sábado, maio 09, 2015

"Chappie", a consciência e a seringa hipodérmica

Depois do favelão e lixo nos quais o futuro se transformou em “Distrito 9” e “Elysium”, dessa vez com o filme “Chappie” (2015) Neil Blomkamp visita a pedra filosofal do gênero ficção científica: a Inteligência Artificial. O subtexto político dos filmes anteriores continua (África do Sul, Globalização e apartheid), mas dessa vez parece que Blomkamp cedeu ao “product placement” (inserção subliminar de produtos e marcas) e à agenda que orienta as produções do gênero pelos grandes estúdios: o tecnognosticismo - a ambição pós-humana de nos livrarmos da carne e do orgânico através de uma suposta transcendência espiritual possibilitada pelo escaneamento da consciência e a sua conversão em bytes. Ao contrário do filme “AI” (2001), também uma alusão à fábula de Pinóquio (uma máquina que quer se transformar em ser humano), aqui Chappie tenta emular sentimentos humanos, mas dessa vez através de uma consciência que se assemelha à metáfora da “agulha hipodérmica”. Se em “A.I.” a máquina queria acreditar naquilo que não podia ser visto ou sentido, em Chappie a máquina não tem sonhos – ela quer apenas imitar - filme sugerido pelo nosso leitor Joari Carvalho.

Chappie, do diretor Neil Blomkamp (Distrito 9 e Elysium), é um filme dentro de um subgênero do sci fi que os pesquisadores chamam de “ficção científica do Sul”: filmes em estilo realista monckmentary (feitos em estilo documentário mas em tom paródico) com atores e empresas de países considerados periféricos e com temas ligados às mazelas da globalização sócio econômica – privatização, imigrantes ilegais, favelização, exclusão, máfias internacionais etc.

O tom mais marcante desse subgênero é mostrar como a alta tecnologia (robótica, nanotecnologia etc.) convive de forma conflitiva com favelas, deterioração urbana, lixo, precarização do trabalho e sucateamento do Estado. O que torna os filmes desse subgênero potencialmente críticos em relação ao atual status quo da Globalização.

domingo, maio 03, 2015

Dez evidências de que o politicamente incorreto dos anos 80 e 90 moldou o século XXI


Nos anos 80 e 90 parecia que tudo era permitido: de apresentadoras de programas infantis da TV em trajes sumários a matinês com centenas de meninas rebolando tentando imitar os passos da banda “É o Tchan”. Tudo isso interrompido por intervalos publicitários onde marcas de chocolate eram associadas a meninos vencedores que conquistavam muitas namoradas. Essas décadas “politicamente incorretas” marcaram a infância e adolescência da chamada Geração Y, cujos membros são os líderes de opinião na atualidade. Qual a parcela de contribuição dada por essa cultura supostamente permissiva para a atual visão de mundo dessa geração? Foram décadas que, vistas pelo olhar politicamente correto atual, brindaram-nos com produtos culturais que sugeriam erotização precoce, pedofilia e exploração sexual em plena mídia de massas.  A partir de uma lista de dez evidências de uma época onde “tudo era permitido”, vamos tentar encontrar influências da infância politicamente incorreta na mentalidade atual da Geração Y.

Apresentadoras de programas infantis em trajes sumários apresentando bandas de hits com refrões de gosto duvidoso; nos intervalos publicitários, comerciais mostrando crianças ostentando orgulhosamente produtos e ridicularizando o telespectador-mirim que ainda não os compraram;  anúncios publicitários que comparavam uma boa apólice de seguro com um uísque de qualidade que lhe dá um ótimo dia seguinte; matinês em casas de shows onde meninas levadas pelos pais rebolavam sensualmente ao som da banda É o Tchan; comerciais infantis associando um chocolate com as conquistas amorosas em série em um acampamento cheio de meninas, etc.

Estamos falando das décadas de 80 e 90 que, para o nosso olhar atual globalizado e sensível a questões éticas e morais, foram épocas decididamente politicamente incorretas. São décadas que marcaram a infância e adolescência da chamada Geração Y – conhecida também como “geração do milênio” ou “geração da Internet”, nascidos após 1980 e, segundo outros, em meados dos anos 1970.

sexta-feira, maio 01, 2015

"Tropa de Elite" e "Guerra ao Terror": o São Jorge do BOPE e um Dragão que nunca existiu, por Claudio Siqueira

O que há em comum entre os EUA, com seu exército que massacra o Oriente Médio sob o pretexto de “Guerra ao Terror” e o BOPE ocupando as favelas cariocas? Além de serem endossados pela mídia em reportagens tendenciosas e filmes como “Tropa de Elite” e “Guerra ao Terror”, ao mesmo tempo está presente, nas formas mais sutis, o arquétipo de São Jorge e o Dragão. Desde o “Livro dos Mortos” egípcio, passando pela propaganda do império Romano até chegar na indústria do entretenimento atual dos filmes e HQs (Superman, Ultraman, Batman etc.), todos têm no ícone do “São Jorge, O Santo Guerreiro” a reedição por séculos de um poderoso arquétipo. Todos caçando monstros que só existem em sonhos.

* Claudio Siqueira é Estudante de Jornalismo, escritor, poeta, pesquisador de Etimologia, Astrologia e Religião Comparada. Considera os personagens de quadrinhos, games e cartoons como os panteões atuais; ou ao menos arquétipos repaginados.

Em Guerra ao Terror, filme vencedor de seis prêmios, Kathryn Bigelow fez o caminho inverso ao de James Cameron com seu Avatar, que mostra a vitória do oprimido; da favela, do Oriente Médio, do povo nativo contra o invasor. Não por acaso, ganhou apenas três.

Mas nada se compara ao filme Tropa de Elite. Por mais irônico que pareça, foi um sucesso por parte dos guerrilheiros urbanos citados no início deste ensaio. A continuação, Tropa de Elite 2, foi a maior bilheteria da história do cinema nacional, tendo sido o único a superar a marca de dez milhões de espectadores desde 1976, feito atingido por Dona Flor e Seus Dois Maridos.

sábado, abril 25, 2015

Retrospectiva 50 anos tenta exorcizar fantasmas da TV Globo através do "tautismo"

Competentes jornalistas como Caco Barcelos e Ernesto Paglia colocados frente a frente numa mistura de “Roda Viva” da TV Cultura com o “Galeria dos Famosos” do Domingão do Faustão. E todos confrontados com suas imagens do passado (mais novos, mais magros e com mais cabelos) na expectativa de que depois a câmera em close arranque algum tipo de emoção dos experientes profissionais. A retrospectiva “Jornal Nacional – 50 Anos de Jornalismo”, projeto idealizado pelo apresentador William Bonner (ansioso e sempre meneando a cabeça na tentativa de exorcizar os fantasmas da história da TV Globo), mostra de forma didática em seus cinco episódios o que foi o início e o que será o fim da hegemonia da emissora: o modelo melodramático de jornalismo que ajudou a encobrir informações no auge da ditadura e o tautismo (tautologia + autismo) atual como manobra desesperada para sobreviver aos novos tempos de queda de audiência.

Quando fazia a faculdade de jornalismo lá pelo início da década de 1980, minha geração via na TV Globo uma referência negativa para qualquer estudante que iniciava a carreira. Brincávamos com o tique melodramático dos repórteres que buscavam muito mais os sentimentos do entrevistado do que depoimentos objetivos da realidade. “O que você está sentindo?...”, era a pergunta clichê feita para a vítima de uma enchente no Sul do País naquele momento, com água até a cintura, dirigida por um repórter da Globo em uma canoa, protegido por uma capa de chuva e o rosto consternado.

terça-feira, abril 21, 2015

O Top 10 do bestiário neoconservador para o século XXI

Explosão populacional, antropologia criminal do século XIX, o hype dos assexuados, fantasmas vermelhos soviéticos e a fantástica revelação de que a Terra é plana e que há uma conspiração para esconder de todos essa verdade extraordinária. Prepare-se! O futuro poderá ser construído a partir de ideias que supostamente teriam sido superadas pelo progresso científico, processo civilizatório ou simplesmente pelas transformações políticas e sociais das últimas décadas. Ideias conservadoras que no passado foram criadas para deter mudanças ou revoluções, hoje são resgatadas pela mentalidade neoconservadora sob uma nova roupagem high tech, nova nomenclatura e o charme das teorias conspiratórias. O “Cinegnose” fez uma lista dos 10 principais renascimentos de ideias antigas e até sinistras que parecem encontrar o fértil terreno no radicalismo e fundamentalismo atuais.

sábado, abril 18, 2015

"Lost River": o estranho filme incompreendido pela crítica

Vaiado no Festival de Cannes e trucidado pela crítica, o filme de estreia na direção do ator Ryan Gosling, “Lost River” (2014), teve um destino injusto. Filmado em Detroit, Gosling transformou-a numa cidade gótica que lembra Louisiana pós furacão Katrina – crise econômica, ruínas e um mistério que envolve uma parte submersa pela construção de uma represa na fictícia cidade de Lost River. Por trás das camadas de estilizações da fotografia, personagens e cenografias (que fizeram a crítica chamar o filme de “um David Lynch de segunda mão”), estão alusões à crise econômica dos EUA pós explosão da bolha especulativa de 2008 combinados com misticismo gnóstico: qual o mistério que torna os protagonistas prisioneiros daquela cidade? O filme tem estreia prevista nos cinemas brasileiros em julho desse ano.

Recentemente poucos filmes foram tão destruídos pela crítica como Lost River, produção que marca a estreia na direção do ator Ryan Gosling -  A Passagem (2007) e Drive (2011). Quando estreou no Festival de Cannes em 2014 foi muito mal recebido pelo público: nos créditos finais a plateia respondeu com assovios e vaias como uma torcida irritada em um estádio de futebol. Depois disso Gosling e seu filme desapareceram e nada foi falado deles por dez meses.

Mas agora Lost River reaparece com nova edição (foram retirados 10 minutos da edição original) para ser exibido em alguns cinemas selecionados em Nova York e Los Angeles, além de canais de TV pay-per-view e arquivos torrent na Internet – no Brasil é esperado nos cinemas em julho.

sexta-feira, abril 17, 2015

"Whiplash" fala de qualquer coisa... menos de música

Corremos diariamente contra o tempo para atender aos valores da eficiência, desempenho e produtividade que regem a sociedade atual. Ao contrário, na música o tempo é uma ferramenta de expressão artística e não um inimigo. E também um meio para a improvisação e surpresa. Mas no filme "Whiplash" o tempo não é musical: é disciplina e performance – um baterista de Jazz iniciante tem que tocar cada vez mais rápido até sangue e suor caírem sobre o set do instrumento. Em um conservatório de Nova York, alunos de Jazz vivem sob o fascínio dos grandes virtuoses do passado sob a regência de um professor ditatorial e manipulador. Para eles, a música é disciplina e os mestres do  passado se tornaram virtuoses do Jazz porque foram disciplinados através aprendizado pela dor e humilhação. Em "Whiplash", a música se rende ao “no pain, no gain” – “sem dor, sem recompensa”, ao pé da letra – princípio opressivo da meritocracia atual.

Na música, e principalmente no Jazz, a expressão artística manifesta-se através de quatro recursos: Tempo, Sensação, Dinâmica e Prática. O Tempo é um recurso, é o ritmo através do qual nos entregamos à música; a Sensação é como o Tempo nos envolve – a sensação sinestésica da batida transformando o corpo do músico e o instrumento em uma coisa só; a Dinâmica são as forças que produzem o movimento determinando o quanto tal alto ou baixo tocamos ou cantamos; e a Prática tem a ver com disciplina e tenacidade.

A Prática refere-se a como o músico vai passar incontáveis horas aperfeiçoando sua arte para comunica-se sem esforço com aqueles ao redor, plateia e outros músicos. Assim como na linguagem oral e fonética, o músico passa muito tempo desenvolvendo seu vocabulário para ter capacidade de expressar sentimentos e emoções em um nível mais profundo.

sábado, abril 11, 2015

O Homem-Aranha e a auto derrota do PT

Em uma das suas intermináveis lutas na franquia Homem-Aranha, o super-herói, cansado e perplexo depois de mais uma batalha contra vilões bizarros, desabafa: “de onde vem toda essa gente?”. Diante das manifestações Anti-Dilma as esquerdas parecem tentar responder à mesma pergunta perplexa do Homem-Aranha:de onde vêm os manifestantes? Eleitores do Aécio? Classe média branca? Conspiração de magnatas do petróleo dos EUA de olho no pré-sal? Há um “elemento de auto derrota” histórico nas esquerdas, como afirmava o filósofo Herbert Marcuse – o pragmatismo e o economicismo que ignoram a base imaginária e psíquica do funcionamento das ideologias. Enquanto isso, a Direita sabe “de onde vem toda essa gente”: ouve a sociedade profunda por meio de pesquisas etnográficas que perscrutam os novos perfis psicográficos chocados pelo neodesenvolvimentismo do PT.

Depois de enfrentar o Homem-Areia que tentava roubar o dinheiro de um carro-forte, o Homem-Aranha dispara sua teia e salta para um topo de um prédio. Exausto, tira sua máscara e as botas cheias de areia depois de ter sido obrigado a se engalfinhar com o vilão. E então, o herói desabafa: “de onde vem toda essa gente?...”.

Essa é uma sequência do filme Homem-Aranha 3, mas o estado de espírito do herói ao mesmo tempo cansado e perplexo guarda suas analogias com as reações das esquerdas ao ver a escalada neoconservadora que culminou com os protestos anti-Dilma do dia 15 de março.

sexta-feira, abril 10, 2015

Em Observação: "Antes de Dormir" (2014) - o sono gnóstico do esquecimento

Cinema, percepção e memória têm uma longa parceria temática: se a percepção humana funciona como um mecanismo cinematográfico, como dizia o filósofo Henri Bergson, compreende-se o fascínio pelo tema da amnésia no cinema. De Hitchcook a “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” de 2004, “Antes de Dormir” (2014) é mais um filme dessa longa tradição.  Lembra o clássico “Amnésia” (2000) de Nolan – uma mulher não consegue manter as memórias por mais de um dia e diariamente acorda sem saber onde está e também sem saber quem  é o homem que dorme ao seu lado. Perda das memórias levam sempre os protagonistas à condição paranoica. A paranoia é um estado alterado de consciência que pode levar tanto à autodestruição quanto à libertação das aparências que encobrem a realidade. A paranoia pode abrir duas portas: a narcísica ou a gnóstica. E é isso que o “Cinegnose” vai conferir no filme.

sábado, abril 04, 2015

Viajantes, Detetives e Estrangeiros vagam por Hollywood em "Mapas Para as Estrelas"


Hollywood tem uma tradição de filmes que mostra a cidade dos sonhos como um inferno de ganância, narcisismo e perversões. A crítica especializada tem considerado “Mapas para as Estrelas” de David Cronenberg como mais um filme com esse viés moralista sobre a indústria do cinema. Porém, ao lado do roteirista Bruce Wagner, Cronenberg foi muito além disso: conseguiu criar uma pequena galeria de personagens que consegue sintetizar os principais arquétipos que dão vida aos nossos sonhos: Viajantes, Detetives e Estrangeiros. E também a fragilidade emocional por trás de profissionais bem pagos para produzir o nosso entretenimento: a busca desesperada por amor, adoração e aceitação incondicional. Filme sugerido pelo nosso leitor Felipe Resende.

Cronenberg sempre foi fascinado pelas metáforas da invasão do corpo e a fragilidade da carne diante da tecnologia em filmes como Videodrome, Scanners, Crash ou eXistenZ. Seus filmes até podem sugerir cenas de horror, mas na verdade o diretor transita entre a comédia, o humor negro e o drama. Cronenberg está menos interessado em sangue, e muito mais na natureza monstruosa das nossas obsessões e desejos, na dificuldade de escaparmos de nós mesmos e como a sociedade cruelmente explora esse ponto fraco humano.

Guerra psíquica (Scanners), o domínio mental da TV (Videodrome) e games digitais mortais (eXistenZ) são algumas amostras dessa temática recorrente de como a sociedade é capaz de criar sistemas que envolvem tanto a carne como a alma. Mapas para as Estrelas é mais um filme desse veio crítico de Cronenberg. E dessa vez é o alvo é Hollywood, tal como descrito pelo roteiro de Bruce Wagner: um inferno de ganância, narcisismo e perversidade sexual.

quarta-feira, abril 01, 2015

Ação e Reação na crise da telenovela "Babilônia"

O que há em comum entre a física newtoniana e os estudos sobre psicopatologia do psicanalista Wilhelm Reich? Tudo, pelo menos no caso da atual crise de audiência da novela da TV Globo “Babilônia”. A rejeição de telespectadores e grupos evangélicos pregando o boicote à telenovela nas redes sociais (tudo motivado pelo beijo de um casal de idosas lésbicas) tem uma relação direta com a pesada atmosfera política atual alimentada diariamente pela TV Globo através do telejornalismo e teledramaturgia. Lei newtoniana de ação e reação: clima de intolerância e radicalismo político converte-se em conservadorismo moral, sexual e de caráter que atinge em cheio o principal produto da grade da TV Globo – a novela do horário nobre. Além disso, a crise de “Babilônia” guarda paralelos com outra crise global: a da novela “O Dono do Mundo” de 1991, também de Gilberto Braga, em um contexto pré-impeachment de Fenando Collor de Mello.

Toda ação resulta numa reação oposta e de igual intensidade. Não há como deixar de lembrar desse princípio clássico da física newtoniana na atual crise que envolve a novela do horário nobre da TV Globo chamada Babilônia. Depois dos 46 pontos que a novela anterior Império marcou na sua última semana, Babilônia despencou para 23 pontos. Portanto, abaixo da novela das 19h e do reality Big Brother Brasil. Isso, no horário mais caro da TV brasileira.

A novela de Gilberto Braga surge nas telas num momento onde se acirra a contradição vivida pela TV Globo: de um lado, nos últimos anos vem assumindo o papel de partido de ferrenha oposição política ao Governo Federal; e do outro, a necessidade comercial de reerguer a audiência em queda com a crescente concorrência da Internet e os novos dispositivos móveis de comunicação.

domingo, março 29, 2015

Cinco filmes amaldiçoados pelo sincromisticismo



O “Clube do 27” (formado por Amy Winehouse, Heath Ledger, Kurt Cobain etc.) e as “maldições” em filmes como “Batman: O Cavaleiro das Trevas”, “O Exorcista” e “Superman”. Estranhas mortes prematuras de atores e celebridades e as lendas sobre filmes “amaldiçoados” seriam a camada narrativa mais superficial do lucrativo negócio da indústria do entretenimento que explora o inconsciente coletivo (arquétipos e formas-pensamento) e que muitas vezes o resultado é imprevisível, com mortes acidentais ou eventos que se transformam em verdadeiros rituais públicos de sacrifícios. Para pesquisadores sincromísticos, Hollywood atualmente é um centro de recrutamento e treinamento de atores (“médiuns” com personalidades divididas) para incorporação de formas-pensamento que ganham vida em escala global. Uma lista de cinco filmes onde a análise sincromística tenta revelar o que está por trás de narrativas feitas para o entretenimento.

domingo, março 22, 2015

Feitiço do Tempo paralisa ciclovias de São Paulo

Não existe terceiro turno. Estamos todos presos no dia 26 de outubro de 2014, em uma cilada do tempo que nos condena a repetir o mesmo dia, tal qual no filme “O Feitiço do Tempo” (Groundhog Day, 1993). Os resultados da eleição presidencial nunca são totalizados e retornamos sempre à disputa de uma eleição sem fim. Com isso abriu-se um vórtice tempo/espaço que está sugando o futuro, nos condenando a viver um eterno presente. O exemplo recente da paralisação judicial da construção das ciclovias em São Paulo é mais um sintoma dessa anomalia temporal onde de cosmopolita a cidade de São Paulo tornou-se um enclave neoconservador. Através de um texto adjetivado e vago, o pedido de paralização das ciclovias feito pelo Ministério Público é uma peça exemplar da atual mentalidade neoconservadora que se fundamenta na percepção de terra arrasada e na aposta do quanto-pior-melhor.

Esse humilde blogueiro que vos escreve é um usuário diário de bicicleta como meio de transporte para o trabalho pelas ciclovias/faixas da cidade de São Paulo. Desde o início das suas atividades em 2009 este blog "Cinegnose" tem se posicionado a favor da bike como esporte, lazer e transporte por razões políticas (clique aqui), gnóstico-filosóficas (clique aqui) ou cinematográficas (clique aqui) – sem falar no fator pragmático de que com bicicleta numa cidade como São Paulo sempre temos a certeza que chegaremos no horário a um compromisso.

Após décadas convivendo com a impaciência de motoristas e com um trânsito cada vez mais ríspido e intolerante, sintomas de uma mentalidade paulistana cada vez mais envolta em uma rinocouraça, foi com otimismo que testemunhamos o crescimento da malha de ciclofaixas/vias em São Paulo e a promessa da interligação de uma rede de 400 km.

sábado, março 21, 2015

As estranhas forças por trás do filme "O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus"




“Existem forças em ação nesse filme. Referências sobre a morte estavam no roteiro original e isso para mim é que é assustador”, disse o diretor Terry Gilliam sobre o filme mais estranho da sua carreira, “O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus” (2009). Foi marcado para sempre pela morte de Heath Ledger no meio da produção do filme, após atuar vivenciando dois fortes arquétipos ocultistas: o “Joker” no filme “Batman” e o “Enforcado” no filme de Gilliam. Ironicamente a morte de Ledger confirmou o forte niilismo gnóstico presente em “Dr. Parnassus” e mantido na sua última produção “O Teorema Zero” (2014): um ex-monge budista faz sucessivas apostas com o Diabo desde tempos imemoriais – o Bem e o Mal vistos como entidades reversíveis, onde um precisa do outro para manterem-se relevantes. E os personagens (e todos nós) seriam meras peças inocentes e prisioneiras de um jogo que se confunde com a própria eternidade.  

A tradicional câmera inquieta com pontos de vista delirantes com lentes grande angulares que deformam a perspectiva, criando atmosferas grotescas, é a marca registrada do ex-integrante do grupo Monty Python Terry Gilliam. Tudo isso para realçar um tema recorrente do diretor: heróis que através da força da imaginação e da fantasia conseguem enfrentar e vencer realidades opressivas.

 Mais uma vez, no filme O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus, estão presentes esses elementos narrativos. Mas há algo mais que tornou esse filme de Gilliam estranho e misterioso. O filme começa com um homem vestido como Mercúrio (ou Hermes dos gregos ou Toth dos egípcios) anunciando a entrada do Dr. Parnassus, um monge segurando uma flor de lótus, símbolo do misticismo oriental.

domingo, março 15, 2015

Série "House of Cards" surfa na onda do neoconservadorismo

A Netflix possui atualmente 17 lobistas em ação nos EUA representando seus interesses no Congresso e Governo Federal. Ao mesmo tempo produz uma série chamada "House of Cards" que descreve as relações anti-éticas entre lobistas, políticos do Congresso e imprensa. Narra a trajetória do líder dos Democratas no Congresso, um príncipe maquiavélico que articula ardil, traição e mentiras para chegar ao suposto centro do Poder, o Salão Oval da presidência. Qualquer análise sobre essa série que tornou-se o hit da Netflix deve partir dessa aparente contradição – na verdade a série reforça velhos mitos da Política: o Mito do “Mr. President”, o Mito do “Príncipe Maquiavélico” e o mito do “L’État, c’est moi”. Assim a Netflix esconde a verdadeira natureza do Poder do qual usufrui, e ao mesmo tempo mercadologicamente surfa na atual onda neoconservadora dos EUA e do Brasil: lá, a alienação em relação à Política num país onde o voto não é obrigatório; e aqui, uma trilha ficcional para aqueles que estão seduzidos pela aventura do Impeachment.

Primeira série originalmente produzida para a Web pela plataforma de streaming Netflix, House of Cards mostra através do seu protagonista Frank Underwood (Kevin Spacey) os bastidores do Congresso dos EUA e suas relações promíscuas entre lobistas, imprensa e congressistas.

Frank é uma espécie de Maquiavel com o charme sulista de um político da Carolina do Sul e pitadas da frieza de um assassino, responsável em exercer o papel de Chief Whip do partido (o “chefe do chicote”, o líder que faz tudo para que políticos democratas votem de acordo com os interesses do partido) – mas ele quer mais: pouco importa o dinheiro que jorra dos lobistas corporativos que alimentam o jogo político de Washington.  Frank quer o verdadeiro Poder - ficar cada vez mais próximo da presidência dos EUA, até conquista-la por meio de trapaça, ardil e traições.

terça-feira, março 10, 2015

Cuidado! Os rinocerontes já estão entre nós.

Filmes publicitários são mais do que peças promocionais de produtos e serviços – refletem a sensibilidade de cada época. E o novo comercial do TNT Energy Drink não deixa por menos: em efeito digital 3D um rinoceronte com fone nos ouvidos passeia entre as pessoas nas calçadas para depois entrar numa academia de lutas, parar diante de um espelho e vermos o reflexo de José Aldo, campeão do UFC. A ironia é que se no Teatro do Absurdo de Eugène Ionesco (autor da famosa peça “O Rinoceronte”) a transformação de seres humanos naquele animal era um impactante simbolismo que denunciava o conformismo, frieza e agressividade do homem moderno, agora torna-se um modelo positivo de caráter: o esporte (principalmente os midiáticos) como modelo de educação pela dureza, dor e severidade, chave para o sucesso. Dessa rino-couraça psíquica resultante  emerge um novo tipo-ideal urbano da atual onda de neoconservadorismo: os Rinocerontes.

Durante o século XX, todas as vanguardas artísticas, sejam elas no cinema, literatura, teatro ou pintura, tentaram desafiar o princípio de realidade com simbolismos obscuros, imagens impactantes e narrativas absurdas. Homens que se transformam em baratas em Kafka, relógios que se derretem em telas de Dali, situações teatrais absurdas como pessoas que esperam uma pessoa chamada Godot por horas e que nunca chega na peça de Becket ou chocantes imagens surrealistas como a navalha que vaza um olho em um filme de Buñuel.

Kafka, Dali, Becket e Buñuel tentavam se insurgir contra o mal-estar e desespero do homem contemporâneo na incipiente sociedade de massas que produz alienação, conformismo e fascínio pelo irracionalismo e fanatismo coletivo. Por isso, procuraram a anti-literatura, o anti-teatro, o anti-cinema, o anti-tudo!

sábado, março 07, 2015

Em Observação: "The Man In The High Castle" (2015) - os nazistas ganharam a guerra?

Em uma realidade alternativa, Hitler e o imperador Hiroíto ganharam a II Guerra Mundial, invadiram os EUA e dividiram o país em dois estados totalitários controlados pela Alemanha e Japão. Mas grupos de resistência possuem um filme documentário de origem misteriosa que mostra a História tal qual conhecemos: a vitória dos Aliados, o Dia D e a derrota do Japão na guerra do Pacífico. Qual será a verdadeira realidade? A dos EUA divididos? A do filme documentário? E se as imagens históricas da II Guerra Mundial que conhecemos forem estratégias de propaganda que, na verdade, ocultam que todos nós vivemos em uma outra realidade alternativa? Esse é o jogo gnóstico proposto pelo piloto da série televisiva "The Man In The High Castle", baseada no premiado livro homônimo de 1962 do escritor de ficção científica Philip K. Dick. Assista nesse post o piloto da série.

terça-feira, março 03, 2015

"Novos tradicionalistas" são mão de obra da revista "Veja"

Um repórter da revista “Veja Brasília” invade um condomínio em São Paulo disposto a fabricar provas para uma pauta inventada. Pego com a boca na botija, é levado pela polícia e a família vítima da “reportagem investigativa” faz um BO na delegacia. Além do episódio ser mais uma contribuição à pesada atmosfera política atual (a pauta era sobre uma suposta festa infantil de 200 mil reais pagos em dinheiro vivo pelo ex-presidente Lula), há algo mais: curiosamente o repórter é um dublê de jornalista e DJ de festas privadas no Lago Sul de Brasília e clubes que fervem na noite daquela cidade. Está para ser feita uma pesquisa etnográfica dos novos tipos-ideais do atual neoconservadorismo. Alguns já podem ser detectados: “coxinhas”, “coxinhas 2.0” e “simples descolados”. E o intrépido repórter da “Veja” pertence a um novo tipo-ideal: os “novos tradicionalistas”.

Tudo começou com uma nota da revista Veja Brasília redigida por um repórter chamado Ulisses Campbell sobre festa em buffet infantil na cidade, de um suposto sobrinho do ex-presidente Lula. O custo da festa teria sido de 200 mil reais pagos em dinheiro pelo ex-presidente. Com os desmentidos feitos pelo Instituto Lula e comprovada a mentira, o repórter foi para São Paulo disposto a produzir provas que sustentassem sua bizarra pauta.

Usando nomes falsos passou a assediar a família de “Frei Chico”, como é conhecido o irmão de Lula, através de ligações telefônicas como representante do buffet de Brasília ou como estudante da USP fazendo uma suposta pesquisa. Após ameaças de que “publicaria o que quisesse”, invadiu o condomínio da família passando-se por um entregador de livro para obter de uma babá informações sobre horários de chegada dos moradores, além de obter RG e CPF dela.

sábado, fevereiro 28, 2015

Morsas e ostras mataram John Lennon?

A música mais enigmática dos Beatles aparece no maior fracasso comercial do grupo, o filme “Magical Mystery Tour” de 1967, hoje reavaliado como obra de arte ao nível do humor do grupo Monty Python ou do surrealismo de Buñuel. Inspirado no poema “A Morsa e o Carpinteiro” de Lewis Carroll, a música “I’m The Walrus” composta por John Lennon apresenta uma letra sombria, obscura e misteriosa com referências a genocídios, drogas e jovens que seriam seduzidos por uma “Morsa” que estaria levando-os para a destruição – no poema de Carroll aparecem “jovens ostras” . Será que a música foi alguma espécie de acerto de contas de Lennon com a culpa e o remorso de saber ter feito parte de uma gigantesca estratégia de engenharia social por trás da cultura pop? Em declarações dadas em uma entrevista em 1980, ele indica evidências, falando de “artesãos” que estiveram por trás dos Beatles e a ligação entre CIA e a droga LSD. Alguns meses depois, Lennon seria assassinado.

O grande e misterioso fracasso dos Beatles: o filme Magical Mystery Tour de 1967. “Beatles Mystery Tour desconcerta os espectadores”, estampava em uma manchete na primeira página do jornal Mirror da Inglaterra, dizendo que milhares de espectadores protestaram quando foi exibido na TV pela BBC.

“Bobagem sem sentido”, “lixo flagrante” e “ultrajante” foram as críticas mais leves sobre um filme que não se importava com qualquer sentido narrativo: mostrava um grupo de turistas em um ônibus que iniciava um “misterioso tour” pela Inglaterra em um ônibus panorâmico, onde “coisas estranhas começam a acontecer”, ao capricho de quatro magos performados pelos próprios Beatles que tudo observam, manipulando os acontecimentos.

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

Oscar para "Birdman" revela secreta coerência de Hollywood

O blog “Cinegnose” acertou: o favoritismo de “Birdman” confirmou-se com o prêmio de Melhor Filme no Oscar 2015. O prêmio era aguardado pela recorrência temática dos filmes premiados pela Academia de Cinema nos últimos anos: metalinguagem, auto-referência, glamourização da “guerra anti-terror”, conflitos étnicos e liberdade, temas recorrentes desde a explosão da bolha imobiliária dos EUA em 2008 e a crise da Zona do Euro. Hollywood mais uma vez demonstra que é um braço armado do complexo bélico-militar norte-americano. E a indústria do entretenimento sabe premiar os seus: o diretor mexicano Alejandro Iñárritu (e a nacionalidade foi um fator ideológico importante) fez uma verdadeira homenagem à indústria do entretenimento – mostrou uma Broadway que não mais existe, reforçando a mitologia que ainda dá algum verniz “artístico” a Hollywood: atores autopiedosos, divas narcisistas que se entregam ao “Método” e críticos implacáveis que transformam artistas em “gênios incompreendidos”.

Conforme previsto por esse blog, Birdman confirmou o grande favoritismo para o Oscar de melhor filme, batendo outro grande favorito: Boyhood – sobre a análise do Cinegnose sobre Birdman clique aqui.

Em tempos bicudos de crise econômica global pós-explosão da bolha especulativa imobiliária dos EUA em 2008, o “derretimento” da Zona do Euro e escalada da propaganda anti-terror pela mídia internacional, Hollywood mais uma vez se mostra porque é o braço armado da política externa norte-americana. E sua grande arma é glamourização da própria natureza bélico-militar dos EUA e a homenagem metalinguística da sua própria indústria do entretenimento.

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