Se no século XIX o horror literário de “Frankenstein”, de Mary Shelley, residia na audácia de desafiar a Deus através da eletricidade, na visão de Guillermo del Toro para o século XXI em "Frankenstein" (2025, indicado ao Oscar de Melhor Filme), o verdadeiro terror é a negligência afetiva. Ao traçar um paralelo entre a desilusão da Criatura e o niilismo de filmes como “Prometheus” (2012), del Toro transita do 'conhecimento proibido' para a 'paternidade tóxica'. Nesta nova adaptação, o mito de Shelley é despido de seu caráter puramente científico para revelar uma parábola visceral sobre traumas herdados, necropolítica e a busca por propósito em um mundo que nos cria, mas se recusa a nos amar. Dessa maneira, a releitura de del Toro mantém o drama existencial gnóstico mais amplo da própria humanidade: fomos jogados nesse cosmos em uma situação frágil e vulnerável e sob os desígnios arbitrários do Criador tentamos encontrar algum propósito na existência.
Certamente o leitor deve lembrar do filme
Prometheus (2012), de Ridley Scott, em que arqueólogos espaciais procuram
os chamados “engenheiros” que criaram a humanidade num recôndito perdido do
Universo. Mas não encontram nem deuses e nem seres benevolentes e sábios. Mas Demiurgos
enlouquecidos às voltas com uma tecnologia que se voltou contra eles em uma lua
fria perdida no meio do nada.
Também o leitor deve lembrar que um dos pontos
mais emblemáticos do filme foi quando o androide David descobre que o propósito
de os humanos o terem criado é tão vazio quando o dos “engenheiros” terem
criado a humanidade:
David: Lamento que os "engenheiros" estejam todos mortos, Dr. Holloway.Dr. Holloway: Você acha que perdemos o nosso tempo vindo aqui?David: Qual o objetivo que os trouxe aqui? O que esperavam conseguir?Dr. Holloway: conhecer o nosso Criador... obter respostas... Por que razão nos fizeram.David: Por que acha que a sua espécie me fez?Dr. Holloway: os fizemos porque podíamos.David: Você percebe o quão decepcionante seria ouvir a mesma coisa do seu criador?
A
mesma decepção tem a Criatura feita com pedaços de cadáveres e ressuscitado
através do galvanismo do século XIX (a ideia de que a eletricidade poderia
reanimar a carne), ao ser rejeitado pelo seu próprio criador Victor
Frankenstein – o arrogante e ateu médico anatomista que pretende desafiar a
morte apenas como um desafio à falha fundamental da Criação.
Tal
como uma depressão pós-parto, Victor não sabe o que fazer com a Criatura depois
que provou a si mesmo sua tese: o homem deve fazer tudo aquilo que tem o poder
e o conhecimento de fazer. Porém, a obra original de Mary Shelley “Frankenstein
ou o Prometeu Moderno” trazia um alerta para essa ambição de que só porque um
homem pode fazer algo não significa que ele deva.
Embora o filme Frankenstein (2025), de
Guillermo del Toro mantenha forte inspiração na obra de 1818 e em sua imagética
clássica, ele não busca uma fidelidade literal, mas sim emocional e filosófica.
Como apontam críticas, del Toro “canta Shelley
em outra tonalidade”, preservando a essência do romance (a decepção da Criatura
que se tornou sem propósito para o criador), mas reinterpretando suas perguntas
para o presente. O diretor reforça questões que já estavam no texto original —
criação, responsabilidade, abandono — mas acentua camadas psicológicas e
afetivas típicas da contemporaneidade, sobretudo relacionadas à paternidade
tóxica, trauma e perdão.
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A adaptação de Frankenstein realizada
por Guillermo del Toro insere-se em uma tradição longa e multifacetada de
reinterpretações do romance publicado por Mary Shelley em 1818. Entretanto,
diferentemente de muitas leituras cinematográficas anteriores, que
frequentemente privilegiaram o horror científico ou a monstruosidade física, o
filme de del Toro propõe uma inflexão sensível, afetiva e politicamente
contemporânea do mito. Ao fazê-lo, estabelece um diálogo profundo entre a
matriz literária do século XIX e os anseios, temores e debates éticos
característicos do século XXI.
Um dos eixos centrais da atualização proposta
por del Toro consiste na “desmonstrificação” da Criatura. Enquanto parte do
imaginário popular do século XX cristalizou o monstro como figura bruta e
silenciosa, o filme recupera sua dimensão intelectual e sensível, já presente
no romance, mas agora reconfigurada pelo prisma contemporâneo da empatia e da
crítica à desumanização.
O Frankenstein figurado por del Toro é menos
sobre "ciência indo longe demais" e mais sobre a falta de amor. No
século XIX, o perigo era o conhecimento proibido; no século XXI, o perigo é a
criação de seres (digitais ou biológicos) desprovidos de alma e
responsabilidade afetiva. Del Toro nos lembra que o verdadeiro monstro nunca é
quem está na maca, mas quem segura o bisturi e depois vira as costas.
Mais do que isso, como uma Criatura construída
a partir de pedaços de corpos de soldados mortos em campos de batalha, no
“monstro” criado por del Toro a feiura não está na sua aparência, mas na
metáfora de uma sociedade necropolítica incapaz de integrar a todos, criando um
contingente cada vez maior de “invisíveis”, excluídos, refugiados etc.
E que, mesmo assim, no final ainda são
“reciclados” dentro da agenda tecnocientífica de uma elite.
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O Filme
O roteiro de del Toro é totalmente inspirado
no original. O filme começa perto do final do romance, no Ártico, onde criador
e criatura trocam de papéis, de caçador e caça, com um navio preso no gelo.
Uma figura monstruosa passa de trenó, embora
sua silhueta desafie o que o público certamente imagina. Essa forma cambaleante
aparece envolta em trapos, escondendo o rosto até bem mais tarde no filme,
quando força sua entrada a bordo da embarcação encalhada no gelo, em busca do
Dr. Frankenstein, o homem que lhe deu vida, mas não considerou as
consequências.
Na visão de Guillermo del Toro, a lamentável
criação de Frankenstein foi amaldiçoada com a vida, não pode ser morta (nem
mesmo balas a detêm) e deve enfrentar a mesma crise existencial que todos nós
enfrentamos - ninguém pede para nascer, mas, uma vez lançados ao mundo, cada um
de nós deve encontrar seu propósito.
Na cabina do capitão da embarcação cuja
tripulação tenta impedir que o monstro suba para acertar as contas com o seu
criador, Dr. Frankenstein conta a sua versão das desventuras da sua vida.
Quando menino, o extremamente nervoso Victor
sofre abusos de seu cruel pai disciplinador (Charles Dance), um renomado médico
cujo temperamento colérico inspira Victor a superar o velho – a se rebelar
contra Deus, na verdade.
Já como um jovem e brilhante médico,
Frankenstein escandaliza a classe médica da Escola Real de Medicina de
Edimburgo com sua crença pós-galvânica e ateia de que um ser humano pode ser
criado (e a morte enganada) aplicando-se uma carga elétrica a uma grotesca
coleção de partes de corpos recolhidas.
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O impulsivo Victor é tolerado por seu afetuoso
irmão mais novo, William (Felix Kammerer), por cuja noiva, Elizabeth (Mia
Goth), Victor se sente atraído, mas que percebe a arrogância e a frieza
inerente de Victor.
É o tio de Elizabeth, Harlander (Christoph
Waltz), um rico fabricante de armas, quem se oferece para financiar o projeto
do homem artificial de Frankenstein, que na verdade consiste em pedaços de cadáveres
recuperados do campo de batalha. O resultado é um gigante gentil que a
princípio fica fascinado por este admirável mundo novo para o qual Frankenstein
o trouxe, mas depois se sente magoado pela fria impaciência de Frankenstein.
Gnosticismo e zeitgeist
A releitura que del Toro faz de Frankenstein
ecoa temas do zeitgeist do século XXI, embora mantenha a essência
prometeica e gnóstica da obra original de Shelley.
Embora o romance de Shelley apresente tensões
familiares — em especial a relação conturbada entre Victor e sua criação —, o
filme acentua esse eixo ao explorar com profundidade os vínculos parentais,
tanto os biológicos quanto os simbólicos.
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Ao retratar os fracassos afetivos entre Victor
Frankenstein e seu pai, Del Toro insere explicitamente o mito no contexto
contemporâneo de discussões sobre parentalidade, saúde mental e heranças
traumáticas. O monstro, nesse registro, deixa de ser apenas resultado da
irresponsabilidade científica e torna-se produto de uma cadeia de negligências
e violências emocionais. O horror, portanto, desloca-se do laboratório para o
lar.
Se no início do século XIX a preocupação
central de Shelley dialogava com os avanços científicos da época — galvanismo,
estudos anatômicos e a “prometeana” ambição humana em roubar o fogo dos deuses
—, no século XXI a narrativa se desloca para dilemas mais existenciais que
científicos.
Del Toro redireciona a pergunta original — “até
onde pode ir a ciência?” — para outra, mais compatível com o presente: “o
que significa criar uma vida sem oferecer cuidado, afeto e reconhecimento?”.
Mas Frankenstein mantém a crítica gnóstica
original: como a Criatura, não pedimos para vir a esse mundo. O drama de Victor
Frankenstein e a criatura reproduz em escala micro uma condição existencial
gnóstica mais ampla da própria humanidade: fomos jogados nesse cosmos em uma
situação frágil e vulnerável e sob os desígnios arbitrários do Criador tentamos
encontrar algum propósito na existência.
Ficha
Técnica
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Título: Frankenstein |
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Direção: Guillermo del Toro |
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Roteiro:
Guillermo del Toro, Mary Shelley |
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Elenco: Oscar Isaac, Jacob Elordi, Christoph Waltz, Mia Goth |
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Produção:
DDY, Demilo Films, Bluegrass Films |
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Distribuição: Netflix |
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Ano:
2025 |
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País: EUA |
sexta-feira, janeiro 30, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira





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