quarta-feira, novembro 20, 2013

O espectro da Patafísica no show midiático do mensalão


Para que serviu o show midiático da prisão dos "mensaleiros" cuidadosamente roteirizado pelo STF e a mídia se todos os lados do espectro político interpretam o episódio a seu favor? Talvez a verdadeira função do show tenha sido imaginária, como um verdadeiro “potlatch” político: um espetáculo irônico de destruição e desperdício de recursos públicos, cujo processo de julgamento do mensalão supostamente queria combater através de uma exemplar demonstração moralizante. Tal qual a instituição primitiva do “potlatch”, um show oferecido como dádiva em pleno feriado como demonstração de poder inútil e fetichista. Espetáculo de desperdício de riqueza como forma mítica de sedução e fascínio.  Se isso for verdade, testemunhamos um evento político brasileiro que se inscreve no campo da Patafísica: a ciência das soluções imaginárias, tal como foi proposta pelo dramaturgo Alfred Jarry, o precursor do teatro do absurdo.
“Em um mundo cada vez mais delirante, convém analisá-lo de forma delirante.”
(Jean Baudrillard)
Com pompa e circunstância, as emissoras de TV acompanharam ao vivo os condenados do processo do mensalão se entregarem na Polícia Federal. Avidamente, as teleobjetivas procurando o melhor ângulo na subida da escadaria do avião da Polícia Federal que os levaria a Brasília até serem confinados no presídio da Papuda. Os mais aguardados, José Dirceu e Genoíno, não se fizeram de rogados: cada qual levantou o punho cerrado, em gesto de desafio para caracterizarem diante das câmeras que eram, na verdade, presos políticos.
O impacto simbólico pretendido pelo presidente do STF (ordens de prisão expedidas em pleno feriado da Proclamação da República) atingiu em cheio a opinião pública, tal qual ondas de impacto da explosão de uma bomba: discussões acirradas e polarizadas dominaram todas as redes sociais durante o dia. Toda a ritualística explicada didaticamente pela TV (detalhes das poltronas ocupadas por cada um no avião, as algemas, o trajeto pacientemente traçado com locais e horários de partida e chegada, detalhes da cela da prisão dando destaque à latrina e o banho de água fria etc.) desde a apresentação dos condenados à suas prisões.

O que significou o show do mensalão
para aqueles que estavam
presos nas estradas
congestionadas do feriadão?
Mas qual o rendimento midiático dessa bomba simbólica? Pedagógico? A condenação exemplar parece que apenas reforçou preconceitos e predisposições: quem apoia o partido se indignou e cerrou ainda mais fileiras; quem odeia, se rejubilou. O interessante dessa bomba é o efeito no restante da população, aparentemente indiferente. Aqueles que estavam presos nos congestionamentos nas estradas rumos ao feriadão, enquanto STF e Polícia Federal montavam uma cara mise-en-scene para as câmeras.
Para compreender o significado desse show midiático devemos sair do seu aspecto manifesto (o escândalo moral e a sua utilidade político-partidária) e aprofundar o latente: o seu impacto na indiferença do público e no imaginário do sistema político como um todo.


A espiral de interpretações


Há 63 anos o pesquisador norte-americano Paul Lazarsfeld observava em pesquisas empíricas de recepção que nove em cada dez receptores eram indiferentes aos conteúdos das mídias. Apenas um, o líder de opinião, filtrava esses conteúdos de acordo com sua predisposição política-ideológica e memória seletiva. E parece que as coisas não mudaram muito desde então. O show midiático das prisões ao vivo parece não ter conseguido qualquer rendimento pedagógico como lição moral, persuasão ou convencimento. Ou, pelo menos, de tragédia para os derrotados ou de glória para os vitoriosos.
Pelo contrário, seu efeito apenas criou uma espiral interpretativa ascendente, onde ambos os lados reforçaram suas posições e buscaram no evento argumentos positivos para o seu lado respectivo – a presidenta Dilma achando que era até melhor antecipar as condenações para se livrar do embaraço para as próximas eleições; a Direita que viu mais munição para desmoralizar a “comunalha” e os “petralhas”; a Esquerda achando que os erros jurídicos do STF se voltarão contra a Direita; e intelectuais como o filósofo Renato Janine Ribeiro que suspeitam de uma vitória de Pirro no show pelo alto custo político da engenharia jurídica.
Jean Baudrillard: o delírio do mundo não
se origina da loucura, mas da própria racionalidade
Então, para que serviu o espetáculo midiático da prisão dos condenados? Talvez devamos raciocinar como o filósofo Jean Baudrillard que patafisicamente afirmou: “em um mundo cada vez mais delirante, convém analisá-lo de forma delirante”. Baudrillard acreditava que o delírio do mundo não vinha da loucura ou do imaginário, mas da própria lógica racional dos sistemas que, de tão eficientes, se tornavam inúteis, delirantes, patafísicos: se autorregulam de uma forma tão precisa que começam a entrar em delírio pela necessidade de constantemente terem de simular possuir uma utilidade que há muito perderam.
Se quisermos procurar os efeitos dessa bomba armada pela parceria STF e mídia, devemos buscar outro tipo de efeito que está para além do campo da semiótica ou da ciência política: estaria no campo da Patafísica.

A Patafísica é a essência do mundo


A Patafísica, “a ciência que está além da Física e da Metafísica”, é a definição dada para o conceito criado pelo escritor e dramaturgo francês Alfred Jarry (1873-1907) que inspiraria o teatro do absurdo de Beckett, Ionesco e Jean Genet. “A ciência das soluções imaginárias, onde se encontram as ciências exatas e inexatas, as atividades e inatividades, é uma ciência do particular e da exceção, e que todos os homens a praticam sem saber”, afirmava Jarry.
Alfred Jarry
Seria a essência mesma do mundo, onde objetos, práticas e sistemas funcionariam de forma irônica, dotados de uma racionalidade tão intrínseca até se tornarem inúteis. Por exemplo, objetos que de tão sofisticados acabam não servindo para mais nada, como o aparato que serve para fazer pequenos furos na casca do ovo para extrair a clara e a gema sem quebra-lo; ou objetos cujas finalidades são tão diversas que acabam se tornando inúteis como, por exemplos, os automóveis dotados de tantas funções, interfaces e gadgets e que não conseguem sair do lugar nas grandes cidades congestionadas.
A racionalidade jurídica do processo do mensalão produz o seu oposto: a irracionalidade e desperdício. Pretendia punir o desperdício da corrupção, mas os altos custos envolvidos com a transferência dos condenados a Brasília como demonstração exemplar de autoridade (desnecessariamente, pois terão que retornar ao seus próprios domicílios para o cumprimento da pena) confirmou ironicamente a irracionalidade que pretendia punir.
O show midiático do STF acabou se constituindo em um autêntico potlatch político: tal como a instituição de tribos indígenas da América do Norte tão estudada pelo antropólogo Marcel Mauss, quanto maior a oferta de bens e a sua destruição, mais rico e poderoso se torna o indivíduo. Tal qual o potlatch, a condenação veio como uma dádiva (ou presente) em pleno feriado, às custas da queima de recursos públicos. Tal qual a instituição indígena, fascinação fetichista e religiosa pela destruição daquilo que pretendia combater como exibição exemplar de moralidade. Inutilidade e futilidade, a inversão irônica e patafísica de todos os sistemas.

O escândalo moral como simulação política


Dr. Faustroll: as bases do
pensamento patafísico
de Alfred Jarry
Mas os sistemas não podem tão facilmente expor a sua inutilidade. Devem simular uma produção de sentido, de funcionalidade ou utilidade. O sistema político é apenas mais um dos sistemas que começam a dobrar-se sobre si mesmo até se tornar autorreferencial. Por isso, uma ameaça entrópica paira sobre o sistema político: e se as pessoas descobrirem que no espectro político todos os discursos se equivalem? Que na verdade, toda a alternância de personagens e partidos no poder tem uma única finalidade: a gestão de uma interminável ameaça de crise de governabilidade seja política ou econômica.
A chegada do PT ao poder em 2003 foi acompanhada pela expectativa de que Lula e o partido enfiariam os pés pelas mãos, criando um descontrole da pilotagem econômica tão alarmante que cairiam antes das próximas eleições. Mas a gestão econômica “deu certa” (o reconhecimento internacional não pelas medidas “revolucionárias” de Esquerda, mas por projetos de inclusão social aguardados pelo próprio capital para a normalização de reprodução da força de trabalho e consumo inerentes a uma economia de mercado). Ironicamente, o país finalmente entrou no capitalismo através de um governo “de Esquerda”.
Isso representaria uma ameaça potencial ao sistema político: a força simbólica das diferenças políticas produzidas pelo jogo partidário poderia enfraquecer com a descoberta dessa isonomia de todos os discursos políticos. Por isso, o sistema agônico deve ser regenerado pela simulação do escândalo moral.
O escândalo é a estratégia de simulação do sistema político. A cada denúncia de corrupção, a cada assassinato, é como se salvaguardasse a integridade referencial. No Brasil, os sucessivos escândalos, repercutidos diariamente pela mídia, que envolvem o PT e a figura do presidente (“mensalão”, “caos aéreos”, etc.) simulam uma diferença entre os discursos ideológicos do espectro político-partidário. No final, encobrem o fato de que um partido de esquerda, quando no governo, não consegue efetivar na vida real o programa ideológico professado (revolução, socialismo). Um governo de esquerda que “desse certo” poderia tornar-se potencialmente detonador de uma perigosa crise sistêmica: a exposição da reversibilidade de todos os discursos político-partidários e, por fim, a apatia política dos cidadãos e a crise regenerativa.
Ao fim desse raciocínio patafísico, poderíamos chegar à descoberta da verdadeira “função” do show midiático da prisão dos condenados do mensalão: a renovação simbólica do sistema, a injeção de sentido ou significado para reforçar a miragem referencial do sistema político. Principalmente através das figuras nostalgicamente fortes (Genoíno e Dirceu) de uma época onde o sistema político ainda não havia se fechado e dobrado sobre si mesmo.
Ironicamente, as imagens dos dois com os punhos cerrados e levantados como prisioneiros políticos representou duas mensagens contraditórias: de um lado, a renovação do sistema distintivo do espectro político através do escândalo e, do outro, um símbolo nostálgico de um passado onde as ideologias pelo menos procuravam algum sentido.

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