O fim do mundo não será anunciado por trombetas, mas por notificações de celular. Em seu retorno triunfal ao cinema de gênero, Gore Verbinski apresenta “Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra” (Good Luck, Have Fun, Don't Die, 2025), uma distopia frenética que converte a velha escatologia teológica no novo pavor do século XXI: a supremacia da Inteligência Artificial. Um paranoico e maníaco homem do futuro aparece em uma lanchonete tentando recrutar voluntários para salvar a humanidade dos celulares e IA que ameaçam a obsolescência humana num Apocalipse tecnológico. O filme mergulha na ansiedade algorítmica para questionar se a tecnologia é de fato uma criatura de Frankenstein prestes a nos devorar ou apenas uma cortina de fumaça poética para as opiniões codificadas da elite do Vale do Silício.
Todos nós gostamos da boa e velha
Escatologia – “Escatologia”, parte da Teologia que pode ser definida como o
“estudo sobre o fim”: se Deus criou tudo isso, como tudo vai terminar? Quando
será o Apocalipse e como se salvar no fim dos tempos?
Claro que esse pilar de toda religião
salvacionista (ao lado da Teogonia e Cosmogonia) foi secularizado, isto é, na
cultura pop foi convertido em narrativas sobre distopias e apocalipses
climáticos, astronômicos e geológicos – asteroides, terremotos e climas
extremos.
E a bola da vez são as visões
escatológicas sobre a Inteligência Artificial – como ela se tornará tão
senciente, autônoma e poderosa que decretará o fim da espécie humana. Não
porque a IA odeie seus criadores. É porque os humanos simplesmente de tornaram
desnecessários no futuro vislumbrado pelos algoritmos.
Lançado em 2025, Boa Sorte,
Divirta-se, Não Morra (Good Luck, Have Fun, Don't Die) marca o
retorno triunfal de Gore Verbinski ao cinema de gênero (A Cura) dando sua
contribuição às distopias pop sobre a IA.
Misturando sua estética visual
hiperdetalhada com um roteiro que parece um episódio de Black Mirror sob
o efeito de adrenalina pura, Verbinski acrescenta as velhas premissas de O
Exterminador do Futuro 2 atualizada com elementos de Os Mitchells vs. as
Máquinas, Matrix, Wall-E e, arrepio, o bug do milênio, com uma pitada do
maximalismo extravagante do Oscarizado Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo.
O filme destila a tudo que esteja
associado a IA e às consequências corrosivas de vivermos nossas vidas na tela
de um celular como prelúdio para um pesadelo apocalíptico, tudo terrivelmente
pertinente neste momento particularmente ambíguo quanto às virtudes e pesadelos
associados a tecnologia.
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Com uma narrativa episódica, cada um
dos personagens é apresentado com uma vinheta para mostrar como a tecnologia os
afetou negativamente, desde uma professora lutando com uma sala de aula de
viciados em TikTok até uma mãe transferindo a consciência de seu filho morto
para um clone.
Quase toda a ação ocorre em uma
lanchonete isolada em Idaho. A genialidade de Verbinski aqui é transformar o
tédio rural local em um campo de batalha que poderá definir o futuro da
humanidade. O filme equilibra o humor ácido com um suspense sufocante, usando a
rapidez dos diálogos para mascarar o pavor tecnológico que fundamenta a
história. A atuação de Sam Rockwell como o "Homem do Futuro" que veio
não destruir a humanidade (como em O Exterminado do Futuro), mas para alertar e
salvar, é o motor da trama. Sam Rockwell entrega um desespero maníaco que
cativa e confunde ao mesmo tempo.
A quantidade de saltos frenéticos pode
nos deixar um pouco tontos, especialmente quando somados às regras insanas e
sem limites do inimigo IA, que inclui capangas mascarados de porco, brinquedos
que ganham vida e, na pior das hipóteses, uma criatura felina gigante
devoradora de gente.
Uma narrativa tão frenética que é capaz
de fundir os tropos tanto da viagem no tempo quanto dos universos alternativos
quânticos – o homem do futuro tenta sucessivas vezes, ao longo das realidades
alternativas, recrutar um grupo corajoso (entre os clientes pegos de surpresa
entre lanches e cafés) que salve a espécie humana do apocalipse IA.
O excesso narrativo exagerado,
apresentado de forma tão extensa, pode ofuscar as observações mais sutis e
inteligentes e os momentos mais humanos que funcionam melhor, como a tristeza
pelo que a tecnologia já nos tirou e o medo do que ainda está por vir.
Mas os insights de Boa Sorte,
Divirta-se, Não Morra contemplam os três pilares fundamentais do zeitgeist
do século XXI: Ansiedade Algorítmica e IA, o efeito viral exponencial da
hiperconectividade e aa revalorização do “humano e analógico”.
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O título parece conter uma ironia
cruel. No século XXI, "divertir-se" e "não morrer"
tornaram-se tarefas exaustivas em um mundo que exige produtividade constante e
vigilância digital.
Porém, a ansiedade escatológica do
filme é também ambígua: ao mesmo tempo que se apresenta como uma crítica ácida
à nossa dependência pelo ecossistema digital, também alimenta uma paradoxal
propaganda do principal produto do Vale do Silício – promover IA através de uma
propaganda distópica. Criar o medo e ansiedade de uma possível “revolução das
máquinas” contra os próprios criadores.
Quando sabemos que algoritmo nada mais
é do que uma opinião codificada. Toda essa visão escatológica do futuro como
forma de esconder as verdadeiras intenções de uma elite tecnológica, desviando
o foco da opinião pública dos criadores para a criatura.
O Filme
Sam Rockwell, em uma atuação
impecável, interpreta um homem sem nome que invade uma lanchonete lotada
de Los Angeles, vestido de plástico e com fios por todo o corpo, divagando
sobre como o mundo vai acabar em instantes. Ele precisa que as pessoas o
acompanhem agora mesmo se quiserem sobreviver.
Ele é uma espécie de anti-Exterminador
do Futuro, um daqueles indivíduos que você vê gritando sobre o apocalipse na
esquina, mas que você não leva a sério. No entanto, esse viajante do futuro
parece saber mais do que deveria sobre cada um dos frequentadores daquela
lanchonete em particular.
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Ele lhes conta que ele já conhece a
todos porque ele já tentou isso repetidas vezes, em uma espécie de
"Feitiço do Tempo" futurista. Quando a missão dá errado, e sempre dá
errado, ele pode apertar um botão e reiniciar tudo em outra ramificação
quântica da realidade. Como frequentemente acontece, um grupo de pessoas
aparentemente comuns de Los Angeles acaba acompanhando nosso intrépido viajante
do tempo — talvez aquela noite seja a noite em que eles finalmente consigam
derrotar as máquinas.
O Homem do Futuro recruta um casal,
Mark e Janet (Michael Peña e Zazie Beetz), uma mãe chamada Susan (Juno Temple),
além de outros transeuntes chamados Bob (Daniel Barnett), Marie (Georgia
Goodman) e Scott (Asim Chaudry). Uma jovem chamada Ingrid (Haley Lu Richardson)
se oferece para participar, mas o Homem não a quer, até que muda de ideia
porque está "se sentindo estranho esta noite". A equipe então sai da
lanchonete e parte para a missão.
De forma episódica, somos apresentados
a cada um desses personagens. Vemos como os professores Mark e Janey têm lutado
contra a proliferação da tecnologia nas salas de aula, onde tentam
desesperadamente manter um toque humano. Conhecemos uma mãe solteira chamada
Susan que perdeu o filho em um tiroteio na escola, mas recebeu uma chance
perturbadora de se reencontrar com ele por meio de um clone sombrio. E há uma
jovem chamada Ingrid que não só tem uma aversão orgânica a celulares (ela
sangra pelo nariz), como também viu seu namorado ser patologicamente sugado por
um par de óculos de realidade virtual. Todas essas pessoas tiveram suas vidas abaladas
da pior maneira pela tecnologia de uma forma que as torna guerreiras ideais
para a luta que está por vir, e assim acabam seguindo o Homem de Jaleco.
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O grupo ruma para uma residência
próxima, onde, segundo o Homem do Futuro, o Apocalipse começará: eles descobrem
um garoto (Artie Wilkinson-Hunt) quando ele está desenvolvendo a IA que hackeará
todos os sistemas tecnológicos e dominará a humanidade.
Mas a IA é senciente e ardilosa:
comanda uma legião de estudantes secundaristas zumbificados pelos seus
snartphones e terroristas armados com máscaras de porcos para atacar o
intrépido grupo do Homem do Futuro. Até um gigantesco monstro com cara de
gato devorador de gente é convocado – uma alusão irônica à subcultura da
Internet, dominada por memes e vídeos engraçados de bichanos peludos e
felpudos.
Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra é a destilação cinematográfica das
ansiedades que definem a metade da década de 2020. Ele se conecta ao zeitgeist
através de três pilares principais:
(1)
Ansiedade
Algorítmica e IA
Vivemos em uma era onde a Inteligência
Artificial deixou de ser ficção científica para se tornar uma ferramenta
cotidiana (e uma ameaça existencial ao mercado de trabalho e à verdade). O
filme captura esse medo de que "o código" já sabe o que vamos fazer
antes de nós mesmos. A sensação de que estamos sendo "processados"
por sistemas invisíveis é o coração do terror no filme.
(2)
A viralidade
exponencial da Hiperconectividade
A narrativa explora como pequenos atos
em um canto esquecido do mundo podem derrubar sistemas globais. Isso reflete a
nossa realidade de viralização e interdependência. No século XXI, um
comentário em uma rede social ou uma falha de segurança em um servidor local
pode causar um colapso financeiro ou social em escala mundial.
(3)
A
Revalorização do "Humano e Analógico"
O filme sugere que a única defesa
contra a perfeição fria da IA é o erro humano, o improviso e a conexão física.
Em um mundo dominado pelo digital e pelo isolamento pós-pandêmico, o clímax do
filme — pessoas sentadas em uma mesa ignorando seus telefones — é o ato de
rebelião mais radical possível.
No cotidiano a IA deixou de ser algo da
ficção científica. Porém, a propaganda que as Big Techs fazem sobre ela a joga
de volta para a ficção científica: a IA é uma descoberta tão disruptiva e
poderosa que, se não tivermos cuidado podermos terminar como na história de Frankenstein,
aterrorizados pela criatura que criamos.
Boa
Sorte, Divirta-se, Não Morra partilha dessa escatologia propagandística.
IA não é um monstro sobrenatural que,
num piscar de olhos, nos dominará. Ela nada mais é do que algoritmos codificados
por uma elite que pretende se ocultar por trás dessa fetichização da
singularidade tecnológica.
Ficha Técnica
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Título: Boa
Sorte, Divirta-se, Não Morra |
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Direção: Gore Verbinski |
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Roteiro: Matthew Robbinson |
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Elenco: Sam Rockwell, Juno
Temple, Haley Lu Richardson |
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Produção: 3 Arts
Entertainment, Blind Wink Productions |
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Distribuição: Briarcliff Entertainment |
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Ano:
2025 |
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País: EUA |
quinta-feira, abril 09, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira





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