Vinte anos após ditar o exato tom de azul que filtraria das passarelas de luxo até as "trágicas cestas de ofertas" do varejo, Miranda Priestly enfrenta um rival que não pode ser intimidado por um olhar gélido: o algoritmo. Em “O Diabo Veste Prada 2” (2026), a transição da aura sagrada da Alta Costura para o caos horizontal das redes sociais e da Inteligência Artificial ganha contornos de um acerto de contas semiótico. Enquanto o primeiro filme consolidou a mitologia do prêt-à-porter como uma ferramenta de controle cultural, a sequência atua como uma autópsia da autoridade editorial, revelando como o poder de criar mitos e "estilos de vida" foi fragmentado por bombas digitais e pela obsolescência programada do jornalismo impresso.
A transição
da Alta Costura para o Prêt-à-Porter e, finalmente, para o varejo global não é
apenas uma mudança logística ou econômica; é uma mutação na forma como a
humanidade produz e consome mitos.
A Haute
Couture (Alta Costura) era a expressão máxima do vestuário como arte
ritualística. Para ostentar esse selo legalmente, uma marca devia seguir regras
rígidas: peças feitas sob medida, costuradas à mão, com centenas de horas de
trabalho e apresentadas em coleções semestrais.
A Alta
Costura criou toda uma Mitologia do Exclusivo - a roupa não servia
apenas para vestir, mas para sinalizar a pertença a uma aristocracia (de sangue
ou de capital).
Após a
Segunda Guerra Mundial, o mundo mudou. A ascensão da classe média e o ritmo
acelerado da vida urbana tornaram a Alta Costura obsoleta para o dia a dia.
Surge o Prêt-à-Porter (Pronto-para-Vestir).
Grifes como
Yves Saint Laurent entenderam que o futuro estava na padronização industrial
com qualidade de luxo. A produção em série permitiu que o design de autor
chegasse às ruas.
Com isso
criou-se toda uma nova mitologia: o foco mudou do "inalcançável"
(Alta Costura) para o "estilo de vida". A moda passou a vender
identidades narrativas: a mulher trabalhadora, o rebelde chic, o intelectual
boêmio. O vestuário tornou-se um signo semiótico de participação cultural.
Quando em O
Diabo Veste Prada (2006) a então jornalista Andy Sachs ironizou o
preciosismo estilístico de Miranda (a toda poderosa e temida editora-chefe de
moda da revista “Runway”) e resultou no “monólogo do azul cerúleo”, ficou
exposta essa nova mitologia do prêt-à-porter que Miranda incorporava:
Oh, entendi. Você acha que isso não tem nada a ver com você.
Você vai ao seu armário e seleciona, não sei, esse suéter azul horroroso, por exemplo, porque está tentando dizer ao mundo que é séria demais para se importar com o que veste. Mas o que você não sabe é que esse suéter não é apenas azul. Não é turquesa. Não é lápis-lazúli. É, na verdade, cerúleo.
E você também não tem noção do fato de que, em 2002, Oscar de la Renta fez uma coleção de vestidos cerúleos. E depois, acho que foi Yves Saint Laurent que mostrou jaquetas militares cerúleas... E então o cerúleo apareceu rapidamente nas coleções de oito designers diferentes. Depois, ele filtrou-se pelas lojas de departamento e chegou a uma dessas trágicas lojas de liquidação onde você, sem dúvida, o resgatou de uma cesta de ofertas.
A toda poderosa
Miranda já era uma artífice dessa mitologia da moda prêt-à-porter: embora os
estilistas façam parte de uma linha de montagem industrial e distribuição
varejista, “intelectuais orgânicas” como Miranda criam esse imaginário do “estilo
de vida exclusivo”, cujos restos chegavam nas cestas de ofertas do varejo.
![]() |
Em O Diabo
Veste Prada 2 (2026) acompanhamos Miranda vítima de um irônico acerto de
contas da Alta Costura: se ela era uma das ideólogas dessa virada da moda para
as classes médias, o passado se vinga por meio das redes sociais e Inteligência
Artificial.
Se no
primeiro filme a dinâmica era sobre quem detinha o poder de ditar o "azul
cerúleo", a sequência explora o que acontece quando esse poder é
fragmentado por eventos digitais repentinos que destroem reputações e
redirecionam o desejo do consumo em segundos.
E a IA prometendo
a obsolescência dos editores de moda que funcionavam como os gatekeepers das
tendências de moda para as massas.
O Filme
Anne
Hathaway retorna como a encantadora e talentosa Andy Sachs, agora
trabalhando como a jornalista séria que sempre sonhou ser antes de abandonar
a revista Runway no primeiro filme, dirigido por David Frankel
e escrito por Aline Brosh McKenna, em uma adaptação do best-seller de Lauren
Weisberger.
Vinte anos se
passaram desde o lançamento do primeiro filme, e desde os celulares de flip
retratados nele, quando Andy foi contratada para ser a segunda assistente da
lendária estilista Miranda Priestly (Meryl Streep) no mundo da moda, e
abandonou o emprego abruptamente durante uma viagem à semana de moda de Paris,
em meio a um despertar moral.
![]() |
O filme
começa com Andy prestes a receber um prestigioso prêmio de jornalismo
investigativo quando todos na sua mesa recebem a mesma mensagem de texto que
praticamente os demite na hora – fenômeno rotineiro no jornalismo hoje em dia,
depois que uma grande empresa sem alma ou um bilionário ignorante adquire um
veículo de comunicação em uma megafusão, destruindo todo u, legado de orgulho.
A revista “Runway” e
Miranda voltam a aparecer depois que Andy, misteriosamente, consegue um
novo emprego em sua primeira casa profissional do filme anterior.
Sua missão
será reformular a linha editorial da publicação. Em meio a um pesadelo de
relações públicas após a revista elogiar acidentalmente um fornecedor que
explorava mão de obra escrava.
Nem Miranda e
nem seu braço direito, Nigel (Stanley Tucci), se lembram de Andy à primeira
vista. Ela é prontamente colocada em um escritório constrangedor que parece um
depósito e designada para trabalhar com a dedicada assistente Jin (Helen J
Shen), tão inteligente e ambiciosa quanto a jovem Andy.
Enquanto
isso, os dois assistentes de Miranda são Amari (Simone Ashley) e Charlie (Caleb
Hearon), ambos interessantes, mas pouco desenvolvidos. "Houve algumas
reclamações para o RH", diz Charlie a uma Andy chocada em uma cena em que
vê Miranda pendurando o próprio casaco. "Aparentemente, ela costumava
jogar os casacos em cima dos assistentes", comenta Charlie.
![]() |
Miranda vive
em um mundo diferente —um mundo onde as publicações impressas perderam sua
relevância (assim como seus orçamentos) em meio ao ruído online sem sentido e
às métricas de sucesso baseadas em cliques que reduzem a qualidade. "A
edição de setembro é tão fina que dá para praticamente usar como fio
dental", diz Miranda, com frieza, em um momento revelador que só pode
significar que a “Runway” esteja com os dias contados.
Ao longo do
filme, há sinais dessa perda de relevância no olhar de Miranda. Streep a
retrata conscientemente esse olhar de derrota. Nesse sentido, Miranda parece
não ter mais certeza de seu lugar em um mundo de conteúdo que ela deseja
governar. Mas ela parece perdida de várias maneiras.
Ela está um
pouco mais suave, mas não completamente — ela ainda recorre a um ou outro
comentário ofensivo, como Miranda costuma fazer. Mas, embora esses insultos
sussurrados sejam consistentes com sua personagem no primeiro filme, aqui eles
soam como acréscimos tardios de um roteiro que tenta construir uma nova
história enquanto pisca para a antiga.
Muitas das
cenas do filme giram em torno de Andy recebendo a notícia de que a “Runway”, como
a conhecem, está prestes a se tornar história. Para salvar a revista, ela busca
uma "entrevista dos sonhos" com a bilionária filantropa Sasha Barnes
(Lucy Liu), que está se recuperando de um divórcio conturbado de seu ex-marido,
um ganancioso chefe do ramo da tecnologia, e pretende doar seus bens para
causas feministas nas quais acredita. A entrevista é a versão deste filme de
"conseguir o manuscrito inédito do novo livro de Harry Potter" do
primeiro filme.
![]() |
Tradição vs. Algoritmo
O Conflito
Central é a Tradição vs. Algoritmo. Miranda está visivelmente cansada e
lutando contra a "obsolescência". O grande antagonista não é uma
pessoa, mas o cenário digital. Jay, o filho que assume a “Runway” após a
morte súbita do pai, quer cortar custos e substituir editores por IA.
Uma história
que envolve traições e luta pelo poder da revista icônica do mundo da Moda e
que termina de uma forma agridoce: toda esperança de salvação do mundo do prêt-à-porter
de Miranda está na integridade jornalística de Andy Sachs (no fundo, ela ainda luta
para receber um olhar de reconhecimento de Miranda) e numa filantropa
bilionária que pretende salvar o legado de Miranda de um milionário sem
escrúpulos do Vale do Silício.
O Diabo Veste
Prada 2 expõe
radical mudança do fluxo de informações da Moda nesse século: da Curadoria
Vertical ao Caos Horizontal.
No século XX,
o poder era piramidal. Miranda Priestly era a guardiã do portal; a moda
"descia" das passarelas para as lojas de departamento através da
curadoria das revistas. No cenário de 2026, esse modelo colapsou pelo Império
do Algoritmo.
O filme
mostra que a "escolha" não pertence mais à editora, mas ao algoritmo.
A crise da “Runway” reflete uma guerra pela atenção, onde uma tendência gerada
por IA ou um vídeo viral de um influencer de 19 anos tem mais peso
semiótico do que uma capa de revista de dois milhões de dólares.
A figura do influenciador elimina o mediador (a revista). O filme usa a personagem de Emily, agora na Dior, para mostrar que o prestígio da marca agora depende de parcerias com o "capital humano" das redes sociais, transformando a moda em um fluxo constante de estímulos visuais sem necessariamente possuir profundidade estética.
Ficha Técnica |
|
Título: O
Diabo Veste Prada 2 |
|
Direção:
David Frankel |
|
Roteiro:
Aline Brosh McKenna, Lauren Weisberg |
|
Elenco:
Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Brunt |
|
Produção:
20th Century Fox |
|
Distribuição:
Walt Disney Studios Motion Pictures |
|
Ano:
2026 |
|
País:
EUA |
sábado, maio 09, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira





Posted in:

![Bombas Semióticas na Guerra Híbrida Brasileira (2013-2016): Por que aquilo deu nisso? por [Wilson Roberto Vieira Ferreira]](https://m.media-amazon.com/images/I/41OVdKuGcML.jpg)




