Por trás dos comerciais de margarina e dos gramados impecáveis da América dos anos 1950, escondia-se a suspeita de um pesadelo canibal. Lançado em 1989, o clássico cult “O Que Há Para Jantar?” (Parents) usa o humor negro e o terror psicológico para implodir o idílio da família tradicional do pós-guerra. Através dos olhos aterrorizados de um garoto de dez anos que suspeita do cardápio sangrento de casa, o filme funciona como uma perturbadora metáfora psicanalítica e sociológica sobre a hipocrisia adulta, antecipando em plena tela o colapso cultural e a rebeldia jovem que ditariam o zeitgeist da contracultura dos anos 1960.
Lançado em 1989 e dirigido pelo ator Bob Balaban, O Que Há Para
Jantar? (Parents, por enquanto disponível no YouTube) é uma das sátiras de terror mais
subestimadas e visualmente inventivas do final dos anos 80. O filme usa o
horror e a comédia de humor negro para desenterrar o que havia de mais podre na
aparente perfeição da classe média americana do pós-guerra.
O filme acompanha Michael, um garoto de 10 anos que acaba de se
mudar com seus pais, Nick e Lily, de Massachusetts para um novo bairro nos
subúrbios de 1958. Michael é socialmente desajeitado passa a ter sonhos
estranhos devido à sua imaginação fértil. Ele começa a suspeitar que seus pais
possam ser assassinos canibais.
O filme fracassou nas bilheterias e dividiu os críticos em 1989,
mas foi resgatado anos depois por um público cativo devido à sua atmosfera
única.
Ao longo de
todos esses anos, as sucessivas leituras de O Que Há Para Jantar? chamaram
atenção para um duplo aspecto.
O primeiro,
psicanalítico: é um filme sobre fantasias infantis quando as luzes da casa apagam
e todos vão para a cama à noite – o que os pais fazem quando as luzes apagam?
Será que os pais se envolvem em rituais estranhos e práticas impensáveis?
E quanto às gargalhadas que ecoam pelo corredor vindas da sala de estar, por
exemplo? Os adultos estão apenas se divertindo ou estão planejando coisas
impensáveis, todas as noites?
Chegamos
nesse mundo desprotegidos e dependentes de adultos, pelos quais nos afeiçoamos
e chamamos de pais. Mas os pesadelos e fantasias da infância (tentando explicar
um novo mundo estranho e misterioso) muitas vezes colocam os pais sob suspeita.
Como, por exemplo, nas fantasias edipianas sobre um pai rouba o objeto de amor
infantil: a própria mãe.
Tudo reforçado pela atmosfera ambígua que antecipou os climas “lynchianos”
da série Twin Peaks – o filme domina a arte de criar desconforto através do
design de produção Kitsch. As cores são vivas demais, os sorrisos são largos
demais e as músicas (como mambos alegres) contrastam com enquadramentos de
ângulos holandeses (câmera torta) e grandes oculares que geram uma sensação constante de delírio e
claustrofobia.
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O segundo aspecto é sociológico e geracional: A grande sacada
sociológica de O Que Há Para Jantar? é que ele funciona como uma arqueologia do
colapso cultural. Embora feito em 1989, o filme se passa em 1958 —
exatamente na fronteira em que a fachada da "América Perfeita"
começou a rachar, pavimentando o caminho para a contracultura dos anos 60.
A descoberta da geração baby boom do pós-guerra de que seus pais
eram hipócritas: que por trás das roupas engomadas, dos jantares em família
iniciados com orações e a rigorosa participação dos cultos dominicais na igreja,
escondia-se o alcoolismo (aqueles martinis tomados pelos pais antes de cada
jantar) e todas as infidelidades por trás da fachada de virtude e moralidade.
O longa ilustra esse nascimento do zeitgeist que explodiria
nos anos 1960 com a contracultura, o sexo e o rock´n roll.
Como refletido no hino dos jovens dessa geração: “não confie em
ninguém com mais de 30”.
O Filme
A história se passa em 1958. Michael Laemle (Bryan Madorsky) é um
garoto de 10 anos, tímido e de imaginação fértil, que acabou de se mudar com os
pais, Nick (Randy Quaid) e Lily (Mary Beth Hurt), para um subúrbio idílico na
Califórnia. Nick trabalha em uma grande corporação química (chamada emblematicamente
“Toxico”) desenvolvendo desfolhantes (uma alusão clara ao Agente Laranja, arma
química usada pelo exército dos EUA na Guerra do Vietnã).
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A vida da família parece um comercial de televisão da época – em uma
exuberante paleta de cores em tom pastel, carros Oldsmobille cintilantes e a
vida doméstica centrada na cozinha com brilhantes e coloridos eletrodomésticos.
Exceto por um detalhe: o cardápio. Todas as noites, a mesa é farta
com nacos gigantescos de carne vermelha. A vida de Michael gira em torno de uma
pergunta: de onde vêm as "sobras"? Noite após noite, seus pais
colocam pedaços fumegantes de carne, suculentos e vermelhos, de um assado de
primeira, em seu prato. De onde vêm? "Sobras", diz sua mãe.
Mas então, sua mãe e seu pai piscam um para o outro por cima da
mesa e compartilham uma risada secreta, e o pequeno Michael sabe, lá no fundo,
que há algo fundamentalmente errado com o cardápio.
Michael passa a ter pesadelos terríveis, que se misturam à
realidade. Certa noite, ele flagra os pais transando no chão da sala, mas em
sua mente traumatizada, o ato parece um delírio canibal regado a sangue – ecos da
chamada “cena primitiva” freudiana.
O diretor, Bob Balaban , escolheu bem o elenco. Mary
Beth Hurt interpreta a mãe, uma jovem animada com um penteado dos anos 50
e roupas que parecem ter saído diretamente de um catálogo de moda. Ela está
sempre na cozinha, fazendo coisas com enormes facas de aço inoxidável.
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O pai é interpretado por Randy Quaid, cujos óculos de aro
grosso e ternos não conseguem disfarçar uma certa aura predatória,
especialmente quando ele se inclina sobre a mesa para espetar um grande pedaço
de "rosbife".
A atmosfera é ambígua: pode ser tudo apenas fruto de uma
imaginação fértil de uma criança recém-chegado a uma nova cidade e escola,
ainda sem amigos. Ou...
Humor negro político – Alerta de Sopilers à frente
O filme adota rigorosamente o ponto de vista de Michael. A câmera
é posicionada baixa, cortando os pais na altura da cintura ou do peito em
vários momentos, transformando o pai (Randy Quaid, em uma atuação genuinamente
aterrorizante) em um gigante ameaçador.
O filme não faz um terror slasher comum; ele satiriza o
consumismo desenfreado do pós-guerra. A fixação americana por eletrodomésticos
modernos (o grande freezer) e a obsessão pela carne na brasa ganham um sentido
literal e macabro.
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“Não confie em ninguém com mais de trinta”. Essa frase se tornou o
mantra definitivo da juventude dos anos 60 contra a Guerra do Vietnã e o establishment.
No filme, o roteirista Christopher Hawthorne materializou esse
mantra que, no fundo, expressaa o maior medo de qualquer criança: o de que
os monstros na escuridão sejam, na verdade, sua mãe e seu pai.
O filme mostra que a polidez, o conformismo, as roupas engomadas e
os jantares em família eram uma máscara para esconder a violência colonial e o
egoísmo predatório (simbolizado pelo trabalho do pai criando armas químicas e
comendo pessoas na firma “Toxico”).
Ao descobrir o segredo dos pais, Michael encarna o jovem dos anos
60: ele se recusa a consumir o que a geração anterior consome, rejeita os
valores vigentes e percebe que, para sobreviver, precisa se rebelar
violentamente contra as autoridades que deveriam protegê-lo.
Nos anos 50, o modelo de sucesso era o adulto: o homem de terno
que trazia o sustento e a mulher que cuidava do lar. O jovem era apenas um
"adulto em treinamento" que deveria herdar os hábitos dos pais (o que
o twist final do filme ironiza de forma macabra).
No entanto, a narrativa de O Que Há Para Jantar? coloca o elemento jovem (Michael) como o único detentor da
sanidade e da verdade moral. Enquanto os adultos vivem anestesiados por
aparências, álcool e repressão social, as crianças observam as
"costuras" rasgadas dessa realidade.
Ao colocar a pureza e o ceticismo do jovem contra a corrupção
grotesca do mundo adulto, o filme espelha exatamente a virada cultural que
ocorreria anos depois na música, no cinema e no comportamento: a juventude
deixando de imitar os pais para se tornar o farol estético, moral e político da
sociedade. O subúrbio idílico precisava ser explodido — literalmente, como no
final do filme — para que os anos 60 pudessem nascer.
Ficha Técnica |
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Título: O Que Há Para Jantar |
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Direção: Bob Balaban |
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Roteiro: Christopher
Hawthorne |
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Elenco: Randy Quaid, Mary
Beth Hurt, Sandy Dennis |
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Produção: Vestron Pictures |
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Distribuição: Vestron
Televsion, YouTube |
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Ano: 1989 |
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País: EUA |
sexta-feira, maio 29, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira



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