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Entre o brilho de uma cerimônia de casamento "à moda antiga" e o trauma latente de um massacre escolar, o filme “O Drama” (The Drama, 2026) surge como uma autópsia definitiva da psique da Geração Z. Um casal jovem e inteligente está organizando o casamento perfeito, regado a rituais vintage e playlists autorais. Mas, sob a superfície do romance idealizado, reside uma revelação perturbadora que transforma o "felizes para sempre" em um thriller psicológico sobre quase-assassinos e traumas geracionais. “O Drama” coloca em rota de colisão a busca nostálgica por autenticidade com o que se convencionou chamar de "hipervigilância irônica", o cerne do psiquismo dessa geração: um estado mental onde o dia mais feliz da vida está sempre à beira do caos sistêmico. Mais do que um filme de gênero, é o reflexo de uma geração que aprendeu a mapear as saídas de emergência antes mesmo de brindar ao futuro.
Muito já foi
escrito e falado sobre a Geração Z, os nativos digitais que cresceram com a Web
2.0 e redes sociais. Suas ansiedades, o senso precário de futuro ao verem os
empregos desaparecendo pela aceleração tecnológica e IA e uma irresistível atração
pelo passado analógico – discos de vinil, hobbies de avó como o crochê e o hábito
de colorir livros com desenhos para relaxar ou diminuir à força o tempo grudado
nas telas de smartphones.
Porém, acompanhado desse fascínio pelo
passado, está um desejo intenso de personalização e autenticidade. Por isso, embora
questionem o modelo tradicional de relacionamento, muitos jovens estão
resgatando o romance "à moda antiga", valorizando votos emocionantes,
noivados formais e celebrações autorais, fugindo de regras rígidas.
Mas a conexão
dessa geração com esse “romance à moda antiga” é meramente formal – jovens enamorados
estão buscando tão somente algum signo de autenticidade, um estilo que criar um
efeito de veracidade. Coisas que só o estilo “Old Scholl” é capaz de expressar.
Principalmente depois de uma herança cinematográfica hollywoodiana de tantos
filmes sobre casamentos – comédias de costumes, dramas etc.
Para as
gerações anteriores, o casamento era um refúgio, um evento isolado das
tragédias do mundo exterior. E o gênero de filmes de casamento tradicionalmente
celebra a estabilidade e a continuidade. Apesar dos problemas, confusões e mal-entendidos,
ao final tudo retorna à ordem. Confirmando a estabilidade da instituição do
casamento.
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Mas não para a
geração Z: essa separação entre a instituição e o caos do mundo exterior não
existe. Daí o seu estado de hipervigilância irônica: Diferente das gerações
anteriores, a Geração Z cresceu em um mundo onde o "espaço seguro"
(escola, cinema, shopping, e agora o casamento no filme) é percebido como
inerentemente vulnerável.
Viveria uma
espécie de trauma antecipatório: Não se trata apenas de reagir a uma
tragédia, mas de esperar por ela. É o hábito inconsciente de mapear
saídas de emergência em qualquer ambiente.
Justamente
por estar sempre online e estar sob constante bombardeio de crises globais
(clima, guerras, colapsos econômicos). O cérebro permanece em um estado de luta
ou fuga constante, processando o horror como um dado de rotina.
Se a
hipervigilância é o que queima os nervos, a ironia é o que impede o colapso
total. "Rir para não chorar" deixou de ser um clichê para se tornar
uma estratégia de sobrevivência.
O filme O Drama (The Drama, 2026), dirigido por Kristoffer Borgli, não é apenas um exercício de
estilo provocativo; é uma autópsia cinematográfica da psique da Geração Z. Ao
colidir a liturgia romântica vintage de um casamento com a brutalidade
sistêmica de um tiroteio em massa, o longa captura esse estado de
"hipervigilância irônica" que define os jovens do século XXI.
Não por
menos, a estrutura do filme mimetiza a experiência de rolar o feed do
Instagram ou TikTok. Em um segundo, você vê o anúncio de noivado de uma amiga;
no segundo seguinte, imagens de um conflito armado ou uma tragédia escolar.
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Ao inserir um
tiroteio no contexto de um casamento, Borgli sugere que, para a Geração Z, o
trauma não é um evento isolado, mas uma condição atmosférica. O dia mais feliz
da vida de alguém está sempre a um passo de ser desmantelado por uma falha
sistêmica.
O Filme
Charlie,
interpretado por Robert Pattinson, é um jovem historiador de arte
britânico de um prestigiado museu, desleixado e de óculos, que vive nos EUA. E conhece
Emma, interpretada por Zendaya, num café.
Deslumbrado
com a beleza dela enquanto lê, Charlie se aproxima. Porém, como Emma é surda de
um ouvido e está ouvindo música no outro, ela inicialmente não percebe suas
tentativas tímidas e gaguejantes de conversar. Charlie, interpretando isso como
desprezo, fica mortificado. Mas logo o gelo é quebrado, uma linda história de
amor começa e o mal-entendido se tornará uma anedota hilária para o discurso de
casamento.
Emma e
Charlie são jovens, inteligentes, descolados, modernos e sintonizados. E já
moram juntos. Mas, mesmo assim, decidem se casar no ritual e estilo “old fashion”:
convidam família, amigos e entram numa maratona para organizar a logística da cerimônia:
testes com fotógrafos, aulas com uma professora de dança para a coreografia da
dança dos noivos, escolha de DJs e da playlist da festa, testes dos diversos
pratos de buffets etc.
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Conforme o
dia do casamento se aproxima, Charlie e Emma vão jantar, regado a álcool (na
verdade, mais um teste de escolha dos pratos em um buffet), com os amigos
Rachel (Alana Haim) e Mike (Mamoudou Athie), durante o qual desafiam uns aos
outros a dizer as piores coisas que já fizeram na vida.
O que deveria
ser um jogo divertido entre amigos à mesa, vira algo mais sério: Emma revela
que, aos 14 anos (interpretada em flashback por Jordyn Curet), planejou cometer
um massacre em uma escola, mas não conseguiu. Ela também revela que sua surdez
parcial, longe de ser causada por uma infecção grave na infância, como alegava,
foi na verdade provocada por segurar o fuzil de assalto do pai muito perto da
orelha enquanto praticava tiro na floresta.
Emma espera
que todos simplesmente ignorem essa revelação precipitada (afinal, todos
estavam alcoolizados) ou aceitem sua garantia de que agora ela está
perfeitamente normal. Mas todos estão assustados. Eles não conseguem esquecer o
que ouviram. Charlie sente que o relacionamento perfeito deles está começando a
desmoronar.
Charlie
começa a se perguntar se a tendência latente de Emma à violência pode ressurgir
– a cenas com requinte de humor negro que brincam com essa possibilidade. E o
filme levanta a questão, perfeitamente séria, de que provavelmente existem
milhares de pessoas assim entre nós: os quase-assassinos secretos que não
levaram o crime adiante e voltaram à normalidade.
É um filme
repleto de pessoas tomando decisões ruins no calor do momento, mas todas essas
decisões têm consequências irreparáveis. Há um tema recorrente em que Emma e
Charlie têm uma interação estranha ou dolorosa, e depois Emma ou Charlie pede
para recomeçar, como se nada tivesse ocorrido.
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Hipervigilância irônica
Estamos diante
do cerne do zeitgeist da Geração Z: o estado de hipervigilância irônica,
que cria uma dissociação peculiar que Drama explora com maestria.
No filme, há
momentos em que a violência é filmada com uma beleza quase publicitária ou uma
frieza documental. Isso reflete como essa geração consome desastres: através de
telas, com filtros, entre um vídeo de dança e uma notícia de massacre.
Há uma
espécie de niilismo performático: ao tratar tragédias com um certo desdém
estético ou humor ácido, o indivíduo retoma o controle narrativo. Por isso, existe
um medo genuíno de ser "cafona" ao demonstrar vulnerabilidade total. Daí
porque a ironia como um escudo de distanciamento: mesmo nos momentos de maior
terror, há uma camada de autoconsciência — como se os personagens estivessem
assistindo ao seu próprio documentário de crime real enquanto ele acontece.
Antigamente,
a ironia era um luxo de quem estava entediado (como na Geração X). Hoje, a
ironia é uma necessidade para quem está apavorado.
Em O Drama,
quando o gênero "filme de casamento" (a busca pela felicidade
idealizada) colide com o "tiroteio em massa" (a intrusão da realidade
brutal), o resultado é exatamente esse estado mental. É a percepção de que a
vida é um evento lindo, caro e cheio de flores, mas que todos na festa estão
secretamente esperando o momento em que as luzes vão apagar e o caos vai
começar.
Ficha Técnica |
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Título: Drama |
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Criador:
Kristoffer Borgli |
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Roteiro:
Kristoffer Borgli |
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Elenco:
Zendaya, Robert Pattinson, Alana Haim, Mamoudou Athie |
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Produção:
A24 |
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Distribuição:
Diamond Films |
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Ano:
2026 |
|
País:
EUA |
sexta-feira, maio 01, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira





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