Diz o provérbio que passamos metade da vida cometendo erros e a outra tentando corrigi-los. No entanto, o novo suspense de ficção científica “Matar. Vingar. Repetir.” (Redux Redux, 2025) altera essa premissa para algo muito mais perturbador: passamos a vida sendo vítimas e as demais realidades buscando vingança. O filme utiliza a física quântica não como um artifício de aventura, mas como uma lupa sobre o determinismo do trauma. Através da jornada de Irene Kelly por universos paralelos onde a tragédia é um ponto fixo, os diretores Kevin e Matthew McManus entregam um "Thelma e Louise quântico" que reflete a angústia de uma era onde nem mesmo o infinito parece ser capaz de apagar a dor. Ao cruzar a “Interpretação de Muitos Mundos” de Hugh Everett com o conceito de imortalidade quântica de Max Tegmark, a obra apresenta uma anatomia visceral do luto, onde a jornada interdimensional não oferece uma nova vida, mas uma prisão existencial de vingança repetitiva.
Passamos metade da vida cometendo
erros. E a outra metade tentando corrigi-los. Esse é um provérbio que sintetiza
um tema recorrente na literatura e no cinema: o tema da segunda chance.
A Teoria da Relatividade de
Einstein e a Física Quântica no século XX parecem ter alimentado ainda mais esse
imaginário com o relativismo do tempo e a constatação quântica de que a matéria
nada mais é do que energia vibrando em diferentes frequências abririam a mente
humana para um universo que poderia se desdobrar em muitos outros que poderiam
conviver paralelamente.
Mas principalmente a interpretação
clássica do físico Hugh Everett (a “Interpretação dos Muitos Mundos) na
qual o colapso da função de onda é uma ilusão. Para Everett, o experimento do
Gato de Schrödinger não resulta em um gato morto ou vivo, mas em uma
ramificação da realidades onde ambas existem – sobre a experiência do Gato de Schrödinger,
clique aqui.
O mito da segunda chance, associado à
viagem no tempo, foi uma tendência no cinema no século XX, em suas versões
relativísticas (o paradoxo do avô e a impossibilidade de mudar o passado) e a
versão ligada a Teoria do Caos e efeitos exponenciais decorrentes na alteração do
passado: os catastróficos efeitos exponenciais no futuro.
Uma tendência cujo final pode ser
localizado no filme Efeito Borboleta (2004).
Desde então, a viagem no tempo passou a
dar lugar às viagens interdimensionais pelos universos alternativos quânticos
imaginados por Hugh Everett. Desde Perdido Entre Dois Mundos (2007) até
chegarmos à série Matéria Escura (2024-).
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Uma enxurrada de histórias sobre
universos alternativos, realidades paralelas e emaranhados quânticos: dos
multiversos dos mundos cinematográficos da Marvel ao vencedor do Oscar Tudo
em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, passando por séries como Constelação da
Apple TV.
E, por que não, também a série O
Problema dos 3 Corpos no qual passado, presente e futuro ocorrem
simultaneamente num mesmo enredo.
Dissemos acima que passamos metade da
vida cometendo erros. E a outra metade tentando corrigi-los. Essa angústia
alimentou o mito da segunda chance na literatura e cinema de ficção científica.
Mas parece que o filme HBO Max Matar.
Vingar. Repetir. (Redux Redux, 2025), dos irmãos McNamus, altera
esse provérbio: Passamos a vida inteira sendo vítimas. E nos outros universos alternativos
quânticos, procurando vingança!
O filme utiliza o tropo do multiverso
não como uma aventura de ficção científica expansiva, mas como uma anatomia
visceral do luto e do determinismo. Ao contrário de outras obras que
celebram a infinitude de possibilidades, este filme foca na
"estática" do trauma: a protagonista viaja entre realidades apenas
para encontrar o mesmo resultado trágico, transformando a teoria quântica em
uma prisão existencial: a busca repetitiva
da vingança – matar o seu algoz em todos os mundos quânticos.
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No filme, Irene Kelly (Michaela McNamus) age como
a "observadora" clássica da experiência de Schrödinger que se recusa
a aceitar a ramificação onde o gato (sua filha, Anna) está morto. Irene busca
vingança repetitiva.
No entanto, o filme introduz um
elemento cruel: a convergência estatística. Enquanto a releitura de Everett
sugere que tudo o que é possível acontece e se ramifica em mundos alternativos,
Irene descobre que, em quase todas as ramificações acessíveis, o evento
traumático é um "ponto fixo" – em todos os mundos sua filha está
morta.
Embora o universo se ramifique, a consciência
humana pode ficar presa em um túnel de probabilidade onde apenas a dor se
repete. Irene é a versão do observador que sobreviveu à própria autodestruição
para testemunhar a morte da filha infinitamente.
O Filme
A chave para um ótimo filme
independente de ficção científica não está na quantidade de detalhes que você
inclui, mas sim no que você omite. O público é inteligente. Se você apresentar
a premissa básica e bons personagens, eles o seguirão, literalmente, até os
confins da Terra.
E isso é provado em Matar, Vingar,
Repetir: o filme começa com uma mulher observando apaticamente um homem
amarrado a uma cadeira e queimando vivo. Logo descobrimos que essa mulher viaja
entre universos paralelos em uma caixa de aço não maior que uma cabine
telefônica para punir o homem que sequestrou e assassinou sua filha. Pouco mais
descobrimos depois disso.
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Os detalhes adicionais que recebemos
não dizem respeito necessariamente à ciência por trás das viagens de Irene.
Onde ela conseguiu essa máquina? Como ela funciona? Quantas outras pessoas
possuem dispositivos semelhantes? Não importa. Em vez disso, os irmãos McManus
— Kevin e Matthew — cuja irmã interpreta Irene, dedicam-se a elucidar os
personagens misteriosos do filme.
Ficamos sabendo o nome dessa vingadora:
Irene Kelly (Michaela McManus). Também ficamos sabendo de sua rotina. Ela
sempre visita a lanchonete onde Neville (Jeremy Holm), o assassino de sua
filha, trabalha. Às vezes, ela atira nele na hora; em outras versões, ela o
segue até em casa, abre uma caixa de madeira debaixo da cama de Neville
contendo mechas de cabelo, um maço de dinheiro e uma arma com o cabo envolto em
fita adesiva, e então o assassina brutalmente.
Nos mundos que criaram, tudo é
relativamente igual, com apenas pequenas variações entre as linhas temporais.
Se uma xícara de café na lanchonete é amarela em um universo, ela é vermelha em
outro. Irene também provoca mudanças ao se encontrar periodicamente com
Jonathan (Jim Cummings), um cara com quem ela conversa repetidamente, usando a
mesma cantada, do lado de fora de uma reunião de apoio a pessoas em luto.
Além dessas peculiaridades, Irene vive
um ciclo brutal de justiça implacável e relações sexuais que a tornou
progressivamente tão vazia quanto sua máquina. Esta é uma mulher que se refugia
na casa abandonada e igualmente vazia deixada por seu outro eu, onde a marca do
crescimento de sua filha está impressa na moldura da porta.
McManus oferece mais detalhes sobre
Irene através de sua atuação visceral, que equilibra uma certa distância
emocional, através de sua postura firme, porém exausta, com uma intensidade
penetrante transmitida por seu olhar urgente.
Nos sentimos como se estivéssemos testemunhando uma longa jornada rumo à autoaniquilação, cujo fim devastador está bem à vista.
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A imortalidade quântica
Sua jornada quântica de vingança é irrevogavelmente
alterada quando ela entra em um universo cuja mudança aparentemente pequena se
torna drástica. Ao entrar na casa de Neville, ela encontra Mia (Stella Marcus),
de 15 anos, amarrada e precisando de ajuda. Ela liberta Mia, que, apesar de sua
atitude arrogante, se torna como uma segunda filha para Irene.
Então, a dupla se torna uma espécie de
Thelma e Louise quântica: uma dupla de mulheres vingadoras que têm um algoz
comum em múltiplos mundos.
Mas o filme incorpora um tema mais
recente à ramificação quântica da realidade: o conceito de Imortalidade
Quântica, explorado por Bruno Marchal e popularizado por Max Tegmark.
O conceito sugere que, do ponto de
vista da primeira pessoa, um observador nunca "morre". Em qualquer
experimento de "suicídio quântico", a consciência do observador
sempre seguirá o caminho da ramificação onde ele sobreviveu.
Irene menciona explicitamente ser a
única versão de si mesma que não cometeu suicídio após a morte da filha. Ela é
a personificação da imortalidade quântica: uma consciência condenada a existir
apenas nos ramos onde o sofrimento continua.
Essa é a Armadilha de
Tegmark: a imortalidade quântica não garante uma vida boa, apenas a continuidade.
Matar, Vingar, Repetir transforma essa teoria em um pesadelo: Irene é
imortal em seu propósito de vingança, mas essa imortalidade a desumaniza,
transformando-a em uma entidade puramente funcional (um "vetor de
vingança") que não consegue mais habitar a própria humanidade.
Ficha Técnica
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Título: Matar. Vingar. Repetir |
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Direção: Kevin McManus, Matthew McManus |
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Roteiro: Kevin McManus, Matthew
McManus |
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Elenco: Michaela McManus, Stella
Marcus, Jeremy Holm |
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Produção: Mothership Motion
Pictures |
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Distribuição: HBO MAX |
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Ano:
2025 |
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País: EUA |
sexta-feira, abril 03, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira





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