quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Bananas, "haciendas", Mutantes e Bad Bunny na guerra híbrida



Entre o "Cantor de Mambo" dos Mutantes em 1972 e a apoteose de Bad Bunny no Super Bowl em 2026, a percepção crítica da intelectualidade brasileira parece ter sofrido uma curiosa involução. Enquanto a Tropicália identificava na estética das bananas e das "haciendas" uma paródia do controle geopolítico norte-americano, o progressismo atual celebra o espetáculo da indústria cultural como uma vitória política, ignorando que a cenografia do "quintal ideal" dos EUA continua intacta — apenas devidamente atualizada pelo verniz do empreendedorismo neoliberal. A performance de Bad Bunny, longe de ser um manifesto de ruptura, reafirma o fetiche da "hacienda" colonial e expõe uma esquerda carente de heróis, que hoje confunde a reafirmação de estereótipos com resistência política e soberania cultural.  

       

Durante a transmissão brasileira do “Halftime Show” do Super Bowl com o cantor porto-riquenho Bad Bunny, nesse último domingo (08/02), ao ver a impressionante cenografia estilizada de latifúndios de pés de cana-de-açúcar, cortadores vestidos imaculadamente de branco com facões cortando a plantação, quiosques e fachadas de pequenos comércios com empreendedores vendendo quitutes e serviços de latinidade aqui e ali etc., o locutor sintomaticamente exclamou: “Parece o Brasil!”.

E, numa curiosa semiose, veio à mente desse humilde blogueiro uma música da banda brasileira Mutantes chamada “Cantor de Mambo”. Uma paródia de cantores latino-americanos que ascendem ao mercado fonográfico norte-americano e aos filmes de Hollywood e ficam ricos:

Eu não volto mais pra cá não/Hoje eu sou cantor de mambo/Hoje eu vivo aqui na América/Ganho bem cantando mambo (...) Eu já tenho um Cadillac/Moro aqui em Hollywood/Sou sucesso aqui na América/Sou o rei cantando mambo.

Essa música é de 1972. Mesmo em plena ditadura militar, até como forma de resistência política, o meio cultural e artístico brasileiro aspirava à modernidade para se contrapor a uma latinidade brega promovida pela indústria cultural norte-americana dentro da sua estratégia de controle do seu “quintal” geopolítico na Guerra Fria – desde as bananas nos chapéus de Carmem Miranda em Hollywood na década de 1950.

Pois os cachos de bananas cenográficos estavam lá no show de Bad Bunny, além das representações das “Haciendas” – a AL ideal que os EUA esperam do seu quintal: grandes propriedades rurais, muitas vezes com casas senhoriais, típicas da América Hispânica, focadas na agricultura ou pecuária, historicamente associadas ao sistema de produção colonial. 

No século XXI, as haciendas da AL convertidas a neocolônia digital: fazendões exportadores de comodities com baixo valor agregado, permeado por data centers das Big Techs do Vale do Silício.



É melancólico ver que 53 anos depois esse ímpeto modernista crítico da banda Mutantes desapareceu. Não tanto por causa do meio musical, de resto dominado pela trilha musical dessa neocolônia: música neo-sertaneja e funk ostentação auto tune.

Mas, principalmente, do campo progressista que, esperava-se, tivesse uma visão minimamente crítica sobre o circo midiático e ideológico que representa esses Half Time Shows transmitidos globalmente.

Pelo contrário, o que vimos foi perfis nas redes sociais e portais de notícias dessa zona do espectro político celebrando uma “América Latina unida e potente” no show de uma celebridade pop que supostamente desafiou o governo intolerante e autoritário de Donald Trump:

“Deputada do PSOL propõe que Congresso Nacional conceda título de cidadão honorário do Brasil ao cantor porto-riquenho Bad Bunny”; “VENCEMOS! Bad Bunny citando TODOS os países da América Latina no Superbowl”; A América inteira no palco. Antes de qualquer muro ou discurso de exclusão, existe uma teia cultural que nos une”; “Bad Bunny rompe fronteiras culturais e expõe exclusão estrutural”; “ser latino é celebrar nossas raízes com orgulho”...

E assim por diante, numa esquerda carente, sempre disposta a assinar alguma procuração para alguém ou algo que a represente ou faça as vezes da práxis política. Como foi durante a judicialização da política, em que ministros do STF se tornaram implacáveis heróis contra o golpismo da extrema direita.

Se lá no começo dos anos 1970, para Rita Lee e os irmãos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias era óbvio a estratégia semiótica de cooptar a música latino-americana e transformá-la numa paródia brega pelo american way of life (unificando à sua maneira o quintal geopolítico dos EUA), hoje essa obviedade parece ter se perdido.

Uma obviedade encoberta por camadas e camadas semióticas de indignação seletiva, neoliberalismo progressista (apud Nancy Fraser) e dissonância cognitiva. O resultado de uma guerra híbrida tão bem-sucedida que reduziu a esquerda a um triste personagem em busca de heróis que a redima da derrota.

A ironia é que o herói da vez que desafiou o Império em um típico produto de entretenimento global da indústria cultural desse mesmo Império é de Porto Rico, protetorado norte-americano desde o século XIX. Um território que pertence aos Estados Unidos no meio do Caribe, que rege o território com jurisdição total através da Lei de Relações Federais de Porto Rico de 1950.



“Haciendas”, cana de açúcar e empreendedores

Uma simples análise semiótico-política do Half Time Show do astro de reggaeton “cantor de mambo” Bad Bunny revela que, muito mais do que um desafiador gesto político, o que vemos são todos os estereótipos do perfeito quintal geopolítico segundo a descrição do Império.

Para começar, a impressionante cenografia (por si só um espetáculo de engenharia técnica, projetado para ser montado e desmontado em minutos, sem danificar o campo de jogo) grandes monoculturas (as “haciendas”) de cana de açúcar, coqueiros e muitos cachos de bananas.

Vemos cortadores dos pés de cana com seus facões, imaculadamente vestidos de branco, concentrados no trabalho. Bad Bunny passa e no seu caminho, aqui e li, pequenos quiosques, carrinhos etc. com “empreendedores” vendendo coco, aguardente e até serviços de manicure.

Surge a indefectível sensualidade latino-americana para o fetichismo masculino, com bailarinas sacudindo os quadris e fazendo agachamentos para empinar os traseiros diante do cantor ao lado de coqueiros.

Os valores do empreendedorismo neoliberal (ao lado da pujança dos recursos naturais que explodem em sensualidade e comodities para exportação – o modelo colonial) chega no auge quando Bad Bunny presenteia um prêmio Grammy para um pequeno menino. Antes, o meminino via o próprio Bad Bunny num aparelho de TV vintage. Para depois receber os afagos do cantor que mostra para o garoto latino que também um dia chegará a ser como ele – um rico “cantor de mambo”, também com seu “Cadillac em Hollywood”...

No final, a catarse que fez os progressismos brasileiros delirarem: Bad Bunny, com passos firmes em meio a uma “hacienda” e cercado por músicos e bandeiras dos países latino-americanos, cita todos os países latinos do continente.



E termina exortando confiante: “Seguimos aqui!”.

Uma exortação ambígua: seguimos “aqui”, mas ONDE exatamente? No seu país soberano, independente, procurando o desenvolvimento econômico fora do script neocolonial de exportação de comodities? Ou na América, atrás do sonho americano de um latino também atrás do seu “Cadillac em Hollywood”, desafiando a política anti-imigração de Trump?

Camadas e mais camadas semióticas ocultam aquilo que era tão óbvio há 53 anos: a camada semiótica do empreendedorismo (a ressignificação neoliberal da meritocracia, dessa vez mágica: transmutar força de trabalho em capital), do neoliberalismo-progressista (a transformação da luta de classes em guerra cultural identitária, raça e gênero), da indignação seletiva (Donald Trump como o para-raios do Império) e da dissonância cognitiva (inundação da mídia com notícias tão desconexas que gera a apatia política -  que ajuda a reduzir a política a uma guerra moral de resistência cultural).

“A América não é só os Estados Unidos. Ele (Bad Bunny) mostrou isso para o mundo também”, concluiu a apresentadora Renata Vasconcelos no Jornal Nacional da Globo.

É triste de repente ver a convergência entre o viés do jornalismo da TV Globo com o entusiasmo da mídia progressista.

Que falta faz um político como Leonel Brizola quando aconselhava: “Quando vocês tiverem dúvidas quanto a que posição tomar diante de qualquer situação, atentem: se a Rede Globo for a favor somos contra. Se for contra, somos a favor”.

 

  

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