O Final de ano é um momento em que a pauta das retrospectivas domina todos os gêneros, dos telejornais a programas matinais de entretenimento. Um período do ano que revela um mix de nostalgia e compulsão de colecionador em querer catalogar e organizar o passado. Dessa forma, a necessidade retrospectiva é um subproduto do pensamento racionalista Ocidental de tentar encontrar nos eventos recorrências, padrões ou sentido. Lá tentamos achar lições ou conhecimentos que nos orientem em direção ao futuro.
Porém no atual zeitgeist, esse olhar retro racionalista foi dominado pelo niilismo. Porque não se trata mais de encontrar no passado lições para o futuro, mas encontrar nas sucessivas crises que atravessaram o ano (climáticas, ambientais, políticas, econômicas etc.) a revelação de um apocalipse que se aproxima.
É a “Necrospectiva”, no sentido dado pelo pensador francês Jean Baudrillard – a liquidação de todo e qualquer futuro em uma contagem regressiva. O futuro transformado em bomba relógio. O tempo não mais contado aditivamente como nas retrospectivas, mas como subtração começando do fim nas proféticas necrospectivas (veja BAUDRILLARD, Jean, Paroxism: the end of the millennium or the countdown, disponível aqui).
No final do século XX isso fazia um sentido pop com a aproximação da ameaça do “bug do milênio (o “Y2K”), profecias de Nostradamus, Maia etc.
Mas o século XXI atualizou o imaginário da catástrofe: aquecimento global, fenômenos extremos, pandemias, o programa de monitoramento MCTI da Nasa para nos alertar sobre asteroides que se aproximam perigosamente da Terra e assim por diante.
A atualização dessa compulsão escatológica (no sentido da “Escatologia” como “estudo do fim”) veio no ano 2021, no cinema, com um, por assim dizer, novo subgênero: a comédia dramática apocalíptica.
Não Olhe para Cima, de Adam Mckay, já estava quase chegando quando foi lançado o pesadelo cômico A Última Noite (Silent Night, 2021, disponível na Prime Video): "Comam, bebam e sejam felizes, pois amanhã podemos morrer" — é uma noção tão antiga quanto as próprias histórias bíblicas — é a premissa dessa produção de estreia de Camile Griffin. Porém, ela atualiza essas narrativas nos guiando através de uma mistura de gêneros da tradicional comédia de costumes natalinas com as bombas relógios dos filmes sobre o fim do mundo.
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A Última Noite é uma obra que desafia classificações simples. Embora comece com os tropos clássicos de uma comédia de reencontro natalino — diálogos rápidos, tensões familiares e o cenário idílico do interior da Inglaterra que remete ao típico cenário natalino — ele rapidamente se transforma em um drama niilista sobre o fim do mundo.
O motor do apocalipse no filme não é uma invasão alienígena ou um meteoro, mas uma "nuvem tóxica" (“the rolling cloud”), uma suposta consequência direta do abuso ambiental da humanidade – embora seja sugerido ao longo do filme a paranoia de um “ataque russo” - a paranoia comunista nunca morre...
O filme reflete o medo contemporâneo de que já teríamos passado do "ponto de não retorno" climático. A ameaça é invisível e inevitável, espelhando a ansiedade ecológica que permeia as gerações atuais - é curioso como a ansiedade tecnológica da virada do milênio acabou senso substituída pela ansiedade ecológica.
Mas, como veremos, há algo também trazido de um certo viés místico sobre a crise ecológica: a Hipótese Gaia, teoria biogeoquímica de que o planeta Terra seria um complexo integrado (atmosfera, hidrosfera, critosfera e litosfera) que, ao criar um sistema interagente, cria condições para sua própria sobrevivência. Portanto, as catástrofes ecológicas seriam respostas do planeta contra a ação desestabilizadora humana para criar novas formas de equilíbrio (homeostase).
Em outras palavras, como uma entidade viva e inteligente, a Terra vinga-se do ser humano, podendo ser eliminado da crosta por um sistema imunológico planetário!
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Mas a Última Noite guarda outra ironia: filmado pouco antes e lançado durante a pandemia de COVID-19, a produção tornou-se involuntariamente um espelho do comportamento social sob crise sanitária que estava por vir.
Uma ironia e uma possibilidade de resistência a essa atmosfera niilista: o garoto Art (o astro-mirim de Jojo Rabbit), absolutamente inconformado com o comportamento resignado dos adultos na comemoração natalina, preocupados apenas em comer e beber antes do fim.
Bem-vindo ao maravilhoso mundo dos adultos!
O Filme
O dia de véspera de Natal começa com a habitual mistura de alegria e apreensão, enquanto casais e famílias se reúnem para um banquete de Natal na casa de Nell (Knightley), seu marido, Simon ( Matthew Goode ), e seus três filhos; além de Art, os gêmeos Hardy e Thomas.
O primeiro sinal de que algo está errado em meio à agitação habitual é o fato de todas essas crianças pré-adolescentes poderem falar palavrões à vontade enquanto se arrumam.
A cena em que Art corta o dedo enquanto fatia cenouras nos preparativos da ceia, sangrando sobre os legumes, é um presságio sinistro do que está por vir.
Então, a irmã vaidosa de Nell, Sandra (Annabelle Wallis), chega com um deslumbrante vestido vermelho de lantejoulas, justo ao corpo, complementado por saltos brilhantes que comprou com o dinheiro destinado à faculdade da filha mimada Kitty ( Davida McKenzie) – mais um prenúncio, dessa vez da atmosfera niilista perto do fim.
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Aliás, todos estão exageradamente vestidos, com Simon e os gêmeos de smoking, contribuindo para a sensação de que algo está um pouco fora do lugar. Também estão presentes o marido entediante de Sandra (Rufus Jones), assim como o médico James ( Sope Dirisu ), aquele que Sandra declara abertamente na festa que deixou escapar quando todos estudavam juntos, e a namorada bem mais jovem de James, Sophie (Lily-Rose Depp).
Além do atrevido casal lésbico Bella (Lucy Punch) e sua namorada, Alex ( Kirby Howell-Baptiste ), que observam e absorvem ironicamente tudo enquanto a noite se desenrola.
O humor cativante surge da dificuldade dessas pessoas em puxar conversa, mesmo se vendo apenas uma vez por ano – outro sinal: parece que todos estão com a cabeça em outro lugar.
Por isso, a primeira parte do filme se apresenta como uma farsa leve e agradável — ainda que com uma corrente subterrânea de ameaça não declarada. A ameaça de uma catástrofe iminente se insinua em meio à alegria forçada, como, por exemplo, nos presentes cuidadosamente embrulhados em jornais com manchetes alertando para a destruição global.
A Última Noite acaba se tornando um teste para descobrir quem essas pessoas realmente são, enquanto revivem memórias antigas e repassam arrependimentos do passado. Mas quem elas são acaba não sendo tão interessante assim. O que importa é a natureza do fim do mundo que os aguarda. Mas, principalmente o papel do desempenhado garoto Art.
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Conforme a história avança, aos poucos a atmosfera cômica inicial dá lugaar a um tom mais sombrio. Especialmente quando os personagens debatem se devem tomar as pílulas chamada "Exit" fornecidas pelo governo para amenizar a dor do fim do mundo: se matar antes dos efeitos catastróficos do veneno os atinjam.
A descoberta macabra é abafada com uma música sombria, para depois mostrar os personagens dançando pela sala de estar ao som de músicas animadas.
Por que todos estão esperando a morte chegar? Por que ninguém tomou medidas concretas para se proteger e proteger seus entes queridos? Por que todos estão tomados por esse niilismo hiperativo? Por que todos estão acreditando piamente na prescrição do governo para todos se matarem com a pílula “Exit” antes do fim?
Essas são as perguntas que você pode estar se fazendo, além do garoto Art, o único personagem da qual emerge a voz da razão: o que está acontecendo com os adultos? Por que todos esperam bovina e alegremente o apocalipse? E o que é pior: todos acreditam totalmente na “solução final” do governo.
Enquanto os adultos aceitam o destino e as pílulas com um estoicismo burguês (mantendo as aparências até o fim), o jovem Art representa a voz da dissidência. Ele questiona a narrativa oficial. Ele representa a luta da esperança racionalista contra o niilismo pós-moderno.
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Representado pela pintura “The Old Man’s Boat and the Old Man’s Dog” do artista plástico Eric Fischl (1982) como um símbolo da “cena pós-moderna”: vemos na tela jovens nus refastelados no convés de uma embarcação em pleno alto mar. Estão bebendo, deitados, relaxados como se estivessem em um calmo dia de sol, enquanto o oceano está agitado e o céu escuro prenuncia uma tormenta. Um enigmático dálmata passeia por entre os corpos nus de pessoas completamente alheias ao seu futuro: o naufrágio. Onde está o “velho homem” do título? Vemos somente jovens sem futuro convivendo com a ausência do passado. Hedonismo e niilismo.
A diferença de A Última Noite é que o “velho homem” (o passado) é substituído pelo garoto Art que se revoltará, incrédulo com a passividade dos adultos.
Ficha Técnica |
Título: A Última Noite |
Direção: Camile Griffin |
Roteiro: Camile Griffin |
Elenco: Keira Knightley, Matthew Goode, Roman Griffin Davis |
Produção: Maven Screem Media, Marv Films |
Distribuição: Netflix |
Ano: 2021 |
País: Reino Unido |
terça-feira, janeiro 13, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira






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