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quinta-feira, maio 28, 2026

Em 1995, Paul Virilio anteviu o sufocamento da Democracia pelo tempo real das redes no século XXI


 

Em agosto de 1995, quando a internet comercial ainda dava seus primeiros passos e o otimismo tecnológico pintava a rede como a utopia definitiva da liberdade e da conexão global, o urbanista e filósofo francês Paul Virilio (1932–2018) publicou no Le Monde Diplomatique o ensaio "Velocidade e Informação: Cyberspace alarm!". Enquanto a maioria dos analistas celebrava o nascimento da "ciberdemocracia", Virilio — o pai da Dromologia, a ciência que estuda o impacto da velocidade na sociedade — emitiu um aviso de emergência que, lido hoje, impressiona por sua precisão cirúrgica e assustadora atualidade.

Pânico Moral esconde a Política no armário enquanto ruas são colonizadas por cruzadas moralizantes



Para além da música e da fé que arrastaram milhares de fiéis ao Centro do Rio no último sábado (23) durante a 19ª Marcha para Jesus, o megaevento — blindado como “Patrimônio Imaterial” e turbinado com R$ 6 milhões de dinheiro público — acendeu o estopim de um debate muito mais profundo do que a simples crítica ao "oportunismo eleitoral" de Silas Malafaia e seus pré-candidatos para 2026. O que o evento escancara é a consolidação da agenda do pânico moral, bomba semiótica que produz o novo centro de gravidade da esfera pública brasileira. Em uma inversão social sem precedentes, enquanto os projetos de país e o debate ideológico racional são empurrados para o armário do foro íntimo, as ruas e as instituições são colonizadas por uma cruzada moralizante e hiperbólica de costumes, transformando a arena política em um tribunal eclesiástico e o adversário em um inimigo a ser extirpado.

sábado, maio 09, 2026

'O Diabo Veste Prada 2': o crepúsculo dos deuses da Moda



Vinte anos após ditar o exato tom de azul que filtraria das passarelas de luxo até as "trágicas cestas de ofertas" do varejo, Miranda Priestly enfrenta um rival que não pode ser intimidado por um olhar gélido: o algoritmo. Em “O Diabo Veste Prada 2” (2026), a transição da aura sagrada da Alta Costura para o caos horizontal das redes sociais e da Inteligência Artificial ganha contornos de um acerto de contas semiótico. Enquanto o primeiro filme consolidou a mitologia do prêt-à-porter como uma ferramenta de controle cultural, a sequência atua como uma autópsia da autoridade editorial, revelando como o poder de criar mitos e "estilos de vida" foi fragmentado por bombas digitais e pela obsolescência programada do jornalismo impresso.

sexta-feira, maio 01, 2026

'O Drama': hipervigilância irônica da geração Z, casamento e tiroteio


Entre o brilho de uma cerimônia de casamento "à moda antiga" e o trauma latente de um massacre escolar, o filme “O Drama” (The Drama, 2026) surge como uma autópsia definitiva da psique da Geração Z. Um casal jovem e inteligente está organizando o casamento perfeito, regado a rituais vintage e playlists autorais. Mas, sob a superfície do romance idealizado, reside uma revelação perturbadora que transforma o "felizes para sempre" em um thriller psicológico sobre quase-assassinos e traumas geracionais. “O Drama” coloca em rota de colisão a busca nostálgica por autenticidade com o que se convencionou chamar de "hipervigilância irônica", o cerne do psiquismo dessa geração: um estado mental onde o dia mais feliz da vida está sempre à beira do caos sistêmico. Mais do que um filme de gênero, é o reflexo de uma geração que aprendeu a mapear as saídas de emergência antes mesmo de brindar ao futuro.

sexta-feira, abril 17, 2026

Os fantasmas do cinema: metalinguagem, Inteligência Artificial e cultura do cancelamento


Do pneu assassino com poderes telepáticos em Rubber (2010) à implosão completa da quarta parede em O Segundo Ato (Le Deuxième Acte, 2025), o diretor francês Quentin Dupieux permanece o mestre absoluto do "no reason". Em seu novo longa, o cineasta leva sua obsessão pela metalinguagem ao ápice, transformando o set de filmagem em uma "boneca russa" narrativa. Através de um jogo constante de "filme dentro do filme", o diretor utiliza o ego dos grandes astros franceses e a frieza da Inteligência Artificial para criar uma sátira mordaz sobre o vazio das narrativas contemporâneas. Ao colocar estrelas como Léa Seydoux e Louis Garrel para interpretar versões satirizadas de si mesmos, Dupieux não apenas questiona a verossimilhança do cinema, mas confronta a indústria com seus novos fantasmas: da ditadura dos algoritmos de IA à cultura do cancelamento das redes sociais.

quinta-feira, abril 09, 2026

O Apocalipse será anunciado por notificações nos celulares em "Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra"



O fim do mundo não será anunciado por trombetas, mas por notificações de celular. Em seu retorno triunfal ao cinema de gênero, Gore Verbinski apresenta “Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra” (Good Luck, Have Fun, Don't Die, 2025), uma distopia frenética que converte a velha escatologia teológica no novo pavor do século XXI: a supremacia da Inteligência Artificial. Um paranoico e maníaco homem do futuro aparece em uma lanchonete tentando recrutar voluntários para salvar a humanidade dos celulares e IA que ameaçam a obsolescência humana num Apocalipse tecnológico. O filme mergulha na ansiedade algorítmica para questionar se a tecnologia é de fato uma criatura de Frankenstein prestes a nos devorar ou apenas uma cortina de fumaça poética para as opiniões codificadas da elite do Vale do Silício.

terça-feira, março 31, 2026

O Cadáver que Caminha: a ascensão do machismo zumbi em 'Por Dentro da Machosfera'


O documentário Netflix “Louis Theroux: Por dentro da Machosfera” (Louis Theroux: Inside the Manosphere, 2026), revela um ecossistema digital que é, ao mesmo tempo, um refúgio de ressentimento e um laboratório de novas formas de dominação. Para entender a profundidade desse fenômeno, a chave não está apenas no machismo clássico, mas em como ele se funde à pós-meritocracia do novo ecossistema digital neoliberal. Esqueça o patriarca conservador de eras vitorianas ou o "macho provedor" do século XX. O que habita as profundezas do ecossistema digital atual não é o velho machismo de nossos avós, mas uma mutação futurista, cínica e profundamente ressentida. No documentário, o jornalista britânico Louis Theroux mergulha em uma subcultura de influenciadores red pill e incels para revelar que a misoginia contemporânea é, na verdade, um "Machismo Zumbi".

sexta-feira, fevereiro 27, 2026

'Você é o Universo': no século XXI, o cosmos vira cenário da angústia existencial



Se no auge da Guerra Fria o espaço era o território da conquista e do triunfo da engenhosidade humana, o cinema do século XXI parece ter transformado o cosmos no cenário definitivo da angústia existencial. Entre o vazio do Universo infinito e a liberdade aterradora do indivíduo finito descrita pelo filósofo Kierkegaard, surge o filme ucraniano “Você é o Universo” (Ty – Kosmos, 2024). Mais do que uma ficção científica de baixo orçamento, a obra de Pavlo Ostrikov utiliza a explosão literal da Terra para espelhar as cicatrizes reais de uma Ucrânia em guerra e a solidão hiperconectada da era pós-pandêmica, provando que a busca pelo 'outro' é a única bússola possível diante do abismo.

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

'The Plague': por que o presente se tornou tão tóxico? Freud talvez explique


Por que o presente se tornou tão tóxico? Em busca de respostas para os sintomas colaterais das redes sociais, o cinema recente tem promovido uma verdadeira autópsia do início do século XXI. No visceral “The Plague” (2025), o diretor Charlie Polinger utiliza o cenário de um acampamento de polo aquático em 2003 não como um refúgio nostálgico, mas como um laboratório freudiano. Ao transformar o bullying adolescente em um terror atmosférico, o filme revela que o "cancelamento" e o ostracismo digital não são subprodutos da tecnologia, mas heranças de uma mecânica primitiva de grupo que as Big Techs apenas aprenderam a monetizar. “The Plague” serve como um espelho sombrio: o problema nunca foi apenas a ferramenta digital, mas o que sempre fomos capazes de fazer uns com os outros quando o grupo exige um bode expiatório.

sexta-feira, fevereiro 06, 2026

Inflação Semântica: Por que tudo no jornalismo brasileiro virou “histórico”?



Enquanto o Banco Central se ancora na taxa Selic para conter a inflação de demanda, uma outra variante inflacionária — muito mais silenciosa, porém onipresente — toma conta das redações brasileiras: a inflação semântica do adjetivo "histórico". De decisões do STF a recordes de temperatura, passando por eliminações de reality shows, o jornalismo parece ter abandonado a secura dos fatos para mergulhar em um "eterno presente" onde tudo é vendido como épico, inédito ou lendário. Neste texto, mergulhamos no abismo que separa o tempo da notícia do tempo da história e investigamos como o "Efeito Heisenberg" de Neil Gabler transformou a realidade em uma performance adjetivada para saciar a economia da atenção. Afinal, se tudo é proclamado histórico no grito da manchete, o que realmente restará para a História?

quarta-feira, dezembro 31, 2025

O metrô e o loop infinito da armadilha existencial da vida moderna em 'The Exit 8'


O que separa um trem desaparecido em uma anomalia espacial de um homem perdido em um corredor infinito de azulejos brancos? A resposta está na Fita de Möbius, o conceito matemático que une o clássico argentino “Moebius” (1996) ao recente thriller japonês “The Exit 8” (8-ban deguchi, 2025). Mais do que ficção científica, essas obras operam como espelhos de uma sociedade hiperconectada, porém solitária, onde a percepção da realidade é constantemente desafiada por deepfakes, bolhas virtuais e a monotonia do cotidiano. Nestes labirintos modernos, a saída depende da nossa capacidade de olhar além das telas e identificar as anomalias de uma vida vivida em modo automático. Em “The Exit 8” um homem se vê prisioneiro em um loop infinito topológico em um trecho dos labirínticos corredores subterrâneos do metrô de Tóquio.

sexta-feira, novembro 14, 2025

O caos controlado das bolhas digitais no filme 'Bugonia'


O novo filme de Yorgos Lanthimos, “Bugonia” (2025), sobre teóricos da conspiração que sequestram uma CEO de uma multinacional farmacêutica acreditando que ela é uma alienígena, funciona como uma ilustração precisa do "efeito fliperama" da guerra híbrida. O filme demonstra como o ressentimento pessoal, alimentado por bolhas digitais, é transformado em um caos controlado que, paradoxalmente, serve para manter o status quo e desviar o foco da verdadeira classe dominante. Lanthimos vem assumindo uma espécie de misantropia esclarecida, como ficou claro nos filmes anteriores “Pobres Criaturas” e “Tipos de Gentileza”: somos criaturas pobres e miseráveis, mas temos a capacidade de sermos belos e tolos, assim como assassinos e terríveis.

sexta-feira, setembro 05, 2025

Quanto mais as coisas mudam, mais ficam iguais em 'Eddington'


Tudo se passa em 2020, época da pandemia COVID-19 e lockdown. Mas encontramos a mesma divisão social, a mesma incapacidade de concordar com uma realidade consensual, a mesma paranoia, medo e desinformação das redes sociais. E o mesmo presidente, Trump! Quando estreou no Festival de Cannes esse ano, a crítica observou: “quanto mais as coisas mudam, mais ficam iguais”. Estamos falando de “Eddington” (2025), filme de humor negro escrito e dirigido por Ari Aster, mestre do horror de alto conceito como “Hereditário” e “Midsommar”. Aqui, Aster dá conta do horror social de uma pequena cidade no Novo México que mergulha no caos e violência na medida em que os conflitos locais e de vizinhança são turbinados pela pauta nacional repercutida pelos feeds das redes sociais. “Eddington” didaticamente descreve uma nova engenharia social que substituiu a clássica criação do inimigo externo. Agora, o inimigo é INTERNO, alimentado pela criação da cismogênese: as pessoas sentem claramente que há algo errado, mas a desconfiança mútua, o medo e a paranoia superam qualquer coisa. Deixando de ver que o verdadeiro problema está ali, sendo incubado na frente de todos.

quinta-feira, agosto 28, 2025

Não percebemos o Mal que nos espreita através das telas dos dispositivos em 'Do Not Open'


Quando é de graça, você é o produto. Passamos cada vez mais tempo olhando para as telas dos nossos dispositivos, e esquecemos desse simples princípio da Internet das Big Techs. Que sepultou a utopia da World Wide Web dos anos 1990 que via a web como uma gigantesca biblioteca universal para a construção de uma inteligência coletiva. Agora, o usuário é a informação, o produto lucrativo vicioso e compulsivo. Que gera relações familiares e pessoais disfuncionais. “Do Not Open” (2024) transforma a nossa obsessão voltada às telas dos dispositivos móveis em consequências aterrorizantes, em um conto de horror: a alegoria do Mal como um aplicativo abaixado inadvertidamente que passa a conhecer uma família muito mais do que seus próprios integrantes: suas obsessões, vícios e perversões mais íntimas. Para autodestruí-la.

sexta-feira, agosto 22, 2025

Terra é um prato cheio de data centers para IA alienígena em 'Guerra dos Mundos'


Em 1898, H.G. Wells lançou o cânone da literatura de invasão com o livro “A Guerra dos Mundos”. Ele era ateu e com inspiração socialista e o livro uma alegoria do colonialismo europeu. Certamente não gostaria das várias adaptações de gerações de cineastas, seja com inspirações religiosas ou como peça de propaganda geopolítica dos EUA. Principalmente essa “Guerra dos Mundos”, lançada esse ano pela Prime Video. Dessa vez o alienígena é uma Inteligência Artificial interestelar faminta por dados e que vê na Terra um prato cheio de terabits, repleto de data centers. E mais: descobre no Estado Profundo um aliado involuntário – o governo só pensa em controlar a privacidade das pessoas com sua obsessão regulamentadora. E as Big Techs, vítimas isentas. Do começo ao fim, um merchandising da Amazon, Apple, Google, Tesla, entre outros. Detalhe: quem salvará o mundo será um drone de entregas da Amazon... O filme é um exemplo de como a produção audiovisual reflete o zeitgeist do momento no qual, a cada dia, surgem mais histórias sobre a IA ameaçando a humanidade – a tal de “singularidade” da qual tanto falam os engenheiros computacionais do Vale do Silício. 

terça-feira, agosto 19, 2025

Mourinho, Karnal e Hytalo Santos: as facetas da Pós-meritocracia

 


O bem-sucedido técnico português de futebol Luís Mourinho. O historiador e palestrante corporativo Leandro Karnal. E o influenciador preso preventivamente Hytalo Santos, denunciado por outro influenciador (Felca) por produzir conteúdo sexualizado de crianças e adolescentes nas redes sociais. São diversas facetas do novo espírito do tempo que emerge em mais um salto mortal do capitalismo: a Pós-meritocracia. O primeiro, em um comercial da SportyBet, revela o paroxismo do individualismo do século XXI; o segundo, performa um personagem que ri da própria meritocracia no comercial do Bradesco para Pessoas Jurídicas; e o terceiro minimizado pela grande mídia como fosse uma notícia policial: um influenciador amoral que vê no conteúdo sexualizado um empreendimento não como outro qualquer, mas que possibilita enriquecimento rápido. Três facetas de um mesmo “zeitgeist”: a perda da confiança no futuro através da miragem da recompensa aqui e agora de um novo tipo de individualismo.

quinta-feira, agosto 14, 2025

'Efeito Felca': não-acontecimento, reposicionamento de discurso e big techs

 


Pode ser absurdo e paradoxal pensar que todo o hype em torno do vídeo das denúncias do influencer Felca (a adultização de crianças e jovens nas redes sociais) só beneficia o negócio das big techs. O chamado “Efeito Felca” (capaz de pautar a política nacional com projetos de lei na Câmara dos Deputados e uma PL do presidente Lula) rendeu a urgência da regulamentação das redes sociais. “Regulamentação”, reivindicação reativa das nações frente ao poder global das big techs. Mas uma reivindicação compatível aos negócios do Vale do Silício, porque tira de pauta aquilo que mais temem: o impacto geopolítico da ideia da soberania digital. Como a China, por exemplo, que possui suas próprias plataformas e redes. Assim como tentar que um leão vire vegetariano, tentar regulamentar redes sociais é ir contra a própria natureza mercadológica e lucrativa do negócio: ódio e perversões engajam muito mais do que o amor! Aprenderam que na Internet o produto é o próprio usuário. Efeito Felca: um não-acontecimento com características de sincronismo e timing, além de revelar um fenômeno comportamental típico das redes sociais: o reposicionamento de discurso, como nos casos de Felipe Neto e Reinaldo Azevedo.

terça-feira, julho 29, 2025

Morango do Amor é o amor da Sociedade do Cansaço


Lá em 2015, o hype da gourmetização invadiu festas juninas, com suas “releituras” dos “clássicos” populares, dentro da retórica do “artesanal” e do “rústico”. Era a época da guerra híbrida pré-impeachment, uma reação a ascensão da classe C. Dez anos depois acompanhamos um hype ainda mais radical: sai a maçã, entra o morango do amor!  Vídeos ensinando a receita, provando o doce e até memes sobre o assunto somam milhões de visualizações no Instagram e no TikTok. Nova releitura de um clássico popular? Só que dessa vez menos um movimento de guerra híbrida e muito mais um sismógrafo do zeitgeist do século XXI:  a Sociedade do Cansaço – a representação instagramável do amor na qual a maçã (o fruto mais carregado de simbolismos do Ocidente) é substituído pelo morango. A encenação intensiva do eu chega ao amor, mas com uma dinâmica psíquica carregada de simbolismos: o simbolismo do fruto, a natureza da cobertura, o ato de consumo e a fantasia de amor subjacente. Encenar o amor cansa!

sexta-feira, julho 25, 2025

O brutal cinema sul-coreano da luta de classes em 'Meus 84 m2'

 


O cinema e audiovisual sul-coreano é brutal: conta histórias de vinganças numa sociedade marcada pelo abismo social e movida a ressentimento e humilhação. Com uma cultura que reflete a rápida ocidentalização com o K-Pop e a neopentecostalização. A produção Netflix da Coréia do Sul “Meus 84 m2” (84 Jegopmeteo, 2025) é mais um filme de uma extensa lista dessas histórias sobre luta de classes.  Trabalhando como assistente de gerente em algum labirinto corporativo, um jovem investe todas as suas economias para comprar um pequeno apartamento no Centro de Seul, símbolo do sucesso da classe média. Três anos depois, ele está um caco, afogado em dívidas, fazendo malabarismos com empregos precarizaods, ignorado pelos bancos e caindo em um golpe de criptomoedas. Até descobrir que as paredes guardam ruídos perturbadores, vizinhos hostis e segredos inquietantes.

terça-feira, julho 01, 2025

Caso Juliana Marins: "Media Life" e o herói da vida intensa das redes sociais

 


O jornalismo atual não está apenas atrás de notícias. Mas, principalmente, em busca de personagens e boas histórias. E o caso da morte trágica da jovem Juliana Marins (escorregou para um abismo durante uma trilha no vulcão Monte Rinjani, na ilha de Lombok, na Indonésia) que praticamente rivalizou com o espaço midiático da escalada da crise no Oriente Médio, é um exemplo flagrante. A maneira como a mídia deu forma e repercute os desdobramentos da tragédia confirma as teses radicais de Mark Deuze sobre o zeitgeist do século XXI: a “media life” – fenômeno em que os acontecimentos nascem e crescem dentro do ecossistema midiático das redes sociais e retroalimentados pelas mídias tradicionais. O fenômeno do turismo de aventura transforma a geografia em cenários instagramáveis e seus protagonistas em “heróis da vida intensa” – novos ascetas mundanos que oferecem seu sacrifício não a Deus, mas aos “likes” e engajamentos nas redes sociais. Criando uma perigosa normalização com heróis que ignoram riscos e perigos.

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