou o “Diabo”, o príncipe dos infernos e da perdição. Como um produto audiovisual mainstream, a série “Lucifer” (2015-) parte dessa visão estereotipada para, ao longo dos episódios das quatro temporadas, retornar ao significado original dos antigos ensinamentos gnósticos: Lúcifer como a “Estrela da Manhã”, “o portador da Luz” – o anjo da Luz que com seu intelecto individual se rebela contra autoridades obscuras externas. Na série, Lúcifer volta à Terra depois de se entediar como governante do Inferno, um castigo imposto pelo seu Pai, o Criador. Vai para Los Angeles e se torna dono de uma badalada casa noturna e consultor de uma detetive da LAPD. Torna-se então um estudioso da natureza humana, um "humanista": seus crimes e sentimentos de culpa. Ou seja, aquilo que nos faz criar o Inferno dentro de nós mesmos.

quarta-feira, setembro 11, 2019

Ao invés de conquistar corações e mentes, Esquerda prefere ser o cão de Pavlov


O “cão de Pavlov” foi o protagonista de uma experiência que revolucionou a propaganda política e a publicidade do século XX. Há 100 anos o médico russo Ivan Pavlov descobriu o reflexo condicionado: apenas o som de uma sineta fazia o cão salivar de fome, mesmo sem ter na sua frente um prato de comida. Diante da repetição de estímulos diários através de bravatas, provocações escatológicas, chulas e autoritárias do Governo, a guerra semiótica criptografada tem jogado a esquerda e oposições num labirinto de informações desconexas, transformando-as em um cão de Pavlov pós-moderno que reage de forma reflexa aos estímulos. Saliva de ódio e reage com o fígado, ficando apenas nas trincheiras da “guerra cultural”. Enquanto o patrimônio nacional é rapidamente vendido na xepa do mercado. Em sua guerra particular, esqueceu das massas silenciosas, supostamente anestesiadas. Anestesiadas porque não conseguem ver as relações causa-efeito entre a xepa e a sobrevivência cotidiana uberizada. Sem nenhuma iniciativa de comunicação didática para esclarecer ao brasileiro comum essa relação causal e conquistar corações e mentes, prefere assumir o confortável papel de cão de Pavlov. 

sábado, setembro 07, 2019

Por que rimos no filme "Iron Sky - The Coming Race"?


Em 2012 o filme “Iron Sky” (em português “Deu a Louca nos Nazis”) foi um fenômeno cult: produzido através de crowdfunding, ganhou uma legião de fãs. Mais uma vez, com o financiamento coletivo dessa legião de adeptos, o diretor finlandês Timo Vuorensola fez a sequência “Iron Sky – The Coming Race” (2019) – um pastiche alucinado sobre uma base nazista secreta no lado oculto da Lua, Teoria da Terra Oca, Atlântida, Ocultismo Nazi, energia esotérica do Vril, conspirações reptilianas na política etc.  Um humor que chega às raias do non sense. Porém, o que torna tudo tragicômico é que a maioria das ideias inverossímeis de “Iron Sky” foram retiras das doutrinas que inspiraram grupos radicais políticos do início do século XX que culminaram no nazi-fascismo, Segunda Guerra Mundial e Holocausto. “Iron Sky” virou um cult imediato porque arranca seu humor da atual onda anti-intelectualista criada pela chamada “direita alternativa” (“alt-right”), na qual a Teoria da Terra Plana é o seu principal hit de sucesso.
“Rimos para o fato de que não há nada de que se rir”
(Adorno e Horkheimer)

quarta-feira, setembro 04, 2019

Cada hora de telejornal da Globo rende pouco mais de 10 minutos de "notícias reais"


Em 2003 o pesquisador Martin Howard no seu livro “We Know What You Want” descobriu que em cada hora de notícias da CNN, o noticiário transmitia pouco menos de cinco minutos de “notícias reais” (fatos espontâneos, históricos, externos à existência da mídia) – o restante é ocupado por metalinguagem e autorreferências. Sem falar no chamado “Efeito Heisenberg”: a mídia não consegue mais reportar o real – transmite apenas os efeitos que ela produz ao cobrir os eventos e, também, o esforço que as pessoas fazem para obter a atenção da mídia. O “Cinegnose” aplicou essa mesma metodologia na análise de quatro edições do telejornal local “Bom Dia São Paulo” da Globo. E chegou a resultados próximos: duas horas de telejornal resultam em 27 minutos de “notícias reais” – ou média de 13 minutos de notícias por hora. No restante, o telejornal passa o tempo falando de si mesmo – metalinguagem, autorreferencialidade fática e efeito Heisenberg.  Resultando num híbrido de jornalismo e propaganda. Infotenimento.

domingo, setembro 01, 2019

A burrice e estupidez do futuro já estão entre nós em "Idiocracia"


O filme que originalmente era uma comédia e que se tornou um documentário. Assim é definido o filme “Idiocracia” (“Idiocracy”, 2006) do diretor e escritor Mike Judge (“Beavis e Butthead” e “O Rei do Pedaço”): um casal acorda de uma longa hibernação criogênica de 500 anos para encontrar um mundo no qual a burrice, estupidez e preguiça (e suas consequências como o machismo e a intolerância) se tornam virtudes. O presidente dos EUA é um ex ator pornô e lutador de Telecatch e a água potável foi substituída por um isotônico produzido por uma gigantesca corporação, gerando uma catástrofe ambiental. E a política se confunde com entretenimento e vídeo-game. Um filme tão profético que o próprio estúdio 20th Century Fox resolveu boicotar o lançamento da sua própria produção, escondendo “Idiocracia” das grandes redes de exibição. “Idiocracia” é visionário: como uma sociedade inteira não percebeu que emburrecia enquanto as expectativas sobre o que é ser inteligente cada vez mais diminuíam com o avanço tecnológico e da indústria do entretenimento. 

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