sábado, julho 11, 2026

O apocalipse como espetáculo confortável: o "heroísmo esportivo" em 'Devoradores de Estrelas'



Em meio ao clima vintage da Guerra Fria 2.0 e à acirrada disputa espacial entre Estados Unidos e China, a ficção científica recente deixou de ser mero entretenimento para se tornar uma poderosa engrenagem de opinião pública — uma estratégia para tornar a exploração cósmica um sonho amigável, justificável e lucrativo para o capitalismo financeiro. O filme “Devoradores de Estrelas” (Project Hail Mary, 2026) condensa esse zeitgeist de forma cirúrgica. Estrelada por Ryan Gosling, a obra equilibra-se entre duas forças simbólicas fascinantes: a secularização dos antigos sacrifícios ao Deus Sol, traduzida em uma missão científica suicida para salvar a Terra, e a "esportividade" tipicamente hollywoodiana, que neutraliza o pavor do isolamento cósmico e o choque do contato alienígena em um bromance leve e bem-humorado. No fim, o abismo existencial é domesticado e transformado em uma arena de soluções engenhosas, onde até a extinção planetária pode ser enfrentada com uma boa ironia.

Por todos os lados estamos testemunhando uma espécie de onda de revivals.

Para começar, a chamada Guerra Fria 2.0, desde que Putin respondeu ao avanço da OTAN invadindo a Ucrânia, fazendo EUA e Rússia reviverem a ameaça do apocalipse de uma guerra nuclear como a vivida no século XX.

E para alimentar ainda mais essa atmosfera vintage, o revival da Corrida Espacial do século passado, apenas que agora não mais com os EUA/NASA enfrentando a velha Roscosmos da URSS, mas correndo contra a CNSA – China National Space Administration.

Um uma atmosfera vintage de corrida espacial sustentada por uma intensa engenharia de opinião pública colocada em movimento nesse momento, em meio a essa nova corrida à Lua: tornar a exploração interplanetária amigável, verossímil, divertida. A conquista da Lua e Marte como metas plausíveis, justificáveis e necessárias.

Afinal, o capitalismo financeiro está investindo especulativamente em projetos como Artemis, Space X, Virgin Galactic etc. Para além dos investimentos em transição energética em fontes “limpas” como solar e eólica.

O filme Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary, 2026), ao lado dos recentes Perdido em Marte, O Astronauta etc., é mais uma peça nessa engenharia de opinião pública para que vejamos a nova corrida espacial como um sonho necessário.

Adaptado do romance homônimo de Andy Weir, autor de “Perdido em Marte”, Devoradores de Estrelas acompanha o Dr. Ryland Grace em sua viagem solitária pelo espaço rumo a uma estrela distante, na esperança de encontrar a chave para salvar a vida na Terra. Ao longo do caminho, porém, ele encontra um ser extraterrestre surpreendente, cujo mundo também está ameaçado. A jornada faz as esperadas referências visuais a clássicos da ficção científica do século passado (2001 etc.) e tenta oferecer um espetáculo digno de blockbuster.

Salvar a Terra de si mesma ou de algum apocalipse cósmico se tornou um clássico da ficção-científica escatológica recente. Dessa vez, o nosso planeta só tem mais 30 anos de vida. Tudo porque o Sol está sendo devorado por seres “astrofágicos” – os “devoradores de estrelas” do título em português.



A solução está em uma outra estrela distante anos luzes (que misteriosamente parece imune aos astrofágicos, praga que está se disseminando no Universo) e o “Projeto Hail Mary” é colocado em andamento. Uma missão suicida de ida para estudar a estrela chamada Tau Ceti e enviar para a Terra uma cura em pequenas sondas automáticas.

Dentro desse zeitgeist de revivals do século XXI, o filme de início faz uma curiosa secularização dos milenares sacrifícios ao Deus Sol.

Na história antiga, povos como os astecas, incas e egípcios viam o Sol não apenas como uma estrela, mas como uma divindade cósmica viva que exigia manutenção. Para essas culturas, o colapso solar ou o fim do mundo eram ameaças reais que só podiam ser mitigadas por meio do sacrifício — muitas vezes humano, de sangue e vidas oferecidas no topo de pirâmides para dar "força" ao astro-rei e manter o equilíbrio do universo.

Em Devoradores de Estrelas, esse exato mito passa por um processo de secularização (quando conceitos religiosos são traduzidos para estruturas puramente laicas e científicas).

A ameaça dos astrofágicos (organismos que consomem a energia solar) é uma reedição do medo ancestral do "apagamento do Sol". A resposta humana não é mais a prece, mas a astrofísica. O laboratório substitui o templo, e a burocracia global assume o papel do "alto clero" que coordena o ritual de salvação.

Mas o curioso é a reedição, em versão propagandística turbinada, de um típico clichê hollywoodiano que poderíamos chamar de “esportividade”.

A relação do protagonista com o alienígena que encontra na estrela Tau Ceti, que também busca a cura para os astrofágicos, é curiosa por também devorar a angústia do espectador através da esportividade.



Dr. Grace é o típico protagonista hollywoodiano que raramente é esmagado pelo peso existencial do terror; em vez disso, ele demonstra um dinamismo quase lúdico, agindo como se estivesse jogando uma partida esportiva com o extraterrestre (chamado por ele de “Rocky”) na qual ele já domina as regras.

Um filme apocalíptico em tom reconfortante: reduz a escala assustadora do universo a uma dimensão controlável, divertida e profundamente palatável para o espectador comum, onde até o fim do mundo pode ser enfrentado com uma tirada sarcástica.

O Filme

O charmoso professor de ciências do ensino médio, Dr. Ryland Grace, interpretado com um humor sedutor e sereno por Ryan Gosling , acorda de seu coma induzido numa enorme nave espacial, com um cabelo comprido e desgrenhado, barba por fazer e nenhuma lembrança de porque está a bordo. O resto da tripulação está morto, e Grace agora precisa descobrir como chegou lá e como salvar a humanidade.

A trama se concentra na amizade, ou melhor, na camaradagem humano-alienígena, do Dr. Grace com um alienígena amigável em forma de aranha (James Ortiz), com partes do corpo pétreas, apelidado de "Rocky", que convenientemente salva o dia, se movendo pelo local como um ET e cuja comunicação é traduzida pelo software do Dr. Grace para uma linguagem semelhante à do Hulk: "Rocky conserta", "Rocky ajuda", etc.

Assim como ele, Rocky está em missão de encontrar uma cura para a praga dos astrofágicos e salvar o seu planeta

A ação é intercalada com flashbacks impactantes nos quais vemos como o Dr. Grace, um brilhante biólogo molecular forçado a se tornar professor porque a comunidade científica não estava preparada para suas ideias radicais, foi recrutado para o Projeto Hail Mary pela fria e impassível tecnocrata alemã Eva Stratt (Sandra Hüller).



Devoradores de Estrelas quer adotar o mesmo tom do filme Perdido em Marte, ao focar num protagonista nos confins do cosmos, em uma missão suicida, travando uma relação de companheirismo com Rocky alegre, bem-humorado e descontraído. Assumindo uma missão com tremendo peso existencial com irreverência.

Levando a críticas de que o filme se perde no tom fragmentado: de um lado as cenas de flashbacks na Terra, à beira do fim, com um grupo de cientistas que correm contra o tempo planejando o “Hail Mary Project”. E do outro lado, o tom humorado e irreverente de Dr. Grace contracenando com um ET que parece uma aranha petrificada. Com um senso de humor tão irreverente quanto o de um ser humano.

O herói “esportivo”

É notável como os heróis hollywoodianos são tão autoconfiantes que são capazes de fazer uma piada, uma blague ou uma ironia à beira da catástrofe ou mesmo diante do risco da morte. Do policial John McClane (Bruce Willis) enfrentando terroristas em Duro de Matar a Jackson Curtis (John Cusack) lidando com o fim do mundo em 2012, todos eles têm tempo de soltar uma piada ou, até, de dar um beijo na mulher que amam.



O desajeitado e engraçado nerd, Dr. Grace, revive esse espírito “esportivo”.

Mesmo sob risco de asfixia, falha nos motores ou a iminente extinção de seus planetas, a interação entre humano e alien é marcada por piadas visuais, ironias finas e uma dinâmica de "bromance". A competência científica vira esporte: eles comemoram descobertas com o equivalente a um "high-five" interespacial. O dinamismo substitui o pavor.

Uma espécie de neutralização do abismo. Ao adotar essa "esportividade", o roteiro limpa o filme do isolamento sufocante e aterrorizante que veríamos em diretores como Andrei Tarkovsky ou Ridley Scott. A espetacularização transforma o abismo espacial em uma arena confortável de soluções engenhosas (o chamado "competence porn", como no filme Apolo 13, onde juntos com Tom Hanks descobrimos as 1001 utilidades de uma fita crepe no espaço).

Grace performa o heroísmo com o desprendimento de quem está apenas cumprindo metas com bom humor.

É o contraponto necessário para aliviar a arquetípica secularização do milenar sacrifício ao Deus Sol.

A viagem da nave Hail Mary é explicitamente projetada como uma missão suicida. Ryland Grace e sua equipe original são os escolhidos para serem enviados ao altar do cosmos. Eles são colocados em coma induzido, despachados em uma cápsula de metal sem passagem de volta, para morrer em prol da humanidade.

O sacrifício através do derramamento de sangue é substituído pelo derramamento de recursos: se os antigos ofereciam vidas para saciar a sede de um deus irado, a humanidade moderna derrama seu PIB, seus recursos ecológicos e a vida de seus cientistas para "curar" a estrela. A dinâmica de barganha cósmica continua idêntica: é preciso que alguns morram para que o Sol, e consequentemente a Terra, continue a viver.


 

Ficha Técnica

Título: Devoradores de Estrelas

Diretor: Phil Lord, Christopher Miller

Roteiro: Drew Goddard, And Weir

Elenco: Ryan Gosling, Sandra Hüller, James Ortiz

Produção: Amazon MGM Studios

Distribuição: Prime Video

Ano: 2026

País: EUA

  

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