quinta-feira, maio 28, 2026

Em 1995, Paul Virilio anteviu o sufocamento da Democracia pelo tempo real das redes no século XXI


 

Em agosto de 1995, quando a internet comercial ainda dava seus primeiros passos e o otimismo tecnológico pintava a rede como a utopia definitiva da liberdade e da conexão global, o urbanista e filósofo francês Paul Virilio (1932–2018) publicou no Le Monde Diplomatique o ensaio "Velocidade e Informação: Cyberspace alarm!". Enquanto a maioria dos analistas celebrava o nascimento da "ciberdemocracia", Virilio — o pai da Dromologia, a ciência que estuda o impacto da velocidade na sociedade — emitiu um aviso de emergência que, lido hoje, impressiona por sua precisão cirúrgica e assustadora atualidade.

O cerne do argumento de Virilio reside na tese de que a política e a democracia dependem fundamentalmente do espaço físico — a pólis, a cidade, o lugar concreto do debate. Ao fundar a era do tempo real e da instantaneidade, a internet promoveu o que ele chama de "perda das mediações". Sem o tempo do amadurecimento, da reflexão e da checagem, a política institucionalizada colide frontalmente com a velocidade absoluta dos fluxos digitais.

O texto antecipa com maestria fenômenos contemporâneos que moldam a crise das democracias liberais no século XXI:

  • A "Democracia da Opinião" e o Populismo Digital: Ao citar a ascensão de Silvio Berlusconi em 1994 como um "golpista da mídia", Virilio pré-figurou a era dos algoritmos, dos líderes políticos que governam por meio de redes sociais e de uma engrenagem eleitoral refém de espasmos de opinião pública e pesquisas instantâneas.
  • O Sufocamento pela Desinformação: Diferente da censura tradicional (a supressão da informação), o autor prevê um novo tipo de desinformação baseado no "sufocamento das sensações" e no excesso de estímulos. É a gênese do conceito moderno de infodemia, onde a verdade é diluída em um mar de ruído e polarização.
  • A "Bomba da Informação" e o Acidente Generalizado: Assim como a invenção do trem trouxe consigo o descarrilamento, Virilio alerta que a infraestrutura da internet traria um "acidente nunca visto antes". Hoje, os colapsos sistêmicos de desinformação em massa, o cyberbullying global e a erosão da confiança nas instituições epistêmicas são os estilhaços dessa "bomba eletrônica" prevista por Einstein e ecoada pelo autor.

Ler este ensaio de Paul Virilio no presente não é apenas um exercício de arqueologia intelectual; é um manual de diagnóstico. O que em 1995 parecia distopia ou pessimismo tecnológico excessivo, transformou-se na nossa realidade cotidiana.

Leia abaixo o texto traduzido por este humilde blogueiro: 


Velocidade e Informação: Cyberspace alarm!

Paul Virilio


O duplo fenômeno da perda das mediações (imediações) e da instantaneidade é, na atualidade, um dos problemas mais urgentes que enfrentam os estrategistas políticos e militares. O tempo real prevalece agora sobre o espaço real e a geosfera. A primazia do tempo real, da imediação, acima e sobre o espaço e a superfície é um faít accomplí e tem valor inaugural. Alguém publicou um anúncio (francês) que louva telefones celulares com as palavras: "O Planeta Terra nunca foi tão pequeno". Este é um momento muito dramático da nossa relação com o mundo e para nossa visão do mundo.

Três barreiras físicas estão dadas: som, calor e luz. Os dois primeiros já foram derrubados. A barreira do som foi cortada pela aeronave super e hipersônica, enquanto a barreira do calor é rompida pelo foguete que leva os seres humanos para fora da órbita da Terra para aterrissar na Lua. Mas a terceira barreira, que é a da luz, não é algo que alguém possa cruzar: você se choca. É justamente esta barreira de tempo que confronta a história nos nossos dias. Ter alcançado a barreira da luz, ter alcançado a velocidade de luz, é um evento histórico que lançará a história em desordem e confusões na relação do ser vivente com o mundo. A política não faz isto implicitamente: informa mal e engana seus cidadãos. Nós temos que reconhecer aqui uma mudança fundamental que afeta a geopolítica: a geoestratégia. Mas claro que também a democracia, é muito dependente de um lugar concreto, a "cidade".

O grande evento que dominará o século XXI, que tem relação com esta velocidade absoluta, é a invenção de uma perspectiva em tempo real que substituirá a perspectiva que foi inventada pelos artistas italianos no Quattrocento. Ainda não foi enfatizado com profundidade como a cidade, a política, a guerra e a economia do mundo medieval foram revolucionadas pela invenção de perspectiva.

O ciberespaço é uma nova forma de perspectiva. Não coincide com a perspectiva audiovisual que nós já conhecemos. É uma perspectiva completamente nova, livre de qualquer referência prévia: é uma perspectiva tátil. Ver à distância, ouvir à distância: isso era a essência da velha perspectiva audiovisual. Mas alcançar à distância, sentir à distância, que prevê a transferência da perspectiva para um outro lugar, ainda está por ser realizado totalmente: o de contato, de contato-a-uma-distância, tele contato.




Uma perda fundamental de orientação

Junto com a formação de rodovias de informação expressas, estamos enfrentando um novo fenômeno: a perda de orientação. Uma perda fundamental de orientação complementando e concluindo a liberalização da sociedade e a desregulamentação dos mercados financeiros cujos efeitos abomináveis são famosos. Uma duplicação de realidade sensata, real e virtual, está em gestação. Uma "realidade estéreo" nos ameaça. Uma perda total dos referenciais do indivíduo. Para existir, é existir ín situ, aqui e agora, hic et nunc. Isto é justamente o que está sendo ameaçado através de ciberespaço e do instantâneo, fluxos de informação de globalizados.

O que está à frente é uma perturbação na percepção de que realidade é um choque, um choque mental. E este resultado deve nos interessar. Por que? Porque nunca há algum progresso tecnológico sem que se sinta também seus aspectos negativos específicos. O aspecto negativo específico destas rodovias de informação expressas é justamente esta perda de orientação relativo a alteridade (o outro), esta perturbação na relação com o outro e com o mundo. É óbvio que esta perda de orientação, esta não-situação, vai introduzir uma crise profunda que afetará sociedade e, consequentemente, a democracia.

A ditadura da velocidade levada ao limite colidirá cada vez mais com a democracia representativa. Quando alguns ensaístas nos falam em termos de "ciberdemocracia", de democracia virtual, que a "democracia da opinião" substituirá a "democracia das festas políticas", podemos pensar em qualquer coisa. Porém, podemos ter uma prévia (ao estilo italiano) desta perda de orientação em assuntos políticos com a chegada ao poder do Sr. Silvio Berlusconi, o "golpista da mídia", em março de 1994. Necessariamente esse tipo de tecnologia produzirá um futuro onde espectadores-eleitores e pesquisas de opinião apurando votos reinarão.

A palavra "globalização" é uma fraude. Não há globalização, há só virtualização. O que está sendo efetivamente globalizado através de instantaneidade é o tempo. Tudo acontece agora dentro da perspectiva do tempo real, nós somos obrigados a viver em um " sistema-de-um-tempo"

Pela primeira vez, a história vai se desdobrar dentro de um sistema-de-um-tempo, o tempo global. Até agora, a história aconteceu dentro de tempos, regiões e nações locais. Mas agora, de um certo modo, a globalização e virtualização estão inaugurando um tempo global que prefigura uma nova forma tirania. Se a história é tão rica, é porque era local, acontecia graças à existência de tempos saltados que anularam algo que até agora só aconteceu na astronomia: o tempo universal. Mas, no futuro muito próximo, nossa história acontecerá em tempo universal, devido à instantaneidade, e só.

Assim nós vemos um tempo real lateral que substitui o espaço real. Um fenômeno que está fazendo as distâncias e superfícies tornarem-se irrelevantes, rendendo-se a favor de um "tempo-instante" extremamente pequeno. Por outro lado, temos o tempo global: pertencemos à multimídia, ao ciberespaço que cada vez mais domina o tempo local de nossas cidades, nossos bairros.

Tanto assim que há uma certa tendência em substituir o termo "global" por "glocal", uma conjunção das palavras "local" e "global". Disto emerge da ideia de que o local, por definição, ficou global, e o global, local. Tal é a desconstrução da relação com o mundo, assim como a desconstrução da relação entre os próprios cidadãos.

Nada é obtido sem uma perda de qualquer outra coisa. O que será ganho de informação e comunicação eletrônica necessariamente resultará em perda em outro lugar. Se não estivermos atentos a esta perda, e não darmos uma resposta a isso, nosso benefício será nenhum. Esta é a lição do desenvolvimento anterior das tecnologias de transporte. A construção da estrada de ferro em alta velocidade (trem bala) só foi possível porque os engenheiros do século XIX tinham inventado o sistema de bloco que é um método para regular o tráfego, de forma que os trens são acelerados sem risco de causar catástrofes. Mas o controle de tráfego na informação, nas (super)estradas expressas, é diferente pela ausência deste sistema de controle.

Há qualquer outra coisa de grande importância aqui: nenhuma informação existe sem desinformação. E agora um tipo novo de desinformação está em ascensão, que é totalmente diferente da censura voluntária. Tem a ver com algum tipo de sufocamento das sensações, uma perda de controle sobre a medida das coisas. Aqui jaz um novo risco para a humanidade, cuja origem é a multimídia e os computadores.




De fato, Albert Einstein já tinha dito nos anos 50 sobre "a segunda bomba". A bomba eletrônica, depois da atômica. Uma bomba onde o que o tempo real é para a informação corresponde ao que a radioatividade é para a energia. A desintegração não afetará, então, somente as partículas de matéria, mas também pessoas mesmas que compõem a sociedade. Isto é justamente o que pode ser visto no mundo do trabalho com o desemprego de massa, trabalhos à distância, e as erupções cutâneas das deslocalizações nos investimentos.

A pessoa pode imaginar que, da mesma maneira que o aparecimento da bomba atômica elaborou uma política imperativa de dissuasão militar muito rápida para evitar uma catástrofe nuclear, a bomba da informação também precisará de uma forma nova de dissuasão adaptada ao século XXI. Esta será uma forma de dissuasão da sociedade para se opor ao dano causado pela explosão de informação ilimitada. Este será o grande acidente do futuro, que virá atrás da sucessão de acidentes que foram específicos à era industrial (quando navios, trens, aviões ou usinas nucleares foram inventados, foram inventados ao mesmo tempo também naufrágios, descarrilamentos, quedas de aviões e o derretimento da usina nuclear de Chernobyl...).

Depois da globalização das telecomunicações, devemos esperar um tipo generalizado de acidente, um acidente nunca visto antes. Seria de uma maneira tão surpreendente como o tempo global, isto é, um tipo de tempo nuca visto antes. Um acidente generalizado seria algo que Epicuro chamou de "o acidente dos acidentes" [e Saddam Hussein chamaria a "mãe de todos os acidentes", com certeza.]. O colapso do mercado de ações somente é um pré-figuração disto. Ninguém viu este acidente generalizado, contudo. Entretanto, assistem a isso como se ouvissem falar da "bolha financeira" na economia: uma metáfora muito significante é usada aqui, e suplica visões de algum tipo de nuvem e nos faz lembrar de outras mais assustadoras como Chernobyl...

Quando se levanta a pergunta sobre os riscos de acidentes na informação das (super)estradas, o problema não está sobre a informação em si mesma, o problema está sobre a velocidade absoluta dos dados eletrônicos. O problema aqui é a interatividade. A ciência do computador não é o problema, mas a comunicação do computador, ou o (não completamente conhecido) potencial de comunicação do computador. Nos Estados Unidos, o Pentágono, o mesmo criador da lnternet, está falando até mesmo em termos de uma “revolução no exército" junto com uma "guerra de conhecimento" como a qual poderia substituir a guerra de campo, da mesma maneira que substituiu a guerra de corpo-a-corpo da qual Sarajevo é uma lembrança trágica e antiquada.

Ao deixar a Casa Branca em 1961, Dwight Eisenhower batizou o complexo exército-industrial como “uma ameaça para democracia". Ele certamente sabia do que estava falando, já que ele próprio ajudou na construção disto. Mas ao mesmo tempo em que, em 1995, começa a se formar um complexo militar baseado nas tecnologias da informação, alguns líderes políticos americanos, como os proeminentes Ross Perot e Newt Gingrich, falam sobre uma "democracia virtual" com um espírito remanescente do misticismo fundamentalista. Como não se sentir alarmado? Como não ver os esboços cibernéticos se transformarem em uma política social?


O Narco-capitalismo do Mundo em rede

O poder sugestivo das tecnologias virtuais não tem paralelo. Próximo ao ilícito narco-capitalismo baseado nas drogas que atualmente desestabiliza a economia mundial, está rapidamente sendo construída uma narcoeconomia de comunicação via computador. A pergunta que pode ser levantada é até que ponto os países desenvolvidos não estão empurrando à frente as tecnologias virtuais a fim de virarem a mesa com os países subdesenvolvidos que estão, principalmente na América Latina, vivendo da produção de drogas de substância química ilícitas. Quando observamos todo o esforço de pesquisa em tecnologias avançadas que foram aplicadas no campo da diversão (vídeo games, óculos de realidade virtual etc.), poderíamos considerar que estes poderes de subjugação imediata - e foram prosperamente aplicados na história anteriormente – estão sendo secretamente investidos contra as pessoas?

Algo está pairando sobre nossas cabeças, algo parecido com uma “cibercultura". Nós temos que reconhecer que as novas tecnologias de comunicação só não avançarão sobre a democracia se, e só se, nos opormos a esta caricatura de sociedade global que é gestada para nós por grandes corporações multinacionais que se lançam a um ritmo precipitado nas rodovias expressas de informação.                  

Paul Virilio (1932-2018) foi um emblemático teórico francês sobre tecnologias. Entre seus maiores trabalhos incluem-se: Guerra Pura, Velocidade e Política, e Guerra e Cinema: as Logísticas de Percepção. Dois de seus mais recentes livros são Tela do Deserto e A Arte do Motor. Este artigo apareceu em francês no Le Monde Diplomatique, agosto de 1995.


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