sexta-feira, maio 01, 2026

Televendas é a televisão brutalmente honesta em 'Up The Catalogue'


Se a televisão tradicional é um sanduíche onde o entretenimento é o pão e a publicidade é o recheio, o que acontece quando decidimos servir apenas o recheio, puro e sem disfarces? Ao resgatar o conceito de “Grau Zero” de Roland Barthes — uma escrita despojada de ornamentos e puramente funcional —, descobrimos que os canais de televendas não são uma degeneração do meio, mas sua verdade mais honesta. É sob essa premissa de honestidade brutal que o filme "Up The Catalogue" (2024) mergulha em uma mescla de comédia sombria e sci-fi distópico, transformando o ato de vender em uma prisão existencial onde a apresentadora Hailey Cartin se torna o combustível humano de uma engrenagem que nunca desliga. Um estúdio de TV que é, ao mesmo tempo, um labirinto infinito, uma anomalia em loop tempo-espaço, e uma sentença de prisão.

O semiólogo Roland Barthes falava em um “grau zero” de um meio: uma escrita neutra, transparente e despojada de ornamentos. É o que ele chama de écriture blanche (escrita branca).

Barthes falava que a escritura é o ato de escolher como você vai usar a língua para se posicionar no mundo. Muitos autores usam uma escrita "carregada" (cheia de metáforas, floreios e sinais como se quisesse dizer "estou fazendo Literatura").

O Grau Zero seria o oposto: uma escrita que tenta ser puramente funcional, como uma equação matemática ou um relatório técnico.

Poderíamos aplicar à TV esse mesmo conceito Barthesiano? A TV se autodescreve como detentora de uma “função social”: educar, entreter e informar. Está na legislação que rege a concessão de canais de rádio e TV. O intervalo publicitário seria a remuneração do negócio: trocar conteúdo por espaço publicitário.




Mas, do ponto de vista do proprietário do meio, o conteúdo é uma mera isca para inserção publicitária e lucro. E telejornais, filmes e musicais como um floreio para criar audiência e atrair anúncios de produtos.

E se existisse uma TV “grau zero”, com 24 horas de publicidade? Apenas com uma variação de gêneros, como, por exemplo, infomerciais, vídeos publicitários etc.?

Pois já existe. Há muito tempo: os canais de televendas – com um folclore próprio formado por toda sorte de personagens como, por exemplo, Walter Mercado e a sua exortação “ligue já!”, em portunhol.

Os canais de televendas não seriam uma "degeneração" folclórica da TV; eles seriam a sua verdade mais honesta. Eles eliminam a hipocrisia de fingir que a cultura é o objetivo principal, e revelariam o “grau zero” do meio através da honestidade brutal do televendas ou assumir que a TV, no final, é puro consumo.



O surreal filme Up The Catalogue (2024), dirigido por Alastair Siddons, uma comédia sombria com pitadas de terror, leva esse grau zero da TV ao extremo ao mostrar que, no cenário da 4QTV, não existe "fora do ar". A vida da protagonista apresentadora/vendedora é absorvida pela demonstração do produto.

Se a TV tradicional é um sanduíche onde o conteúdo é o pão e a publicidade é o recheio, o infomercial é apenas o recheio servido puro. Chegando ao tom de uma espécie de ficção científica distópica.

Ambientado em um misterioso canal de compras chamado 4QTV, Up the Catalogue acompanha a apresentadora Hailey Cartin enquanto ela tenta vender uma sequência aparentemente interminável de produtos questionáveis ​​em um programa de televisão ao vivo.

Determinada a ser um exemplo em sua área, Hailey está à mercê de seu chefe, Daniel Fortescue, que se deleita em manipulá-la psicologicamente até o limite da resistência e da sanidade.

A "4QTV": O nome do canal é um trocadilho óbvio (pronuncia-se como "Fuck You TV"), servindo como uma crítica direta à forma como grandes corporações tratam tanto seus funcionários quanto seu público — como meras engrenagens ou estatísticas em uma planilha de lucros.

O toque de sci-fi distópico vem de que o misterioso canal de televenda é um loop tempo-espaço com corredores infinitos. Com apresentadora prisioneira nessa anomalia, e que não consegue encontrar a porta de saída – e, sequer, o próprio camarim. É obrigada a ficar 24 horas no set, diante das câmeras ao vivo, apresentando, demostrando e provando uma lista interminável de produtos.




O Filme

O filme apresenta Hailey Cartin (Lyndsey Marshal) como a rainha indiscutível da 4QTV, um canal de televendas que opera em um fluxo contínuo de 24 horas. Hailey é uma veterana capaz de vender qualquer coisa — desde joias de plástico até o bizarro "Pão Permanente" (um objeto decorativo que imita comida). Ela vive sob a luz implacável do estúdio, movida a café e pela aprovação maníaca de seus produtores invisíveis, que se comunicam com ela apenas por fones de ouvido.

A tensão sobe quando a produção introduz Jamimma Hoare (Morgana Robinson), uma apresentadora muito mais jovem e conectada à estética das redes sociais. O estúdio começa a se comportar de forma labiríntica e surreal: as saídas parecem desaparecer e Hailey é impedida de fazer pausas básicas, como dormir ou ir ao banheiro.

A narrativa se torna claustrofóbica. Hailey começa a ter alucinações com os produtos que vende, enquanto a pressão para manter os números de audiência altos a leva a um colapso físico. Ela descobre que o canal não é apenas uma empresa, mas uma espécie de entidade autossuficiente que se alimenta da energia vital de seus apresentadores.




O Clímax: A Descoberta do Simulacro (Alerta de Spoilers à frente)

Hailey tenta fugir pelos bastidores, mas encontra apenas corredores infinitos cheios de telas que exibem versões de si mesma em diferentes épocas. Ela percebe que o tempo no estúdio não funciona de forma linear.

Em um confronto final, Hailey descobre a verdade aterradora: o canal está em processo de "atualização". Ela não está apenas sendo demitida; ela está sendo escaneada. Cada movimento, cada tom de voz e cada micro-expressão de sua exaustão foram capturados pelas câmeras para treinar uma Inteligência Artificial.

O filme captura a sensação de claustrofobia de estar "on-line" 24 horas por dia. Hailey não pode parar; as câmeras nunca desligam. Isso espelha a nossa própria exaustão com a economia da atenção no atual ecossistema digital de feed infinito - assim como Hailey está presa no estúdio, nós estamos frequentemente presos no scroll infinito. O filme sugere que a cultura moderna é um estúdio de TV do qual não conseguimos sair, onde a linha entre a realidade e o roteiro de vendas desaparece.

Hoje, a tese do "Grau Zero" de Roland Barthes migrou da TV para o celular. O que são os Stories de influenciadores ou o TikTok Shop senão a fragmentação do infomercial em doses homeopáticas?

A protagonista Harley Cartin de Up The Catalogue personifica o colapso dessa barreira. Ela é a "vendedora eterna". O filme sugere que o zeitgeist do século XXI transformou toda a nossa existência em um infomercial constante, onde cada postagem é um "pretexto" para vender nossa própria imagem ou um estilo de vida.


 

Ficha Técnica

Título: Up the Catalogue

Criador: Alastair Siddons

Roteiro: Alastair Siddons

Elenco: Lyndsay Marshal, John McMillan, Morgana Robinson

Produção: 4QTV

Distribuição: Cut Entertainment Group

Ano: 2024

País: Reino Unido


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