domingo, julho 08, 2018

Curta da Semana: "Craig's Pathetic Freakout" - quando "Show de Truman" se aproxima da maconha


E se ao invés de cerveja, o amigo Marlon desse a Truman um cigarro de maconha ao invés de cerveja para tentar acalmar suas crises paranoicas sobre as suspeitas de que sua vida era um programa de TV? Será que Truman ficaria “anestesiado” ou chegaria mais rapidamente à verdade no filme “Show de Truman?”. O curta “Craig’s Pathetic Freakout” (2018), de Graham Parkes, levanta essa curiosa questão de cinéfilo – Craig é um cara orgulhoso demais para aceitar que não pode lidar bem com drogas. Fuma uma erva e começa a ficar paranoico, acreditando estar dentro de um filme. Ficção e realidade se misturam num curioso exercício metalinguístico e de narrativa em abismo – um filme dentro de um filme. E, como toda metalinguagem no cinema e audiovisual, trás um sabor gnóstico: e se a realidade for também um filme dirigido por alguém muito louco? 

O leitor deste Cinegnose certamente assistiu ao clássico gnóstico Show de Truman (Truman Show, 1998) no qual Jim Carrey era Truman , cidadão de Seaheaven que ignorava que sua vida era um reality show e a cidade uma cenografia completa em um gigantesco domo povoado por atores e equipes de produção no programa com a maior audiência da TV mundial.

Agora, imagine se Truman ao invés de tomar as cervejas que o seu amigo Marlon trazia para acalmar suas crises existenciais, trouxesse maconha para ele fumar...  Talvez o cigarro de cannabis o deixasse ainda mais paranoico. Ou então... ajudasse o pobre Truman a revelar mais rapidamente toda a verdade por trás das paredes de Seaheaven.

Esse é o mote sugerido pelo curta do diretor Graham Parkes, Craig’s Pathetic Freakout (2018). Um brilhante exercício de ironia e metalinguagem: um filme dentro de outro filme. Ou um alerta sobre o perigo das drogas, principalmente sobre o risco das bad trips paranoicas. Ou talvez um elogio à potencial abertura das portas da percepção que determinadas drogas podem provocar. Ou que sabe, a loucura de um ator que entrou tanto no personagem que esqueceu de que está num set de filmagem.

O curta acompanha dois amigos em um agradável bate papo. Até que um deles tem a ideia de pegar uma caixinha com cachimbo e maconha, alertando ao amigo que ele tem uma reputação de não se dar muito bem com drogas. Porém, seu interlocutor é orgulhoso demais para ser deixado fora dessa, e decide acompanha-lo na rodada de tragadas no cachimbo.


O que se segue é uma divertida comédia com a quebra da quarta parede cinematográfica enquanto a mente do protagonista é tomada pela paranoia, quando percebe que a sua voz repentinamente perde a sincronia com a imagem, eventualmente microfones do boom operator começam a aparecer no enquadramento e repentinamente aparece toda uma equipe de produção por de trás da cena.

A metalinguagem no cinema e audiovisual sempre remete a uma sensibilidade gnóstica, por simbolizar a clássica questão de toda história da Filosofia: o conflito entre livre-arbítrio e necessidade, o aleatório e o acaso, o caos e a ordem. E os próprio protagonistas, como entidades ficcionais direcionadas por um roteiro, diretor e equipe de produção, que repentinamente ganham consciência da sua condição e tentam se rebelar.

É como se o próprio aparato de gravação e produção cinematográficas expressasse a condição humana prisioneira em uma narrativa criada por um Demiurgo/Diretor criador de um roteiro totalmente estranho à nossa liberdade.

Filmes como Mais Estranho Que a Ficção (no qual o protagonista descobre que é um personagem ficcional de uma escritora que sempre mata seus heróis no final) ou Um Sonho Dentro de um Sonho (a vida de um roteirista começa a se confundir com um filme ficcional) exploram essa condição irônica onde o próprio filme destrói a ilusão de verossimilhança (por exemplo, destruindo a chamada “quarta parede” como nesse curta) para desnudar o caráter ficcional da narrativa.


Dentro desse aspecto metalinguístico, o ponto de virada do curta vem quando a paranoia do protagonista vai ao máximo quando percebe que o seu amigo falou duas vezes uma frase, como se repetisse uma linha de diálogo de um roteiro memorizado. Assim como Truman desconfia das frases arbitrárias de merchandising que sua esposa fala do nada em Show de Truman.

E claro que em Craig’s Pathetic Freakout há o tema da droga como uma ferramenta para abrir as portas da percepção para desvendar o véu da realidade. Mas aqui temos o consumo da cannabis não em um ambiente de festa ou “balada”, mas em um cenário relaxado. Num bate papo entre dois amigos em uma tranquila sala de estar.

É como se o curta retomasse as conexões das drogas com o imaginário místico e espiritual. Como o fizeram Adous Huxley (“As portas da Percepção”) e as experiências transpessoais do neurocientista Thimoty Leary  com o LSD. Drogas que nos fariam enxergar a realidade através do livre-arbítrio, muito além do determinismo e da necessidade imposta por uma realidade artificialmente construída e alheia a nós.


Bem diferente da atualidade, onde as drogas euforizantes e smart drugs nos deixam “ligados” em uma “balada forte” ou “espertos” em nossas interações tecnológicas e profissionais em interfaces como tablets, blackberrys, realidade aumentada, virtual etc.

Mas também está claro, e o próprio diretor Graham Parkes admite isso, que o curta suscita outras interpretações. O freakout do protagonista Craig tem muito da experiência pessoal do diretor com a maconha. Por isso, pode ser apenas um alerta para o perigo do consumo de drogas de alguém tão orgulhoso que acha que consegue lidar com os efeitos.

Ou ainda o conhecido perigo de atores que mergulham tão de cabeça no personagem que acabam confundindo a ficção com a realidade de forma paranoica e esquizofrênica.

Ou apenas a estória de Craig que fumou tanta erva que achou que estava dentro de um filme...
Craig's Pathetic Freakout from Graham Parkes on Vimeo.

Ficha Técnica 

Título:  Craig’s Pathetic Freakout (curta)
Diretor: Graham Parkes
Roteiro: Graham Parkes
Elenco:  Mat Wright e Lewis Pullman
Produção: Brendan Garrett
Distribuição: Vimeo
Ano: 2018
País: EUA

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