quinta-feira, janeiro 22, 2026

A barbárie higienizada da eliminação do envelhecimento em 'Plano 75'


O que acontece quando uma cultura milenar que reverenciava a sabedoria dos mais velhos é engolida pelo culto ocidental à novidade e pela performance ininterrupta? No sensível e perturbador “Plano 75” (Plan 75, 2022, disponível na Prime Video), a diretora Chie Hayakawa explora as cicatrizes de um Japão que transformou o envelhecimento em um 'erro de sistema'. Analisando o filme sob a ótica da 'Sociedade do Cansaço' de Byung-Chul Han, percebemos como a quebra do elo geracional e o conceito japonês de “meiwaku” criaram o cenário perfeito para uma barbárie higienizada: o momento em que a eutanásia estatal passa a ser aceita como a solução lógica para quem já não consegue mais acompanhar o ritmo da produção e performance do eu.

Ser jovem não é apenas uma condição etária ou transitória da existência. Desde o pós-guerra passou a ser algo esteticamente belo e moralmente bom – um dos fundamentos imaginários da sociedade de consumo que recusou tudo aquilo que era tradicional, passado e antigo. A busca da novidade, do moderno, da última moda tornou-se desde então uma exigência moral. E econômica, num modo de produção e consumo baseados na obsolescência planejada e na produção em massa de mercadorias.

A partir de 1945 o conceito de "adolescente" (teenager) foi inventado pelo mercado para ocupar o vácuo entre a infância e a vida adulta. Do rock n´roll, passando pela indústria da moda até chegar à erotização da publicidade, a sociedade do pós-guerra acabou craindo o fenômeno da quebra do elo geracional.

Em culturas tradicionais onde a velhice e a morte eram simbolicamente incorporadas no dia a dia, os idosos sempre foram “elos geracionais” como transmissores de um saber acumulado, conhecimento e sabedoria. Colocados em posição de destaque na sociedade, o natural declínio físico era compensado pela sabedoria, amor e trabalho unidos em uma preocupação com a posteridade na tentativa de equipar os mais jovens para levar adiante as tarefas dos mais velhos.

Entender esse movimento cultural no Ocidente, que passou por um processo linear do desenvolvimento capitalista, é até fácil. A coisa fica mais complexa o país mais ocidentalizado do Oriente, o Japão – cujo desenvolvimento capitalista assumiu formas peculiares, ao combinar tradições culturais feudais com a moderna sociedade corporativa.

O Japão é a sociedade que envelhece mais rapidamente no mundo. E com uma cultura onde ser um fardo para os outros é considerado — às vezes literalmente — um destino pior que a morte.



É o chamado “meiwaku” (“incômodo”). À primeira vista japoneses são muito polidos e educados nas relações pessoais. Mas por trás dessas atitudes está o temor de causar “meiwaku” nas outras pessoas – causar algum tipo de incômodo, embaraço, inconveniência ou preocupação em estranhos. Isso acaba contribuindo no problema da solidão chegando ao extremo de se cometer suicídio para garantir que não causarão meiwaku aos outros – família, escola ou empresa.

 Todos esses elementos se unem em Plano 75 (Plan 75, 2022), disponível na Prime Video, uma estreia reflexiva e sutilmente distópica da roteirista e diretora Chie Hayakawa. 

É uma obra que transcende a ficção científica distópica para se tornar uma crítica visceral ao Japão contemporâneo. Plano 75 funciona como uma lente de aumento para as teorias do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han em torno da “Sociedade do Cansaço” e para as cicatrizes deixadas pela ocidentalização do pós-guerra.

Na obra de Byung-Chul Han, a “Sociedade do Cansaço” é definida pela transição da "sociedade disciplinar" (baseada no dever e na proibição) para a "sociedade do desempenho" (baseada no poder e na produtividade ilimitada).

No filme, a velhice é retratada como o estágio final do esgotamento, um erro do sistema. Em uma sociedade que exige performance constante, o idoso que não produz mais é visto como uma peça disfuncional. O “Plano 75” (o programa de eutanásia estatal) é apresentado não como uma crueldade, mas como uma "escolha positiva" e um serviço de eficiência.

A protagonista chamada Michi tenta, desesperadamente, manter-se integrada à lógica do desempenho, trabalhando como limpadora e sinalizadora de trânsito. Para Han, o sujeito da performance se explora até o burnout.

Quando Michi perde o emprego, ela perde sua "razão de ser" dentro da lógica capitalista, tornando-se vulnerável à sedução do plano governamental “Plan 75”).

O filme mostra funcionários do governo amigáveis e propagandas coloridas. Isso ecoa a "violência positiva": o sistema não te obriga a morrer, ele te convence de que morrer é um gesto de "gentileza" para com as gerações futuras.



O Filme

Plano 75 foi marcado por um acontecimento sincrônico que involuntariamente acabou promovendo o próprio filme: quase simultaneamente às filmagens e à conclusão de Plano 75, um intelectual japonês chamado Yusuke Narita ascendeu à infâmia ao defender que o suicídio em massa de idosos no Japão seria necessário para o progresso do país. 

Ou seja, a cultura do “meiwaku” levada às últimas consequências – definitivamente os idosos perderam o papel na transmissão da tradição e sabedoria, num capitalismo marcado pela constante inovação e irrupção.

Isso não está muito longe do mundo do filme de Hayakawa, que é indistinguível do nosso, exceto pela existência de um programa governamental chamado "Plano 75", que oferece serviços de eutanásia gratuitos a todos os cidadãos japoneses com 75 anos ou mais. O plano é voluntário e os candidatos são livres para desistir a qualquer momento — exceto que, na realidade, não são. 

Este é o caso de Michi (Chieko Baisho), uma senhora idosa que é demitida de seu emprego em um hotel no início do filme. A gerência explica que os clientes reclamam de ver idosos ainda trabalhando. Tudo bem, exceto pelo fato de que Michi não tem família e tem dignidade demais para aceitar auxílio-desemprego. Ela quer trabalhar, mas ninguém a contrata e os proprietários não alugam apartamentos para desempregados. O que lhe resta senão morrer? 

Plano 75 acompanha Michi e seu grupo de amigos, que discutem as luxuosas comodidades de uma unidade do “Plano 75” com a mesma empolgação de umas férias em um resort. Grande parte do desconforto do filme vem do contraste entre a fachada otimista do programa e sua realidade sombria: burocratas vendem pacotes de morte personalizados com o mesmo tom de quem vende seguros, e o logotipo do plano de eutanásia em massa transforma o "P" e o "A" em olhos de um rosto sorridente de desenho animado. 

À medida que Michi avança no sistema do Plano 75, sua história se entrelaça com a de outros funcionários do programa, cada um enfrentando um dilema moral único relacionado ao seu trabalho. Hiromu (Hayato Isomura) é um burocrata do “Plano 75” cuja apatia é desafiada quando seu tio Yukio (Taka Takao) se inscreve no programa. Maria (Stefanie Arianne) é uma imigrante filipina que aceita o trabalho tabu de despir os cadáveres e prepará-los para a cremação a fim de pagar a cirurgia cardíaca de sua filha. 



Esses arcos de personagens se desenrolam de maneira sutil e naturalista, com atuações contidas que sublinham a tensão entre a superfície polida do filme e o subtexto perturbador. (Baisho está particularmente bem como a conflituosa Michi, cujo desespero e resignação se refletem em seus olhos.) O tom é delicado demais para mergulhar completamente no horror.

Por exemplo, a revelação mais horrível do filme — que o “Plano 75” está vendendo as cinzas de seus "clientes" para uma empresa de reciclagem para obter lucro — se desenrola em silêncio.

A perda do elo com o Sagrado e o Passado

A mudança da percepção do idoso no Japão de "guardião da tradição" para "peso social" não foi acidental. Ela é fruto de uma ruptura estrutural iniciada no pós-guerra.

Antes da Segunda Guerra Mundial, o Japão operava sob o sistema “Ie” (instituição familiar patriarcal), fortemente influenciado pelo confucionismo. Nele, o filho primogênito tinha o dever moral e legal de cuidar dos pais. Com a derrota em 1945 e a ocupação americana, o Japão passou por uma "democratização" que priorizou o individualismo ocidental e a família nuclear.

A cultura jovem ocidental que inundou o Japão nas décadas de 60 e 70 trouxe consigo a valorização do novo, do veloz e do futuro.



O idoso, que antes era o elo com o sagrado e o passado, tornou-se o símbolo do atraso que impediria o "Milagre Econômico Japonês".

Com o estouro da bolha econômica dos anos 1990, a narrativa mudou de "respeito" para "escassez de recursos". Os idosos passaram a ser vistos como os responsáveis pelo alto custo da seguridade social, drenando o capital que deveria ser investido nos jovens "produtivos".

Diferente do Ocidente, o capitalismo japonês faz uma oportunista ressignificação de mitos e lendas tradicionais para legitimar as políticas sociais de segregação.

Por exemplo, Plano 75 resgata a lenda do Ubasute (o ato mítico de abandonar idosos em montanhas para que morram). No Japão moderno, isso se manifesta de formas mais sutis e burocráticas: seja através do Kodokushi (Mortes Solitárias). O isolamento social é o "Ubasute" da selva de pedra.

Ou através do Meiwaku - o valor cultural de "não causar problemas aos outros" é distorcido pelo capitalismo. Idosos sentem-se culpados por existir e consumir impostos, o que o filme explora ao mostrar Michi aceitando o plano para não "atrapalhar" a sociedade.



 

Ficha Técnica

Título:  Plano 75

Direção: Chie Hayakawa

Roteiro: Jason Gray, Chie Hayakawa

Elenco: Chieko Baishô, Hayato Isomura, Stefannie Ariane

 

Produção: Daluyong Studios

Distribuição: Prime Video

Ano: 2022

País: Japão

 

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