quarta-feira, agosto 05, 2015

Filtro-bolha da Internet aprisiona usuários em "mônadas" virtuais

Com o cálculo infinitesimal e o primeiro sistema numérico binário, o filósofo e matemático Leibniz criou as bases metafísicas do ciberespaço e Internet no século XVII. E também a Monadologia: a busca da unidade última e indivisível do Ser. Quando Mark Zuckerberg diz que na Internet “saber que um esquilo está morrendo no seu quintal pode ser mais relevante para seus interesses nesse momento do que saber que pessoas morrem na África”, inadvertidamente está realizando através da tecnologia o projeto metafísico das “mônadas” de Leibniz. Uma pista disso é a fala do ciberativista Eli Pariser no “TED Talks” alertando sobre como as moderações algorítmicas nos sites de busca e redes sociais estaria criando o “filtro-bolha” – para cada usuário, resultados de busca e timelines diferentes de acordo com a sua vida online. A Internet estaria gerando bolhas viciosas e virtuais, impedindo que usuários tenham acesso a outras notícias, filmes ou informações que supostamente não façam parte do seu interesse. Como escrevia Leibniz, mônadas não possuem janelas.

O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) afirmava que a tecnologia era a realização mais plena ou o ápice do projeto da Metafísica Ocidental.

Para nós, usuários de computadores, Internet e dispositivos móveis é difícil entender teses como essas de um campo tão distante como a Filosofia, cujos pensamentos supostamente carecem de uma aplicação pragmática no dia-a-dia.


Ao contrário, a tecnologia digital se reveste para nós de um forte sentido pragmático: afinal manipulamos ícones, criamos planilhas, trocamos informações e fazemos pesquisas e, principalmente, vivemos o mundo em um inédito tempo real.

Mas tudo isso nada mais é do que efeitos de conhecimento – por trás dessa interface diária estão lá, invisíveis, códigos binários, algoritmos e programações. Nós, usuários que vivemos na interface da Matrix, não percebemos a ação invisível da sintaxe dos códigos - a não ser quando algo dá errado e somos obrigados a reiniciar o computador. Por isso, não nos damos conta da natureza dos algoritmos e códigos, sua origem em um projeto metafísico que começou há 25 séculos.

O “filtro-bolha” na Internet


                Uma pista para entender essa conexão entre o mundo pragmático da tecnologia e a abstração filosófica da Metafísica por ser encontrada na fala de Eli Pariser no TED Talks sobre como a moderação algorítmica nos mecanismos de busca e redes sociais está criando o fenômeno que chama de “filtro-bolha” - veja o vídeo no final da postagem.

Eli Pariser no TED Talks

Segundo Pariser, a Internet hoje torna-se cada vez mais uma rede semântica que busca evoluir no sentido de identificar o comportamento dos usuários a partir de equações que irão classificar o conteúdo supostamente mais relevante nos resultados de sites de busca e nas timelines das redes sociais. De forma imperceptível, estamos cada vez mais nos isolando em bolhas de interesses. Um verdadeiro lacre informacional criado pelos algoritmos que quantificam e qualificam a vida online dos usuários, criando um mundo onde a Internet nos mostra aquilo que “ela pensa que queremos ver, mas não necessariamente o que precisamos ver”.

A síntese desse paradigma que atualmente orienta a Internet (filtros que criam para cada usuário seu próprio universo personalizado de informação) pode ser encontrada nessa afirmação de Mark Zuckerberg, o criador do Facebook: “Saber que um esquilo está morrendo no seu quintal pode ser mais relevante para seus interesses nesse momento do que saber que pessoas morrem na África”.

Pariser defende que empresas como Facebook ou Google teriam que ter uma postura mais cívica em relação às informações, evitando a formação de bolhas viciosas onde cada usuário criaria sua própria realidade. Fenômeno que esse blogue denomina como tautismo (autismo+tautologia), impedindo que tenha acesso a outras notícias, filmes ou informações que não façam parte do seu interesse – sobre isso clique aqui. Ou será do interesse das grande empresas midiáticas?

Essas gigantes da mídia argumentam que de certa forma isso é bom, já que sem filtros um usuário se perderia em 100 mil resultados na busca de um termo qualquer, acabando por “desinformar”. É o velho argumento pós atentados de 2001: em nome da nossa segurança, entregamos nossos direitos individuais e privacidade.

Filtro-bolha é a mônada de Leibniz?


            Mas o que chama realmente a atenção na apresentação de Pariser no TED Talks é um infográfico apresentado a certa altura para ilustra o fenômeno da bolha de informação (veja abaixo). O usuário encontra-se no centro de um círculo cercado por grande empresas digitais como Netflix, Amazon, Google etc. E orbitando ao redor, dezenas de outras bolhas contendo no seu interior outros usuários em seu próprio solipsismo.


A imagem proposta por Pariser para ilustrar o fenômeno tem uma grande sincronismo com as ideias de Gottfried Leibniz (1646-1716), principalmente o conceito de “mônada” (do grego “monas”, como em “monge”, “monástico”) , a palavra-chave do seu discurso sobre a Metafísica. Matemático e filósofo, Liebniz inventou o cálculo infinitesimal que séculos mais tarde levaria o homem à Lua e fez a descrição do primeiro sistema de numeração binária moderna, utilizado nos dias de hoje na codificação digital.

Pesquisadores como Michael Heim acreditam que a Metafísica de Leibniz criou as bases filosóficas para a atual estrutura do ciberespaço, e o conceito de mônadas a condição final dos habitantes dos ambientes digitais – leia HEIM, Michael, Metaphysics of Virtual Reality. 

Leibniz acreditava que qualquer problema era, em princípio, solúvel: bastava deduzi-lo não a partir da linguagem natural, mas binária onde todas as diferenças poderiam ser reduzidas a símbolos universais, eternos. Nessa busca encontrou não apenas o sistema numérico binário, mas também as mônadas: unidades últimas e indivisíveis do Ser, presente desde o mundo mineral até o mundo racional humano.

Fechadas em si mesmas (“mônadas não possuem janelas”, escrever Leibniz) são capazes de perceber a “realidade” (na verdade outras mônadas), mas as percebem segundo seus “apetites” ou “vontades”. Cada mônada seria como um fracta: o Universo e Deus já se encontram em cada mônada. Com isso, Leibniz imaginava o Universo como uma imensa rede de mônadas. Cada vontade de uma mônada já está prevista na, por assim dizer, Central Infinitas das Mônadas – Deus. As diferenças entre as mônadas são meramente de perspectiva, já que cada uma é um espelho do mesmo Universo.

Monadologia e a Teoria da Informação


Leibniz definia sua metafísica como Monadologia, uma forma de conciliar a causalidade Newtoniana com a existência de Deus, o livre-arbítrio com o determinismo.

Se Leibniz pudesse representar a Monadologia através de um infográfico, certamente se aproximaria daquele mostrado por Eli Pariser: diversas bolhas fechadas em si mesmas, mas ao mesmo tempo em rede – mônadas sem janelas, mas com terminais. Isoladas e solitárias podem trocar informações, mas não mais se comunicam.

                A filosofia proto-digital de Leibniz precisou esperar alguns séculos para desabrochar na Teoria da Informação de Claude Shannon em 1938. Assim como Leibniz pretendia reduzir a complexidade do mundo por meio de operações matemáticas sucessivas, Shannon reduziu “ruídos” e “incertezas” ao conceito de informação.



Internet e o desenvolvimento das tecnologias digitais são regidos pelo paradigma da informação de Shannon – redução da incerteza vai do mundos dos negócios e dos algoritmos que calculam a probabilidade de riscos dos lances financeiros aos filtros bolha que customizam a experiência do consumo de informação.

Informação passa a ser aditiva, soma de expectativas (hábitos, atitudes, escolhas etc) pré-existentes,  expulsando ruídos e incertezas: o novo, o contraditório, o público, o acontecimento, em síntese, a comunicação.

O advento da Internet e a possibilidade de partilhar informações do mundo inteiro em tempo real foi excitante para uma geração como a minha: de repente vivemos a expectativa de sermos ejetados da biblioteca local diretamente para um estoque global e disponível de informações 24 horas por dia.

Mas logo as grandes empresas de mídias digitais descobriram que possuíam uma mina de ouro a ser explorada: se a informação é construída por operações algorítmicas, também os hábitos e escolhas dos usuários também são informações que podem ser, por meio de algoritmos,  classificadas por relevância e, assim, gerar lucros.

Os filtros-bolha são a redução algorítmica da incerteza: você até poderá conhecer novas bandas ou novos filmes, mas elas apenas serão informações aditivas, mais do mesmo, a recorrência daquilo que os robôs da Internet pensam sobre você. Afinal, incertezas podem “prejudicar a experiência do usuário” em um site ou loja virtual.

Todos estamos nos tornando mônadas metafísicas, e a Central Infinita das Mônadas deixou de ser Deus para empresas como Google e Facebook assumirem o papel divino.

                Através do álibi da conveniência, conforto e rapidez, o usuário torna-se a perfeita tradução da mônada de Leibniz: sem janelas abertas para o mundo, mas com terminais através dos quais não consegue se comunicar.




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