quarta-feira, janeiro 16, 2013

Marxista anteviu a "matrix" na crise da física

Morto aos 30 anos na Guerra Civil Espanhola em 1937, o pensador e poeta marxista Christopher Caudwell produziu uma instigante análise sobre a crise na física na década de 1930 (a rejeição de Einstein e de outros físicos ao Princípio da Incerteza de Heisenberg) sob o ponto de vista do materialismo dialético. Caudwell em sua obra “A Crise na Física” anteviu o que denominou como “tela de fenômenos” criada pela “metafísica da física”, uma filosofia inconsciente que aprisionaria a Física em uma verdadeira “Matrix” de categorias mentais que aprisionariam a realidade dentro do restrito modelo do determinismo e do mecanicismo cujas origens estão nos fundamentos do modo de produção capitalista.

A carreira de teórico da cultura do marxista inglês Christopher Caudwell foi realmente muito breve. Dois anos depois de iniciar uma série sistemática de análises marxistas sobre diversas áreas morreu lutando na Guerra Civil Espanhola no primeiro dia da batalha de Jarama em 1937 quando tinha tão somente 30 anos. Mas foi o suficiente para produzir um respeitável livro sobre física do ponto de vista do materialismo dialético marxista chamado “A Crise na Física” e quatro outros trabalhos sobre crítica cultural – “Ilusion and Reality”, “Romance and Realism” e ensaios no campo na História, Psicologia e Religião agrupados em um único livro intitulado “Estudos Sobre Uma Cultura Agonizante”. No Brasil esses trabalhos foram reunidos em uma coletânea em 1968 sob o título “O Conceito de Liberdade” publicada pela editora Zahar.

Certamente o trabalho mais instigante foi “A Crise na Física” pelo seu poder de síntese e uma ousada aplicação do método dialético marxista em um campo aparentemente distante da economia política: a Física. Caudwell de dispôs a analisar os fundamentos de uma crise que saia do campo restrito dos físicos e chegava à opinião pública – as descobertas dos jovens físicos como Heisenberg, Schrödinger e Eddington combatidas por Einstein e Planck, isto é, a descoberta de que os princípios de determinismo e a causalidade estavam sendo expulsos da física e que a “velha guarda” ainda procuravam manter a “metafísica da física” representada pelos princípios newtonianos.


Para Caudwell essa “metafísica” no interior da Física criaria uma tensão dialética cuja resolução só poderia acontecer com a ruptura da base absoluta que é constituída pela filosofia burguesa.

Einstein incorpora a física newtoniana para alcançar
uma fundação firme e absoluta em
meio à crise da relatividade
Embora Einstein mostrasse que as dimensões que Newton supôs serem absolutas eram relativas (massa, atomismo, tempo, espaço, gravidade), isso não significava que Einstein acreditasse que todas as dimensões do Universo fossem relativas: “todo o trabalho da sua existência tem sido dedicado à eliminação das qualidades relativas da Física de modo a alcançar finalmente uma fundação firme e absoluta”.

A cada revelação da relatividade em determinada dimensão, era considerado uma crise que só poderia ser solucionada restaurando-se a normalidade em um outro plano. O tênue equilíbrio entre o atomismo das partículas que possuem trajetórias independentes (inércia) e o monismo da onipresente força da gravidade foi quebrado pela teoria especial da relatividade para depois o monismo ser restabelecido por uma nova geometria do continuum tempo-espaço da teoria geral da relatividade.

Caudwell argumenta que essa “metafísica da física” (categorias sociais que estruturam a ideologia geral que correspondem à ideia do Universo como uma gigantesca máquina cósmica regida pelos princípios do mecanismo – atomismo, causalidade “escrita” e tempo e espaço absolutos) vai não só impedir o “salto qualitativo” trazido pela perspectiva quântica e pelo indeterminismo de Heisenberg como criará uma visão da realidade como uma “tela de fenômenos”, isto é, criará uma consciência tão presa por essa metafísica que se transformará numa “consciência divina separada da realidade material” que apenas consegue uma mera cópia da realidade existente.

O jovem Caudwell mostra uma surpreendente lucidez para a época (década de 1930) em pleno debate entre Einstein e a vanguarda da física quântica não só por perceber que a suposta revolução da relatividade foi uma tentativa de resolver uma contradição em um “nível superior” da física tradicional como também percebeu a “tela de fenômenos” resultante da “metafísica da física”. Algo que na chamada discussão pós-moderna seria chamado de neo-platonismo, a precessão dos simulacros (a hiper-realidade) ou simplesmente a realidade filtrada por uma “matrix”.

A metafísica da Física


Para Caudwell a metafísica da ciência
tem origem nas categorias da
economia de mercado
Para Caudwell a metafísica da ciência tem uma relação orgânica com a matriz de uma visão burguesa de mundo formada por categorias de pensamento que não são como as kantianas, como um a priori ahistórico, mas por categorias que tem uma relação ativa com a base econômica: a propriedade privada, a economia de mercado e o individualismo burguês. Essas categorias criam uma visão de mundo, uma “filosofia inconsciente” dentro do qual a física irá ter um conhecimento geral e abstrato da realidade.

Primeiro, a propriedade privada e a economia de mercado criarão uma cisão entre sujeito e objeto (na física entre observador e observado): os agentes econômicos seriam pensados como produtores independentes livres, espontâneos e racionais que agem sobre uma realidade organizada como um mecanismo. A máquina (“porção humanizada da realidade”) é a propriedade e escravo do burguês que a desenha para o domínio a partir do funcionamento racional do mecanismo. De um lado, o sujeito livre e racional. Do outro o objeto, a máquina, a realidade, o mercado e o proletário, entidades que deverão ser apropriados e dominados.

Temos, portanto, as ideias de causalidade, determinismo e mecanismo como decorrentes das relações econômicas de dominação e propriedade. Por outro lado, as ações racionais dos produtores individuais levam tendencialmente à irracionalidade do todo (a “anarquia da produção”), assim como na física newtoniana a ação inercial das partículas exige uma intervenção monista como a lei da gravidade que unificaria o Universo ou a “mão invisível” que organizaria magicamente o mercado. Crises como o crash de Nova York de 1929 demonstraram a irracionalidade dessa “metafísica”.

Segundo Caudwell, o que os cientistas não compreendem é que a Física é constituída por categorias econômicas e a Natureza é um tipo bem diferente de máquina.  Da mesma forma que as contradições da economia de mercado empurram o capitalismo para crises cíclicas e tentativas de resolução em novas “geometrias” (a financeirização, por exemplo), da mesma forma as contradições na Física (atomismo versus monismo) seriam resolvidas em níveis superiores como na teoria geral da relatividade.

Tentando solucionar uma crise


Bohr e Einstein: o Princípio da Correspondência
para fazer frente ao Universo descontínuo
da física quântica
Inúmeras descobertas físicas intervieram para demonstrar as contradições do sistema newtoniano: se a força da gravidade é o produto de distância e massa e a distância é relativa ao observador, a massa também deveria ser relativa ao observador. Se a força da gravidade aparece como aceleração, como pode a mudança de movimento ser absoluta se todo movimento uniforme é relativo? Essas contradições formuladas por Einstein na Relatividade Especial exigiam um Princípio Geral.

Caudwell descreve a seguinte solução de Einstein: massa, impulso, energia cinética e potencial e inércia são colocados em uma geometria comum, não euclidiana. Essa geometria “real” sintetiza a lei newtoniana da gravidade e do movimento numa única lei básica: “o raio direto é constante no espaço vazio”. O que se conclui que o comportamento da partícula é determinado pela geometria do resto do Universo. Em outras palavras, o mundo de Einstein é monista e elimina o problemático pluralismo newtoniano. A geometria deste Universo é um contínuo, sem tempo ou espaço absolutos, mas unidos geometricamente num bloco e cada observador o divide de maneira diferente em espaço e tempo.

Mas essa visão contínua do Universo foi solapada pela física experimental quântica e pelo Princípio da Incerteza de Heisenberg: a posição e a velocidade de um elétron ou partícula elementar nunca podem ser exatamente conhecidas, pois a conexão entre elas é o quantum extremamente pequeno de ação. Há uma descontinuidade fundamental na Natureza que sempre se supôs contínua.

Mas de que modo a física explica o êxito das teorias de Newton e Einstein que supõem uma continuidade básica nos fenômenos? Através do Princípio da Correspondência de Neils Bohr onde inumeráveis descontinuidades sobrepõem-se, por assim dizer, e se tornam contínuas. As descontinuidades podem coincidir e ser perceptíveis. Mas as probabilidades contra isto são tão imensas que a possibilidade pode ser ignorada. Dessa maneira, o problema das imutáveis leis da física (determinismo, causalidade etc.) agora passa a ser considerado sob as leis estatísticas ou de “probabilidade”.

As leis clássicas do movimento passam a se aproximar da termodinâmica com suas leis sobre o movimento molecular sob calor e pressão.

Stock Market Cycles: termodinâmica e
Teoria do Caos para manter o
"caos determinístico" sob a égide
do determinismo e mecanicismo
Aqui Caudwell encerra seu raciocínio ao demonstrar como as contradições criadas pela nova geração de físicos no interior da metafísica do modelo maquínico de Universo foi conciliada em outro nível: a sanção do determinismo sob a roupagem da estatística e cálculos de probabilidade.

Se Caudwell vivesse mais ainda teria tempo de ver o desdobramento das leis da termodinâmica na Teoria do Caos com seus conceitos como “atratores estranhos” e “fractais” que tentam dar conta do funcionamento de sistemas dinâmicos e complexos. Veria a tentativa de manter esses sistemas ainda confinados nas categorias do determinismo e mecanismo sob a égide do “caos determinístico”, fenômenos aleatórios que ainda poderiam ser representados por equações.

Certamente Caudwell relacionaria essa tentativa da Física em resolver as contradições em “nível superior” com a estratégia do capitalismo em superar a irracionalidade da produção buscando formas de realização de lucro através da financeirização. E novamente aqui vemos as conexões entre a Física e a infraestrutura econômica: a irracionalidade do mercado financeiro é racionalizada pelos cálculos probabilísticos de risco dos investimentos. É a própria ideologia da metafísica burguesa em ação ao naturalizar os fenômenos econômico-financeiros ao encará-los como movimentos semelhantes às placas tectônicas, fenômenos meteorológicos entre outros eventos imprevisíveis da Natureza.

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