O distinto leitor já reparou em quem realmente segura a batuta da política brasileira em ano de eleição? Não são os partidos, os programas de governo ou o debate eleitoral, mas a engrenagem de um "Deep State" à brasileira. Da efêmera cobertura midiática sobre as conexões do PCC na Faria Lima ao bombardeio diário de vazamentos seletivos envolvendo do filho de Lula ao clã Bolsonaro, a burocracia do Estado deixou a neutralidade weberiana no papel para assumir o controle do timing político do país. Através do uso estratégico de operações policiais, timing judicial e uma simbiose calculada com a imprensa, o estamento burocrático transformou-se no principal ator do jogo democrático. E a crise entre o ministro André Mendonça e o STF seria a confirmação empírica e um aprofundamento do conceito de Deep State brasileiro.
O leitor lembra de ter visto, ouvido ou lido alguma atualização sobre
a Operação Carbono Oculto, da Polícia e Receita Federal? Aquela operação
deflagrada no ano passado com o propósito de desarticular um esquema bilionário
de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal ligado ao Primeiro Comando da Capital
(PCC) no setor de combustíveis e a Faria Lima – a lvagem de dinheiro do crime
organizado e os “camelôs” do sistema financeiro, as fintechs.
Por acaso, também o leitor sabia que essa Operação (que causou um
breve estardalhaço de uma semana na mídia) já está na sua segunda fase, a
“Fluxo Oculto”?
Um clássico exemplo de “Jornalismo Snapchat”: alguns dias de
manchetes e fotos emblemáticas (como a das viaturas da PF paradas em frente a
um luxuoso prédio comercial da Faria Lima) para depois desaparecer do
noticiário.
Enquanto a Operação Sem Desconto (sobre débitos ilegais em
benefícios de aposentados e pensionistas do INSS) não sai das manchetes no
estilo “pau-que-bate-em-Chico-bate-em Francisco”: começou com a tentativa de
criar uma Lava Jato 2.0 e jogar o escândalo no colo de Lula. Depois, o
vazamento de conversas entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro.
Depois, entra as supostas conexões entre o filho de Lula, o Lulinha, a lobista Roberta
Luchsinger o famoso “Careca do INSS” e o ex-chefe do Gabinete de Lula, Marco
Aurélio Santana Ribeiro (o “Marcola”).
Três investigações autorizadas pelo STF com o nome de Lulinha,
aparecendo nas investigações da fraude do INSS.
Isso, depois do ministro André Mendonça, do STF, autorizar a
abertura de inquérito para investigar Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no caso do
financiamento do filme Dark Horse com recursos associados ao
ex-banqueiro Daniel Vorcaro, além de apurações sobre emissão de notas fiscais e
suposta atuação parlamentar em favor do Banco.
Em pleno ano eleitoral, a Polícia Federal vem empilhando uma série
de operações deflagradas para investigar desvios, fraudes e lavagem de dinheiro
envolvendo figuras políticas – Operação Heritage, Operação Sem Desconto,
Operação Compliance Zero, Operação Infiltrados etc.
Tudo com vazamentos de informações conduzidos por delegados
lava-jatistas, que se valem dos mesmo modus operandi da Lava Jato: vazar
para determinados “colonistas” do jornal O Globo.
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O inquérito contra Flávio Bolsonaro, por envolvimento direto com
Daniel Vorcaro, na casa dos R$ 120 milhões, ficou para trás. Agora é a vez do
filho de Lula e o fim da nova pauta virtuosa que o palácio do Planalto tentava
entabular: a família Bolsonaro envolvida com o novo Tarifaço de Trump e a
defesa da Soberania na campanha de Lula.
Fala-se em defesa da autonomia da PF. Mas o fato é que ela
continua alimentando a mídia com impressões, informações — ou com o desejo de
induzir as investigações. Agora, é a vez de Fábio Luís Lula da Silva, o
Lulinha.
Fica evidente um curioso jogo, como se corporações da máquina do
Estado brasileiro (PF, Receita Federal, procuradores, Ministérios Públicos
etc.) atuassem como fossem, por assim dizer, um “Estado Profundo” brasileiro –
manter o cenário eleitoral sob um apertado cabresto.
Como se ditassem o ritmo e a música. Para observar quem dança
melhor...
Para explicarmos melhor essa proposta de análise, precisamos articular
a sociologia política clássica com a análise da história recente do Brasil.
Para sustentarmos a tese de que a fronteira teórica entre Governo
(agentes eletivos e passageiros) e Estado (burocracia técnica e permanente) foi
obscurecida no Brasil contemporâneo pela atuação autônoma e corporativa das
corporações estatais.
Vamos desenvolver em quatro eixos teóricos e empíricos. A saber:
1. A ilusão da neutralidade Weberiana: de Weber a René Armand Dreyfuss
Para Max Weber, a burocracia estatal moderna representa o ápice da
racionalização ocidental: um corpo técnico, hierarquizado, impessoal, laico e
desprovido de ideologia partidária, cujo papel é executar as diretrizes do
governante eleito sob a égide do direito racional-legal.
No entanto, a ciência política crítica demonstra que esse
"tipo ideal" weberiano raramente se realiza integralmente. Em 1964:
A Conquista do Estado (1981), o cientista político René Armand Dreyfuss
desmontou a premissa de neutralidade ao analisar o golpe militar de 1964.
Dreyfuss demonstrou como uma elite tecno-empresarial e militar (articulada em
institutos como IPES e IBAD) instrumentalizou e ocupou a máquina estatal por
dentro antes e depois da deposição de João Goulart.
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A lição central de Dreyfuss aplicável ao presente é: a máquina
do Estado não é um instrumento neutro aguardando ordens políticas, mas uma
arena de poder disputada e instrumentalizada por elites corporativas.
2. A autonomização dos "Estamentos do Estado": o "Deep State" à brasileira
A noção de Deep State refere-se à atuação
de segmentos não eleitos da burocracia pública — especialmente forças de
segurança, inteligência, setores do Judiciário e forças armadas — que operam
com agenda própria, à revelia das instâncias democráticas eleitas.
No caso brasileiro recente, essa atuação autônoma se manifestaria em três dinâmicas centrais:
- O
Protagonismo das Corporações de Controle: Órgãos como a Polícia Federal, o
Ministério Público Federal e setores do Judiciário adquiriram, a partir do
início dos anos 2000 e culminando com a Operação Lava Jato, um grau sem
precedentes de autonomia corporativa e capacidade de agenda-setting
(definição da pauta política).
- A
Seletividade e o Timing Político: As operações e seus respectivos
desdobramentos em períodos eleitorais — atingindo diferentes atores do
espectro político (como investigações envolvendo a família Bolsonaro ou a
anulação/condução de processos contra Lula) — revelam como o ritmo das
instituições policiais e judiciais interfere diretamente no processo
eleitoral.
- A
Simbiose com a Grande Mídia: A articulação entre vazamentos seletivos de
processos sigilosos para colunistas e grandes veículos de imprensa
funciona como um mecanismo de validação pública da atuação estamental,
criando um ciclo no qual o sistema de justiça pauta a opinião pública e
desestabiliza agentes políticos eleitos.
3. A militarização da burocracia civil (2018–2022)
A consolidação do que a tese qualifica como o novo estamento
manifestou-se com particular intensidade entre 2018 e 2022. O preenchimento de
mais de 6.000 cargos civis na administração pública federal por militares da
ativa e da reserva (dados confirmados por levantamentos do Tribunal de Contas
da União no período) representou uma alteração estrutural no funcionamento do
Estado brasileiro.
Essa expansão provocou dois efeitos simultâneos:
- A
Desprofissionalização Técnica: A substituição da burocracia civil de
carreira por oficiais das Forças Armadas em ministérios estratégicos (como
Saúde, Meio Ambiente e Minas e Energia) subverteu o princípio de
insulamento burocrático e saber especializado previstos no modelo
weberiano.
- A
"Tutela Militar" da Máquina Pública: A presença ostensiva de
fardados no núcleo do Poder Executivo funcionou como uma tentativa de
institucionalizar o poder moderador das Forças Armadas por dentro do
aparelho de Estado, esbatendo definitivamente as linhas entre o governo de
plantão e o aparato permanente do Estado.

4. O colapso da separação entre Governo e Estado
A clássica dicotomia weberiana entre um Governo transitório e um Estado neutro
deu lugar a um modelo em que as corporações estatais (policiais, judiciais e
militares) atuam como atores políticos autorreferenciados.
Quando os órgãos de coerção e investigação passam a ditar o tempo
da política representativa, e quando a burocracia militarizada busca moldar a
governabilidade, o Estado deixa de ser o "motor da racionalização
impessoal" e converte-se no principal sujeito das disputas de poder no
país.
Mendonça vs. PF: a disputa dentro do Deep State
Podemos considerar a crise entre o ministro André Mendonça (STF) e
a cúpula da Polícia Federal (PF) como uma confirmação empírica e um
aprofundamento do conceito de Deep State (ou burocracia estamental) no
Brasil.
O episódio demonstra que o aparato de coerção e justiça do Estado
não é apenas autônomo em relação ao Governo eleito, mas é ele próprio um campo
de batalha interno, no qual frações do estamento estatal disputam o controle da
pauta midiática e política e das ferramentas de investigação.
E de mais a mais, a tese do Deep State não pressupõe um
bloco homogêneo ou uma conspiração unificada, mas sim a existência de
corporações públicas com agendas corporativas e políticas próprias. O embate
entre o gabinete de André Mendonça e a direção da PF expõe uma disputa de
controle sobre as armas do Estado:
- A tentativa
de tutela judicial: ao exigir a centralização de inquéritos (como as
investigações sobre fraudes no INSS e o caso envolvendo o banco Master),
cobrar relatórios integrais e determinar que qualquer mudança na equipe de
delegados fosse informada ao seu gabinete, o ministro tentou exercer
controle rígido sobre o aparato policial.
- A reação
da PF foi estamental corporativa — simbolizada pelo manifesto assinado por
todos os 27 superintendentes regionais em defesa da "autonomia
técnica" e contra "ingerências externas". É uma
manifestação clássica de autoconservação estamental. A corporação policial
recusou-se a ser tratada como mero braço executor de um relator no STF,
afirmando-se como um "órgão de Estado" imune à tutela individual
de magistrados.
Mas, principalmente, o que está em jogo nessa disputa o controle
do Timing Eleitoral e da Agenda-Setting - o poder de agendar a mídia.
O epicentro do atrito revela como o ritmo das apurações do Estado
impacta diretamente a política partidária:
- Ponderação
de Alvos e Veto Político:
O avanço de apurações e o desmembramento de inquéritos pela PF atingindo
figuras estratégicas do governo (como o filho do presidente Lula,
"Lulinha") de um lado, e apurações sob a relatoria de um
ministro indicado pela gestão anterior (Bolsonaro) de outro, escancaram a
disputa sobre quem define o ritmo e a direção dos desgastes políticos.
- Vazamentos
e a Batalha Narrativa: As
acusações mútuas de vazamentos seletivos de informações sigilosas para a
imprensa mostram que a disputa entre a burocracia policial e a burocracia
judiciária utiliza a opinião pública como arena de validação. O vazamento
deixa de ser uma anomalia procedimental e passa a ser uma ferramenta de agenda-setting
praticada por frações do próprio Estado.
O conflito entre André Mendonça e a Polícia Federal ilustra que o
processo de racionalização burocrática previsto por Weber não gerou uma máquina
neutra e laica, mas sim corporações altamente empoderadas e politizadas... pelo menos no caso brasileiro.
segunda-feira, agosto 10, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira




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