sexta-feira, fevereiro 13, 2026

'The Plague': por que o presente se tornou tão tóxico? Freud talvez explique


Por que o presente se tornou tão tóxico? Em busca de respostas para os sintomas colaterais das redes sociais, o cinema recente tem promovido uma verdadeira autópsia do início do século XXI. No visceral “The Plague” (2025), o diretor Charlie Polinger utiliza o cenário de um acampamento de polo aquático em 2003 não como um refúgio nostálgico, mas como um laboratório freudiano. Ao transformar o bullying adolescente em um terror atmosférico, o filme revela que o "cancelamento" e o ostracismo digital não são subprodutos da tecnologia, mas heranças de uma mecânica primitiva de grupo que as Big Techs apenas aprenderam a monetizar. “The Plague” serve como um espelho sombrio: o problema nunca foi apenas a ferramenta digital, mas o que sempre fomos capazes de fazer uns com os outros quando o grupo exige um bode expiatório.

Por que tudo deu nisso? Parece que essa é a pergunta que roteiristas estão fazendo a si mesmos na filmografia recente, diante dos sintomas culturais e comportamentais gerados por redes sociais e smartphones.

É expressiva a recorrência de filmes recentes com narrativas ambientadas no início desse século (que os críticos chamam de “estética Y2K”) em era pré-smartphones e pré-redes sociais: Lady Bird – A Hora de Voar (2017), Aftersun (2022); Saltburn (2023); Boy Erased – Uma Verdade Anulada (2018), The Bling Ring (2013), Mid90s (2018), Time Cut (2024), entre outros.

O filme The Plague (2025), estreia na direção de Charlie Polinger, é mais uma produção para essa lista, ambientado no mundo isolado de um acampamento de treinamento de polo aquático para meninos durante o verão de 2003.

Rapidamente The Plague se tornou um marco do cinema contemporâneo ao transformar as dores de crescimento da pré-adolescência em um thriller psicológico beirando o body horror.

Como adultos, é tentador olhar para trás, para os nossos anos de juventude, com uma certa nostalgia. Lembramos como uma época dourada sem responsabilidades, sem dores, uma vida plena e um futuro promissor pela frente, nada além de amigos, brincadeiras e liberdade.

Mas graças a essas falsas memórias e lembranças seletivas esquecemos com muita facilidade que a adolescência é, para ser honesto, uma fase difícil, cheia de ansiedades e dilemas.



The Plague nos ajuda a revisar essas memórias idílicas nos transportando para a tirania da puberdade e as ansiedades da adolescência masculina moderna. A história se passa em 2003, com roupas, música e uma estranheza típica do início dos anos 2000, digna de um filme de comédia adolescente. Mesmo assim, a forma como o filme aborda a cultura do bullying e a competitividade entre os jovens já prenuncia todas as masculinidades violentas que ainda hoje se manifestam – foram somente ampliadas e exponenciadas pelas tecnologias digitais e gadgets tecnológicos.

Esse filme se soma a esse aparente esforço dessa terceira década do século em procurar respostas numa era pré onipresença digital em nossas vidas. Num tempo em que a Internet estava circunscrita a telas de desktops que eram encarados como mais um eletrodoméstico em casa.

Mas o foco de The Plague não é nostálgico como muitos filmes listados acima. A ideia é trazer o desconforto, medo e atmosfera de filme de terror que nunca se concretiza. Fica apenas o terror atmosférico, graças ao design de som repleto de samples vocais de Johan Lenox – em muitos momentos nas cenas de piscina nos sentimos como se estivéssemos afogando.

O filme quer nos revelar que todos os fenômenos atuais de bullying digital, stalkers e toda sorte de toxicidades nas redes sociais não é um problema atual ou exclusiva desso geração de nativos digitais.

Vem de muito antes, ainda do mundo analógico em que a sociabilidade era efetuada em instituições como família, escola e acampamentos de férias como mostrado no filme.



O que vemos hoje é intensificação desses problemas com o online e o tempo real das redes sociais. Intensificou-se porque as Big Techs descobriram que o ódio e intolerância são muito mais lucrativos do que o amor e amizade. Porque engajam, geram clickbaits, volume de tráfego e mais visualizações.

O título “A Praga” (The Plague) faz nos lembrar muito das teses de Freud em "Psicologia das Massas e a Análise do Eu" (1921): o contágio social, isto é, a ideia de que "tocar" ou se associar a alguém "não legal" infecta sua própria reputação, gerando uma espécie de morte social.

No filme, a "praga" é uma doença imaginária (inicialmente) usada para isolar o pária do acampamento, dentro da dinâmica do bode expiatório para gerar a coesão grupal.

No século XXI, essa dinâmica reflete perfeitamente a cultura do cancelamento e a viralidade do ostracismo digital.

O Filme

Ambientado no mundo isolado de um acampamento de treinamento de polo aquático para meninos durante o verão de 2003, The Plague é ao mesmo tempo estilizado e ascético. Grandes e ousadas mudanças na linguagem visual e no design de som se alternam com momentos de quietude e silêncio. Essa interação entre a sobrecarga sensorial e a solidão repentina reflete o estado de espírito do vigilante novato Ben (Everett Blunck) enquanto processa as regras sociais estressantes que podem levar ao seu ostracismo.

Ben é um garoto sensível e desengonçado de 12 anos que tenta desesperadamente se encaixar entre os colegas mais confiantes e desajeitados do acampamento de polo aquático.

Ele é de Boston, fruto de uma vida familiar difícil, e é notavelmente mais empático do que seus colegas. Quando o treinador dos meninos Daddy Wags (Joel Edgerton, que também produz o filme) pergunta a eles o que é polo aquático, Ben pensa que se trata de "trabalhar juntos como uma grande família"; os outros garotos, especialmente o líder Alfa brincalhão, Jake (Kayo Martin), estão mais preocupados em desenhar pênis no quadro branco do treinador. 



Mas, enquanto tenta navegar pelos códigos sociais confusos e muitas vezes arbitrários do grupo, Ben se depara com um dos rituais aparentemente mais cruéis de Jake e seus amigos: o ostracismo sistemático do outro garoto esquisito do grupo, o barrigudo e desajeitado Eli (Kenny Rasmussen), que eles afirmam ter "a peste".

Se você o tocar, pega a doença, e seu "cérebro vira papinha de bebê", explica Jake alegremente a Ben. O dilema é cristalino: Eli pode ser o único esquisito de quem Ben realmente gosta, mas ele tem tanto medo de perder o capital social do grupo que o defende que começa a aceitar participar do bullying.

O filme estabelece um campo de conflitos e opressão ao estilo do romance "Senhor das Moscas" de William Golding com imposição de normas sociais e posturas masculinas pré-púberes.

O filme explora essas angústias com uma direção impecável e um domínio surpreendente de seus jovens atores. Cada teste da capacidade de Ben de se enturmar com a turma se desenrola como fosse uma sequência de terror: lugares no refeitório, etiqueta no chuveiro coletivo, ostentação vulgar sobre sexo e masturbação. Tudo é opressor para Ben, e The Plague captura essa ansiedade em cada close-up perturbador e em cada escolha de design de som para sustos repentinos.



O tema da falência da autoridade e do adulto ausente está presente no personagem do treinador Daddy Wags representa a autoridade que vê o bullying, mas não sabe (ou não quer) intervir de forma eficaz, oferecendo apenas clichês de autoajuda como "seja você mesmo".

Ao mesmo tempo reflete a desilusão atual da Geração Z com instituições e figuras de autoridade que parecem incapazes de lidar com as complexidades da saúde mental e do abuso sistêmico no mundo real e digital.

Como dissemos acima, o título “A Praga” é uma relação direta com as teses freudianas sobre a formação do Eu no grupo. Freud argumentava que um grupo se forma quando indivíduos colocam um mesmo objeto (o líder ou uma ideia) no lugar de seu Ideal do Eu.

O personagem Jake (o líder alfa) torna-se esse ideal. Em consequência, Ben (o protagonista) para de agir de acordo com sua própria bússola moral (seu Eu) e passa a agir conforme as exigências do grupo. Para ser amado e aceito pela "massa", ele permite que sua empatia por Eli (o “contaminado” pela praga) seja suprimida.

Para Freud, o que mantém um grupo unido não é apenas o medo, mas laços afetivos (libidinais). O "Nós" contra "Eles": no filme, a invenção da "Praga" serve para criar uma fronteira. A identificação entre os meninos "saudáveis" é fortalecida pelo ódio comum ao "infectado" (Eli).

Freud afirmava que, no grupo, o indivíduo regride a estágios primitivos de desenvolvimento. A crueldade física no polo aquático e a histeria coletiva sobre a doença imaginária mostram essa descida ao comportamento da "horda primeva", onde a civilidade é descartada em favor da sobrevivência tribal.

É paradoxal como em um ambiente altamente tecnológico, em pleno século XXI, o suprassumo do desenvolvimento tecnocientífico não foi capaz de nos transformar.

Principalmente quando os promotores do desenvolvimento tecnocientífico descobriram que a nossa herança psíquica primitiva é muito lucrativa.


  

Ficha Técnica

Título:  The Plague

Direção: Charlie Polinger

Roteiro: Charlie Polinger

Elenco: Joel Edgerton, Everett Blunck, Kenny Rasmussen, Kayo Martin

Produção: Doublethink, Five Henrys

Distribuição: IFC Films

Ano: 2025

País: Austrália

 

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