Para além da música e da fé que arrastaram milhares de fiéis ao Centro do Rio no último sábado (23) durante a 19ª Marcha para Jesus, o megaevento — blindado como “Patrimônio Imaterial” e turbinado com R$ 6 milhões de dinheiro público — acendeu o estopim de um debate muito mais profundo do que a simples crítica ao "oportunismo eleitoral" de Silas Malafaia e seus pré-candidatos para 2026. O que o evento escancara é a consolidação da agenda do pânico moral, bomba semiótica que produz o novo centro de gravidade da esfera pública brasileira. Em uma inversão social sem precedentes, enquanto os projetos de país e o debate ideológico racional são empurrados para o armário do foro íntimo, as ruas e as instituições são colonizadas por uma cruzada moralizante e hiperbólica de costumes, transformando a arena política em um tribunal eclesiástico e o adversário em um inimigo a ser extirpado.
"Um dia as perversões privadas se tornarão virtudes públicas"
Bernard Mandeville
Fé e música tomaram conta do Centro do Rio neste sábado (23)
durante a 19ª edição da Marcha para Jesus. Um dos maiores eventos cristãos do
País, o encontro reuniu milhares de fiéis em uma grande caminhada de celebração
religiosa.
O clima era de exortação à união das
várias vertentes do cristianismo no encontro e exaltação da fé em um evento que
foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Rio desde 2023
e incluída no calendário oficial da cidade.
Marcha deste ano teve como tema “O
Poder da Decisão” e contou com mais de oito horas de programação gratuita.
A principal crítica de sites progressistas
contra o evento foi o “oportunismo político”: o organizador do evento, o pastor
Silas Malafaia, colocou no trio elétrico nomes apoiados por ele para as
eleições de 2026, entre eles Chico Machado (PL), Sóstenes Cavalcante (PL) e o
deputado estadual Douglas Ruas, pré-candidato ao governo do Rio.
Pior: com dinheiro público - verbas dos
governos municipal e estadual que somam R$ 6 milhões.
O que espanta nessa crítica é encarar a
política como um parasita num evento que deveria ser eminentemente religioso.
Políticos de extrema direita e bolsonaristas estariam “pegando carona” num evento
que deveria ser apenas exaltar a fé em Deus e em Cristo.
E ainda por cima, com dinheiro público.
Por que espanto? Porque a crítica passa
batida sobre uma das transformações mais intrigantes da sociologia política
contemporânea: assistimos a uma espécie de inversão topográfica dos espaços
público e privado.
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O que historicamente deveria ser de
foro íntimo e confessional (a fé, a devoção religiosa e as pautas de moralidade
individual) passou a colonizar o debate de massas e a ocupar as ruas com grande
vigor estético e midiático.
Em contrapartida, aquilo que deveria
fundar a esfera pública (o debate ideológico racional, o dissenso
político-partidário e os projetos programáticos de sociedade) tem sido
empurrado para o casulo do "foro íntimo", muitas vezes silenciado
pelo medo do cancelamento, pela polarização afetiva ou pela saturação do
debate.
Agenda do Pânico Moral
O que vemos ocupando tanto espaços
públicos quanto os debates nas redes sociais e jornalismo corporativo são eventos
religiosos como a Marcha para Jesus (Edições de São Paulo e Rio de Janeiro), eventos
públicos de exaltação a orixás e entidades como Exu.
Enquanto o Congresso e as ruas são tomados
por aquilo que este humilde blogueiro define como agenda do pânico moral.
A arena parlamentar brasileira hoje
funciona como uma caixa de ressonância dessa pauta moralizante. Projetos de lei
e emendas constitucionais são gestados sob forte apelo emocional e religioso,
gerando reações e manifestações de rua focadas estritamente nos costumes.
Como, por exemplo, as ofensivas legislativas
contra o aborto: a apresentação e o debate em torno de projetos que visam
proibir integralmente o aborto (mesmo nos casos já previstos em lei) mobilizam
rotineiramente vigílias católicas e evangélicas em frente ao Congresso e nas
capitais, bem como contramanifestações feministas. O debate jurídico e de saúde
pública é completamente colonizado por argumentos de foro íntimo, pecado,
moralidade e convicção religiosa.
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Ou ainda, a pauta proibitiva de costumes
(Linguagem Neutra e Ideologia de Gênero): manifestações políticas de direita em
nível municipal e estadual focam exaustivamente na proibição de termos de
gênero neutro em escolas ou na fiscalização de acervos de bibliotecas públicas.
O foco do debate educacional deixa de
ser a infraestrutura ou os métodos pedagógicos (política programática) e passa
a ser a vigilância moral da sexualidade infantil.
A Inversão dos Espaços: o privado em praça pública e o político no armário
Para compreender essa mutação, vale
contrastar o cenário atual com a gênese da esfera pública burguesa analisada
pelo filósofo Jürgen Habermas na sua obra “Mudança Estrutural da Esfera Pública”.
No século XVIII, a esfera pública nasce
em espaços de sociabilidade — os cafés ingleses, os salões parisienses, as
sociedades de leitura. Nesses locais, os indivíduos se despiam de seus títulos
nobiliárquicos ou de suas fés particulares para praticar o uso público da
razão.
O foco era o debate político, a crítica
literária e a fiscalização do Estado. Havia uma separação clara: a religião
e a moral privada ficavam no âmbito doméstico (o foro íntimo); os rumos da pólis
eram debatidos publicamente através do argumento lógico.
Hoje, o que vemos é o oposto:
(a) A
espetacularização do sagrado e da moral: Eventos como
a Marcha para Jesus ou manifestações públicas de cultos de matriz
africana (como a Marcha Exu) não são apenas expressões de fé; são demonstrações
de força política e ocupação territorial do espaço urbano e midiático. A pauta
moral (costumes, sexualidade, estrutura familiar) virou o principal motor de
engajamento e audiência na grande mídia e nas redes sociais.
(b) O enclausuramento do debate político-ideológico: discutir convicções partidárias
profundas ou reformulações ideológicas complexas tornou-se um tabu. A política
programática foi privatizada. As pessoas evitam declarar seus votos ou suas
visões econômicas no almoço de família ou no ambiente de trabalho para evitar
rupturas. A convicção política virou o novo "segredo de alcova".
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| Jürgen Habermas e Mudança Estrutural da Esfera Pública |
A Mídia de Massa e a Substituição do Argumento pela Performance
Habermas já alertava para a
"refeudalização da esfera pública" com o advento da mídia de massa,
onde o debate argumentativo é substituído pelo consumo de exibições e relações
públicas.
Na sociedade atual, a fé e a pauta
moral possuem uma plasticidade estética e uma carga emocional que se adaptam
perfeitamente à lógica dos algoritmos e da televisão. É muito mais fácil
engajar multidões através do sentimento de pertencimento identitário, da
catarse coletiva e do julgamento moral do que através de um debate árduo sobre
reforma tributária ou políticas de macroeconomia.
O espetáculo da fé performada
substituiu a sobriedade do debate ideológico.
As Consequências dessa Regressão
Essa troca de papéis gera um
esvaziamento democrático perigoso:
(a) A
moralização da política (a agenda do pânico moral): Quando a
esfera pública é dominada por pautas morais e confessionais, o adversário
político deixa de ser alguém que pensa diferente (um oponente legítimo) e passa
a ser visto como um "malfeitor" ou um "pecador" (um inimigo
a ser extirpado). A lógica do compromisso e do consenso — vital para a
democracia — implode, pois princípios morais e dogmas religiosos não aceitam
negociação.
(b) O paradoxo da privatização
política: Ao
empurrarmos a discussão ideológica e partidária para o foro íntimo,
enfraquecemos os partidos e as instituições mediadoras. A política deixa de ser
uma construção coletiva feita em praça pública e passa a ser uma escolha
puramente individual e de consumo, muitas vezes decidida na solidão das bolhas
digitais.
Em síntese, o diagnóstico habermasiano
ganha contornos dramáticos no século XXI.
A esfera pública não faliu por falta de
público, mas por uma mutação de substância. Ao transformarmos a política em
segredo e a moral privada em espetáculo, regredimos do ideal do cidadão
argumentativo para o império do fiel performático.
O debate racional dos cafés foi substituído pelo clamor emocional das marchas religiosas nas ruas e nas telas dos smartphones.
Vivemos tempos da realização de um antigo presságio do escritor do século XVIII Bernard Mandeville: “Um dia as perversões privadas se tornarão virtude públicas”.
Quando
a mídia transforma vícios privados em virtudes públicas Todas
as virtudes públicas e vícios privados do gênio preso em um labirinto no
filme 'Tár'
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quinta-feira, maio 28, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira




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