quinta-feira, abril 09, 2026

O Apocalipse será anunciado por notificações nos celulares em "Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra"



O fim do mundo não será anunciado por trombetas, mas por notificações de celular. Em seu retorno triunfal ao cinema de gênero, Gore Verbinski apresenta “Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra” (Good Luck, Have Fun, Don't Die, 2025), uma distopia frenética que converte a velha escatologia teológica no novo pavor do século XXI: a supremacia da Inteligência Artificial. Um paranoico e maníaco homem do futuro aparece em uma lanchonete tentando recrutar voluntários para salvar a humanidade dos celulares e IA que ameaçam a obsolescência humana num Apocalipse tecnológico. O filme mergulha na ansiedade algorítmica para questionar se a tecnologia é de fato uma criatura de Frankenstein prestes a nos devorar ou apenas uma cortina de fumaça poética para as opiniões codificadas da elite do Vale do Silício.

Todos nós gostamos da boa e velha Escatologia – “Escatologia”, parte da Teologia que pode ser definida como o “estudo sobre o fim”: se Deus criou tudo isso, como tudo vai terminar? Quando será o Apocalipse e como se salvar no fim dos tempos?

Claro que esse pilar de toda religião salvacionista (ao lado da Teogonia e Cosmogonia) foi secularizado, isto é, na cultura pop foi convertido em narrativas sobre distopias e apocalipses climáticos, astronômicos e geológicos – asteroides, terremotos e climas extremos.

E a bola da vez são as visões escatológicas sobre a Inteligência Artificial – como ela se tornará tão senciente, autônoma e poderosa que decretará o fim da espécie humana. Não porque a IA odeie seus criadores. É porque os humanos simplesmente de tornaram desnecessários no futuro vislumbrado pelos algoritmos.

Lançado em 2025, Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra (Good Luck, Have Fun, Don't Die) marca o retorno triunfal de Gore Verbinski ao cinema de gênero (A Cura) dando sua contribuição às distopias pop sobre a IA.

Misturando sua estética visual hiperdetalhada com um roteiro que parece um episódio de Black Mirror sob o efeito de adrenalina pura, Verbinski acrescenta as velhas premissas de O Exterminador do Futuro 2 atualizada com elementos de Os Mitchells vs. as Máquinas, Matrix, Wall-E e, arrepio, o bug do milênio, com uma pitada do maximalismo extravagante do Oscarizado Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo.

O filme destila a tudo que esteja associado a IA e às consequências corrosivas de vivermos nossas vidas na tela de um celular como prelúdio para um pesadelo apocalíptico, tudo terrivelmente pertinente neste momento particularmente ambíguo quanto às virtudes e pesadelos associados a tecnologia.



Com uma narrativa episódica, cada um dos personagens é apresentado com uma vinheta para mostrar como a tecnologia os afetou negativamente, desde uma professora lutando com uma sala de aula de viciados em TikTok até uma mãe transferindo a consciência de seu filho morto para um clone.

Quase toda a ação ocorre em uma lanchonete isolada em Idaho. A genialidade de Verbinski aqui é transformar o tédio rural local em um campo de batalha que poderá definir o futuro da humanidade. O filme equilibra o humor ácido com um suspense sufocante, usando a rapidez dos diálogos para mascarar o pavor tecnológico que fundamenta a história. A atuação de Sam Rockwell como o "Homem do Futuro" que veio não destruir a humanidade (como em O Exterminado do Futuro), mas para alertar e salvar, é o motor da trama. Sam Rockwell entrega um desespero maníaco que cativa e confunde ao mesmo tempo.

A quantidade de saltos frenéticos pode nos deixar um pouco tontos, especialmente quando somados às regras insanas e sem limites do inimigo IA, que inclui capangas mascarados de porco, brinquedos que ganham vida e, na pior das hipóteses, uma criatura felina gigante devoradora de gente.

Uma narrativa tão frenética que é capaz de fundir os tropos tanto da viagem no tempo quanto dos universos alternativos quânticos – o homem do futuro tenta sucessivas vezes, ao longo das realidades alternativas, recrutar um grupo corajoso (entre os clientes pegos de surpresa entre lanches e cafés) que salve a espécie humana do apocalipse IA.

O excesso narrativo exagerado, apresentado de forma tão extensa, pode ofuscar as observações mais sutis e inteligentes e os momentos mais humanos que funcionam melhor, como a tristeza pelo que a tecnologia já nos tirou e o medo do que ainda está por vir.

Mas os insights de Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra contemplam os três pilares fundamentais do zeitgeist do século XXI: Ansiedade Algorítmica e IA, o efeito viral exponencial da hiperconectividade e aa revalorização do “humano e analógico”.



O título parece conter uma ironia cruel. No século XXI, "divertir-se" e "não morrer" tornaram-se tarefas exaustivas em um mundo que exige produtividade constante e vigilância digital.

Porém, a ansiedade escatológica do filme é também ambígua: ao mesmo tempo que se apresenta como uma crítica ácida à nossa dependência pelo ecossistema digital, também alimenta uma paradoxal propaganda do principal produto do Vale do Silício – promover IA através de uma propaganda distópica. Criar o medo e ansiedade de uma possível “revolução das máquinas” contra os próprios criadores.

Quando sabemos que algoritmo nada mais é do que uma opinião codificada. Toda essa visão escatológica do futuro como forma de esconder as verdadeiras intenções de uma elite tecnológica, desviando o foco da opinião pública dos criadores para a criatura.

O Filme

Sam Rockwell, em uma atuação impecável, interpreta um homem sem nome que invade uma lanchonete lotada de Los Angeles, vestido de plástico e com fios por todo o corpo, divagando sobre como o mundo vai acabar em instantes. Ele precisa que as pessoas o acompanhem agora mesmo se quiserem sobreviver.

Ele é uma espécie de anti-Exterminador do Futuro, um daqueles indivíduos que você vê gritando sobre o apocalipse na esquina, mas que você não leva a sério. No entanto, esse viajante do futuro parece saber mais do que deveria sobre cada um dos frequentadores daquela lanchonete em particular.



Ele lhes conta que ele já conhece a todos porque ele já tentou isso repetidas vezes, em uma espécie de "Feitiço do Tempo" futurista. Quando a missão dá errado, e sempre dá errado, ele pode apertar um botão e reiniciar tudo em outra ramificação quântica da realidade. Como frequentemente acontece, um grupo de pessoas aparentemente comuns de Los Angeles acaba acompanhando nosso intrépido viajante do tempo — talvez aquela noite seja a noite em que eles finalmente consigam derrotar as máquinas.

O Homem do Futuro recruta um casal, Mark e Janet (Michael Peña e Zazie Beetz), uma mãe chamada Susan (Juno Temple), além de outros transeuntes chamados Bob (Daniel Barnett), Marie (Georgia Goodman) e Scott (Asim Chaudry). Uma jovem chamada Ingrid (Haley Lu Richardson) se oferece para participar, mas o Homem não a quer, até que muda de ideia porque está "se sentindo estranho esta noite". A equipe então sai da lanchonete e parte para a missão.

De forma episódica, somos apresentados a cada um desses personagens. Vemos como os professores Mark e Janey têm lutado contra a proliferação da tecnologia nas salas de aula, onde tentam desesperadamente manter um toque humano. Conhecemos uma mãe solteira chamada Susan que perdeu o filho em um tiroteio na escola, mas recebeu uma chance perturbadora de se reencontrar com ele por meio de um clone sombrio. E há uma jovem chamada Ingrid que não só tem uma aversão orgânica a celulares (ela sangra pelo nariz), como também viu seu namorado ser patologicamente sugado por um par de óculos de realidade virtual. Todas essas pessoas tiveram suas vidas abaladas da pior maneira pela tecnologia de uma forma que as torna guerreiras ideais para a luta que está por vir, e assim acabam seguindo o Homem de Jaleco.



O grupo ruma para uma residência próxima, onde, segundo o Homem do Futuro, o Apocalipse começará: eles descobrem um garoto (Artie Wilkinson-Hunt) quando ele está desenvolvendo a IA que hackeará todos os sistemas tecnológicos e dominará a humanidade.

Mas a IA é senciente e ardilosa: comanda uma legião de estudantes secundaristas zumbificados pelos seus snartphones e terroristas armados com máscaras de porcos para atacar o intrépido grupo do Homem do Futuro.  Até um gigantesco monstro com cara de gato devorador de gente é convocado – uma alusão irônica à subcultura da Internet, dominada por memes e vídeos engraçados de bichanos peludos e felpudos.

Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra é a destilação cinematográfica das ansiedades que definem a metade da década de 2020. Ele se conecta ao zeitgeist através de três pilares principais:

(1)   Ansiedade Algorítmica e IA

Vivemos em uma era onde a Inteligência Artificial deixou de ser ficção científica para se tornar uma ferramenta cotidiana (e uma ameaça existencial ao mercado de trabalho e à verdade). O filme captura esse medo de que "o código" já sabe o que vamos fazer antes de nós mesmos. A sensação de que estamos sendo "processados" por sistemas invisíveis é o coração do terror no filme.

(2)   A viralidade exponencial da Hiperconectividade

A narrativa explora como pequenos atos em um canto esquecido do mundo podem derrubar sistemas globais. Isso reflete a nossa realidade de viralização e interdependência. No século XXI, um comentário em uma rede social ou uma falha de segurança em um servidor local pode causar um colapso financeiro ou social em escala mundial.

(3)   A Revalorização do "Humano e Analógico"

O filme sugere que a única defesa contra a perfeição fria da IA é o erro humano, o improviso e a conexão física. Em um mundo dominado pelo digital e pelo isolamento pós-pandêmico, o clímax do filme — pessoas sentadas em uma mesa ignorando seus telefones — é o ato de rebelião mais radical possível.

No cotidiano a IA deixou de ser algo da ficção científica. Porém, a propaganda que as Big Techs fazem sobre ela a joga de volta para a ficção científica: a IA é uma descoberta tão disruptiva e poderosa que, se não tivermos cuidado podermos terminar como na história de Frankenstein, aterrorizados pela criatura que criamos.

 Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra partilha dessa escatologia propagandística.

IA não é um monstro sobrenatural que, num piscar de olhos, nos dominará. Ela nada mais é do que algoritmos codificados por uma elite que pretende se ocultar por trás dessa fetichização da singularidade tecnológica.


 

 

 

Ficha Técnica

Título: Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra

Direção: Gore Verbinski

Roteiro: Matthew Robbinson

Elenco: Sam Rockwell, Juno Temple, Haley Lu Richardson

Produção: 3 Arts Entertainment, Blind Wink Productions

Distribuição: Briarcliff Entertainment

Ano: 2025

País: EUA

 

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