sexta-feira, abril 24, 2026

O descompasso entre o psiquismo arcaico e a realidade sempre mutante em 'Sol Ardente'



Entre o sol implacável da Grécia e a privatização invisível da água pela corporação Goldblue, o filme “Sol Ardente” (2015, disponível na Prime Video) dá corpo a uma tese perturbadora do psiquiatra radical Wilhelm Reich: a de que, enquanto a infraestrutura econômica e técnica avança para controles absolutos, o imaginário social regride ao preconceito arcaico. Ao acompanhar o isolamento de um imigrante em meio a uma crise hídrica e ao assédio policial, a diretora libanesa Joyce A. Nashawati revela como a xenofobia atua como uma "bomba semiótica" e válvula de escape para um colapso sistêmico que a sociedade moderna, ancorada em valores reacionários, ainda é incapaz de decifrar ou enfrentar.

Psiquiatra radical e analista freudiano, Wilhelm Reich (1897-1957) foi uma das mais emblemáticas figuras no seu tempo que melhor refletiu as rápidas mudanças econômicas e políticas do cenário da civilização europeia pré-ascensão do nazismo e Segunda Guerra Mundial.

A velha Europa vitoriana do século XIX estava rapidamente sendo substituída pelas vanguardas artísticas, tecnológicas, industriais e militares, apontando para um futuro que jamais distopias como as de HG Wells, Kafka ou Aldous Huxley poderiam imaginar.

Mais do que ninguém, Reich percebia um descompasso entre as aceleradas mudanças da infraestrutura econômica e política e a superestrutura imaginária, psíquica e cultural da sociedade. Por exemplo, ele notava o paradoxo de como os operários organizados em torno de partidos comunistas e sindicatos podiam, ao mesmo tempo, serem politicamente de vanguarda e moralmente conservadores, criando famílias orientadas pelos valores e costumes pequeno-burgueses mais mesquinhos e reacionários – machismo, misoginia etc.

Principalmente em seu livro “Psicologia de Massas do Fascismo”, Reich descreve as consequências políticas e psíquicas desse descompasso – a infraestrutura econômica avança para estágios de exploração e controle social a partir de rápidas reconfigurações tecnoindustriais, enquanto a superestrutura ideológica (o imaginário social) permanece ancorada em estruturas reacionárias e arcaicas.

Tornando a sociedade não só incapaz de enfrentar regressões políticas como o nazismo na Alemanha, como também lidar com grandes setores da sociedade que acabam sendo cooptados como apoio de opinião pública. Numa combinação inesperada entre o racionalismo moderno e um imaginário arcaico renitente da sociedade.



A II Guerra Mundial foi marcada pela primeira guerra tecnológica da História, uma expressão desse descompasso. Cujo paroxismo foi a primeira explosão da bomba atômica no final dos conflitos mundiais.

Parece que esse descompasso descrito por Reich começa aa acelerar nesse século XXI, com o maior de todos os paradoxos: a Internet (o auge do mix tecnológico da eletricidade, eletrônica, ótica, engenharia de comunicação, nanotecnologia etc.) torna-se o espaço para o revival de filosofias, ideologias e religiões arcaicas e politicamente reacionárias – da teoria da terra plana a seitas e ideologias supremacistas.

Nada como o filme Sol Ardente (Blind Sun, 2015, disponível na Prime Video) para dar uma tradução visual perturbadora a esse descompasso entre infra e superestrutura da sociedade.

Sol Ardente é o primeiro longa-metragem da diretora libanesa Joyce A. Nashawati.

O filme acompanha Ashraf Idriss, um imigrante muçulmano na Grécia que tenta se estabelecer em outro país. Idriss enfrenta discriminação constante, mas persevera para concluir seu trabalho como zelador de uma mansão luxuosa no ensolarado litoral mediterrâneo. Em meio ao seu trabalho, Idriss se vê obrigado a lidar com uma crise hídrica que assola o país e com um misterioso estranho que o assedia, bem como tentativas de invasão naquela residência que trabalha como caseiro.

A narrativa é bem conhecida: um imigrante do Oriente Médio tenta se estabelecer na Europa em trabalhos de baixa remuneração. Enquanto vive um cotidiano de ataques racistas, desconfiança, intolerância e autoridades policiais arbitrárias.



Porém, o que mais chama a atenção são os eventos periféricos que permeiam o filme: uma séria crise hídrica que assola o país, incêndios florestais vistos à distância e, através da TV, imagens de grandes protestos nas ruas da capital Atenas.

E a onipresente empresa transnacional de água e saneamento “Goldblue”, sugerindo um velho problemas que bem conhecemos: a privatização da água, que deveria ser um bem público. E a decorrente escassez, como estratégia de mercado para valorizar o produto.

Xenofobia e racismo europeus arcaicos se encontram com a moderna engenharia social neoliberal representado pela “Goldblue”.

O Filme

Com paisagens panorâmicas tão ensolaradas que é preciso usar óculos Ray-Ban para enxergá-las com clareza, o filme acompanha a trajetória sinistra e traiçoeira de Ashraf Idriss (o ator palestino Ziad Bakri), que chega a uma cidade litorânea grega desolada para proteger uma mansão ultramoderna pertencente a um casal de turistas franceses mimados (Louis-Do de Lencquesaing e Gwendoline Hamon).

Mas antes mesmo de chegar lá, Ashraf é abordado por um policial abusivo (Yannis Stankoglou) vestido com uma jaqueta de couro, que, provavelmente, foi visto pela última vez em algum filme de terror de Dario Argento.

O homem confisca os documentos de Ashraf, deixando-o à própria sorte em uma terra hostil onde a temperatura não para de subir e estrangeiros são totalmente indesejados.

A trama praticamente termina aí, com Ashraf entrincheirado dentro da rica mansão depois que seus patrões voltam para a França. Enquanto tenta evitar o calor e o policial mal-encarado que parece persegui-lo, fazendo saídas ocasionais para comprar suprimentos ou dar um mergulho nas águas convidativas próximas. 



A diretora Nashawati encontra maneiras puramente visuais de aumentar a tensão à medida que o tempo passa e a atmosfera se torna cada vez mais insustentável, embora os espectadores não aprendam quase nada sobre os personagens ou as situações — mesmo que qualquer pessoa que acompanhe as notícias veja semelhanças entre a situação de Ashraf e a de muitos solicitantes de asilo que atualmente tentam sobreviver na União Europeia.

Outros pontos da trama giram em torno da escassez de água em todo o país e da imigração. A primeira é mais importante que a segunda, e é aí que entra a importância de manter a piscina escondida – o patrão francês recomenda esvaziar e esconder a piscina para esconder privilégios de classe.

Fica claro em Sol Ardente o descompasso entre infra e superestrutura da sociedade descrito por Reich.

A Infraestrutura: O Biopoder da Goldblue

A presença da Goldblue no filme representa a fronteira final do capitalismo: a transformação de um elemento essencial à biologia humana em uma mercadoria escassa e privada.

Representa a própria Abstração do Capital: A empresa é uma entidade quase invisível, mas onipresente. Ela dita quem vive e quem morre através do controle dos canos e das senhas.

O Novo Realismo Econômico: A infraestrutura mudou; a Grécia do filme não lida mais apenas com uma crise de dívida soberana, mas com uma crise de soberania biológica. A água não pertence mais ao território, mas ao contrato.



A Superestrutura: O "Couraçamento" da Xenofobia

Enquanto a economia se torna "fluida" (e privatizada), a mentalidade da população local e da polícia sofre o que Reich chamaria de couraçamento. Em vez de a cultura evoluir para lidar com a nova realidade climática e econômica, ela regride para mecanismos de defesa primitivos.

O Desvio do Alvo: a infraestrutura (Goldblue) é a responsável pela sede, mas a superestrutura (a cultura local) não consegue processar essa abstração. O ódio, então, é canalizado para o que é tangível: o corpo de Ashraf.

Fica claro como a xenofobia acaba funcionando como Válvula de Escape. Como Reich observou, quando as massas sofrem uma opressão econômica que não conseguem combater racionalmente, elas tendem a projetar suas frustrações em "bodes expiatórios" que representam o "não-pertencimento".

O imigrante torna-se a "bomba semiótica" perfeita para absorver a culpa pelo colapso que, na verdade, é sistêmico.


 


Ficha Técnica

Título: Sol Ardente

Direção: Joyce A. Nashawati

Roteiro: Joyce A. Nashawati

Elenco: Ziadi Bakri, Mimi Denissi, Louis-Do de Lencquesaing

Produção: Good Lap Production

Distribuição: Prime Video

Ano: 2015

País: França, Grécia

 

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