Vinte e seis anos após o alerta de Ciro Marcondes Filho sobre a divisão entre o jornalista que 'trabalha em pé' e o que 'trabalha sentado', o campo jornalístico parece ter sucumbido a uma mutação ontológica sob a cortina de fumaça das redes sociais. Entre a contratação de influenciadores para a Copa do Mundo, a priorização de colunistas em vez de repórteres para as eleições e a espetacularização do trash digital de petistas sendo exorcizados em busca de engajamento, o que emerge é um cenário onde a precarização do trabalho e o império do infotenimento tornaram-se faces indissociáveis no Jornalismo. Ao trocar a apuração de campo pela gestão do afeto, o jornalismo corporativo e independente arrisca abandonar sua função de mediador factual para se transformar em um ringue de narrativas movido pela economia da atenção.
Muito já se escreveu e se discutiu
sobre os impactos da Internet e o advento dos dispositivos de convergência
tecnológica (tablets, smartphones etc.) e das redes sociais no jornalismo.
Tudo começou com uma constatação
empírica de Ciro Marcondes Filho em seu livro de início desse século “Comunicação
e Jornalismo: a Saga dos Cães Perdidos” (2000): apontava que as rápidas
transformações tecnológicas estavam dividindo o campo jornalístico em duas
categorias de profissionais: aqueles que trabalham sentados diante de
computadores (limitando-se ao tratamento de releases de agências e assessorias
de comunicação) e os que trabalham em pé – a minoria que vai à campo
investigar.
Mas esse debate sobre o início das transformações
da própria ontologia do Jornalismo pela tecnologia foi esquecido com a
ascensão das redes sociais e dispositivos móveis. Que acabaram oferecendo uma
ótima cortina de fumaça, desviando a atenção do debate.
Memes, desinformação, fake News,
pós-verdade etc. passaram a ser o foco das discussões. E a ascensão da noção de
“jornalismo profissional” para se distinguir das “mentiras” e “manipulações” da
Internet e redes. Enquanto o “jornalismo profissional” teria protocolos de
checagem, editoração e curadoria da informação, as redes seriam uma terra sem
lei. Onde correm soltas as mentiras e golpes. Tendo por trás ardilosos hackers.
Passa a impressão nessas discussões que
o tal “jornalismo profissional” (unicamente o jornalismo corporativo, claro!) é
uma instituição estoica e que corajosamente resistiria aos ataques das redes
sociais.
Enquanto as redes seriam
intrinsecamente criminógenas, o “jornalismo profissional” seria a pièce de résistance
da verdade...
Alguns eventos recentes do jornalismo revelam
que, se aquela discussão proposta por Ciro Marcondes Filho no início desse
século driblasse a cortina de fumaça e fosse continuada, estaríamos ocupados
com uma outra questão: como redes sociais e dispositivos de convergência estão alterando
a própria ontologia do Jornalismo. Isto é, a prática social de investigar,
apurar, checar e distribuir informações de interesse público.
Se não, vejamos.
Em chamada na primeira página do
domingo (08/02), o jornal O Globo estampava: “Novas vozes reforçam a cobertura
do Globo em ano de eleições; veja quem são os colunistas estreantes”.
Imagina-se o “colunista” como aquele
jornalista que “trabalha sentado” (diferentes dos repórteres que trabalham “em
pé”).
Também se imagina (ou espera-se) que o
jornal convoque um número maior de repórteres para cobrir o principal evento da
Democracia que ocorre nas ruas e postos eleitorais. Ao contrário, o jornal
jactou-se de reforçar a cobertura de um ano de eleições com “novas vozes”.
Prefere colocar profissionais sentados diante
de seus dispositivos do que em pé, nas ruas e coletivas, fazendo perguntas e
reportando.
Ao mesmo tempo, a Globo nessa semana
noticiou que chegou a um acordo para contar com 26 “influenciadores renomados”
na produção de conteúdo para a Copa do Mundo, que acontece em pouco mais de
dois meses. A parceria foi fechada em conjunto com a Play9, agência
especializada em criadores digitais dos mais variados públicos e níveis de
alcance.
Novamente, espera-se que numa cobertura
tão extensiva como a de uma Copa do Mundo de Futebol sejam destacados
repórteres e jornalistas especializados no esporte para uma cobertura “substantiva”
– pelo menos é o que se aprende em faculdades de Jornalismo.
Influenciadores são contratados para “produzir
conteúdo”. E qual a ontologia desse conteúdo? Criar quadros de “zoação” com
jogadores (promovidos a celebridades), demonstrar que o influenciador é amigo
de todo mundo em conversas informais, muitas piadas sem graça, trocadilhos etc.
Muito disso vemos em um telejornal de
TV aberta como o Globo Esporte, apresentada pelo influenciador Fred Bruno (“Desimpedidos”)
em que as hard news são substituídas por quadros de humor do estilo “o povo
fala” (quadros com populares “sem noção” fazendo comentários “espontâneos nas
ruas) e “na pele do lobo” (situações de humor onde Fred tenta repetir
performances de ginastas, lutadores etc.) e assim por diante.
Esses episódios revelam uma mudança na própria
estrutura produtiva do jornalismo, alterando sua própria natureza: da
informação para o infotenimento - fusão de informação com entretenimento para aumentar
o engajamento e a retenção da audiência nas redes sociais.
- A Substituição da Reportagem pelo Comentário: Reportagem
custa caro. Exige deslocamento, verificação, tempo e risco. O colunista
(opinião) e o influenciador (entretenimento/engajamento) são muito mais
baratos e já trazem seu próprio público ("comunidades").
- Terceirização da Credibilidade: Ao contratar
influenciadores, a emissora não busca apenas "novas linguagens",
mas sim "alugar" a confiança que esses nomes possuem em nichos
onde a marca institucional do jornalismo tradicional já não penetra.
- O Fim do "Chão de Fábrica": Quando o principal jornal do país prioriza colunistas em vez de repórteres para cobrir eleições, ele admite que a interpretação dos fatos é mais rentável que a apuração deles. Isso esvazia o papel do jornalismo como mediador da realidade factual, transformando-o em um ringue de narrativas.

O Infotenimento: A Transformação do Pânico em Espetáculo
Talvez, o mais dramático e, ao mesmo
tempo, o outro lado da moeda dessa transformação da própria ontologia do
jornalismo pela tecnologia desse novo ecossistema digital seja a reação do
apresentador e jornalista Leandro Demori no programa ICL Notícias no YouTube.
Demori denunciou nessa sexta-feira
(10/04) um perfil no Tik Tok que divulgava vídeos produzidos com ferramentas de
Inteligência Artificial (cada um com milhares de views) destacando narrativas
bizarras de pastores neopentecostais exorcizando petistas endemoniados. Na
verdade, perfeitas caricaturas ou parodias do pior do terror B hollywoodiano.
Com uma fisionomia entre assustado e compenetrado
pela “gravidade” do tema, preocupado com o espectador, avisou que reproduziria alguns
dos vídeos curtos (shorts). Alertou para a “violência” do conteúdo e contou de
um a três antes de dar o play.
A reação de Leandro Demori aos vídeos
de IA ilustra a outra face: a necessidade de manter o espectador em um estado
de constante hiperestimulação emocional.
- A "Serialização" do Trash: Ao tratar
vídeos visivelmente toscos e caricatos como algo "violento" que
exige um aviso de gatilho (trigger warning), o apresentador opera
um deslocamento semiótico. Ele retira o objeto do campo do ridículo (onde
ele morreria por falta de relevância) e o eleva ao campo da ameaça
existencial.
- Atribuição de Verossimilhança: ao levar a
sério o que é trash, o jornalismo acaba validando a existência
daquele conteúdo como uma "peça de guerra". Isso gera o efeito
colateral de dar ao autor do vídeo (por mais tosco que seja) o status de
agente político relevante.
- Economia da Atenção e Medo: O
infotenimento não é apenas "diversão", é a gestão do afeto. O
medo engaja mais que a análise racional. Se o vídeo é
"demoníaco" e "violento", o espectador não consegue
tirar o olho da tela, mesmo que o conteúdo seja esteticamente indigesto.
Podemos sintetizar essas duas faces da mesma moeda (precarização e o infotenimento) no quadro abaixo:

sexta-feira, abril 10, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira



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