sábado, maio 23, 2026

A semioticização do tesão no filme 'Morra, Amor'



O tédio doméstico e o colapso do ideal conjugal estão longe de ser novidade no cinema, mas nada prepara o espectador para a violência sensorial de “Morra, Amor” (Die My Love, 2025, disponível no MUBI). Sob a direção cirúrgica de Lynne Ramsay, o longa vai muito além do drama tradicional sobre psicose pós-parto ao transformar o isolamento rural de uma jovem mãe (Jennifer Lawrence) em uma arena de batalha existencial. O longa esquiva-se do clichê da depressão pós-parto para realizar uma autópsia semiótica do casamento. O que se vê na tela é o "infarto do signo": o choque brutal entre a energia bruta do tesão extra-linguístico e uma estrutura social implacável que drena a força vital de uma geração que viu seus sonhos serem domesticados pela rotina.

Filmes sobre donas de casa que veem sua juventude e entusiasmo se perdendo no cotidiano da vida conjugal, não é exatamente uma novidade no cinema.

Narrativas sobre o tédio conjugal que já foram contadas diversas vezes e por diversos gêneros, desde o terror (O Bebê de Rosemary, 1968, no qual o casamento esconde uma conspiração satânica) até o drama sensível de como o amor pode se esvair em Histórias de um Casamento (2019).

Mas nada parecido como Morra, Amor (Die My Love, 2025), dirigido por Lynne Ramsay: um verdadeiro espelho cirúrgico ao traduzir visualmente e sensorialmente o colapso de Grace (Jennifer Lawrence) no isolamento rural de Montana – sob a aparência de ser apenas um drama tradicional sobre psicose pós-parto.

Morra, Amor, é uma desconstrução e refutação feroz do que a felicidade conjugal e a maternidade são vendidas para jovens casais.

Aqui temos Grace como uma aspirante a escritora presa em uma inversão apocalíptica de seus sonhos, com a mente confusa por uma suposta depressão pós-parto e pelo tédio, enquanto o marido, Jackson (Robert Pattinson), viaja a trabalho. Sim, um típico “bullshit job”. Ele aceita o trabalho depois que suas ambições como músico definharam e morreram. Mas pelo menos ele sai de casa e come hambúrgueres e milk-shakes em postos de gasolina, de um jeito que faz sua amada ferver de ciúmes.

Detalhe para as camisinhas que ela encontra no porta-luvas do carro do marido.



Lawrence está presa em uma casa que a está sufocando, com um bebê que ela e Jackson ainda não nomearam e o cachorro mais irritantemente latidor e insuportável da história do cinema.

Caminhar sob o céu imenso e os campos infinitos ao redor de sua casa não oferece alívio real para a sensação de confinamento de Lawrence. Reforçada pela filmagem 35 mm no formato 4:3 conferindo ao filme uma incrível fotografia granulada, mas através de uma visão tão limitada em que até mesmo os milhares de hectares percorridos por Grace se tornam um lugar sem escapatória.

A princípio, Jackson e Grace são incrivelmente felizes, fazendo sexo o tempo todo – depois quase sempre, depois às vezes e, por fim, nunca mais. Há uma cena brutalmente cômica na qual ela confronta Jackson sobre isso e exige que façam sexo, agora mesmo, no carro, como faziam antes. O consumo de álcool e as mudanças de humor de Grace estão se tornando mais explosivos.

A realidade começa a se misturar com uma alucinação vertiginosa quando Grace começa a fantasiar sobre um cara que viu em um estacionamento, que se funde com outro desconhecido de moto que periodicamente ruge por uma floresta próxima; este é Karl, interpretado por LaKeith Stanfield.

A imaginação de Grace catastrofiza tudo o que ela vê – criando crises dolorosas e violentas, na verdade, e, na ficção de sua imaginação, uma forma de automutilação melodramática; mal um conjunto de cortes começa a cicatrizar, e ela se inflige outro – os estigmas renovados de seu calvário de tristeza particular.



Temos que adiantar que a sutileza não está exatamente entre os atributos deste filme – a narrativa é feroz, raivosa, engajada e intensamente, sensualmente atenta a cada detalhe do prazer e dor de Grace.

Morra, Amor explora uma situação que já se tornou arquetípica para a geração millenial e Z: ela, o sonho de ser uma escritora “do grande Romance Americano” na suposta paz rural de Montana. E ele, tornar-se um músico de sucesso. Mas tudo o que encontram são problemas reais para lidar, como encontrar um lugar para morar, pais idosos, filhos, casamentos, empregos, círculos de amigos de quem não gostam, contas e a ferida psíquica purulenta de sonhos não adiados, mas sufocados.

Para Grace, a armadilha perfeita: isolada, no Meio Oeste dos EUA, tendo como vizinhos os pais do marido e mulheres com olhares piedosos para ela: Grace estaria apenas vivendo o drama da depressão pós-parto – claramente uma rede social de contenção para manter Grace num papel de dona de casa submissa, à espera do marido voltar para casa no final de cada dia.

Semioticização do tesão

O ponto central em Morra, Amor é a decadência psíquica e social e a espiral de confusão entre alucinação e realidade de Grace.

Para compreender a espiral de Grace, precisamos entender como sua experiência de mundo é fragmentada e reconfigurada através das três categorias da fenomenologia semiótica de Charles S. Peirce: Primeiridade, Segundidade e Terceiridade — respectivamente ao tesão (pulsação pura), ao amor (relação/choque) e ao casamento (lei/instituição).

Com isso, Morra, Amor se torna muito mais do que um filme dramático, mas uma verdadeira crônica visual do aprisionamento de uma relação através de uma rede de signos. O filme mostra o trajeto da energia vital sendo domesticada, codificada e, por fim, esgotada pelo choque com a estrutura social – por assim dizer, uma semioticização do tesão: como uma pulsão pré-linguística é incorporada por uma rede de signos social e institucional.



(a) Primeiridade: o tesão (a qualidade pura)

A Primeiridade é a categoria do imediato, do potencial, do sentimento puro sem reflexão ou mediação. No filme, isso é representado pelo tesão, pela libido e pela força vital bruta e extra-linguística.

É o desejo carnal e animal de Grace, a sua conexão com a natureza selvagem de Montana, os impulsos corporais que existem antes de qualquer palavra. É uma energia caótica, sem direção ou julgamento moral. É o puro "ser" do desejo.

(b) Segundidade: o amor (o choque e a relação)

A Segundidade introduz a alteridade, o conflito, a ação e reação. É o momento em que a energia pura da Primeiridade colide com o "Outro". Aqui, localiza-se o amor enquanto experiência vivida.

O amor entre Grace e Jackson não é uma abstração; é o choque de dois corpos, a fricção do cuidado, a presença física do bebê que chora e exige resposta. Na Segundidade, o tesão deixa de ser apenas uma sensação interna e se torna uma força de atrito com a realidade material do outro. Há uma resistência, um peso.

(c) Terceiridade: o casamento (a lei e o signo)

A Terceiridade é a categoria da mediação, da lei, do hábito, da cultura e da linguagem. O casamento, enquanto instituição, é o ápice da Terceiridade.

O casamento é a estrutura social que tenta organizar, prever e normatizar o caos da Primeiridade (tesão) e a volatilidade da Segundidade (amor). Ele transforma o desejo em contrato, em rotina doméstica e em papéis preestabelecidos (a "boa esposa", o "provedor").



A Semiotização do tesão: da energia pura à rede de signos

O grande conflito estético e narrativo de Morra, Amor reside na violência da semiotização. O filme mostra como o tesão — que nasce livre, biológico e extra-linguístico (Primeiridade) — é forçado a entrar na máquina de significação da sociedade (Terceiridade).

O desejo selvagem de Grace não pode simplesmente existir na sociedade contemporânea. Ele precisa ser nomeado, categorizado e rotulado. Quando ela tenta expressar sua pulsão (seja escrevendo seu romance ou através de comportamentos erráticos), a sociedade imediatamente tenta ler esses atos como "sintomas" (depressão pós-parto, loucura, inadequação).

O tesão é domesticado e incorporado a uma rede de signos de consumo e funcionalidade. Ele deve se transformar em "fidelidade conjugal", em "energia produtiva para a maternidade" ou em "romantismo comercial". A espontaneidade da qualidade pura é esmagada pela rigidez do símbolo.

O choque contra a estrutura processo de entropia psíquica

Grace resiste desesperadamente a se tornar apenas um "símbolo" funcional dentro da instituição matrimonial. Cada ato de rebeldia ou aparente loucura dela é um esforço da Segundidade (o choque, a reação física) tentando romper as amarras da Terceiridade (as convenções sociais). Ela usa o próprio corpo, a sujeira e a agressividade para tentar reverter o processo de domesticação de sua energia.

No entanto, a rede de signos da sociedade é implacável. Ao tentar traduzir seu tesão extra-linguístico em uma vida estruturada, Grace descobre que o código (o casamento, as expectativas sociais) drena sua força vital.

A cinematografia de Ramsay trabalha essa perda de energia de forma brilhante: as cores outonais ou frias de Montana, o cansaço físico estampado no rosto da protagonista e o isolamento claustrofóbico mostram o resultado final desse trajeto.

O tesão, uma vez capturado e transformado em signo institucionalizado, perde sua potência motriz. O que sobra é o infarto do signo: o esgotamento completo de uma mente que colidiu contra a parede intransponível das convenções sociais.


 

Ficha Técnica

Título: Die My Love

Direção: Lynne Ramsey

Roteiro: Enda Walsh, Lynne Ramsay, Alice Birch

Elenco: Jennifer Lawrence, Robert Pattinson, Sissy Spacek

Produção: Black Label Media, Excellent Cadaver

Distribuição: MUBI

Ano: 2025

País: EUA

  

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