sexta-feira, maio 15, 2026

Vorcaro e o financiamento de 'Dark Horse': ironias midiáticas do "crime de narrativa"


O vazamento pelo The Intercept de um áudio em que o senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), cobra intimamente recursos do banqueiro Daniel Vorcaro para salvar o filme Black Horse detonou uma crise sistêmica que tornou natimorta sua campanha ao Planalto. O episódio escancara a maior ironia da política contemporânea: enquanto anos de graves denúncias sobre vínculos com o "crime de sangue" das milícias cariocas foram absorvidos pela opinião pública como mero ruído, bastou um escândalo estético sobre os bastidores da própria imagem para implodir o clã. É a prova definitiva de que, na era da Media Life, o "crime de narrativa" destrói muito mais do que a dura realidade dos fatos jurídicos.

O áudio vazado pelo "The Intercept" em que o pré-candidato à presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, pede recursos financeiros a Daniel Vorcaro para evitar a paralisação do filme Black Horse (sobre a vida do próprio pai, Jair Bolsonaro) chama a atenção de duas coisas que revelam a natureza da política atual:

(a)   O tom da conversa: a relação não parece institucional (de um realizador de uma produção audiovisual discutindo aporte financeiro com um patrocinador), mas de uma conversa pessoal entre dois “parças”: “mermão”, “irmão”, “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”, “Um abração, fica com Deus, cara”. Um tom de alguém que, sem graça, cobra dinheiro prometido de um amigo próximo.

(b)    O que lembra um outro áudio: a homenagem de Flávio Bolsonaro na Alerj a Adriano da Nóbrega (ex-Bope e conhecido miliciano no Rio de Janeiro) em 2005.

Esses dois elementos acabam também revelando uma ironia aguda. As relações de Flávio Bolsonaro e família com o chamado Escritório do Crime (grupo de matadores de aluguel ligado a milícias), sem falar das investigações do Ministério Público sobre as “rachadinhas” do gabinete de Flávio na Alerj abastecendo contas de milícias com dinheiro público, sempre ficaram encobertas e inconclusas.

Além das investigações sobre a suspeitíssima vizinhança de Jair Bolsonaro no Condomínio Vivendas da Barra - Ronnie Lessa, acusado de disparar contra a vereadora Marielle Franco, era vizinho de Jair Bolsonaro. Além de Élcio de Queiroz, o motorista no atentado, ter fotos e conexões com o círculo da família. Tudo sempre descartado pelas investigações oficiais.



Enquanto negócios cinematográficos com um banqueiro corrupto da Faria Lima acabaram imediatamente repercutindo na mídia, criando uma crise política sistêmica no bolsonarismo e tornando natimorta a pré-candidatura à presidência.

Em outros termos: enquanto os vínculos com o "crime de sangue" das milícias foram, em grande parte, absorvidos pela base eleitoral e opinião pública como ruído político ou "perseguição", o escândalo do filme Dark Horse parece atingir um nervo político diferente. Um áudio vazado às vésperas da prisão de Vorcaro por fraudes bilionárias — desloca o debate para a corrupção institucional e estética.

Este nervo político certamente é o ponto nevrálgico da transformação da política contemporânea: a transição de denúncias de "crime de rua" (milícias) para "crime de narrativa" (financiamento de um filme biográfico) ilustra perfeitamente o deslocamento da realidade para o espetáculo.

Por que o escândalo do filme parece doer mais? É irônico, mas explicável. As denúncias de envolvimento com milícias são graves no mundo físico/jurídico, mas muitas vezes são abstratas para o grande público ou filtradas por vieses ideológicos.

Já um escândalo sobre a construção da própria imagem (o filme) ataca o núcleo do capital político dessa família: a narrativa.

Quando a denúncia envolve o financiamento de uma obra que visa mitificar o líder Jair Bolsonaro, o feitiço acaba virando contra o feiticeiro". A mídia que os elegeu é a mesma que agora processa a sua queda através de um subproduto midiático (o áudio vazado).

As denúncias de envolvimento da família Bolsonaro com milícias no Rio de Janeiro, formando um mosaico complexo que mistura laços de amizade, empregos em gabinetes e honrarias públicas, não resultaram no mesmo impacto de placas tectônicas da política se movendo.

Como expressas na voz titubeante de Flávio Bolsonaro tentando justificar o patrocínio milionário do “mermão” Vorcaro. Isso diante do enquadro tomado, ao vivo, na Globo News, da (imagina!) “colonista” Malu Gaspar.

Essa ironia entre o “crime cinematográfico” ser mais relevante para a mídia do que o “crime das ruas” teria duas explicações: uma de natureza semiótica; e outra de natureza da própria transformação histórica da política em “media life”:

(a) Contaminação semiótica do campo da Política

Enquanto o “crime de rua” da família Bolsonaro (as ligações promíscuas e perigosas com os negócios das milícias no RJ) é pessoal e intransferível (tem as digitais de uma família que sempre viveu de “rachadinhas” legislativas e milicianas), o “crime cinematográfico” tem um potencial polissêmico inegável.

Confirmado pela coluna de Lauro Jardim em O Globo (“Vorcaro também financiou filmes sobre Lula e Temer”) e a capa da revista “Veja” com as fotos de Lula e Flávio Bolsonaro ao lado da de Vorcaro em fotogramas de um rolo de filme – a corrupção não seria dos Bolsonaros, mas do próprio campo da Política. Contaminar semioticamente todo o campo da Política, para reforçar a aversão “antissistema” e turbinar um novo campeão branco “outsider” à direita do espectro político.



(b) Media Life

Para Mark Deuze, a mídia não é mais uma ferramenta que ligamos e desligamos; ela é o nosso ambiente natural. Assim como um peixe não sabe o que é a água até ser retirado dela, nós não percebemos a mediação midiática porque ela é onipresente – Leia DEUZE, Mark. Media Life, Polity Press, 2012).

No passado vivíamos "com" a mídia: o político dava uma entrevista ou fazia um comício. Havia um "fora" da mídia. A mídia era apenas um conjunto de ferramentas para se fazer propaganda.

Ao contrário, hoje vivemos "na" mídia: cada áudio de WhatsApp, cada "vazamento" e cada produção cinematográfica (como o filme sobre Bolsonaro) é a própria substância da política. A política é o conteúdo que consumimos.

Podemos, então, montar o seguinte quadro comparativo para síntese:



Se a política vive dentro da mídia, então o julgamento público não é mais apenas jurídico, é estético e moral.

Essa "ironia midiática" sugere que o ciclo se fecha: uma trajetória que começou desafiando o mainstream através de redes sociais e "mídias alternativas" agora implode justamente por não conseguir conter a porosidade dessas mesmas redes. No fim, no regime de Media Life, a reputação é o único ativo real, e ela é feita (e desfeita) de pixels e áudios.


Postagens Relacionadas




O irônico destino media life do filme 'Não Olhe para Cima'

Tecnologia do Blogger.

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Bluehost Review