sexta-feira, abril 03, 2026

'Matar. Vingar.Repetir': o pesadelo da imortalidade quântica



Diz o provérbio que passamos metade da vida cometendo erros e a outra tentando corrigi-los. No entanto, o novo suspense de ficção científica “Matar. Vingar. Repetir.” (Redux Redux, 2025) altera essa premissa para algo muito mais perturbador: passamos a vida sendo vítimas e as demais realidades buscando vingança. O filme utiliza a física quântica não como um artifício de aventura, mas como uma lupa sobre o determinismo do trauma. Através da jornada de Irene Kelly por universos paralelos onde a tragédia é um ponto fixo, os diretores Kevin e Matthew McManus entregam um "Thelma e Louise quântico" que reflete a angústia de uma era onde nem mesmo o infinito parece ser capaz de apagar a dor. Ao cruzar a “Interpretação de Muitos Mundos” de Hugh Everett com o conceito de imortalidade quântica de Max Tegmark, a obra apresenta uma anatomia visceral do luto, onde a jornada interdimensional não oferece uma nova vida, mas uma prisão existencial de vingança repetitiva.

Passamos metade da vida cometendo erros. E a outra metade tentando corrigi-los. Esse é um provérbio que sintetiza um tema recorrente na literatura e no cinema: o tema da segunda chance. 

A Teoria da Relatividade de Einstein e a Física Quântica no século XX parecem ter alimentado ainda mais esse imaginário com o relativismo do tempo e a constatação quântica de que a matéria nada mais é do que energia vibrando em diferentes frequências abririam a mente humana para um universo que poderia se desdobrar em muitos outros que poderiam conviver paralelamente.

Mas principalmente a interpretação clássica do físico Hugh Everett (a “Interpretação dos Muitos Mundos) na qual o colapso da função de onda é uma ilusão. Para Everett, o experimento do Gato de Schrödinger não resulta em um gato morto ou vivo, mas em uma ramificação da realidades onde ambas existem – sobre a experiência do Gato de Schrödinger, clique aqui.

O mito da segunda chance, associado à viagem no tempo, foi uma tendência no cinema no século XX, em suas versões relativísticas (o paradoxo do avô e a impossibilidade de mudar o passado) e a versão ligada a Teoria do Caos e efeitos exponenciais decorrentes na alteração do passado: os catastróficos efeitos exponenciais no futuro.

Uma tendência cujo final pode ser localizado no filme Efeito Borboleta (2004).

Desde então, a viagem no tempo passou a dar lugar às viagens interdimensionais pelos universos alternativos quânticos imaginados por Hugh Everett. Desde Perdido Entre Dois Mundos (2007) até chegarmos à série Matéria Escura (2024-).



Uma enxurrada de histórias sobre universos alternativos, realidades paralelas e emaranhados quânticos: dos multiversos dos mundos cinematográficos da Marvel ao vencedor do Oscar Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, passando por séries como Constelação da Apple TV. 

E, por que não, também a série O Problema dos 3 Corpos no qual passado, presente e futuro ocorrem simultaneamente num mesmo enredo.

Dissemos acima que passamos metade da vida cometendo erros. E a outra metade tentando corrigi-los. Essa angústia alimentou o mito da segunda chance na literatura e cinema de ficção científica.

Mas parece que o filme HBO Max Matar. Vingar. Repetir. (Redux Redux, 2025), dos irmãos McNamus, altera esse provérbio: Passamos a vida inteira sendo vítimas. E nos outros universos alternativos quânticos, procurando vingança!

O filme utiliza o tropo do multiverso não como uma aventura de ficção científica expansiva, mas como uma anatomia visceral do luto e do determinismo. Ao contrário de outras obras que celebram a infinitude de possibilidades, este filme foca na "estática" do trauma: a protagonista viaja entre realidades apenas para encontrar o mesmo resultado trágico, transformando a teoria quântica em uma prisão existencial:  a busca repetitiva da vingança – matar o seu algoz em todos os mundos quânticos.



No filme, Irene Kelly (Michaela McNamus) age como a "observadora" clássica da experiência de Schrödinger que se recusa a aceitar a ramificação onde o gato (sua filha, Anna) está morto. Irene busca vingança repetitiva.

No entanto, o filme introduz um elemento cruel: a convergência estatística. Enquanto a releitura de Everett sugere que tudo o que é possível acontece e se ramifica em mundos alternativos, Irene descobre que, em quase todas as ramificações acessíveis, o evento traumático é um "ponto fixo" – em todos os mundos sua filha está morta.

Embora o universo se ramifique, a consciência humana pode ficar presa em um túnel de probabilidade onde apenas a dor se repete. Irene é a versão do observador que sobreviveu à própria autodestruição para testemunhar a morte da filha infinitamente.

O Filme

 A chave para um ótimo filme independente de ficção científica não está na quantidade de detalhes que você inclui, mas sim no que você omite. O público é inteligente. Se você apresentar a premissa básica e bons personagens, eles o seguirão, literalmente, até os confins da Terra. 

E isso é provado em Matar, Vingar, Repetir: o filme começa com uma mulher observando apaticamente um homem amarrado a uma cadeira e queimando vivo. Logo descobrimos que essa mulher viaja entre universos paralelos em uma caixa de aço não maior que uma cabine telefônica para punir o homem que sequestrou e assassinou sua filha. Pouco mais descobrimos depois disso. 



Os detalhes adicionais que recebemos não dizem respeito necessariamente à ciência por trás das viagens de Irene. Onde ela conseguiu essa máquina? Como ela funciona? Quantas outras pessoas possuem dispositivos semelhantes? Não importa. Em vez disso, os irmãos McManus — Kevin e Matthew — cuja irmã interpreta Irene, dedicam-se a elucidar os personagens misteriosos do filme. 

Ficamos sabendo o nome dessa vingadora: Irene Kelly (Michaela McManus). Também ficamos sabendo de sua rotina. Ela sempre visita a lanchonete onde Neville (Jeremy Holm), o assassino de sua filha, trabalha. Às vezes, ela atira nele na hora; em outras versões, ela o segue até em casa, abre uma caixa de madeira debaixo da cama de Neville contendo mechas de cabelo, um maço de dinheiro e uma arma com o cabo envolto em fita adesiva, e então o assassina brutalmente.   

Nos mundos que criaram, tudo é relativamente igual, com apenas pequenas variações entre as linhas temporais. Se uma xícara de café na lanchonete é amarela em um universo, ela é vermelha em outro. Irene também provoca mudanças ao se encontrar periodicamente com Jonathan (Jim Cummings), um cara com quem ela conversa repetidamente, usando a mesma cantada, do lado de fora de uma reunião de apoio a pessoas em luto.

Além dessas peculiaridades, Irene vive um ciclo brutal de justiça implacável e relações sexuais que a tornou progressivamente tão vazia quanto sua máquina. Esta é uma mulher que se refugia na casa abandonada e igualmente vazia deixada por seu outro eu, onde a marca do crescimento de sua filha está impressa na moldura da porta.

McManus oferece mais detalhes sobre Irene através de sua atuação visceral, que equilibra uma certa distância emocional, através de sua postura firme, porém exausta, com uma intensidade penetrante transmitida por seu olhar urgente.

Nos sentimos como se estivéssemos testemunhando uma longa jornada rumo à autoaniquilação, cujo fim devastador está bem à vista.    



A imortalidade quântica 

Sua jornada quântica de vingança é irrevogavelmente alterada quando ela entra em um universo cuja mudança aparentemente pequena se torna drástica. Ao entrar na casa de Neville, ela encontra Mia (Stella Marcus), de 15 anos, amarrada e precisando de ajuda. Ela liberta Mia, que, apesar de sua atitude arrogante, se torna como uma segunda filha para Irene.  

Então, a dupla se torna uma espécie de Thelma e Louise quântica: uma dupla de mulheres vingadoras que têm um algoz comum em múltiplos mundos.

Mas o filme incorpora um tema mais recente à ramificação quântica da realidade: o conceito de Imortalidade Quântica, explorado por Bruno Marchal e popularizado por Max Tegmark.

O conceito sugere que, do ponto de vista da primeira pessoa, um observador nunca "morre". Em qualquer experimento de "suicídio quântico", a consciência do observador sempre seguirá o caminho da ramificação onde ele sobreviveu.

Irene menciona explicitamente ser a única versão de si mesma que não cometeu suicídio após a morte da filha. Ela é a personificação da imortalidade quântica: uma consciência condenada a existir apenas nos ramos onde o sofrimento continua.

Essa é a Armadilha de Tegmark: a imortalidade quântica não garante uma vida boa, apenas a continuidade. Matar, Vingar, Repetir transforma essa teoria em um pesadelo: Irene é imortal em seu propósito de vingança, mas essa imortalidade a desumaniza, transformando-a em uma entidade puramente funcional (um "vetor de vingança") que não consegue mais habitar a própria humanidade.


 

 

Ficha Técnica

Título: Matar. Vingar. Repetir

Direção: Kevin McManus, Matthew McManus

Roteiro: Kevin McManus, Matthew McManus

Elenco: Michaela McManus, Stella Marcus, Jeremy Holm

Produção: Mothership Motion Pictures

Distribuição: HBO MAX

Ano: 2025

País: EUA

 

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