sábado, abril 26, 2014

O terror semiótico dos zumbis no filme "Pontypool"

O que acontece quando um filme sobre zumbis mistura referências a escritores como Norman Mailer e William Burroughs? Resulta em um dos mais surpreendentes e originais filmes do gênero dos últimos anos. A produção canadense “Pontypool”(2008) cruza dois insights da literatura ensaística: as coincidências sincromísticas que antecederiam eventos importantes na história e a linguagem humana como um vírus letal que parasita a humanidade. Em “Pontypool” o vírus não é disseminado pelo sangue, ar ou corpo, mas pelas palavras. O que resulta num interessante “terror semiótico”: certas palavras estariam infectadas, aquelas mais carregadas de afeto e emoção. E nos Dias dos Namorados isso pode ser fatal... Filme sugerido pelo nosso leitor Felipe Resende.

Quando pensamos em filmes sobre zumbis, vem à mente as recorrentes cenas de sangue, corpos despedaçados e olhares selvagens de pessoas transfiguradas querendo comer o cérebro dos vivos. Mas, o que dizer de um filme sobre o tema cuja proposta é juntar ideias do escritor e ensaísta Norman Mailer com as do escritor beatnik William Burroughs dentro de uma atmosfera que lembra a transmissão radiofônica de Guerra dos Mundos de Orson Welles de 1938? O resultado são zumbis infectados por uma espécie de virus semiótico.

Essa é a produção canadense Pontypool (2008) dirigida por Bruce McDonald e baseada no livro do escritor Tony Burgess Pontypool Changes Everything. Para os aficionados do gênero, Pontypool pode causar estranheza porque além de ser bem econômico em termos de sangue e visceras, todo o filme ocorre no interior do estúdio de uma emissora de rádio em uma pequena comunidade canadense, em uma crescente atmosfera claustrofóbica. E os zumbis não foram contaminados pelo sangue, ar ou pelo corpo, mas por algumas palavras quando elas são ditas e compreendidas pela vítima, tornando-se o hospedeiro de uma nova forma de vida: o vírus da linguagem.

Tanto o livro como o filme faz uma surpreendente conexão entre a teoria de Norman Mailer sobre o porquê da nossa consciência não perceber as conexões causais entre eventos aparentemente aleatórios do mundo e a convicção de Burroughs que a linguagem é um vírus letal que transformou o homem em seu hospedeiro privilegiado.

O filme


A narrativa acompanha três pessoas em uma emissora de rádio na cidade rural de Pontypool em um dia de pesada nevasca em pleno Dia dos Namorados – Grant Mazzy, o DJ; Sidney Briar, a produtora; e Laurel Ann, a assistente de produção. Relatórios sobre estranhas ocorrências na cidade começam a chegar: inexplicavelmente uma multidão enfurecida tenta invandir um edifício onde está o consultório do doutor John Mendez.

Aos poucos, os relatos vão se amplificando, com mais distúrbios em outros pontos da pequena localidade. Relatos fragmentados de assustados correspondentes da rádio, que relatam atos de violência e canibalismo. Ao vivo, Mazzy é surpreendido com uma ligação da BBC querendo colocá-los ao vivo na TV para que deem uma explicação sobre os eventos. A BBC acredita que os distúrbios sejam políticos motivados por alguma recorrência de terrorismo separatista de uma província franco-canadense, como ocorrido na década de 1960 naquele país.

Três pessoas em um estúdio, capazes de se comunicar e receber informações do mundo exterior, mas assustados e sem entender o que está acontecendo, o que lembra bastante a histórica transmissão radiofônica de Guerra dos Mundos em 1938 pela rádio CBS que provocou uma onda de pânico entre os ouvintes.

Tanto o espectador como os personagens do filme são envolvidos nesse clima claustrofóbico onde nos agarramos em pequenas pistas para tentar estabelecer uma causa, uma conexão, alguma explicação. O que nos força a nos concentrarmos nos diálogos do trio na tentativa de juntar as peças de algo sinistro que cresce em Pontypool.

“Espasmos da realidade”


O filme inicia com o relato de um evento fortuito: o desaparecimento de um gato chamado Honey que quase foi atropelado pelo carro da Sra. Colette Piscine. A narração em of cria um curioso jogo de trocadilhos que será uma das chaves de explicação do terrível vírus que contaminará as pessoas: “colette” que soa como “culotte” (calça em francês) que em inglês é “Panty” e “Piscine” (piscina) que equivale a “pool” em inglês. A ponte onde ocorreu o incidente chamava-se Pont de Flaque: “flaque também significa “piscina” em francês – “Pant Pool”... “Pont Pool”... Pont de Flaque... onde quase foi atropelado o gato chamado Honey (“mel”, forma retórica de afeto, em pleno Dia dos Namorados) na cidade de Pontypool...

Coincidências significativas? O filme aproxima esse evento aparentemente casual à convicção sincromística de Norman Mailer presente em livros como Existential Errands de que no despertar de grandes eventos, tanto antes quanto depois, ocorrem estranhas coincidências como fossem pequenos espasmos da realidade, que depois retornam ao seu estado normal. De repente nomes, sobrenomes, aniversários e demais coisas supérfluas passam estranhamente a se relacionar entre si. Um efeito em cascata que é um sintoma de algo importante acontecerá, como as coincidências que envolveram o assassinato de John Kennedy em 1963.

Essa introdução do filme associando fenômenos sincromísticos às palavras se junta à grande sacada criativa do filme: as pessoas estão sendo contaminadas através da linguagem, por certas palavras infectadas – principalmente palavras carregadas de afeto ou de efeito retórico – “amor”, “honey”, “querida” etc.. E no Dia dos Namorados, palavras assim são as mais repetidas.

Ao ouvir ou pronunciar essas palavras a vítima entra num estado que é descrito com mais detalhes no livro de Burgess no qual se baseou o filme Pontypool: “a praga se manifesta  na pessoa como uma espécie de déjà vu e com um estado de afasia que o acompanha. Tudo que acontece se apresente como se já tivesse acontecido. Cada realização deve ser duplicada contra si mesmo. O tempo presente transforma-se em uma ladeira escorregadia. O “agora” transforma-se numa lesão profunda e com isso essa nova doença se dissemina” (BURGESS, Tony, Pontypool Changes Everything, Toronto: ECW Press, 1998, p.148).

Para o personagem Doutor John Mendez, o vírus se duplica através da compreensão das palavras, que são repetidas pelos zumbis até eles quererem se matar, matando outra vítima para que a “lesão profunda” do “agora” seja eliminada.

Terror semiótico


O filme Pontypool apresenta em seu argumento um surpreendente “terror semiótico”. William Burroughs acreditava que a linguagem era uma doença viral, maligna e letal. E não se tratava de nenhuma metáfora ou analogia, mas algo literal: um vírus que atingiu primeiramente um certo grupo de símios, tornando-os aptos a exercerem a linguagem. Um vírus que estabeleceu uma relação simbiótica com o hospedeiro que a partir daí passou a encarar o vírus como parte útil de si mesmo.

Esse vírus (o signo) causou uma profunda lesão: a chamada “cisão semiótica”, uma separação radical entre o homem e o real – estamos condenados a não mais experimentarmos o real como ele é, mas a conviver com signos da realidade, realidades de segunda mão fabricadas pelo código da linguagem viral – simulacros do real.

No filme, quando a vítima ouve a palavra carregada de sentimento e afeto, ela experimenta aquilo que o escritor Tony Burgess chama de “déjà vu” e “afasia”: ele começa a repetir a palavra para tentar capturar essa transitividade entre o signo e o real. Mas é impossível, tentando então o suicídio a partir da destruição selvagem de outra vitima. Como se quisesse ultrapassar a barreira dos signos, devorando o próprio real.

Alguma coisa parecida como a pessoa que come o menu do restaurante como se comesse os próprios pratos descritos nele!

Há uma expressão oriental que diz que “as palavras são coisas”. A teoria de Norman Mailer citada no filme sobre um efeito em cascata de coincidências de nomes antes da ocorrência de eventos significativos é nitidamente sincromística. Lembra a hipótese de pesquisadores como Jake Kotze, Jason Horesley e Christopher Knowles acreditam que há um texto invisível no Universo, conexões significativas entre eventos que, vistos superficialmente, parecem ter causalidade dispare. Na verdade os eventos estariam imersos em uma rede formada pelo inconsciente coletivo cuja dinâmica é baseada nas chamadas formas-pensamento e arquétipos – sobre esse tema clique aqui.

Pontypool ainda sugere outros subtemas como o de uma emissora de rádio ser a disseminadora de palavras infectadas por vírus. Uma referencia satírica à propagação das músicas comerciais, spots, jingles publicitários, slogans e bordões criados propositalmente para disseminação e repetição. Como o exemplo daquelas músicas bregas que, embora racionalmente as rejeitemos, seus refrões grudentos insistem em se repetir em nossas mente como uma espécie de praga viral.

E, no final, a mais sarcástica das ironias no filme: a descoberta de que o vírus zumbi é disseminado unicamente pela língua inglesa, o que obriga os personagens a dialogarem em francês. Será uma referência irônica a indústria do entretenimento norte-americana e a sua capacidade de disseminação dos seus conteúdos para todo o planeta?


Aos leitores que forem assistir ao filme um conselho: continuem assistindo aos créditos finais porque durante e logo depois acompanhamos diálogos que serão importantes para a compreensão da narrativa.

Ficha Técnica


Título: Pontypool
Direção: Bruce McDonald
Roteiro: Tony Burgess baseado em seu próprio livro “Pontypool Changes Everything”
Elenco: Stephen McHattie, Lisa Houle, Georgina Reilly
Produção: Ponty Up Pictures, Shadow Shows
Distribuição: IFC Films
Ano: 2008
País: Canadá



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