“Mudança de pensamento”. “Reflexo das
pressões feministas e das discussões sobre diversidade”. Alguns mais eloquentes falam em “vitória da sociedade”. São as repercussões de primeira hora da nova
vinheta do carnaval da TV Globo na qual vemos uma nova Globeleza vestida,
decretando o fim da tradicional nudez maquiada por camadas de tintas coloridas
e adereços metálicos imortalizados pela estética retro-futurista do designer
digital Hans Donner. Esse suposto avanço deve ser colocado na perspectiva de
uma emissora pós-impeachment que vive a tensão de ter que aparentar ser imparcial
e progressista. Mas o tautismo (autismo + tautologia) crônico da emissora
transforma qualquer demanda da sociedade em um signo vazio no interior de um
sistema linguístico autônomo sem qualquer referencia no mundo real. A vinheta é
binária e circular. Não consegue superar o simbolismo da Globeleza que sempre
foi expressão de um projeto nacional secreto no qual a Globo teria um papel
decisivo - criar uma embalagem supostamente moderna para o único produto que o
Brasil teria a oferecer para o mundo: suas belezas naturais e
hiperssexualizadas, desfrutáveis para todo o planeta a um preço módico pela
diferença cambial.
Para uma emissora que já chegou a 100% de
audiência com a novela Selva de Pedra
em 1972 e o Jornal Nacional dando 80%
na década de 1980, os tempos atuais são bem diferentes para a Globo. Em um
momento no qual a emissora chega a comemorar 17% de audiência para o principal
telejornal da rede, a emissora está diante de um novo desafio: o de manter a
aparência de imparcialidade.
Além da concorrência da Internet,
dispositivos móveis, plataformas de streaming
e uma nova geração que aponta para um futuro no qual a TV aberta é simplesmente
irrelevante, a Globo também se depara com outra questão: nos últimos dez anos a
Globo teve que assumir a liderança de um golpe político que culminou com o
impeachment no ano passado. Foi praticamente obrigada a assumir o papel de um
partido diante da inépcia de uma oposição política que teve de ser levada a
reboque através pauta jornalística diária com denúncias seletivas e profecias
auto-realizadoras de crises.
A Globo politicamente venceu, mas sabe que
essa vitória pode ter sido de Pirro: apenas adiou uma inexorável decadência
pelas transformações tecnológicas e geracionais. Por isso, atualmente a
emissora está possuída pela necessidade diária de provar que sempre foi
imparcial, e que assim continuará, mesmo com o atual governol que ajudou a
colocar no poder.
Ao lado do gigantismo e o monopólio de
décadas, soma-se essa urgência da Globo em criar uma imagem de imparcialidade
diante de uma opinião pública (em todos o espectro político) que sempre teve
para ela um olhar de desconfiança.
A resposta tautista
E como viemos discutindo em postagens
anteriores, a resposta a tudo isso sempre foi tautista (Autismo + Tautologia)
- de forma autista a emissora fecha-se em copas diante das ameaças externas.
Isso não quer dizer que a Globo fique cega aos cenários externos. Apenas que a
realidade externa passa a ser interpretada a partir dos seus próprios termos –
a tautologia.
É a partir dessa perspectiva que deve ser
interpretada a nova cartada da Globo em se adaptar aos novos tempos ameaçadores
a sua hegemonia. Pela primeira vez é feita uma mudança significativa na vinheta
de Carnaval e, logo de cara, o “choque”: depois de quase 30 anos, a Globeleza
está vestida, e não mais nua sob camadas de pinturas coloridas.
Por todos esses anos a figura da Globeleza
sempre foi criticada por ser o símbolo da exploração do corpo da mulher
“mulata”, da redução a fetiche e objeto sexual carnavalesco, enquanto no
restante da programação da emissora a raça negra não tem qualquer tipo de
protagonismo – na verdade vendo suas telenovelas e programas de entretenimento,
parece que vivemos em algum país europeu perdido na América do Sul...
Mas agora, a Globeleza não só ostenta roupas,
mas também ilustra os diversos carnavais de todo o País como o Frevo, Axé,
Maracatu e Bumba Meu Boi, além de mulheres de outras etnias.
Por que depois de anos de hiperssexualização,
a Globeleza está agora vestida? Alguns falam de “fruto após uma longa luta
travada pelos movimentos sociais” ou “reflexo da pressão das organizações de
feministas e movimento negro pela intensificação das críticas nos últimos
anos”.
Mudança de mentalidade da emissora?
Consciência negra e feminista numa emissora marcada historicamente pelas opções
mais conservadoras e politicamente retrógradas? Isso até faz lembrar o otimismo
do comunista e escritor Dias Gomes que via na Globo a oportunidade de levar
mensagens progressista para as massas em plena telenovela do horário nobre...
Globeleza é o secreto projeto nacional da Globo
A vinheta de carnaval da nova Globeleza nada
mais é do que outra resposta tautista de uma emissora assombrada pelo seu
passado, presente e futuro.
Para o artista digital austríaco Hans Donner,
que por décadas conferiu a identidade visual metálico e futurista da Globo, a
Globeleza era a síntese entre a sua estética indefectível sci fi e os estereótipos da natureza e
sexualidade com os quais a emissora sempre se projetou no mercado internacional.
O brilho metálico, glitter, purpurinado entre
grafismos e adereços futuristas sobre um corpo nu da dançarina negra era o
simbolismo máximo de um projeto de País que a Globo secretamente sempre
concebeu: o brilho futurista de uma suposta modernidade como adereço de uma
vitrine que oferece o País como tesouro de riquezas naturais desfrutáveis para
todo o planeta.
Porém, o futurismo sci fi de Hans Donner
virou um futurismo retro. As bancadas dos telejornais mais pareciam naves
espaciais e as vinhetas da emissora uma grande space opera. Tudo desconectado das transformações culturais,
sociais e tecnológicas desse início de século.
Em 2014 a nova estética do programa Fantástico já apontava para essa
aposentadoria da estética Hans Donner: saiam as mulheres metálicas e os sólidos
geométricos voando em círculos no vazio para entrar uma estética mais
“orgânica” com a cara do “funk” e a nova “Classe Média C”.
Além disso, outro fantasma vem assombrando a
Globo, desde a sua vitória de Pirro política: o fantasma da parcialidade - e se
depois de defender colérica e histericamente a necessidade do impeachment, todos
começarem a perceber que o telejornalismo da emissora agora está “pegando
leve”? Como fica a credibilidade de um dos seus principais produtos se a pauta
perder a contundência e ficar nas “notícias diversas”?
O fim da estética retro-futurista de Hans Donner |
A Globeleza binária
É óbvio que a “nova” Globeleza é um tipo de
reposta às discussões sobre diversidade, igualdade de gênero e as lutas contra
o machismo e a violência doméstica. Porém, uma resposta tautista.
A resposta da Globo é simplesmente binária:
vestida/não vestida. Como resposta tautológica, ela é circular. É a chamada “circularidade
do código”: o fato da Globeleza estar vestida não significa uma positividade
pelo seu conteúdo (empoderamento feminino, por exemplo), mas negativamente pela
simples oposição binária tipo 0/1 com outro termo do sistema linguístico. É uma
reposta comutável, modulável.
Os signos do sistema linguístico da emissora
são arbitrários, isto é, não guardam nenhuma relação natural entre significante
e significado, o signo e o seu significado correspondente no mundo real.
O sistema tautológico somente seria superado
se o próprio simbolismo da Globeleza desaparecesse – a própria personagem fosse
suprimida e substituído por outro paradigma simbólico para o Carnaval.
Sob a aparência politicamente correta e
imparcial de supostamente estar antenada com as transformações culturais
brasileiras, a Globo mantém de forma tautista o sistema linguístico fetichista
e regressivo da Globeleza. Pelo princípio do tautismo o input que entra no sistema será sempre traduzido a partir da
descrição que a Globo tem de si mesma.
E no caso do Carnaval, a principal vitrine
brasileira para o planeta, a descrição que a emissora faz de si mesma é através
de um colonizado e secreto projeto nacional. À Globo a História teria reservado
o papel de criar uma embalagem modernosa e, desculpe o trocadilho, globalizada
para aquilo que unicamente o Brasil teria a oferecer para o mundo: suas belezas
naturais e hiperssexualizadas, desfrutáveis a um preço módico pela diferença
cambial.
Essa tensão da convivência entre o tautismo e
a necessidade de parecer imparcial é sentida nos telejornais. Por exemplo,
depois de anos transformando boas notícias em más em relação às ações da
prefeitura petista de Haddad em São Paulo, com o tucano João Dória Jr. os
âncoras repetem histericamente o mantra “estamos de olho!” para cada medida anunciada
pela nova administração.
Visto nessa perspectiva, a nova Globeleza
vestida é mais um ato para mascarar o tautismo crônico. É o feminismo e a
afirmação da diversidade traduzida pelos próprios termos da chamada “Vênus
Plantinada”.
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