terça-feira, abril 28, 2026

A semiótica do conto maravilhoso do jornalismo profissional e imparcial



Em ano eleitoral, a grande imprensa brasileira costuma sacar do bolso um manual de virtudes para se vacinar preventivamente contra críticas de manipulação. Sob o rótulo de "jornalismo profissional", veículos como “O Globo” (em seu impagável editorial “A Missão da Imprensa é a busca da verdade dos fatos”, publicado em 19/04) constroem uma narrativa digna da morfologia dos contos maravilhosos de Vladimir Propp, onde a "Verdade" é a princesa a ser resgatada por um herói imparcial. Contudo, entre o cinismo e a técnica, a Semiótica e a filosofia do Pragmatismo revelam que a neutralidade absoluta é um mito: a verdadeira honestidade intelectual não reside na negação da parcialidade, mas na transparência do viés.

O jornalismo corporativo costuma avaliar de forma tautológica que, qualquer decisão, promulgação ou decisão do Governo Lula feita nesse ano eleitoral, só pode ser mesmo uma estratégia... eleitoral.

Pois podemos dizer a mesma coisa (talvez de uma forma não tão tautológica) de alguns tipos de editoriais da imprensa corporativa que recorrentemente são publicados apenas em anos eleitorais. Como fosse um sintoma de formação reativa psíquica dos “aquários” das redações já prevendo as denúncias de manipulação, omissão ou simplesmente mentiras publicadas para beneficiar partidos ou candidatos “x”,”y” ou “z”.

Sabemos que ano eleitoral é um ano de maldades midiáticas. E a grande imprensa quer vacinar-se preventivamente das críticas contra ela através de editoriais cantando loas ao “jornalismo profissional” e o “compromisso com a verdade”.

É o exemplo do editorial do jornal O Globo, publicado em 19/04 com um título laudatório: “Missão da imprensa é a busca pela verdade dos fatos”.

Manchete ainda reforçada por um lide de abertura de exaltação: “Jornalismo profissional não teme gritos e seguirá noticiando com destemor e serenidade”.

E os “aquários” de O Globo sabem que os gritos virão. E de onde: do “jornalismo de esquerda” e do “jornalismo de direita”

Não se pode confundir o jornalismo profissional com aqueles se autodeclaram “jornalismo de esquerda” ou “jornalismo de direita”. Na ponta de cada um desses extremos, o que costuma haver de concreto não passa de propaganda, de defesa de um governo, de um partido ou de uma causa. A causa do jornalismo profissional é tão somente a busca da verdade”.

Editoriais como esse são recorrentes na grande mídia em ano eleitoral.



Mas dessa vez, O Globo se superou no requinte retórico. Algo parecido com a morfologia do chamado “conto maravilhoso”, tão bem estudado pelo folclorista russo Vladimir Propp: o herói (O Globo) que luta contra o vilão (governos, partidos e a imprensa polarizada), que recebe a doação mágica (a confiança do leitor); o herói derrota o vilão e fica com a recompensa final: a princesa (a verdade).

Nem vou entrar na questão que, para veículos como O Globo, os cursos de Jornalismo deveriam adotar o livro “A Morfologia do Conto Maravilhoso”, de Vladimir Propp, no lugar de manuais clássicos como “Técnicas de Codificação em Jornalismo: redação, captação e edição no Jornal Diário”, de Mário Erbolato.

Principalmente num tipo de jornalismo em que a busca de uma boa história antecede o faro pela notícia.

Boas histórias acabam criando mitos. Um deles, o mito do “jornalismo imparcial”. Ou “jornalismo profissional”, conceito inventado nos tempos de convergência tecnológica para tentar se opor ao “jornalismo colaborativo” que deu a base para a “imprensa alternativa” na Internet.

Poderíamos nos contrapor a esse mito através de diversos argumentos como, por exemplo de que o jornalismo imparcial não existe porque a informação é inerentemente opinativa e a busca por um jornalismo totalmente neutro é uma ilusão ou um disfarce para interesses políticos e econômicos.

Ou de que a mídia brasileira sofre de uma total promiscuidade entre opinião e informação, onde a visão dos proprietários dos veículos dita a cobertura dos fatos. No mínimo poderíamos afirmar que posicionar-se pela imparcialidade é cinismo.

Como demonstra o “sincericídio” da fonoaudióloga Glorinha Beutemüller (preparadora da voz de mais de mil atores e atrizes do teatro e televisão. Mas, principalmente, foi a responsável pelo padrão da fala de repórteres, radialistas e âncoras da TV Globo) e o seu “Método do Espaço Direcional”:

O apresentador não pode representar as palavras. Tem de ser parcial e exprimir as ideias da empresa em que trabalha. Esse profissional tem de sentir a palavra na sua forma, mas a essência empregada vem da casa. Por exemplo, a palavra cadeira é dita da mesma forma por todo mundo, mas se ela é confortável ou desconfortável, é a empresa que vai dizer. Em qualquer emissora, os apresentadores são escravos, têm que parecer imparciais e, ao mesmo tempo, ser parciais, de acordo com a vontade da empresa” – clique aqui.


O Conto Maravilhoso: flagrante do jornalismo imparcial enfrentando a parcialidade


Semiótica, Pragmatismo e “endorsements”

Mas esse humilde blogueiro não vai por esse caminho crítico.

Prefiro começar com uma contradição sintomática. Apesar da imprensa brasileira ver o jornalismo norte-americano como um modelo dentro de um sistema democrático, ela se exime (ou finge não ver) que os jornais nos Estados Unidos têm uma longa tradição de se posicionar politicamente, especialmente através de seus conselhos editoriais, que publicam editoriais de apoio a candidatos (chamados de “endorsements”) durante as eleições.

Historicamente, muitos jornais endossam candidatos presidenciais, democratas ou republicanos. Por exemplo, em 2008, a maioria dos grandes jornais apoiou Barack Obama.

Podemos até especular que essa postura da grande imprensa norte-americana seja decorrente da tradição do “pragmatismo” ou “pragmaticismo” filosófico (com forte influência cultural daquele país) de nomes como John Dewey, William James e Charles S. Peirce. Principalmente Peirce, que desenvolveu a Semiótica como uma ferramenta lógica e científica para explicar como o conhecimento e o significado são construídos na prática. 

E na prática, a Semiótica descreveu o processo de significação que definiu como “semiose” o modo como a mente humana constrói conhecimento interagindo com a realidade e gerando novos signos, rejeitando certezas abstratas sem base na experiência.

Talvez por isso acreditem ser pueril defender uma suposta imparcialidade um veículo corporativo de imprensa: grandes empresas jornalísticas como New York Times (democratas) e New York Post (republicanos) explicitam o apoio a candidatos. Mas, historicamente a imprensa americana costuma separar rigidamente o editorial (opinião) do relato de notícias.

Certamente essa decisão reflete a condição semiótica da cognição humana para o Pragmatismo: a parcialidade – processamos a realidade através de signos dentro de um processo semiótico de representação. O signo nunca é a própria realidade, mas uma representação (como, da mesma forma, nunca o mapa é o próprio território), isto é, uma representação a partir de um ponto de vista parcial. Desde o fenômeno da paralaxe (mudança aparente na posição de um objeto quando observado de dois pontos de vista diferentes) até a parcialidade ideológica ou política.

Com isso não queremos dizer que a realidade não existe, é apenas um produto da mente – como certa interpretação paródica da semiótica quer nos fazer acreditar.

Do signo decorre o princípio da referencialidade: o signo precisa se referir a algo para existir. A existência do objeto real precede a criação do signo, ainda que sua representação seja sempre parcial.

O signo é, ao mesmo tempo, uma alteridade em relação ao objeto. Signo e objeto têm suas respectivas lógicas ou leis próprias – a realidade é regida por leis próprias (físicas ou sociais), independente da lógica de representação do signo e da linguagem.



Desmontando o jornalismo imparcial

Essa condição semiótica da representação cognitiva da realidade (parcialidade, referencialidade e alteridade) desmonta o mito do “jornalismo imparcial” ou “profissional” da seguinte maneira:

(a) A condição de parcialidade nada tem a ver com desonestidade ou desvio de caráter. Parcialidade refere-se à própria condição humana como ser semiótico.

(b) Isto sim, a negação dessa condição semiótica se constitui numa desonestidade. Ao invés de explicitar, tornar transparente o viés cognitivo e assumir a parcialidade, tenta-se se esconder por trás do álibi da tecnicalidade e do profissionalismo como virtudes de uma suposta imparcialidade.

(c) Aceitar a condição de parcialidade do conhecimento não significa então acreditar que o relativismo seja o nosso destino: a verdade não existiria. Existiriam apenas diferentes pontos de vista e interpretações. Portanto, viva a Pós-verdade!

(d) Não é bem isto, como quer acreditar uma certa visão caricata da semiótica que denuncia uma pretensa “semioticização da realidade”. Fatos e acontecimentos (a matéria-prima da notícia) existem como realidades extra-semióticas, como dados que afetam (afecção) os nossos sentidos. Com regras, leis e lógicas próprias.

(e) O que está em jogo, portanto, não é uma suposta “imparcialidade” ou “profissionalidade”, mas a honestidade intelectual: ter a franqueza de admitir quando dados da realidade colocam em xeque a parcialidade da representação (viés cognitivo, ideologia etc.).

E tornar essa crítica imanente transparente ao distinto público.

           Ao invés de ocultar o crime da má-fé ou desonestidade intelectual através do álibi do conto maravilhoso da missão do “jornalismo imparcial”.

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