sexta-feira, maio 15, 2026

As perversões privadas se tornam virtudes profissionais no século XXI em 'Secretária'



Se os pensadores do século XIX, de Freud a Durkheim, viajassem no tempo para o escritório de advocacia de E. Edward Grey, ficariam perplexos: o que antes era visto como uma patologia a ser curada tornou-se a engrenagem perfeita da produtividade. Enquanto a era vitoriana tentava domesticar a neurose para salvar a civilização, o capitalismo tardio descobriu que o distúrbio — quando bem alocado — é um combustível imbatível. Através de uma análise do filme “Secretária” (2002, disponível na Prime Video), mergulhamos na transição da "sociedade disciplinar" da repressão para a "sociedade do desempenho", onde a perversão não é o problema, mas a solução para uma eficiência absoluta.

Século XIX é considerado historicamente o século das multidões – as primeiras grandes metrópoles europeias e o surgimento das massas com um novo agente social: greves, manifestações, agitações políticas etc.

E com elas, surgiram em os considerados três grandes males daquele século: sífilis, tuberculose e histeria.

Para o filósofo Voltaire, resultado de outros três grandes males: o tédio (a falta de ocupação ou propósito, levando à apatia); o vício (A corrupção dos costumes, comportamentos imorais ou prejudiciais) e a necessidade (a pobreza, a escassez de recursos ou a falta do básico para viver).

Desses grandes males das metrópoles, surgiram a preocupação sociológica (o problema da anomia, desordem e violência) e psicanalítica (a saúde mental).

Certamente o pensamento freudiano foi a síntese de todo esse cenário: ver os transtornos mentais como sintomas desordem interior (a repressão das pulsões do inconsciente) e como isso pode ameaçar a própria civilização. Principalmente, na obra de Freud “O Mal-estar na Civilização”.

Freud, ao lado de positivistas como Comte, Durkheim ou Stuart Mill, preocupavam-se com o destino da sociedade e da própria civilização diante disfunções tão perversas. Como efeitos colaterais do Progresso, ameaçando com a própria regressão.

Suponhamos que eles tivessem embarcado na máquina do tempo do escritor HG Wells. E aparecessem aqui no século XXI. Certamente ficariam perplexos: se no século XIX gastaram tanto tempo em busca de uma “cura” para a civilização, descobririam que todo o seu trabalho foi em vão - no capitalismo tardio, a "cura" não é a normalidade, mas encontrar alguém cuja neurose se encaixe perfeitamente na sua.



Em outras palavras, descobririam que nas novas formas de produção de valor no capitalismo tardio, os distúrbios psíquicos e perversões se tornaram plenamente funcionais – espantosamente aumentam a produtividade. Desde que você coloque o “maluco” certo no emprego correto.

Secretária (Secretary, 2002) é frequentemente lido como uma "comédia romântica não convencional", mas sua verdadeira profundidade reside na forma como ele reconfigura a patologia psíquica em harmonia social.

Se na era de Freud, a neurose era o resultado da repressão de impulsos sexuais "perversos" pela moralidade burguesa e religiosa (e o divã era o lugar onde se tentava desatar os nós de desejos que não podiam existir no espaço público ou profissional), na atualidade tudo mudou.

No capitalismo tardio, como nota o filósofo Byung-Chul Han, passamos da "sociedade disciplinar" (do "não pode") para a "sociedade do desempenho" (do "consegue").



Em Secretaria, a perversão não é algo a ser suprimido para que eles possam trabalhar; ela é o combustível do trabalho. Lee torna-se uma secretária impecável porque seu desejo de submissão é canalizado para a organização de arquivos e a digitação perfeita. A patologia torna-se produtividade.

O Filme

Lee Holloway (Maggie Gyllenhaal) acaba de ser liberada de uma instituição psiquiátrica após anos de automutilação. De volta à casa dos pais disfuncionais, ela tenta se reintegrar à sociedade aprendendo datilografia e aceitando um emprego como secretária para o advogado E. Edward Grey (James Spader).

O Sr. Grey é um homem obsessivamente rígido, cujas idiossincrasias beiram o controle maníaco. A relação profissional inicialmente parece abusiva: ele a repreende severamente por erros de digitação triviais. No entanto, o ponto de virada ocorre quando Grey descobre que Lee continua a se cortar. Em vez de demiti-la ou interná-la, ele ordena que ela pare de se machucar e assume o papel de "disciplinador".

A dinâmica da relação profissional evolui para uma relação BDSM (Bondage, Disciplina, Sadismo e Masoquismo).


Erros de digitação tornam-se o pretexto para palmadas e humilhações rituais que, paradoxalmente, dão a Lee um senso de propósito e paz interior que a psiquiatria nunca ofereceu. Quando Grey tenta terminar a relação por medo de seus próprios impulsos, Lee demonstra sua devoção absoluta: ela permanece sentada em sua sala, sem se mover, comer ou falar, por dias.

Lee quer continuar vivendo uma vida "funcional" através da sua perversão privada.

O Escritório como Espaço Litúrgico

O ambiente de trabalho moderno exige uma performance emocional constante. No filme, o escritório de advocacia deixa de ser apenas um local de produção jurídica para se tornar um espaço onde o paroxismo do poder é encenado.

Em Secretária, a hierarquia profissional torna-se um fetiche erótico. A relação de dominação (chefe) e submissão (funcionário) é intrínseca ao Capitalismo. O filme apenas "erotiza" essa estrutura pré-existente.



Ao contrário do trabalhador alienado que odeia seu cargo, Lee encontra no seu papel de secretária submissa a sua identidade total. Ela não está mais "trabalhando" no sentido tradicional; ela está "sendo". É o fim a relação de alienação com o trabalho, quando a sua patologia o transforma num trabalhador produtivo. E tira prazer sadomasoquista.

A grande ironia em Secretária é essa: enquanto a psiquiatria tradicional tentava "limpar" Lee de seus impulsos de automutilação, o Sr. Grey os redireciona. A dor que ela infligia a si mesma de forma caótica agora é administrada por uma autoridade externa (o chefe) de forma estruturada.

Isso reflete uma característica do capitalismo tardio: a capacidade do sistema de absorver o que antes era considerado "anormal" ou "marginal" e transformá-lo em uma engrenagem funcional.

Se você tem um distúrbio obsessivo, o sistema o transforma em um analista de dados eficiente. Se você tem uma necessidade de dominação, o sistema o transforma em um CEO ou advogado de sucesso.


 

Ficha Técnica

Título: Secretária

Direção: Steven Shainberg

Roteiro: Erin Cressida Wilson, Mary Gaitskill, Steven Shainberg

Elenco: James Spader, Maggie Gyllenhaal, Jeremy Davies

Produção: Slough Pond

Distribuição: Prime Video

Ano: 2002

País: EUA

 

 

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