sábado, agosto 30, 2025

Morte, carma e culpa na família atual em 'Hallow Road - Caminho Sem Volta'


Dois pais entram em uma corrida contra o relógio quando recebem um telefonema angustiante de sua filha tarde da noite depois que ela causou um trágico acidente de carro. Quase todo o filme se passa no interior do carro em tempo real, com os pais desesperados tentando manter contato telefônico com a filha, enquanto a tela do Waze vai dando instruções de rota e o tempo que falta para chegar ao destino, numa angustiante contagem regressiva. Aparentemente apenas um drama familiar. Mais aos poucos vai virando outra coisa: entra um ambíguo toque sobrenatural (morte e carma). É o filme “Hallow Road – Caminho Sem Volta (2025), do diretor britânico-iraniano Babak Anvari, onde a estrada é uma alegoria da incapacidade dos pais de se reconciliar com a verdade que os condena: a “família renitente” – a ideia idílica de pais como porto de segurança e que supostamente manteria os filhos blindados das consequências dos seus próprios atos. Incapazes de lidar com dilemas morais.

 

Você é uma pedra preciosa, você está por aí sozinha.
Você conhece todos no mundo, mas se sente sozinha.
Papai não te deixa chorar, Papai não te deixa sofrer
Papai te dá tanto quanto você aguenta ter.

Papai está com você aonde você for.
Papai te consola, Papai é seu melhor amigo
Papai segura firme sua mão até o fim
Papai irá pagar o seu carro batido

“Daddy’s Gonna Pay Your Crash Car” (U2)

É interessante observar a mutação do significado da instituição da Família, desde a Era Vitoriana de Freud do século XIX até os tempos atuais, partindo de um modelo patriarcal, rígido e hierárquico na Antiguidade, para um conceito plural e multifacetado na contemporaneidade, caracterizado pela flexibilidade, subjetividade, e a aceitação de diversas formas de parentesco e relações afetivas, refletindo as transformações sociais e legais. 

Da Pater Potestas romana (a autoridade do pai sobre esposa e descendentes), passando pelo casamento cristão como o sacramento principal da formação da família, a unidade produtora de renda na Revolução Industrial chegando à Flexibilidade e Individualidade atuais - as posições hierárquicas tornaram-se mais flexíveis, e a subjetividade e individualidade dos membros foram valorizadas.

Foram muitas transformações do sentido da Família na História. Mas na mente dos pais continua a existir uma espécie de, por assim dizer, “família renitente”. Uma família ideal que permaneceria sobre as sucessivas mudanças na qual os pais acabam criando uma falsa sensação de segurança, dificultando o crescimento do indivíduo e criando um ciclo de dependência. 

Embora a família moderna valorize a trajetória individual de cada membro, ainda a estrutura promocional e mercadológica da publicidade e do marketing promove, a cada dia dos pais ou das mães, a imagem idílica dos pais como super-heróis protetores e porto seguro para qualquer tempestade que se abata sobre a vida dos filhos.  

  


Criando uma nova e paradoxal estrutura repressiva. Agora, pelo excesso de indulgência no cuidado com os filhos, chegando a pusilanimidade - padrão de comportamento parental que envolve dar aos filhos excesso de coisas, experiências ou liberdade, impedindo o desenvolvimento saudável e a aprendizagem de limites e consequências, o que pode resultar em adultos com dificuldades na vida real. 

Uma atitude, muitas vezes, motivada por necessidades não atendidas, frustrações ou culpa dos próprios pais – compensação pela ausência física ou simbólica etc.

Hallow Road – Caminho Sem Volta (2025), dirigido pelo britânico-iraniano Babak Anvari, coloca dois pais na típica situação em que recebem no meio da madrugada uma ligação angustiante da filha jovem adulta em idade universitária depois que causou um trágico acidente de carro. E, de repente, são colocados num dilema moral agonizante: proteger a filha a todo custo para cumprir uma suposta função parental ou deixar a filha confrontar com as consequências dos seus próprios atos como situação necessária para o próprio crescimento pessoal.

 Hallow Road parece no início um simples drama familiar e parental, com as previsíveis tensões entre pais benevolentes que tentam poupar das potenciais consequências de um acidente que podem comprometer todo o futuro: uma bolsa de estudos na Austrália como complementação dos estudos universitários.

Mas aos poucos vai se transformando em outra coisa: um thriller de suspense envolvente em tempo real com um toque macabro (metafísico), um filme sobre culpa familiar e o retorno freudiano do reprimido.

O roteiro é instigante: quase todo o filme se passa no interior do carro numa espécie de câmera veicular, com os pais desesperados tentando manter contato telefônico com a filha, enquanto a tela do Waze vai dando instruções de rota e o tempo que falta para chegar ao destino, numa angustiante contagem regressiva.

Um filme que desconstrói essa imagem da “família relutante”, ou seja, de como pais ainda tentam manter o papel de protetores indulgentes. Sem se aperceberem que, no final, as trajetórias de vida são individuais. E que a família, no máximo, serve de amortecedor ao drama cármico da trajetória de cada ser nesse mundo.



Principalmente quando somos informados da fama da densa floresta que envolve um complexo de pequenas estradas que formam uma espécie de labirinto – no passado ocupado por cultos pagãos de invocação e apaziguamento de demônios. E na atualidade, um recanto para jovens beberem e se drogarem em festas.

O Filme

Hallow Road começa de forma envolvente. Em um silêncio desconcertante, a câmera percorre uma casa, buscando pistas de um crime ou talvez de uma discussão acalorada: um jantar inacabado, uma taça de vinho quebrada e meio varrida. 

Logo descobrimos que foi a última, uma discussão doméstica, que parece ter terminado com uma jovem saindo furiosa e dirigindo noite adentro no carro do pai.

Acordando de madrugada, Maddie (Rosamund Pike) e Frank (Matthew Rhys) a princípio estão preocupados apenas com o paradeiro de sua filha Alice (Megan McDonnell).

Ela é uma experiente paramédica e ele um diretor de marketing.

Mas então ela liga com a notícia alarmante de que houve um acidente; dirigindo por uma floresta, pela Hallow Road, ela atropelou uma mulher mais ou menos da sua idade. A mulher parece estar morrendo.

Horrorizados, Maddie e Frank partem em busca dela. Frank dirige o carro de Maddie enquanto ela mantém contato com Alice por celular, explicando-lhe os procedimentos de ressuscitação cardiopulmonar. Para sua comodidade, Maddie é paramédica. Ela já deu treinamento de RCP para Alice antes, mas realizá-lo na prática é outra coisa muito mais difícil e dramática.



Durante a viagem frenética, verdades enterradas vêm à tona. Alice admite que nunca chamou uma ambulância. Ela está sob efeito de MDMA há horas e está grávida, algo que seus pais argumentaram anteriormente na discussão anterior que deveria ser "resolvido".

Maddie confessa seu próprio fracasso profissional: um diagnóstico errado de um paciente, levando-o à morte. Pediu demissão do Samu, revelando como a culpa a corrói.

Enquanto Frank tenta combinar com a filha de que ele assumirá a culpa do atropelamento. Para não comprometer o futuro universitário de Alice. Ou seja, poderá condenar a filha ao mesmo sentimento de culpa corrosivo de Maddie.

 Essa viagem de carro se torna literal e metafórica, com a estrada os unindo, mas também acelerando em direção ao colapso.

Quando Alice afirma que outro carro chegou, Frank ordena que ela esconda o corpo. Uma mulher misteriosa aparece, aparentemente gentil, mas cada vez mais predatória, interrogando Alice. Apesar dos apelos de Maddie, a mulher não vai embora. Em vez disso, Alice relata mais tarde que a garota que atropelou está viva e sendo cuidada pelo marido. A mulher se torna mais ameaçadora, alegando que ela e o marido já "adotaram" garotas perdidas antes, e agora Alice, grávida e vulnerável, será deles.

Tudo isso, os pais vão acompanhando pelo áudio do celular, enquanto acabam se perdendo no labirinto de pequenas estradas. Atrasando a chegada.

É quando o filme vai se transformando em algo totalmente outro: toques sobrenaturais e metafísicos vão aos poucos se inserindo na narrativa.



Morte e carma – Alerta de Spoilers à frente

A mulher e seu marido invisível são a ambiguidade central do filme. Seriam predadores sobrenaturais, traficantes de pessoas ou projeções do trauma de Maddie e Frank? Em certo nível, a mulher é terrivelmente real: persistente, manipuladora e perturbadoramente calma, ela personifica o perigo que espreita jovens mulheres desprotegidas. Sua fala sobre "retificar" Alice e seu filho ainda não nascido ecoa um condicionamento sectário, sugerindo uma dimensão ritualística ou sobrenatural.

Em outro nível, ela pode ser uma alucinação nascida da dor de Maddie e Frank. A polícia insiste que Alice já estava morta, e os telefonemas podem ter sido manifestações de sua negação, incapazes de aceitar o cadáver como sua filha.

O brilhantismo da narrativa reside no fato de ambas as leituras permanecerem possíveis.

Explicação Sobrenatural: Alice está morta e de alguma forma consegue se comunicar do além (sugerindo a célebre crença de Thomas Edison e Tesla sobre a possibilidade de o telefone ser também um dispositivo para conversar com os mortos – clique aqui) e descreve como está sendo conduzida por entidades metafísicas que pretendem “retificá-la”, sugerindo algum tipo de responsabilidade cármica.

Explicação Psicológica: As ligações são uma ilusão compartilhada, nascida da recusa de Maddie e Frank em aceitar a morte da filha. A culpa conflitante (o erro de Maddie no trabalho, o fracasso de Frank como protetor) alimenta a alucinação.

De qualquer forma, a incapacidade de se reconciliar com a verdade os condena.


 

 

Ficha Técnica

 

Título:  Hallow Road – Caminho Sem Volta

Diretor: Babaki Anvari

Roteiro: William Gillies

Elenco: Rosamund Pike, Matthew Rhys, Megan MacDonnell

Produção: Screen Ireland, London Film & TV

Distribuição: XYZ Films

Ano: 2025

País: Reino Unido

 

Postagens Relacionadas

 

Por Que os Pais Desapareceram do Imaginário Infantil?

 

 

A dialética da família: de "Charlie e Lola" aos "Simpsons"

 

 

A família do século XXI em cacos na série Netflix "Perdidos no Espaço"


 


A estrada para o Inferno está pavimentada por convites no filme "Hereditário"

 

 

 

Tecnologia do Blogger.

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Bluehost Review