quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Somos todos punks e alienígenas em 'Como Falar com Garotas em Festas'


Se em Quase Todo Mundo Morto (Shawn of Dead, 2004) a piada era a indiferença britânica que confundia zumbis com bêbados, em Como Falar com Garotas em Festas (How to Talk to Girls at Parties, 2017, disponível na Prime Video) essa "bizarra normalidade" ganha contornos cósmicos. Ao ambientar o encontro entre o movimento punk de 1977 e turistas intergalácticos no subúrbio de Croydon, o diretor John Cameron Mitchell transforma o desencontro adolescente em uma metáfora existencial. Mais do que uma comédia de ficção científica, o filme disseca a figura existencial gnóstica do "Estrangeiro" e a barreira intransponível da incomunicabilidade entre gêneros, revelando que, no vácuo entre o punk e o alienígena, a verdadeira distância galáctica está na dificuldade humana de se conectar.

O leitor deve lembrar (se não lembra, por favor assista ao filme) da comédia-paródia de filmes de zumbis Quase Todo Mundo Morto (Shawn of Dead, 2004), cujo primeiro ato do filme se baseava numa piada impagável: de repente as pessoas começam a ser contaminadas por uma epidemia zumbi em Londres. Você sai bêbado de um pub e caminha pelas ruas, já ocupadas por zumbis que se arrastam e grunhem pelos cantos.

Mas paradoxalmente, tudo parece normal. Como mais uma noite nas ruas de Londres. Você passa batido e indiferente porque acha que todos ou são mais sem-tetos que ocupam diariamente as ruas, ou, então, outros bêbados com cara de quem perdeu uma aposta em outro pub. Tudo sob uma atmosfera de bizarra e cômica normalidade.

Mas se Quase Todo Mundo Morto tratou essa piada apenas como um sketch no primeiro ato, o filme Como Falar com Garotas em Festas (How to Talk to Girls at Parties, 2017, disponível na Prime Video) transforma essa piada no tema central e aprofunda existencialmente. Só que dessa vez não temos zumbis, mas alienígenas.

Numa pequena cidade inglesa chamada Croydon, em 1977, a chegada do movimento punk coincide com as comemorações do jubileu da rainha e com a vinda de aliens intergaláticos com um estranho culto canibal. Na escuridão dos shows punk nos porões fica difícil distinguir uma tribo da outra – para os punks não passam de turistas americanos de algum culto New Age hippie.

Mas o ponto existencial e geracional da ironia que sustenta o argumento do filme é esse: adolescentes punks vendo seus pais com grandes costeletas comemorarem o jubileu da rainha se sentem tão alienígenas nesse mundo quanto alienígenas de verdade. As diferenças galácticas transformam-se em mera diferença tribal: para jovens punks britânicos, americanos hippies só pode ser mesmo coisa de outro planeta. Assim como os próprios punks.



Em resumo, essa é a premissa intrigante de Como Falar com Garotas em Festas, de John Cameron Mitchell, livremente adaptado de um conto de Neil Gaiman. 

É uma obra que usa a lente da ficção científica para dissecar a estranheza inerente do amadurecimento geracional e das subculturas.

O filme transforma o "alienado" social (o punk) em um encontro literal com o "alienígena" (o extraterrestre), criando uma narrativa sobre a dificuldade de conexão em um universo caótico.

No filme, os alienígenas não são invasores espaciais clássicos com armas de laser; eles são turistas interdimensionais divididos em facções (colônias) puritanas e rígidas. A conexão com o movimento punk de 1977 em Croydon é brilhante por um motivo fundamental: ambos são grupos tentando encontrar uma identidade em um mundo que parece não fazer sentido.

Em postagens anteriores esse Cinegnose vem desenvolvendo a tese de que a filmografia contemporânea vem estruturando suas narrativas em três tipos de protagonistas que expressariam as três formas de constituição da subjetividade: o Detetive, o Viajante e o Estrangeiro.



Esses três personagens seriam os protagonistas da pós-modernidade. Em suas narrativas aparecem, em geral, como prisioneiros em um universo hostil, estrangeiros dentro do seu próprio país, uma estranha sensação de deslocamento, de não fazer parte de um mundo decadente e corrompido – sobre esses conceitos, clique aqui.

Como um filme sobre “estrangeiros” (alienígenas), Como Falar com Garotas em Festas faz um curioso embaralhamentos entre “punks” e “alienígenas”, igualando-os como estrangeiros - o Punk como "Alienígena": para a sociedade britânica conservadora da época, os punks — com seus alfinetes, cabelos coloridos e niilismo — eram tão incompreensíveis quanto seres de outro planeta.

E a Alienígena como "Punk": Zan (Elle Fanning) vive sob regras biológicas e rituais estritos. O punk entra como a "frequência" com que ela quebra esse sistema. A música e a rebeldia são o que permitem a ela o livre arbítrio. Ser punk, para o alienígena, é o ato de se tornar individual em sua cultura que mais se assemelha a uma colmeia.

No final, o título entrega a metáfora final: a relação entre homem e mulher como uma tentativa de comunicação entre seres “alienígenas”. O título do filme já entrega o conflito central, que a obra o eleva ao nível cósmico. A incomunicabilidade aqui não é apenas timidez; é uma barreira de tradução entre "espécies" diferentes.

O Filme

Trata-se de uma comédia dramática de ficção científica com toques punk, ambientado no subúrbio londrino de Croydon durante os preparativos para o Jubileu de Prata da Rainha Elizabeth II em 1977 (aquele em que os Sex Pistols invadiram navegando pelo Tâmisa tocando "God Save the Queen").



Conta a história de Enn (Alex Sharp), um punk que dança “pogo” em agressivos concertos, mas, na verdade, é um doce garoto da vizinhança que num encontro inusitado acaba se apaixonando por Zan (Elle Fanning), que pertence a um misterioso culto alienígena.

Enn, juntamente com seus dois amigos, se perdem na busca de um endereço de uma festa. Mas acabam sendo atraídos por uma música que está tocando nas imediações – algo parecido com o som eletrônico alemão da época, o krautrock.

Encontram um sobrado, uma espécie de Airbnb ocupado membros de sete diferentes comunidades intergaláticas. Imersos em estranhos rituais ao som de algo eletrônico. Enn e seus amigos acham que caíram em alguma festa de turistas americanos.

Veem um grupo de pessoas (que se revelam humanoides) vestidas com látex colado ao corpo em diferentes tons, e na sala de estar estão envolvidas em uma espécie de ritual de dança acrobática extravagante que as faz parecer uma mistura do Blue Man Group com uma competição de tai chi. 

Enn sente-se estranhamente atraído por Zan. E ela, atraída pela atitude punk dele: há algo na sua fúria que acende a individualidade em Zan – algo proibido numa cultura que subsiste dentro de uma cultura de colmeia onde as famílias alienígenas devoram a própria prole para sobreviver.

Mas então, depois de saírem de lá é irem a um show explosivo em um bar decadente com a banda Dyschords, uma banda local gerenciada por Boadicea (Nicole Kidman), que a tensão aumenta (e a incomunicabilidade também): a alienígena Zan imerge na cultura punk, descobrindo a própria individualidade e tensionando com os seus deveres numa cultura alienígena milenar; enquanto Enn continua achando que o su incomunicabilidade com Zan resume-se unicamente a uma questão de desencontro afetivo entre jovens – mal suspeita que está havendo um choque cultural cósmico.



O Estrangeiro e a incomunicabilidade

Se no nível superficial Como Falar com Garotas em Festas é uma comédia sobre punks e alienígenas, no nível metafórico o filme funciona como um estudo antropológico sobre o Estrangeiro e a falha trágica de comunicação entre os gêneros.

Os protagonistas punks e alienígenas funcionam como metáforas da condição existencial (e gnóstica) humana como Estrangeiros - os alienígenas estão em uma "viagem de 48 horas". Eles não querem se integrar; eles observam a cultura local (os humanos) com uma mistura de fascínio intelectual e nojo biológico. Isso espelha a dinâmica de comunidades fechadas que se recusam a absorver os costumes do país anfitrião.

A garota alien Zan se revolta contra o conformismo antropofágico – descobrindo sua individualidade, sente-se como uma estrangeira no seu planeta. Como Enn, revoltando-se contra a submissão e breguice das comemorações do jubileu da rainha.

Mas também o filme sugere que a distância entre um garoto de Croydon e uma garota de uma colônia estelar é a mesma distância que existe, historicamente, entre o homem e a mulher na construção social.

Enn (O Homem) tenta se comunicar através da vulnerabilidade, da música e de uma ideia romântica de "salvamento".

Zan (A Mulher/Alienígena) tenta se comunicar através da curiosidade intelectual e da autonomia corporal.

Porém, estão em conflito, não falam a mesma língua porque seus objetivos são diferentes. Enn quer um romance de filme; Zan quer uma experiência existencial que rompa suas correntes que estão em um outro planeta.

O título do filme seria o de um guia que o protagonista, Enn, claramente não possui. Para ele, as mulheres são seres de rituais incompreensíveis. O filme valida essa sensação: as alienígenas literalmente têm regras biológicas e sociais que Enn nunca poderia prever.


 

 

Ficha Técnica

Título:  Como Falar com Garotas em Festas

Direção:  John Cameron Mitchell

Roteiro: Philippa Goslett, John Cameron Mitchell, Neil Gaiman

Elenco: Elle Flaning, Alex Sharp, Nicole Kidman

Produção: See-Saw Films, Little Punk, Film4

Distribuição: Prime Video

Ano: 2017

País: Reino Unido

 

Postagens Relacionadas

 Somos todos aliens no filme "Earthling"

  A mitologia pop de aliens, sexo, drogas e euforia no filme "Liquid Sky"

Por que "E.T. O Extraterrestre" tornou-se um clássico AstroGnóstico?

Todo adolescente é um alien na série 'Nada é o que Parece Ser'

 

 

Tecnologia do Blogger.

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Bluehost Review