Indicado ao Oscar de Melhor Documentário, “Democracia em Vertigem” (2019, disponível na Netflix), dirigido por Petra Costa, não é uma produção comum do gênero. A cronologia dos fatos que levaram o País da ditadura militar aos governos de centro-esquerda de Lula e Dilma é apenas o cenário para outro tema mais profundo: por que a elite de repente se cansou da Democracia e do Estado de Direito e virou o tabuleiro, envenenando corações e mentes com ódio e polarização? A câmera de Petra Costa e sua melancólica narração buscam nas imagens oficiais e de bastidores aquilo que Roland Barthes chamava de “punctum”: detalhes que nos afetam, cortam e ferem. Pequenos detalhes em imagens (gestos, falas, atitudes, olhares etc.) que, em vários momentos do documentário, parecem expressar secretamente o que estava reservado para o futuro do País. “Democracia em Vertigem” lida principalmente com afetos em um país cronicamente inviável – sob a superfície mutante da política estão personagens que sempre estiveram lá, desde que um golpe militar instituiu a República: a elite financeira, midiática e empresarial. A democracia brasileira foi fundada no esquecimento.
terça-feira, janeiro 14, 2020
Wilson Roberto Vieira Ferreira
































