Em meio ao clima vintage da Guerra Fria 2.0 e à acirrada disputa espacial entre Estados Unidos e China, a ficção científica recente deixou de ser mero entretenimento para se tornar uma poderosa engrenagem de opinião pública — uma estratégia para tornar a exploração cósmica um sonho amigável, justificável e lucrativo para o capitalismo financeiro. O filme “Devoradores de Estrelas” (Project Hail Mary, 2026) condensa esse zeitgeist de forma cirúrgica. Estrelada por Ryan Gosling, a obra equilibra-se entre duas forças simbólicas fascinantes: a secularização dos antigos sacrifícios ao Deus Sol, traduzida em uma missão científica suicida para salvar a Terra, e a "esportividade" tipicamente hollywoodiana, que neutraliza o pavor do isolamento cósmico e o choque do contato alienígena em um bromance leve e bem-humorado. No fim, o abismo existencial é domesticado e transformado em uma arena de soluções engenhosas, onde até a extinção planetária pode ser enfrentada com uma boa ironia.
Por
todos os lados estamos testemunhando uma espécie de onda de revivals.
Para
começar, a chamada Guerra Fria 2.0, desde que Putin respondeu ao avanço da OTAN
invadindo a Ucrânia, fazendo EUA e Rússia reviverem a ameaça do apocalipse de
uma guerra nuclear como a vivida no século XX.
E para
alimentar ainda mais essa atmosfera vintage, o revival da Corrida
Espacial do século passado, apenas que agora não mais com os EUA/NASA
enfrentando a velha Roscosmos da URSS, mas correndo contra a CNSA – China National
Space Administration.
Um uma
atmosfera vintage de corrida espacial sustentada por uma intensa engenharia de
opinião pública colocada em movimento nesse momento, em meio a essa nova
corrida à Lua: tornar a exploração interplanetária amigável, verossímil,
divertida. A conquista da Lua e Marte como metas plausíveis, justificáveis e
necessárias.
Afinal,
o capitalismo financeiro está investindo especulativamente em projetos como
Artemis, Space X, Virgin Galactic etc. Para além dos investimentos em transição
energética em fontes “limpas” como solar e eólica.
O filme
Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary, 2026), ao lado dos
recentes Perdido em Marte, O Astronauta etc., é mais uma peça nessa
engenharia de opinião pública para que vejamos a nova corrida espacial como um
sonho necessário.
Adaptado
do romance homônimo de Andy Weir, autor de “Perdido em Marte”, Devoradores
de Estrelas acompanha o Dr. Ryland Grace em sua viagem solitária pelo
espaço rumo a uma estrela distante, na esperança de encontrar a chave para
salvar a vida na Terra. Ao longo do caminho, porém, ele encontra um ser
extraterrestre surpreendente, cujo mundo também está ameaçado. A jornada faz as
esperadas referências visuais a clássicos da ficção científica do século
passado (2001 etc.) e tenta oferecer um espetáculo digno de blockbuster.
Salvar
a Terra de si mesma ou de algum apocalipse cósmico se tornou um clássico da
ficção-científica escatológica recente. Dessa vez, o nosso planeta só tem mais
30 anos de vida. Tudo porque o Sol está sendo devorado por seres “astrofágicos”
– os “devoradores de estrelas” do título em português.
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A
solução está em uma outra estrela distante anos luzes (que misteriosamente
parece imune aos astrofágicos, praga que está se disseminando no Universo) e o
“Projeto Hail Mary” é colocado em andamento. Uma missão suicida de ida para
estudar a estrela chamada Tau Ceti e enviar para a Terra uma cura em pequenas
sondas automáticas.
Dentro
desse zeitgeist de revivals do século XXI, o filme de início faz uma
curiosa secularização dos milenares sacrifícios ao Deus Sol.
Na
história antiga, povos como os astecas, incas e egípcios viam o Sol não apenas
como uma estrela, mas como uma divindade cósmica viva que exigia manutenção.
Para essas culturas, o colapso solar ou o fim do mundo eram ameaças reais que
só podiam ser mitigadas por meio do sacrifício — muitas vezes humano, de
sangue e vidas oferecidas no topo de pirâmides para dar "força" ao
astro-rei e manter o equilíbrio do universo.
Em Devoradores
de Estrelas, esse exato mito passa por um processo de secularização (quando
conceitos religiosos são traduzidos para estruturas puramente laicas e
científicas).
A
ameaça dos astrofágicos (organismos que consomem a energia solar) é uma
reedição do medo ancestral do "apagamento do Sol". A resposta humana
não é mais a prece, mas a astrofísica. O laboratório substitui o templo, e a
burocracia global assume o papel do "alto clero" que coordena o
ritual de salvação.
Mas o
curioso é a reedição, em versão propagandística turbinada, de um típico clichê
hollywoodiano que poderíamos chamar de “esportividade”.
A
relação do protagonista com o alienígena que encontra na estrela Tau Ceti, que
também busca a cura para os astrofágicos, é curiosa por também devorar a
angústia do espectador através da esportividade.
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Dr.
Grace é o típico protagonista hollywoodiano que raramente é esmagado pelo peso
existencial do terror; em vez disso, ele demonstra um dinamismo quase lúdico,
agindo como se estivesse jogando uma partida esportiva com o extraterrestre (chamado
por ele de “Rocky”) na qual ele já domina as regras.
Um
filme apocalíptico em tom reconfortante: reduz a escala assustadora do universo
a uma dimensão controlável, divertida e profundamente palatável para o
espectador comum, onde até o fim do mundo pode ser enfrentado com uma tirada
sarcástica.
O Filme
O
charmoso professor de ciências do ensino médio, Dr. Ryland Grace, interpretado
com um humor sedutor e sereno por Ryan Gosling , acorda de seu coma
induzido numa enorme nave espacial, com um cabelo comprido e desgrenhado, barba
por fazer e nenhuma lembrança de porque está a bordo. O resto da tripulação
está morto, e Grace agora precisa descobrir como chegou lá e como salvar a
humanidade.
A trama
se concentra na amizade, ou melhor, na camaradagem humano-alienígena, do Dr.
Grace com um alienígena amigável em forma de aranha (James Ortiz), com partes
do corpo pétreas, apelidado de "Rocky", que convenientemente salva o
dia, se movendo pelo local como um ET e cuja comunicação é traduzida pelo
software do Dr. Grace para uma linguagem semelhante à do Hulk: "Rocky
conserta", "Rocky ajuda", etc.
Assim
como ele, Rocky está em missão de encontrar uma cura para a praga dos astrofágicos
e salvar o seu planeta
A ação
é intercalada com flashbacks impactantes nos quais vemos como o Dr. Grace, um
brilhante biólogo molecular forçado a se tornar professor porque a comunidade
científica não estava preparada para suas ideias radicais, foi recrutado para o
Projeto Hail Mary pela fria e impassível tecnocrata alemã Eva Stratt (Sandra
Hüller).
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Devoradores
de Estrelas quer adotar o mesmo tom do filme Perdido em Marte,
ao focar num protagonista nos confins do cosmos, em uma missão suicida,
travando uma relação de companheirismo com Rocky alegre, bem-humorado e
descontraído. Assumindo uma missão com tremendo peso existencial com
irreverência.
Levando
a críticas de que o filme se perde no tom fragmentado: de um lado as cenas de
flashbacks na Terra, à beira do fim, com um grupo de cientistas que correm
contra o tempo planejando o “Hail Mary Project”. E do outro lado, o tom
humorado e irreverente de Dr. Grace contracenando com um ET que parece uma
aranha petrificada. Com um senso de humor tão irreverente quanto o de um ser
humano.
O herói “esportivo”
É
notável como os heróis hollywoodianos são tão autoconfiantes que são capazes de
fazer uma piada, uma blague ou uma ironia à beira da catástrofe ou mesmo diante
do risco da morte. Do policial John McClane (Bruce Willis) enfrentando terroristas em Duro de
Matar a Jackson Curtis (John Cusack) lidando com o fim do mundo em 2012, todos
eles têm tempo de soltar uma piada ou, até, de dar um beijo na mulher que amam.
O
desajeitado e engraçado nerd, Dr. Grace, revive esse espírito “esportivo”.
Mesmo
sob risco de asfixia, falha nos motores ou a iminente extinção de seus
planetas, a interação entre humano e alien é marcada por piadas visuais,
ironias finas e uma dinâmica de "bromance". A competência
científica vira esporte: eles comemoram descobertas com o equivalente a um
"high-five" interespacial. O dinamismo substitui o pavor.
Uma
espécie de neutralização do abismo. Ao adotar essa "esportividade", o
roteiro limpa o filme do isolamento sufocante e aterrorizante que veríamos em
diretores como Andrei Tarkovsky ou Ridley Scott. A espetacularização transforma
o abismo espacial em uma arena confortável de soluções engenhosas (o chamado "competence
porn", como no filme Apolo 13, onde juntos com Tom Hanks descobrimos
as 1001 utilidades de uma fita crepe no espaço).
Grace
performa o heroísmo com o desprendimento de quem está apenas cumprindo metas
com bom humor.
É o
contraponto necessário para aliviar a arquetípica secularização do milenar
sacrifício ao Deus Sol.
A
viagem da nave Hail Mary é explicitamente projetada como uma missão
suicida. Ryland Grace e sua equipe original são os escolhidos para serem
enviados ao altar do cosmos. Eles são colocados em coma induzido, despachados
em uma cápsula de metal sem passagem de volta, para morrer em prol da
humanidade.
O sacrifício
através do derramamento de sangue é substituído pelo derramamento de recursos: se
os antigos ofereciam vidas para saciar a sede de um deus irado, a humanidade
moderna derrama seu PIB, seus recursos ecológicos e a vida de seus cientistas
para "curar" a estrela. A dinâmica de barganha cósmica continua
idêntica: é preciso que alguns morram para que o Sol, e consequentemente a
Terra, continue a viver.
Ficha Técnica |
|
Título: Devoradores de
Estrelas |
|
Diretor: Phil Lord, Christopher
Miller |
|
Roteiro: Drew Goddard, And
Weir |
|
Elenco: Ryan Gosling,
Sandra Hüller, James Ortiz |
|
Produção: Amazon MGM
Studios |
|
Distribuição: Prime Video |
|
Ano: 2026 |
|
País: EUA |
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Wilson Roberto Vieira Ferreira




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