domingo, fevereiro 10, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Se "Matrix" (1999) foi o auge hollywoodiano do gnosticismo pop, “Oblivion” (2013) é outro filme que consegue sintetizar o mito central dos gnósticos: o apocalipse já aconteceu, e foi a própria Criação: um erro cósmico no qual nos tornamos prisioneiros da ilusão e do esquecimento. Tom Cruise é Jack, um técnico de manutenção de drones e robôs cumprindo sua última missão na Terra: conduzir os recursos naturais remanescentes de um planeta devastado para uma lua de Saturno, último refúgio humano. Mas Jack aos poucos começa a questionar os propósitos da sua missão. Principalmente quando a mulher dos seus recorrentes flashs de memória aparece na queda de uma nave.
quarta-feira, novembro 01, 2017
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Philip K. Dick escreveu seus contos sob a
sombra do macarthismo da Guerra Fria onde a lealdade e confiança eram as
principais armas contra a traição e delação de um sistema totalitário. Mas para
ele, esse sistema não era apenas político, mas cósmico – obra de um Deus
demente, um Demiurgo Criador que nos aprisiona por meio da ilusão moral (culpa)
e ontológica (o princípio de realidade). A nova série da rede britânica Channel
4 “Philip K. Dick’s Electric Dreams” (2017-) adapta esses contos de ficção
científica que conduziram o escritor até a violenta epifania mística em 1974,
na qual teve visões, sonhos e revelações místico-religiosas que o levaram ao
gnosticismo cristão. Os 10 contos que compõem a primeira temporada da série
apresentam não só a atmosfera do anticomunismo da Guerra Fria do momento em que
foram escritos. Mas didaticamente nos mostra os 10 grandes princípios da
Revelação Gnóstica que orientaram toda a obra do escritor. Por isso Philip K.
Dick tornou-se visionário: cada vez mais a realidade atual se assemelha a um
conto dele.
sábado, outubro 21, 2017
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Por que as mulheres são as personagens
principais de “Blade Runner 2049”? Depois de os replicantes amarem a própria
vida mais do que os humanos a si mesmos, descobrem que ser inteligentes, fortes
e resistentes só os tornam ainda mais escravos dos humanos. Os replicantes Nexus 8 vão ao
encontro daquilo que é essencialmente humano, embora esquecido por todos nós:
amor, nascimento e alma. Fiel ao Gnosticismo de Philip K. Dick no livro que
inspirou a saga “Blade Runner”, Denis Villeneuve e o roteirista Hampton Fancher
constroem uma narrativa baseada na oposição central da Cosmologia Gnóstica: a
diferença entre “Criar” e “Emanar”: a Wallace Corporation cria ou fabrica
replicantes, enquanto os replicantes descobrem tudo aquilo que pode ser
“emanado” – aquilo que não se cria, mas nasce: amor e alma. Esse é o centro do
conflito de “Blade Runner 2049”, no qual o mito gnóstico do Feminino Divino
(assim como em “Mother!” de Aronofsky) é fundamental. Mulheres empoderadas,
tanto para o bem quanto para o mal.
quinta-feira, março 16, 2017
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Em um passado alternativo em 1985, Mark
Chapman matou Mick Jagger ao invés de John Lennon e os EUA vivem sob o domínio de
um Estado totalitário. Um grupo subversivo planeja incitar a revolução por meio
de hits musicais com mensagens subliminares.E o líder, produtor da gravadora, é inspirado por epifanias
místicas enviadas pela VALIS (“Vasto Sistema Vivo de Inteligência Alienígena”)
por meio de um satélite que secretamente orbita o planeta. Esse é o filme
“Radio Free Albemuth” (2010), a melhor adaptação cinematográfica já feita de um
livro do escritor gnóstico Philip K. Dick. Uma produção que conseguiu ir além
dos cânones da ficção-científica (que sempre orientaram as adaptações hollywoodianas
de K. Dick – robôs, aliens e planetas distantes), traduzindo para a tela as
especulações filosóficas que sempre inspiraram o escritor: Gnosticismo, Cabala,
Hermetismo e Budismo. Mas, principalmente, como K. Dick, através da sua obra, conseguiu politizar o
Gnosticismo através do tema da paranoia.
sábado, fevereiro 25, 2017
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Apesar de contar com dois vencedores do Oscar
(Kevin Spacey e Christopher Walken) a comédia romântica familiar “Virei um
Gato” (Nine Lives, 2016) foi destruída pela crítica: o que esses atores
consagrados estão fazendo nessa catástrofe? Eles devem ter contas pesadas para
pagar! Mas para o Cinegnose esse filme é um trunfo que confirma uma tese: desde
que o Gnosticismo deixou de ser uma exclusividade de filmes cults e foi adotada
pelos filmes populares a partir dos anos 1990, os elementos gnósticos deixaram
de figurar apenas em sci-fis e dramas cerebrais, para também incursionar em
comédias, thrillers e outros gêneros. Por trás de camadas de clichês de uma comédia popular,
“Virei um Gato” nos conta a narrativa gnóstica de transformação íntima através
da jornada espiritual no corpo de um gato e, principalmente, por um “salto de
fé” ao mesmo tempo literal e simbólico, a exemplo de filmes gnósticos mais sérios como “Vidas em
Jogo” (1997) e Vanilla Sky (2001).
segunda-feira, janeiro 30, 2017
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Qual a relação entre o milenar livro-oráculo "I Ching", o Cinema no século XX e a hipótese dos Múltiplos Mundos da Física
Quântica? A busca dessas conexões é o desafio para o espectador que assiste à
série da Amazon Studios “The Man In The High Castle” (2015 - ) livremente
inspirado no livro do escritor sci-fi gnóstico Philip K. Dick de 1962. Um mundo
invertido no qual os países do Eixo (Alemanha, Japão e Itália)ganharam a Segunda Guerra Mundial e os EUA,
destruídos pela Grande Depressão, foram conquistados pelo Reich e o Império do
rei Hirohito. Porém, a posse de estranhos rolos de filmes de procedência
misteriosa passa a ser politicamente importante tanto para Resistência como
para Hitler: neles, outros mundos são revelados. Tal como no I Ching, devemos
encontrar o imutável em mundos fugazes e em constante mutação. Mas pode
tornar-se uma arma política: o controle do Tempo, passado e futuro de toda a
humanidade.
terça-feira, agosto 09, 2016
Wilson Roberto Vieira Ferreira
A série de TV “Mr. Robot” (2015-) de San Esmail é vista pela crítica como um mix
de “Matrix” com “Clube da Luta” onde a violência de socos e Kung Fu é
substituída pela cultura do cyber-ativismo hacker. Mas a série vai mais além.
Entra nos temas principais do gnosticismo sci-fi do escritor Philip K. Dick:
paranoia, amnésia, esquizofrenia e identidade em um sistema onde a mentira é a
base de toda a confiança: um sistema econômico onde débitos e dívidas se
sustentam na crença de que, apesar de toda a virtualidade das transações
financeiras, o dinheiro existe em algum lugar como base moral de todo o valor. E
tudo pode ser destruído da noite para o dia por hackers que pretendem salvar o
mundo através de linhas de programação. Como explicar essa mensagem de rebelião gnóstica em série de TV em uma grande rede dos EUA? Talvez
a chamada “Hipótese Fox Mulder” explique.
domingo, janeiro 10, 2016
Wilson Roberto Vieira Ferreira
“É com
muita satisfação que comunico que o replicante Roy Batty, modelo Nexus 6 –
MAA10816, entrou em funcionamento nessa sexta-feira, 8 de janeiro de 2016.
Parabéns ao envolvidos!”. Esse é o texto que acompanhou um meme que circulou
nas redes sociais lembrando que mais uma vez chegamos ao futuro – em 21/10 do
ano passado estivemos também no futuro com “De Volta Para O Futuro 2”. Roy, o
icônico replicante do filme "Blade Runner - O Caçador de Androides" (1982) de Ridley Scott, já nasceu e daqui
a quatro anos terá uma violenta crise existencial ao descobrir que tem tão
pouco tempo de vida. O que significa para nós essa estranha sensação de
chegarmos ao futuro através de filmes como “2001”, “1984”, De Volta Para O
Futuro” e “Blade Runner”? É o que o “Cinegnose” pretende descobrir.
Quando chegou o
ano de 1984, foi irresistível não fazer comparações com o clássico livro de
Orwell 1984:o futuro mundo distópico projetado pelo
escritor inglês em 1949 teria sido enfim realizado? O Estado Big Brother
imaginado por Orwell aconteceu? Ele é comunista ou capitalista? A “novilíngua”
já está presente nas mídias de massas?
terça-feira, outubro 08, 2013
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Clássico do cinema de ficção científica, “Blade Runner – O Caçador de
Andróides” (1982) é marcado por coincidências significativas que muitos
interpretam como uma “maldição”: as empresas que colocaram seus logos e produtos
no filme tiveram ao longo da década problemas financeiros, queda de receita ou
simplesmente faliram. Sabendo-se que o filme foi baseado no livro do escritor
gnóstico Philip K. Dick e o título do filme retirado de livros dos autores
undergrounds William Burroughs e Alan Nourse, propomos uma hipótese
sincromística: poderia o filme “Blade Runner” ter se tornado um cavalo de Tróia
que sob uma embalagem comercial inoculou em Hollywood uma egrégora gnóstica de
contestação aos demiurgos corporativos?
Pesquisando o campo do
Sincromisticismo e motivados pela nossa última postagem do blog sobre as
estranhas coincidências nas últimas tragédias em Washington (vela links
abaixo), resolvemos voltar nossa atenção para estranhas coincidências que podem
ser encontradas no campo da produção cinematográfica. É uma área rica em
sincronicidades ou “coincidências significativas”, talvez por trabalhar com
tantos arquétipos, formas-pensamento e egrégoras do inconsciente coletivo da
humanidade. Muitas vezes esses sincronismos são popularmente denominados como
“maldições”.
Um dos mais conhecidos são as
coincidências que envolvem o personagem do Coringa na série Batman,
principalmente após a morte do ator Heath Ledger: a sombra do poderoso
arquétipo teria feito mais uma vítima, suspeita que ficou ainda mais forte após
a declaração do ator Jack Nicholson: “Eu o avisei!”. Nicholson já havia
interpretado o sinistro personagem no “Batman” na versão de Tim Burton (1989) e
parecia saber de algo mais.
terça-feira, agosto 21, 2012
Wilson Roberto Vieira Ferreira
A versão atual de “O
Vingador do Futuro” (Total Recall, 2012) à primeira vista parece ser mais fiel ao conto de
Philip K. Dick ao adotar uma narrativa mais séria, grave e sombria do que o
original de 1990 de Paul Verhoeven. Mero engano. Como é possível um filme hollywoodiano assumir a virulência de um escritor que denunciava conspirações cósmicas e
pregava a revolta contra sistemas autoritários de controle em nome de ideais ocultistas
e esotéricos? Por meio de sutis estratégias que neutralizam as visões radicais de K. Dick permitindo ao
espectador voltar para a sua rotina como se nada tivesse acontecido depois que
as luzes do cinema forem acesas.
Desde que o escritor norte-americano Philip K. Dick atendeu
à campainha da sua casa em março de 1974 e surgiu uma menina de entrega de uma
farmácia usando um delicado colar de onde pendia um peixe dourado, sua vida
nunca mais foi a mesma. Se desde a década de 1950 K. Dick escrevia livros e
contos sobre conspirações cósmicas, universos
paralelos, amnésia, paranoia, estados ambivalentes entre a realidade e ilusão e
revolta contra sistemas autoritários de controle, essa prosaica experiência de
atender a uma entrega confirmou tudo o que imaginava: viu um raio cor de rosa
sair do peixe (símbolo do Cristianismo primitivo) e atingi-lo na região do
terceiro olho (sobre esse episódio da gnose do escritor veja links abaixo).
A partir daí, o
tecido da realidade se esgarçou para K. Dick que passou a vislumbrá-la como um constructu a partir de memórias artificiais implantadas em
cada um de nós: descobriu em uma espécie de epifania religiosa que seu
verdadeiro eu estava em uma realidade alternativa, arquetípica, negada pela
artificialidade dessa realidade.
O conto “We Can
Remember it for You Wholesale” (“Recordações por Atacado”) publicado em 1966 é um
dessas visões de K. Dick sobre a fragilidade da noção de realidade (como
escreve no conto “um conjunto de reações bioquímicas do cérebro estimuladas por
impulsos visuais”). Após o grande sucesso de “Blade Runner – O Caçado de
Andróides” de 1982, baseado em um livro de K. Dick (Do Androids Dream of
Eletric Sheeps?), Hollywood interessou-se pelos insights assumidamente
gnósticos do escritor.
sábado, março 24, 2012
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Baseado no livro escrito por Philip K. Dick em 1977, o filme “O Homem Duplo” (A Scanner Darkly, 2006) foi profético, principalmente após as recentes notícias do projeto da CIA em fazer uma “Internet das coisas” a partir da tecnologia de “computação em nuvem”: o monitoramento total a partir dos objetos que utilizamos no dia-a-dia. “O Homem Duplo” narra uma sociedade devastada por uma droga sintética e monitorada integralmente por um “scanner holográfico” e apresenta a paranoia como a única possibilidade de encontrar a “centelha interior” em um mundo onde a tecnologia supera todos os pesadelos criados pela literatura ou pelo mundo onírico.
Desde 1982 com o filme “Blade Runner – O Caçador de Andróides” roteiristas e produtores de Hollywood passaram a ter um nítido interesse pela obra do escritor de sci fi assumidamente gnóstico Philip K. Dick. As diversas adaptações posteriores dos livros do autor (“O Vingador do Futuro”, “Minority Report”, “O Pagamento” etc.) sempre acabaram ressaltando os atributos heroicos dos protagonistas em tramas movimentadas para se conformar aos ditames de Hollywood.
Em “O Homem Duplo”, adaptação do livro de 1977 “A Scanner Darkly”, encontramos o mesmo protagonista dividido, tema recorrente em sua obra – como era o próprio autor que tinha a vida marcada pela divisão esquizofrênica: a ambiguidade que as pessoas devem assumir em uma sociedade de vigilância total onde a paranoia diante de um inimigo invisível rege a vida de todos.
Temos um filme focado não mais nas ações hollywoodianamente heroicas dos protagonistas, mas na paranoia de “losers” imersos em uma sociedade totalitária.
No caso do livro “A Scanner Darkly”, K. Dick foi profético ao mostrar uma sociedade monitorada integralmente por um “scanner holográfico” e ao apresentar a percepção paranoica como a única possibilidade de verdade em um mundo onde a tecnologia supera todos os pesadelos criados pela literatura ou pelo mundo onírico.
segunda-feira, fevereiro 20, 2012
Wilson Roberto Vieira Ferreira
As sequências em "bullet time" do filme "Matrix" ("The Matrix", 1999) teriam se inspirado em trechos dos Evangelhos Apócrifos Gnósticos do início da Era Cristã? As narrativas do cinema hollywoodiano atual parecem se estruturar em dois mitos: o "monomito" da jornada do herói (Queda,Martírio, Morte e Ressurreição) e o "insight" místico de que a realidade é uma ilusão.
Em
minhas pesquisas iniciais sobre Cinema e Gnosticismo no Mestrado, o texto “The
Clouds Astonished – Gnostic Themes in Popular Cinema” (As Nuvens Atônitas –
Temas Gnósticos no Cinema Popular) foi um dos primeiros subsídios encontrados
na Internet. O problema é que o texto parece ser apócrifo, apenas assinado por
iniciais ou pseudônimo. Há tempos esse texto circula por fóruns de discussão
sobre cinema, sem se saber exatamente a fonte.
A
despeito da sua natureza não-científica, o texto oferece um interessante
paralelismo entre as visões criadas em trechos dos evangelhos apócrifos
gnósticos e sequências de filmes, como no filme “Matrix”: os efeitos em “bullet
time” e o congelamento de ações e objetos enquanto a câmera gira comparado com
a imagem descrita no Evangelho “Atos de João” que descreve o momento do
nascimento de Cristo onde as “nuvens ficaram atônitas” e os “pássaros pararam”
em pleno voo.
Além
disso, o texto sugere uma estrutura mítica a partir da qual os filmes gnósticos
são construídos: em primeiro lugar esses filmes partilhariam de um “monomito”
comum a todos os filmes, a narrativa do “herói de mil faces” tal como descrita
pelo historiador e mitólogo Joseph Campel (veja CAMPBEL, Joseph. “O Herói de
Mil Faces”, Pensamento, 1995) – o drama da jornada de queda, martírio, morte e
ressurreição do herói. Sobre essa narrativa comum o filme gnóstico construiria
outra narrativa arquetípica: o súbito “insight” do herói de que a realidade
seria uma ilusão.
O
texto ainda lança uma hipótese para o súbito aparecimento de temas míticos
gnósticos no cinema popular contemporâneo: esses filmes expressariam uma nova
sensibilidade a partir do surgimento das interfaces virtuais e os efeitos com
imagens geradas em computador: o crescimento dessas tecnologias no horizonte
cultural que sugere uma noção plástica da realidade, como uma estrutura
ilusória que poderia ser construída e manipulada.
segunda-feira, janeiro 09, 2012
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Certa vez Louis Armstrong disse a um jornalista: "Cara, se você for perguntar o que é o Jazz, então nunca saberá". Algo semelhante ocorre com termos como "Gnosticismo" ou "Gnose" na história das religiões: devem ser mais experimentados do que compreendidos.Pelas suas próprias origens sincréticas (uma fusão de platonismo, neo-platonismo, estoicismo, budismo, antigas religiões semíticas e cristianismo), o Gnosticismo poderia ser facilmente comparado ao Jazz que, pelas suas origens, também foi resultante de intensas misturas e adaptações.
O que é Gnosticismo?
Seja pelo ponto de vista histórico (conjunto de seitas sincréticas de religiões
iniciatórias e escolas de conhecimento nos primeiros séculos da era cristã) ou
pelo ponto de vista dos renascimentos na era moderna (grupos e, por analogia, a
todos os movimentos que se baseiam no conhecimento secreto da “gnose”) são definições
que podem levar à generalização e confusão.
Mesmo com a
descoberta, em 1945, de textos gnósticos do século IV em Nag Hammadi (Egito),
muitos concordam que o tema ainda continua com muitos pontos dúbios.
Hoeller e Conner
preferem abordar o Gnosticismo como uma “atitude da mente” ou uma “predisposição
ideológica” que surge em ambientes de grande agitação artística e cultural. “Se
você é um artista sério, já é meio gnóstico”, afirma Conner. Nessas condições,
o Gnosticismo está fadado a um novo renascimento.
Mas há um consenso: o Gnosticismo e seus derivados
esotéricos nunca fizeram parte da cultura sancionada pelas instituições. Desde
o triunfo do cristianismo ortodoxo após Constantino, a tradição gnóstica entrou
para o subterrâneo dos movimentos sociais. Bem sucedido em seus canais subterrâneos,
eventualmente ofereceu a pensadores revolucionários e artistas subsídios
importantes para críticas aos sistemas opressivos políticos, sociais ou
culturais.
É por esse caminho que Miguel Conner (escritor
norte-americano de sci fi e editor/apresentador do programa radiofônico"Aeon
Bytes Gnostic Radio"- programa de debates e
entrevistas semanais sobre temas do Gnosticismo, literatura e cultura pop)
vai focar o Gnosticismo ao compará-lo ao Jazz no campo musical. Impossível de
ser definido, o Jazz escapa a qualquer descrição ou análise mecanicista. Para
Conner, o Gnosticismo se enquadraria nessa mesma natureza. Pelas suas próprias origens sincréticas (uma fusão de platonismo, neo-platonismo, estoicismo, budismo, antigas religiões semíticas e cristianismo), o Gnosticismo poderia ser facilmente comparado ao Jazz que, pelas suas origens, também foi resultante de intensas misturas e adaptações.
quarta-feira, novembro 23, 2011
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Embora seja a pior adaptação no cinema de uma obra do escritor norte-americano de sci fi Phip K. Dick, o Pagamento (Paycheck, 2003) propõe a discussão de um interessante paradoxo temporal: a profecia auto-realizadora como tática de engenharia de opinião pública para que futuros alternativos sejam induzidos e manipulados. Mentiras ou boatos podem paradoxalmente se auto-realizarem como verdades. Isaac Assimov chamava isso de "Psicohistória".
Desde o filme “O Caçador de Andróides” (Blade Runner, 1982),
Hollywood descobriu o escritor de ficção científica assumidamente gnóstico
Philip K. Dick. A maioria das adaptações de seus contos ou livros completos
obtiveram sucesso comercial ou crítico: “O Caçador de Andróides”, “O Vingador
do Futuro”, “Screamers”, “Minority Report”, “Scanner Darkly” e o recente "Agentes do Destino". Porém, o
filme “O Pagamento” foi certamente a pior das adaptações.
Logicamente, a culpa não foi de K. Dick mas dos produtores
por convidarem John Woo, diretor que se notabilizou pela prioridade às cenas de
ação em seus filmes (“A Outra Face” e “Missão Impossível 2”). Para quem está
familiarizado com a obra e filmes baseados em Philip K. Dick facilmente reconhecemos em “O Pagamento” alguns dos seus temas mais caros: perda da memória e paradoxos
temporais. Mas John Woo, ao adaptar a estória de ficção científica
transformou-a, no final, em uma mera narrativa de ação.
Por isso, vamos resgatar nessa postagem o tema que acreditamos
seja o principal na obra “Paycheck” e que foi pouco desenvolvido pela direção
de John Woo: o paradoxo do tempo recursivo.
Primeiro vamos fazer uma breve sinopse: Michael Jennings
(Ben Affleck) é um especialista em engenharia reversa: analisa o produto da
empresa concorrente e desenha uma nova versão que excede as características
originais. Ao finalizar esse trabalho, suas memórias correspondentes ao período
de tempo em que trabalhou são apagadas com a ajuda técnica do seu amigo Shorty
(Paul Giamatti) para proteger a propriedade intelectual de seus clientes.
James Hethrick (Aaron Eckhart), CEO da empresa Allcom,
oferece um misterioso trabalho que envolve um projeto ultra-secreto da área de
ótica, com uma duração de no mínimo três anos. Em troca do apagamento das
memórias desse período, Hethrick oferece participação nas ações da empresa. Ele
completa o trabalho e descobre que desistiu dos milhões de dólares em ações em
troca de um enigmático envelope contendo uma série 20 diferentes objetos,
aparentemente sem nenhum nexo: chave, um maço de cigarros, óculos de sol, uma
bala de revólver.
Por que desistiu de uma fortuna em ações por um envelope
contendo esses prosaicos objetos? Perplexo, Jennings se vê numa situação onde a
Allcom tenta matá-lo, ao mesmo tempo em que agentes do FBI tentam capturá-lo
por suspeita de um crime que não lembra ter cometido.
sábado, agosto 20, 2011
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Hollywood vem experimentando uma guinada metafísica nos últimos anos. Filmes como "Show de Truman", "Mera Coincidência", "O Quarto Poder", "Matrix", "Vanilla Sky" até o recente "A Origem", vêm apontado para uma tendência de auto-reflexão ao tomar a própria mídia e as novas tecnologias como tema, porém num sentido metafísico: e se considerarmos que a própria realidade está deixando de existir como tal? O que chamamos de realidade já teria se reduzido a uma fina interface gerada pela presença das mídias e tecnologias que a observam. Por que este tema do colapso das fronteiras entre essência e aparência, realidade e simulacro torna-se recorrente em Hollywood?
Boris Groys (filósofo e crítico de arte alemão) acredita que o cinema mainstream hollywoodiano entrou numa fase metafísica, numa espécie de auto-reflexão. Ao contrário do cinema europeu que se preocupa com o tema do humano, demasiadamente humano, Hollywood vem recentemente tomando a própria mídia e as tecnologias de comunicação como foco. Groys salienta que esta auto-reflexão nada teria a ver com a perspectiva iluminista, isto é, a de procurar o trabalho sujo, a arte feia por trás da bela ilusão da realidade produzida tanto pelo dispositivo cinematográfico como pela sua narrativa.
“Para sabê-lo, muito mais úteis parecem ser a sociologia, a análise econômica, a análise de poder etc. Sem prejuízo do que todas essas veneráveis ciências são capazes, incorrem elas num erro fundamental. Não consideram a possibilidade de que a própria realidade, inclusive toda a sociologia, a ciência econômica etc., possa ser um filme mal produzido.”[1]
Para discutirmos os aspectos políticos ou ideológicos que permeiam o processo de representação ou esteticização da realidade no cinema temos as ciências como a Sociologia ou a Economia. Mas, e se considerarmos que a própria realidade, cercada por um ambiente altamente midiatizado pelas tecnologias de comunicação e informação, estaria se tornando, ela própria, um campo de eventos cada vez mais artificiais?
Explicando melhor, e se a própria estrutura dos acontecimentos se tornasse cada vez mais moldada ou influenciada pela presença massiva dessas tecnologias ao ponto que os eventos progressivamente se esvaziassem em seu estatuto ontológico de fatos fechados em si mesmo, espontâneos, históricos?
terça-feira, junho 14, 2011
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Um contraponto ao atual filme “Agentes do Destino” (Adjustment Bureau, 2011) pode ser encontrado no episódio “A Matter of Minutes” da cultuada série “O Novo Além da Imaginação” (1985-89) onde o horror metafísico do conto original é mantido e desenvolvido. Ao contrário, em "Agentes do Destino" os elementos metafísicos e esotéricos do conto original de Philip K. Dick são apenas cenários para uma surrada estória de amor impossível.
Leitor desse humilde blog, Fábio Holfnik nos alertou sobre a existência de um conto da série “O Novo Além da Imaginação” (“The New Twilight Zone, 1985-89, continuação da série original que foi de 1959 a 1964 apresentada por Rod Sterling na TV CBS nos EUA) chamado “A Matter of Minutes” que seria baseado no mesmo conto de Philip K. Dick (“Adjustment Team” de 1954) no qual se baseou também o atual filme “Agentes do Destino” (Adjustment Bureau, 2011) analisado em postagem anterior.
Na verdade esse conto da série televisiva baseou-se em conto de outro escritor de ficção científica norte-americano, Theodore Sturgeon, no conto “Yesterday Was Monday” de 1941. De qualquer forma há uma incrível similaridade temática com o conto de K. Dick e o filme “Agentes do Destino”. Essa adaptação televisiva de 1985 do conto de Sturgeon apresenta um interessante contraponto com a conservadora abordagem do filme “Agentes do Destino”.
Ao contrário do filme atual em cartaz em relação ao conto de K. Dick, o conto televisivo da série “Além da Imaginação” mantém o horror metafísico original do conto de Sturgeon.
Como vimos na postagem anterior (veja links abaixo), embora o filme “Agentes do Destino” mantenha a atmosfera paranoica e o misterioso trabalho dos agentes/arcontes, elimina o horror metafísico, isto é, o misto de horror e fascínio, repulsa e atração por uma situação (a abertura do tecido da realidade e do tempo) que desafia a toda racionalidade e religiosidade. Na narrativa parece que esse fato potencialmente arrasador se transforma em mero cenário para a estória da luta dos protagonistas pelo amor impossível.
Ao contrário, na adaptação televisiva do conto de Sturgeon para a série “Além da Imaginação” esse horror dos protagonistas é brilhantemente mantido.
sábado, junho 11, 2011
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Embora inspirado em um conto do gnóstico escritor Philip K. Dick, o filme “Os Agentes do Destino” (The Adjustment Bureau, 2011) ignora o principal elemento da narrativa original: o horror metafísico do protagonista ao descobrir que o tecido da realidade se abriu e que, por trás, há um jogo cósmico onde somos meros fantoches.O resultado é o conservadorismo que elimina o que há de mais importante na religião: a experiência "numinosa".
Desde a década de 80, Hollywood passou a ter um súbito interesse na obra do escritor de ficção-científica norte-americano Philip K. Dick. A partir do filme Blade Runner – O Caçador de Andróides (Blade Runner, 1982) baseado no livro “Do Androids Dream of Eletric Sheep?”, seguiram-se uma série de filmes inspirados em contos e livros do autor como o filme “O Pagamento” (“Paycheck”, 2003 – baseado no conto “Paycheck”), “Minority Report” (2002, baseado no conto “The Minority Report”) e “O Homem Duplo”(A Scanner Darkly, 2006 – baseado em livro homônimo).
O interesse pela obra de K. Dick (tão marcada pela paranoia e pela exploração gnóstica de realidades alucinógenas, a luta do indivíduo contra autoridades cósmicas superiores e o questionamento da moralidade convencional) demonstrou o interesse hollywoodiano em promover nas telas comerciais um gnosticismo pop, cujo auge foi a trilogia “Matrix”.
Todos os exemplos citados acima de adaptações da obra de K. Dick, foram bem sucedidas em manter o cerne gnóstico das suas especulações (o autor se autodenominava como “gnóstico”): a natureza artificial daquilo que entendemos como realidade e a luta do homem contra autoridades ou divindades cósmicas que não nos amam e tentam nos aprisionar numa gigantesca conspiração. Não é o caso desse filme “Os Agentes do Destino” que, embora mantenha a atmosfera paranoica e os personagens “agentes do destino” (referência aos chamados “arcontes” na mitologia gnóstica), elimina o que há de estruturante na obra de K. Dick: o horror metafísico diante da descoberta de uma conspiração cósmica que há por trás do tecido da realidade.
segunda-feira, maio 02, 2011
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Os animes e mangás japoneses tornam-se cada vez mais populares ao reciclar a cultura pop ocidental com lendas medievais e temas clássicos do Gnosticismo. Um terreno fértil onde cenários futuristas violentos se encontram com Demiurgos, divindades femininas promíscuas e ao mesmo tempo salvadoras e protagonistas em estado de exílio e abandono. Parecem traduzir melhor a natureza humana do que produções ocidentais “místicas” como “Avatar” ou livros de Dan Brown.
Em postagem passada (veja links abaixo) apresentamos a primeira parte de um texto de Miguel Conner sobre o anime “Neon Genesis Evangelion” e a ascensão do Gnosticismo nas animações japonesas. Conner afirmava que assim como o ocidente vem há tempos absorvendo as religiões orientais, o fértil terreno dos animes e mangás japoneses vem demonstrando um interesse por reciclar a cultura pop ocidental com lendas medievais e muitos temas das religiões gnósticas.
Em meio aos mundos distópicos e com batalhas futuristas ultra-violentas, despontam os temas clássicos das narrativas gnósticas: o Demiurgo (divindade enlouquecida e manipuladora), Sophia (ao mesmo tempo divina salvadora e promíscua em corpos cibernéticos, lutando secretamente a favor da humanidade), fagulhas divinas e divindades decaídas no mundo físico, perda da memória e da identidade, universos paralelos, mundos virtuais, protagonistas com sentimentos de exílio e abandono e a iluminação buscada em discos de armazenamento de bancos de dados.
A seguir a tradução da segunda parte do texto de Miguel Conner. Ele é um escritor de ficção científica norte-americano e apresentador do programa "Aeon Byte Gnostic Radio" uma Internet Radio com entrevistas e debates semanais sobre temas do Gnosticismo, literatura e cultura pop.
domingo, abril 17, 2011
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Arquétipo milenar, o mito do Herói apresenta um movimento pendular entre a sua face épica e trágica. Na atualidade a indústria do entretenimento cria uma nova face para o mito: o herói amoral. As origens dessa nova atualização do mito podem ser encontradas na propaganda nazifascista na II Guerra Mundial e na contrapropaganda norte-americana com a criação dos super-heróis Capitão América e Super-Homem.
O tema desse post foi motivado por duas coisas: primeiro, a lembrança do filme “Team America: Detonando o Mundo” (Team America: World Police, 2004), uma comédia politicamente incorreta onde os personagens são marionetes em cenas explicitamente violentas com mísseis, artes marciais e tiroteios associados à luta de heróis americanos contra o terrorismo internacional. O Team America (a polícia mundial do título cuja missão é proteger o mundo dos terroristas) é comicamente catastrófica em seus rompantes de heroísmo.
É impagável a sequência inicial. Terroristas muçulmanos aparecem em uma praça em Paris onde estão muitas crianças, mulheres e idosos. Um deles carrega uma mala-bomba. Derrepente, aparece o Team America numa blitz com mísseis e bazucas. Ironicamente, quem destrói Paris (a torre Eiffel cai sobre o Arco do Triunfo e o Museu do Louvre vai pelos ares) é o Team America na luta desajeitada contra os terroristas. No final, falam para os franceses aturdidos: “Não se preocupem, tudo acabou”. Literalmente, acabaram com os terroristas junto com Paris! Hilário!
A segunda coisa foi uma questão originada em uma aula de Comunicação Visual na Universidade Anhembi Morumbi (São Paulo). Discutia com os alunos a propaganda nazista pelo ponto de vista da criação das modernas técnicas no campo da publicidade e linguagem visual. A certa altura apresentei a contra-propaganda norte-americana: a criação de super-heróis como Capitão América e Super-Homem. Se os heróis nazistas possuíam um “destino manifesto” (representantes de uma raça superiora cuja supremacia já havia sido programada desde o início dos tempos), os super-heróis americanos eram dotados de super poderes conferidos pela ciência ou por poderes alienígenas.
Um aluno me perguntou qual seria a característica moderna do herói nazi, visto que o herói é um arquétipo milenar. Isto é, diferente de toda a narrativa tradicional do herói desde a antiguidade, qual seria a novidade do herói moderno do século XX, seja nazista ou norte-americano?
O início da resposta pode ser encontrado no humor incorreto do filme Team America. A “world Police” representa os EUA como os únicos heróis do mundo interessados em destruir o terror. A truculência catastrófica dos heróis do filme se origina em uma visível indiferença com os civis, com a História e com os próprios tesouros da civilização ao redor: sem o menor cuidado, nas suas ações contra o terrorismo destroem o patrimônio cultural da humanidade (pirâmides, torre Eiffel, o Big Ben etc.) e civis inocentes que estejam na hora errada e no lugar errado. Efeitos colaterais. Como diz a música do filme “Free is not Free” (Liberdade não é de graça).
sexta-feira, setembro 24, 2010
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Assim como os ocidentais absorvem religiões orientais pelo estilo exótico e fluidez, os orientais parecem adotar as tradições abraâmicas. Tais tradições mitológicas parecem traduzir melhor os mundos distópicos e ultra-violentos de batalhas futuristas das narrativas das "Animes" japonesas. Neon Genesis Evangelion, por exemplo, é uma verdadeira enciclopédia de temas do Gnosticismo clássico, onde o homem se confronta com divindades insanas e indiferentes na luta pela posse dos elementos remanescentes das origens do Cosmos.
Abaixo apresentamos uma tradução de parte do artigo de Miguel Conner "Gnostic Themes in Japanese Anime", publicado no site "Exanimer.com National". O texto didaticamente sintetiza o Gnosticismo em quatro mitos básicos (Mito do Demiurgo, da Alma Decaída, do Salvadore do Feminino Divino) que são explorados pela Ficção Especulativa, desde filmes clássicos como Matrix até as Anime (animações) japonesas. Além disso, Conner procura entender o porquê da ascensão dos temas gnósticos na cultura pop japonesa.
Miguel Conner é escrtor de ficção científica norte-americano e apresentador do programa "Aeon Byte Gnostic Radio" uma Internet Radio com entrevistas e debates semanais sobre temas do Gnosticismo, literatura e cultura pop.
Temas Gnósticos nas Animes Japonesas
Miguel Conner
Ao contrário da maioria das religiões, o Gnosticismo não consegue limitar a sua heresia à bidimensionalidade do papel. Além da verdadeira ausência de uma canonização, seu caráter sincrético e parasitário permitiu o espírito do gnosticismo se manifestar ao longo da história por meio de diversas mídias. Além disso, a gnose (o despertar do conhecimento divino) é muitas vezes melhor servida através das expressões artísticas de cada época. Mago Simon, Valentino, Mani, WB Yeats e William Blake eram poetas tão sofisticados como também criadores de blasfêmias.
Nos tempos atuais, o gnosticismo foi reativado tanto pela popularidade da Ficção Especulativa como também pelas descobertas da Biblioteca de Nag Hammadi e do Evangelho de Judas. A Ficção Especulativa talvez seja o veículo ideal para a teologia gnóstica já que ambos se baseiam fortemente na psicologia, mitologia e estados alterados de consciência.
Mais do que um veículo, Gnosticismo e Ficção Especulativa são muito mais do que a Câmera Nupcial Valentiana, um casamento feito nos infernos da audácia artística onde, muitas vezes, não se tem consciência de se estar mergulhando nas nascentes Sethianas e Valentianas. Isto é evidente na frenética tempestade digital dos irmãos Wachowski, em Matrix, uma visionária exploração da ficção de Philip K. Dick, ou, então, os delírios alquímicos encontrados nas HQs de Alan Moore. Bastante se tem escrito sobre essas e outras expressões gnósticas contemporâneas.
Mas o que se tem dado pouca atenção é um já amadurecido campo de Gnosticismo numa forma semi-underground de ficção especulativa diferente do ocidente, uma espécie de masturbação mental sexo-masculino-adolescente com símbolos fálicos em forma de robôs gigantes, entre Aphrodites, distópicos mundos alternativos e ultra-violentos e catárticos ciber punks.
É a Anime (definido por Merriam-Webster como “estilo de animação originário do Japão que se caracteriza por gritantes gráficos coloridos retratando personagens vibrantes em ações frequentemente preenchidas por temas do fantástico e futurismo”).
Há pouca evidência de que esse fenômeno seja proposital. Há provavelmente duas razões para o Gnosticismo se encontrar com a animação japonesa (além do fato óbvio de que a Anime já é flagrantemente sincrética e parasitária com sua frenética agitação de produtos que fogem da estética Bollywood para buscar uma audiência mundial).
A primeira razão é que, sem os mandamentos da comercialização de Hollywood, a imaginação dos escritores e animadores japoneses está mais desapegada, permitindo ir a fundo nos poços da psicologia, mitologia e estados alterados de consciência.
A segunda tem a ver com o romance. Assim como os ocidentais absorvem elementos místicos de religiões por causa do seu estilo exótico e fluidez, os orientais parecem adotar as vertentes esotérica das tradições Abraâmicas que melhor traduzem as intensas fantasias policromáticas das paisagens Anime. A história revela que simbolismo ocultista e narrativa, uma relação tão incompreendida, cria ficções muito poderosas (a sedução da Alemanha pela filosofia oriental no século XIX poderia ser um óbvio exemplo).
Antes de abordarmos os evangelhos gnósticos em que se tornaram as séries de Anime, vamos fazer uma breve exposição da mitologia Gnóstica através de um sintético quadro:
1. O Mito do Demiurgo: A Criação, o Mundo ou a própria realidade é controlada por uma divindade inferior e os seus agentes. Esses anjos (ou arcontes) lançaram um véu de ilusão, ignorância ou desespero existencial sobre aqueles que procuram dominar (e às vezes se alimentam). No gnosticismo clássico, o caráter do Deus do Antigo Testamento era um modelo preferido para o vilão extramundano. Ele é muitas vezes referido como o Demiurgo. Nos evangelhos gnósticos pós-modernos, o Demiurgo não tem necessariamente de ser um antagonista do divino, mas pode assumir a forma de qualquer entidade opressora incluindo ETs , tecnologias opressoras e até mesmo as instituições humanas.Tudo se resume a questão do controle humano versus a liberdade humana. Esse mito inflama a questão sobre o que é real e o que é falso em intrincados níveis ontológicos (ou dimensões).
2. O mito da alma decaída. A ideia de que a semente divina, proveniente de um lugar chamado Pleroma (ou Plenitude) tenha caído em um mundo estranho. Este esperma-luz, a matéria prima da auto-realização, reside dentro de cada mortal, também conhecida como “centelha-divina”. É exatamente pela qual que as criaturas espirituais do Demiurgo anseiam ou querem corromper. Descansando no sono ou estupor, a jornada épica começa verdadeiramente quando um mortal descobre ou é escolhido para realizar o seu potencial transcendental. Uma guerra de libertação tende a entrar em erupção. No Anime e na ficção especulativa normalmente envolve uma agitação do protagonista durante a vigília por algum poder latente ou um presente que o obrigue a cumprir um destino heróico. Este mito provoca a pergunta do que é ser consciente e os níveis de consciência que o ser humano pode chegar.
3. O Mito do Salvador. Pode assumir duas formas. O primeiro é que após o despertar para a sua constituição sobrenatural, o protagonista não deve apenas salvar aqueles ao redor dele dos poderes que criaram o regime ilusório, ele deve também divulgar o conhecimento (gnose) para os outros, para que possam compartilhar as mesmas liberdades ou descubram habilidades semelhantes. A segunda forma é que uma figura salvadora precisa de outra figura salvadora, pois a relação de um hierofante para um neófito é central no Gnosticismo (a ocidental caricatura do professor sábio oriental ajudando o herói). Este mito acende a questão do significado do ser humano, e todos os seres humanos são verdadeiramente iguais, mesmo que alguns possuam maiores habilidades do que outros (um tema predominante nas HQs, óperas de ficção científica e até mesmo em séries de televisão, tais como “Heroes”).
4. O Mito do Feminino Divino. No gnosticismo clássico, Sophia ocupa o centro do palco, simultaneamente, como ser caído e uma redentora da humanidade. Sua encarnação já assumiu várias formas, incluindo a Shekinah de Deus na Cabala, Maria Madalena no Cristianismo esotérico, e Gaia no neo-paganismo. Sylvia em “O Show de Truman” e Trinity em “Matrix” são duas das mais famosas nos domínios da Ficção Científica e da Fantasia. A encarnação pode ser o protagonista, o professor do protagonista, e toda uma gama de variações. Ela resgata ou é resgatada, ou ambos, nas batalhas contra os agentes da opressão e da quebra da realidade falsa. É difícil negar a obsessão das Anime com a confusão com o feminino e sexualidade em geral (que se afasta ou, talvez, complementa a atitude gnóstica da desconfiança em relação ao sexo). Isso agrava a questão dos diferentes níveis de amor, amizade e individualidade no que poderia parecer um universo frio e indiferente.
Há um novo elemento que permeia os quatro mitos, muito relevante para as gnósticas Animes e para ficção especulativa. Em sua luta para entender o que realmente definiu o homem e seu destino no cosmos, o Gnosticismo clássico cogita a tripartição entre Matéria-Homem, Mente e Espírito. O Gnosticismo Contemporâneo tece essa tríade no interior da Máquina – tecnologia avançada, inteligência artificial, cibernética, realidade virtual, etc. A Máquina acrescenta um componente filosófico mais profundo, como o Deus que faz o homem e o homem que faz a Máquina, e os três se encontram frequentemente tentando imaginar quem está no controle e quem realmente existe na percepção de cada um. A Trilogia Matrix e os escritos de Philip K. Dick certamente focam essa revelação gnósticas modernista.
Neon Genesis Evangelion é uma das principais Anime gnósticas.
Humanidade enfrenta anjos não só pela sua existência, mas pela sua própria alma. A superfície da estória é flagrantemente gnóstica. É o clichê Anime típico de um mundo pós-apocalíptico, duelo de robôs gigantes e angústia adolescente . Mas Neon Genesis Evangelion abriga uma camada ainda mais profunda de temas gnósticos de várias escolas (Clássica, junguiana, Dickiana e Cabalística).
As origens da humanidade são muito semelhantes aos da cosmogonia gnóstica de Valentino, onde a queda de Sophia do Pleroma cria o universo e seus habitantes. Em Neon Genesis Evangelion, Sophia é substituída por um ser chamado Lilith, cujo material remanescentes são descobertos na Antártida e, em seguida, salvaguardados pelo homem moderno no Japão, num esconderijo subterrâneo chamado Tokyo 3. Logo depois, a civilização sofre o Dia do Julgamento, quando um outro ser chamado Adam (ecoando as Adamas celestes do Gnosticismo, Maniqueísmo e Cabala) de alguma forma se choca contra a Terra. Metade da humanidade é destruída e os sobreviventes são forçados a viver no subterrâneo. O aquecimento global e outros cataclismos prejudicam os recursos do planeta. Um mundo despótico emerge das cinzas.
E depois vêm os anjos para piorar as coisas.
Estas criaturas buscam recuperar os restos mortais de Lilith e Adam das garras da humanidade, pois eles também são a Mãe e Pai primordiais. Os anjos querem a mesma coisa que os líderes da humanidade – reintegrarem-se com Lilith e Adam, a fim de criar uma consciência coletiva piedosa que se torne uma lei suprema. Enquanto os cientistas humanos tentam desbloquear as essências de Lilith e Adam, eles também utilizam partes de seus corpos titânicos para criar monstros chamados unidades Evangelion (ou Evas), a fim de repelir a invasão divina. Evas aparecem como elegantes e estereotipados robôs gigantes, mas são realmente semideuses bestiais que querem associar com os agentes humanos. Isso tudo constitui o cenário de uma batalha grandiosa e brutal que assola a civilização, ainda mais que os anjos não se encarnam na Terra como dândis alados, mas como pesadelos ao estilo Lovecraft.
Apenas alguns jovens talentosos podem pilotar os Evas. O protagonista principal é Shinji Ikari, um adolescente torturado, que não apenas se torna o salvador da humanidade, mas o representante de muitos dilemas psicológicos e existenciais. Suas esposas-irmãs são as tempestuosas Asuka Langley (a ruiva símbolo de Maria Madalena) e o astral Rei Ayanami (de cabelos prateados, símbolo místico de Sophia). Esses jovens não só passam pelas várias fases clássicas da maturidade de crescimento humano e do herói, mas também representam a confusão da inocência que se perde num mundo louco, não apenas de adultos, mas também de divindades insanas e indiferentes.
Neon Genesis Evangelion empurra todos os aspectos da exploração gnóstica nas diferentes fases de plots brutais, realidades despedaçadas e emboladas, e visões psicológicas da alienação pós-industrial, através de extensos monólogo interiores, todos banhados pelo fedor e desespero de uma civilização condenada. A série também leva o público para a fronteira da insanidade e desolações teológicas através de um elenco de personagens cansados e frequentemente sobrenaturais que atritam a trindade anti-heróica de Shinji, Asuka e Rei (e suas psiques, eventualmente, são absorvidos primeiro pelas Evas e, mais tarde, pelos próprios anjos). Da sobrevivência às falsas realidades para as viagens em planos celestiais através dos horrores pré-criação, “Neon Genesis Evangelion” é uma enciclopédia de Gnosticismo.
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Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus.
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