sábado, maio 09, 2026

'O Diabo Veste Prada 2': o crepúsculo dos deuses da Moda



Vinte anos após ditar o exato tom de azul que filtraria das passarelas de luxo até as "trágicas cestas de ofertas" do varejo, Miranda Priestly enfrenta um rival que não pode ser intimidado por um olhar gélido: o algoritmo. Em “O Diabo Veste Prada 2” (2026), a transição da aura sagrada da Alta Costura para o caos horizontal das redes sociais e da Inteligência Artificial ganha contornos de um acerto de contas semiótico. Enquanto o primeiro filme consolidou a mitologia do prêt-à-porter como uma ferramenta de controle cultural, a sequência atua como uma autópsia da autoridade editorial, revelando como o poder de criar mitos e "estilos de vida" foi fragmentado por bombas digitais e pela obsolescência programada do jornalismo impresso.

A transição da Alta Costura para o Prêt-à-Porter e, finalmente, para o varejo global não é apenas uma mudança logística ou econômica; é uma mutação na forma como a humanidade produz e consome mitos.

A Haute Couture (Alta Costura) era a expressão máxima do vestuário como arte ritualística. Para ostentar esse selo legalmente, uma marca devia seguir regras rígidas: peças feitas sob medida, costuradas à mão, com centenas de horas de trabalho e apresentadas em coleções semestrais.

A Alta Costura criou toda uma Mitologia do Exclusivo - a roupa não servia apenas para vestir, mas para sinalizar a pertença a uma aristocracia (de sangue ou de capital).

Após a Segunda Guerra Mundial, o mundo mudou. A ascensão da classe média e o ritmo acelerado da vida urbana tornaram a Alta Costura obsoleta para o dia a dia. Surge o Prêt-à-Porter (Pronto-para-Vestir).

Grifes como Yves Saint Laurent entenderam que o futuro estava na padronização industrial com qualidade de luxo. A produção em série permitiu que o design de autor chegasse às ruas.

Com isso criou-se toda uma nova mitologia: o foco mudou do "inalcançável" (Alta Costura) para o "estilo de vida". A moda passou a vender identidades narrativas: a mulher trabalhadora, o rebelde chic, o intelectual boêmio. O vestuário tornou-se um signo semiótico de participação cultural.

Quando em O Diabo Veste Prada (2006) a então jornalista Andy Sachs ironizou o preciosismo estilístico de Miranda (a toda poderosa e temida editora-chefe de moda da revista “Runway”) e resultou no “monólogo do azul cerúleo”, ficou exposta essa nova mitologia do prêt-à-porter que Miranda incorporava:

Oh, entendi. Você acha que isso não tem nada a ver com você.

Você vai ao seu armário e seleciona, não sei, esse suéter azul horroroso, por exemplo, porque está tentando dizer ao mundo que é séria demais para se importar com o que veste. Mas o que você não sabe é que esse suéter não é apenas azul. Não é turquesa. Não é lápis-lazúli. É, na verdade, cerúleo.

E você também não tem noção do fato de que, em 2002, Oscar de la Renta fez uma coleção de vestidos cerúleos. E depois, acho que foi Yves Saint Laurent que mostrou jaquetas militares cerúleas... E então o cerúleo apareceu rapidamente nas coleções de oito designers diferentes. Depois, ele filtrou-se pelas lojas de departamento e chegou a uma dessas trágicas lojas de liquidação onde você, sem dúvida, o resgatou de uma cesta de ofertas.

A toda poderosa Miranda já era uma artífice dessa mitologia da moda prêt-à-porter: embora os estilistas façam parte de uma linha de montagem industrial e distribuição varejista, “intelectuais orgânicas” como Miranda criam esse imaginário do “estilo de vida exclusivo”, cujos restos chegavam nas cestas de ofertas do varejo.



Em O Diabo Veste Prada 2 (2026) acompanhamos Miranda vítima de um irônico acerto de contas da Alta Costura: se ela era uma das ideólogas dessa virada da moda para as classes médias, o passado se vinga por meio das redes sociais e Inteligência Artificial.

Se no primeiro filme a dinâmica era sobre quem detinha o poder de ditar o "azul cerúleo", a sequência explora o que acontece quando esse poder é fragmentado por eventos digitais repentinos que destroem reputações e redirecionam o desejo do consumo em segundos.

E a IA prometendo a obsolescência dos editores de moda que funcionavam como os gatekeepers das tendências de moda para as massas.

O Filme

Anne Hathaway retorna como a encantadora e talentosa Andy Sachs, agora trabalhando como a jornalista séria que sempre sonhou ser antes de abandonar a revista Runway no primeiro filme, dirigido por David Frankel e escrito por Aline Brosh McKenna, em uma adaptação do best-seller de Lauren Weisberger.

Vinte anos se passaram desde o lançamento do primeiro filme, e desde os celulares de flip retratados nele, quando Andy foi contratada para ser a segunda assistente da lendária estilista Miranda Priestly (Meryl Streep) no mundo da moda, e abandonou o emprego abruptamente durante uma viagem à semana de moda de Paris, em meio a um despertar moral.



O filme começa com Andy prestes a receber um prestigioso prêmio de jornalismo investigativo quando todos na sua mesa recebem a mesma mensagem de texto que praticamente os demite na hora – fenômeno rotineiro no jornalismo hoje em dia, depois que uma grande empresa sem alma ou um bilionário ignorante adquire um veículo de comunicação em uma megafusão, destruindo todo u, legado de orgulho.

A revista “Runway” e Miranda voltam a aparecer depois que Andy, misteriosamente, consegue um novo emprego em sua primeira casa profissional do filme anterior.

Sua missão será reformular a linha editorial da publicação. Em meio a um pesadelo de relações públicas após a revista elogiar acidentalmente um fornecedor que explorava mão de obra escrava.

Nem Miranda e nem seu braço direito, Nigel (Stanley Tucci), se lembram de Andy à primeira vista. Ela é prontamente colocada em um escritório constrangedor que parece um depósito e designada para trabalhar com a dedicada assistente Jin (Helen J Shen), tão inteligente e ambiciosa quanto a jovem Andy.

Enquanto isso, os dois assistentes de Miranda são Amari (Simone Ashley) e Charlie (Caleb Hearon), ambos interessantes, mas pouco desenvolvidos. "Houve algumas reclamações para o RH", diz Charlie a uma Andy chocada em uma cena em que vê Miranda pendurando o próprio casaco. "Aparentemente, ela costumava jogar os casacos em cima dos assistentes", comenta Charlie.



Miranda vive em um mundo diferente —um mundo onde as publicações impressas perderam sua relevância (assim como seus orçamentos) em meio ao ruído online sem sentido e às métricas de sucesso baseadas em cliques que reduzem a qualidade. "A edição de setembro é tão fina que dá para praticamente usar como fio dental", diz Miranda, com frieza, em um momento revelador que só pode significar que a “Runway” esteja com os dias contados.

Ao longo do filme, há sinais dessa perda de relevância no olhar de Miranda. Streep a retrata conscientemente esse olhar de derrota. Nesse sentido, Miranda parece não ter mais certeza de seu lugar em um mundo de conteúdo que ela deseja governar. Mas ela parece perdida de várias maneiras.

Ela está um pouco mais suave, mas não completamente — ela ainda recorre a um ou outro comentário ofensivo, como Miranda costuma fazer. Mas, embora esses insultos sussurrados sejam consistentes com sua personagem no primeiro filme, aqui eles soam como acréscimos tardios de um roteiro que tenta construir uma nova história enquanto pisca para a antiga.

Muitas das cenas do filme giram em torno de Andy recebendo a notícia de que aRunway”, como a conhecem, está prestes a se tornar história. Para salvar a revista, ela busca uma "entrevista dos sonhos" com a bilionária filantropa Sasha Barnes (Lucy Liu), que está se recuperando de um divórcio conturbado de seu ex-marido, um ganancioso chefe do ramo da tecnologia, e pretende doar seus bens para causas feministas nas quais acredita. A entrevista é a versão deste filme de "conseguir o manuscrito inédito do novo livro de Harry Potter" do primeiro filme.



Tradição vs. Algoritmo

O Conflito Central é a Tradição vs. Algoritmo. Miranda está visivelmente cansada e lutando contra a "obsolescência". O grande antagonista não é uma pessoa, mas o cenário digital. Jay, o filho que assume a “Runway” após a morte súbita do pai, quer cortar custos e substituir editores por IA.

Uma história que envolve traições e luta pelo poder da revista icônica do mundo da Moda e que termina de uma forma agridoce: toda esperança de salvação do mundo do prêt-à-porter de Miranda está na integridade jornalística de Andy Sachs (no fundo, ela ainda luta para receber um olhar de reconhecimento de Miranda) e numa filantropa bilionária que pretende salvar o legado de Miranda de um milionário sem escrúpulos do Vale do Silício.

O Diabo Veste Prada 2 expõe radical mudança do fluxo de informações da Moda nesse século: da Curadoria Vertical ao Caos Horizontal.

No século XX, o poder era piramidal. Miranda Priestly era a guardiã do portal; a moda "descia" das passarelas para as lojas de departamento através da curadoria das revistas. No cenário de 2026, esse modelo colapsou pelo Império do Algoritmo.

O filme mostra que a "escolha" não pertence mais à editora, mas ao algoritmo. A crise da “Runway” reflete uma guerra pela atenção, onde uma tendência gerada por IA ou um vídeo viral de um influencer de 19 anos tem mais peso semiótico do que uma capa de revista de dois milhões de dólares.

 A figura do influenciador elimina o mediador (a revista). O filme usa a personagem de Emily, agora na Dior, para mostrar que o prestígio da marca agora depende de parcerias com o "capital humano" das redes sociais, transformando a moda em um fluxo constante de estímulos visuais sem necessariamente possuir profundidade estética.


 

Ficha Técnica

Título: O Diabo Veste Prada 2

Direção: David Frankel

Roteiro: Aline Brosh McKenna, Lauren Weisberg

Elenco: Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Brunt

Produção: 20th Century Fox

Distribuição: Walt Disney Studios Motion Pictures

Ano: 2026

País: EUA

 

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