domingo, janeiro 04, 2026

Feminicídio e machismo renitente: o gênio não quer mais voltar para a garrafa



Entre trilhas de montanha e discursos de autossuperação, um novo movimento de "masculinidade alfa" cresce no Brasil, alimentado por uma mistura explosiva de religiosidade, coaching e misoginia latente. Mas enquanto grupos como o "Invictos Trekking" prometem resgatar o homem de uma suposta "feminização" da sociedade, uma epidemia de feminicídios registra o custo dessa cruzada. Estaria a grande mídia tentando apagar com o clichê da necessidade de uma "reeducação masculina" um incêndio que ela mesma ajudou a provocar nos tempos do jornalismo de guerra ao libertar o gênio da garrafa do Brasil Profundo? Para além das estatísticas espantosas do feminicídio, o fenômeno do "machismo renitente" revela as cicatrizes de uma guerra híbrida que envenenou o psiquismo coletivo. Ao transformar a crise da identidade masculina em um ativo político da extrema direita, criou-se uma engrenagem de psicologia reversa onde a tipificação do crime e a reação conservadora se retroalimentam, deixando claro que o problema vai muito além de uma simples questão de educação.

"Os homens que participam são convidados a se tornarem invencíveis, não por suas próprias forças, mas pela fé em um Deus que é invicto."

Isso quem diz é o site da “Invictos Trekking”. Mulheres não entram nos eventos promovidos do grupo que engrossa um movimento pelo país que alia religião com a busca de uma suposta masculinidade perdida, em trilhas por montanhas e discursos coaching de autossuperação – clique aqui.

Grupos que replicam a mesma fórmula do “Legendários”, o mais pop dos grupos. Despontam como uma resposta conservadora (e, politicamente, expressa pela extrema direita) à masculinidade em crise, com doses fartas de religiosidade e a promessa de resgatar um macho alfa supostamente desempoderado pela modernidade.

Ou, para ser mais ideologicamente preciso, pelo que consideram uma “feminização” da sociedade.

Há uma atmosfera Incel (acrônimo relativo a homens que não conseguem ter relacionamentos românticos ou sexuais, culpando as mulheres e as transformações da sociedade por suas frustrações - evoluindo a grupos de apoio online e toda uma subcultura misógina e extremista) contaminando o noticiário nas últimas semanas – atmosfera reforçada pelo crescimento desses grupos caracterizados pelo fenômeno que vamos definir aqui como “machismo renitente”.

 “Em apenas 10 meses, casos de feminicídios em SP aumentaram em mais de 10% (CNN Brasil); “2025 já é o ano com maior número de feminicídios na capital paulista” (Agência Brasil); “Brasil tem mais de mil casos de feminicídio registrados em 2025” (G1); “Epidemia secular: feminicídios explodem no Brasil, reflexo da estrutura violenta da sociedade” (O Globo); esses são algumas manchetes do final do ano passado.



Principalmente nas últimas semanas, quase diariamente uma série de crimes bárbaros chocou a opinião pública.

Entre as mais impactantes, em Jaborandi, na Bahia, uma mulher de 27 anos, foi arrancada do banho e assassinada a tiros pelo ex-namorado. Na Zona Norte do Rio, um servidor público matou a tiros uma professora e uma psicóloga no Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet), no Maracanã.

Em São Paulo, uma mulher foi morta na pastelaria onde trabalhava pelo ex-marido, e uma jovem foi atropelada e, ainda presa no veículo, arrastada pelas ruas. Ela teve as pernas amputadas e foi internada em estado grave. Até não resistir aos ferimentos e morrer. O suspeito do crime, segundo a família da vítima, teve um breve relacionamento com ela.

As estatísticas são espantosas. Desde que o feminicídio foi tipificado em 2015, houve um aumento contínuo do crime, sendo que a partir de 2023 houve um crescimento de 19%. Cerca de 80% dos crimes foram cometidos por companheiros ou ex-companheiros das vítimas, e a maioria ocorreu dentro da casa da mulher (64%).

É claro que esse humilde blogueiro não quer especular sobre uma possível relação causal entre o crescimento desses grupos híbridos incel-coach-religiosos no País com as assustadoras estatísticas sobre feminicídios nos últimos dez anos.

Mas é impossível não perceber que são fenômenos não causais, isto é, eventos correlacionados, variáveis que mudam em sincronia – ambas aumentam.

São duas manifestações (a primeira de violência simbólica; e a segunda, de violência explícita) que aqui analisaremos como relacionados a dois fenômenos reflexos da guerra híbrida brasileira (midiática e geopolítica) que envenenou o psiquismo coletivo: o machismo renitente e a psicologia reversa da tipificação do crime de feminicídio.

Diante desses números, a grande mídia bate-bumbo, como solução, sobre a necessidade de “reeducar homens e educar filhos contra o machismo para reduzir casos de violência contra a mulher” – clique aqui.



“Educação” é o grande clichê sobre qualquer solução sobre qualquer problema para o jornalismo corporativo. Por isso, há décadas o Brasil é o “País do futuro” – basta investir em “educação”...

Veremos que não se trata mais de questão de “educação”. E mais! Que a grande mídia insiste nesse clichê para se eximir do problema do qual ela faz importante parte: abriu a garrafa para que o gênio do Brasil Profundo saísse e ganhasse visibilidade midiática para reforçar sua expressão política: a antipolítica, o bolsonarismo e a extrema direita. E o golpe militar híbrido de nas eleições de 2018 com a conquista do Estado pelo bolsonarismo.

O problema é que não será com “educação” que o gênio voltará para a garrafa.

O machismo renitente

Em um artigo na Folha de São Paulo, em 2011, incomodado com a ascensão da classe C nos tempos neodesenvolvimentistas do PT e o desaparecimento das empregadas domésticas, o publicitário Nizan Guanaes reclamou: “preciso de uma Dona Flor, mas que não precisa ter o corpo de Sônia Braga. Precisa é cozinhar!”. Nizan quer uma cozinheira para fazer “aquela grande e vasta comida brasileira” – clique aqui.

Estava iniciando o resgate e visibilidade desse Brasil Profundo, começando pelo resgate de um, por assim dizer, “Brasil renitente”. O Brasil de um passado idílico em que a Casa Grande escravizava a senzala. Um país que só pode ser maravilhoso se mantiver a ordem.

Afirmações como essa passaram a ser veiculadas pela grande mídia em diferentes versões e modos. Porém, o mais importante, é que esse tipo pensamento metonímico de justapor “Dona Flor”, “corpo da Sonia Braga”, “cozinheira” e “cozinha” acabou errando no que viu e acertando no que não viu: serviu de apito de cachorro para um movimento que já ocorria nas redes sociais com memes e postagens de haters.

O momento em que o “Brasil renitente” de nostálgicos como Nizan Guanaes de transformou na ascensão do “machismo renitente” – a atmosfera Incel que serviu de bomba semiótica para engrossar o caldo da extrema direita brasileira.

Filmes antissistema como Matrix (a história da pílula azul e vermelha que serviria de mote para muitos memes extremistas) e Clube da Luta se transformaram em matéria-prima semiótica.



Principalmente Clube da Luta - a resposta ambígua para o mal-estar da masculinidade, apontando para uma identidade do macho nostálgica e renitente que dominaria o século XXI: de uma lado, uma ácida crítica do consumismo e alienação corporativa e social. E, do outro, a figura  de Tyler Durden que busca a essência de uma masculinidade perdida em uma sociedade de que se feminilizou,  usando o “Clube da Luta” para a recuperação da identidade pela luta, força física e, principalmente, a dor como ferramenta pedagógica.

No auge da guerra híbrida, em 2016, o jornalismo corporativo deu toda visibilidade a espécimes desse Brasil profundo para engrossar as manifestações verde-amarelas das ruas das capitais brasileiras: nomes como Ju Isen (modelo anônima, famosa por tirar a roupa em uma das manifestações Anti-Dilma na Avenida Paulista em São Paulo), Junior de França (ajudou a organizar o acampamento de manifestantes pró-impeachment em frente ao prédio da Fiesp em São Paulo e recrutador de mulheres para feiras corporativas, acusado de estelionato e de tentar fazer sexo com modelos).

Além de Douglas Kirchner (procurador do Ministério Público Federal transformado em personagem nacional atuando em parceria com a revista Época no vazamento de denúncias contra Lula, acusado de agredir fisicamente a esposa e mantê-la em cárcere privado no interior de uma das igrejas da seita; ministrava o seminário “Casamento Gay e Marxismo Cultural” onde ataca a igualdade de sexos e defende que o feminismo é um “ideal agnóstico das esquerdas”) – clique aqui.

Toda essa argamassa ideológica e imaginária acabou solidificando o machismo renitente. Que, paralelo ao crescimento do coach motivacional e do neopentecostalismo, chega nesse momento ao “estado da arte”: o crescimento online grupos com “Legendários” e “Invictos Trekking” que tentam resgatar a masculinidade alfa e a religiosidade supostamente perdidas numa sociedade feminista ateia e esquerdista.

A guerra híbrida brasileira, que precisou empoderar esse Brasil profundo por motivos logísticos (engrossar os movimentos das ruas e redes sociais), ideológicos (viralizar a paranoia anticomunismo 2.0 via guerra cultural) e políticos (alcançar uma representação político-partidária no bolsonarismo), transformou-se no pano de fundo de toda uma geração masculina que passou da adolescência para a vida adulta embalada por essa guerra cultural e cismogênese: o homem supostamente humilhado (desemprego, precarização etc. como uma grande complô feminista contra a masculinidade) descarrega a sua fúria na mulher ao seu lado – a companheira, a namorada, a ex etc.

Quando a grande mídia clama pela necessidade de “educação” masculina para reverter esse quadro, obviamente pretende colocar-se de fora e não parte do problema: seu jornalismo de guerra empoderou, deu visibilidade e apoio logístico (lembram da transferência dos jogos de futebol do domingo para as manhãs para liberar as tardes para as manifestações?) a esses personagens do Brasil profundo.

Fazendo vistas grossas e tampando o nariz para toda a onda de ódio e intolerância que envenenou o psiquismo coletivo.



Psicologia reversa

Por que desde que o feminicídio foi tipificado em 2015 o crime teve um aumento contínuo?

A primeira resposta poderia ser que esse crime sempre existiu numa sociedade tão conservadora e misógina como a brasileira. Estava apenas ocultada pela tipificação do “homicídio”.  

Mas também é inegável o contexto geopolítico da ação da guerra híbrida contra o Brasil. Principalmente pelo comportamento da grande mídia no modo jornalismo de guerra, dando visibilidade e apoio editorial ao arco de oposição, do Centrão à extrema direita.

Guerra híbrida é uma guerra por procuração. Ao invés das táticas convencionais de invasão militar desgasta-se o adversário - campanhas de desinformação, uso de "fábricas de trolls" e bots para criar narrativas falsas e polarizar a sociedade. Isso se chama criação de cismogênese, isto é, tornar o debate político na opinião pública tão irracional que temas religiosos, culturais ou de costumes acabam se sobrepondo. Dividindo a sociedade, no qual a luta de classes é substituída pela luta identitária, de gênero e cultural.

Dentro das estratégias de criação de cismogênese em países adversários, a utilização da psicologia reversa é um dos dispositivos mais utilizados.

psicologia reversa é uma técnica de persuasão que consiste em encorajar alguém a adotar um comportamento ou atitude, sugerindo o oposto do que se deseja, explorando a tendência humana de resistir a ordens diretas (reatância psicológica) para que a pessoa faça, por conta própria, o que você realmente queria.

A psicologia reversa é uma operação psicológica que está dentro daquela estratégia que Andrew Korybko define como “caos administrado”:

O estudo detalhado da sociedade de um estado-alvo e das tendências gerais da natureza humana (auxiliado por pesquisas antropológicas, sociológicas, psicológicas e outras) permite construir um quadro de como é o funcionamento “natural” daquela sociedade. Armados com esse conhecimento, os praticantes da Guerra Híbrida podem prever com precisão quais “botões apertar” por meio de provocações para obter respostas esperadas de seus alvos, tudo com a intenção de perturbar o status quo por processos locais de desestabilização manipulados por forças externas. Podem ser conflitos étnicos, movimentos de protesto (“Revoluções Coloridas”) ou a exacerbação de rivalidades regionais – clique aqui

Dentro do conjunto de feridas abertas do psiquismo coletivo brasileiro que os “brasilianistas” do Departamento de Estado norte-americano inventariaram (como as questões mal resolvidas da escravidão, o militarismo etc.) está o conservadorismo moral e familiar do Brasil profundo – cujo reacionarismo é retroalimentado pelas questões não resolvidas por uma país que passou pela Casa Grande, Senzala e uma república parida por um golpe militar.

O crime do feminicídio não ocorre num momento racional – isto é, o agressor em nenhum momento vai parar para pensar na pena, nas consequências pessoais ou jurídicas de um crime que passou a ter uma tipificação distinta.

A tipificação do feminicídio por um lado alimentou a onda moralista do punitivismo penal que apenas retroalimentou o problema. Nas palavras de Leonardo Stoppa, “O feminicídio é uma tragédia real, brutal e cotidiana. Não há relativização possível. Mas é justamente por isso que ele não pode ser transformado em ativo eleitoral, em mercadoria discursiva, nem em pauta de gestão simbólica do horror. Quando isso acontece, algo se rompe no próprio campo progressista” - clique aqui.

Criada a cismogênese, passa a se viver politicamente do feminicídio: de um lado, o reforço da narrativa permanente da guerra entre homens e mulheres; e do outro, o capital simbólico para a extrema direita para reforçar o discurso sobre uma sociedade autoritária dominada por feministas e comunistas que querem destruir a identidade masculina.

É o mecanismo perverso da psicologia reversa: reforça aquilo que pretendia combater. Das discussões político-estruturais (enfrentar o capitalismo, reconstruir políticas públicas de cuidado, mediação, saúde mental e proteção material real), passamos para o campo da extrema direita das “guerras culturais” e das abstrações burocráticas como as “medidas protetivas” que apenas estimulam a psicologia reversa.

Por isso que o gênio não quer voltar para a garrafa, depois que foi libertado pelo jornalismo de guerra de, no mínimo, duas décadas de guerra híbrida.

 

 

Postagens Relacionadas

 

A PsyOp militar que a crítica brasileira não entendeu no filme "Nova Ordem"

 

 

Cresce aprovação a Bolsonaro: a esquerda à sombra das maiorias silenciosas

 

 

O gênio da América e do Brasil profundos não quer mais voltar para a garrafa

 

 

 

Pós-meritocracia: grande mídia foi traída pela Faria Lima

 

 

 

Tecnologia do Blogger.

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Bluehost Review