Por que o presente se tornou tão tóxico? Em busca de respostas para os sintomas colaterais das redes sociais, o cinema recente tem promovido uma verdadeira autópsia do início do século XXI. No visceral “The Plague” (2025), o diretor Charlie Polinger utiliza o cenário de um acampamento de polo aquático em 2003 não como um refúgio nostálgico, mas como um laboratório freudiano. Ao transformar o bullying adolescente em um terror atmosférico, o filme revela que o "cancelamento" e o ostracismo digital não são subprodutos da tecnologia, mas heranças de uma mecânica primitiva de grupo que as Big Techs apenas aprenderam a monetizar. “The Plague” serve como um espelho sombrio: o problema nunca foi apenas a ferramenta digital, mas o que sempre fomos capazes de fazer uns com os outros quando o grupo exige um bode expiatório.
Por
que tudo deu nisso? Parece que essa é a pergunta que roteiristas estão fazendo
a si mesmos na filmografia recente, diante dos sintomas culturais e
comportamentais gerados por redes sociais e smartphones.
É
expressiva a recorrência de filmes recentes com narrativas ambientadas no
início desse século (que os críticos chamam de “estética Y2K”) em era
pré-smartphones e pré-redes sociais: Lady Bird – A Hora de Voar (2017), Aftersun
(2022); Saltburn (2023); Boy Erased – Uma Verdade Anulada
(2018), The Bling Ring (2013), Mid90s (2018), Time Cut
(2024), entre outros.
O
filme The Plague (2025), estreia na direção de Charlie Polinger,
é mais uma produção para essa lista, ambientado no mundo isolado de um
acampamento de treinamento de polo aquático para meninos durante o verão de
2003.
Rapidamente
The Plague se tornou um marco do cinema contemporâneo ao transformar as
dores de crescimento da pré-adolescência em um thriller psicológico beirando o body
horror.
Como
adultos, é tentador olhar para trás, para os nossos anos de juventude, com uma
certa nostalgia. Lembramos como uma época dourada sem responsabilidades, sem
dores, uma vida plena e um futuro promissor pela frente, nada além de amigos,
brincadeiras e liberdade.
Mas
graças a essas falsas memórias e lembranças seletivas esquecemos com muita
facilidade que a adolescência é, para ser honesto, uma fase difícil, cheia de ansiedades
e dilemas.
![]() |
The Plague nos ajuda a revisar essas memórias idílicas nos transportando
para a tirania da puberdade e as ansiedades da adolescência masculina moderna.
A história se passa em 2003, com roupas, música e uma estranheza típica do
início dos anos 2000, digna de um filme de comédia adolescente. Mesmo assim, a
forma como o filme aborda a cultura do bullying e a competitividade entre os
jovens já prenuncia todas as masculinidades violentas que ainda hoje se
manifestam – foram somente ampliadas e exponenciadas pelas tecnologias digitais
e gadgets tecnológicos.
Esse
filme se soma a esse aparente esforço dessa terceira década do século em
procurar respostas numa era pré onipresença digital em nossas vidas. Num tempo
em que a Internet estava circunscrita a telas de desktops que eram encarados como
mais um eletrodoméstico em casa.
Mas
o foco de The Plague não é nostálgico como muitos filmes listados acima.
A ideia é trazer o desconforto, medo e atmosfera de filme de terror que nunca
se concretiza. Fica apenas o terror atmosférico, graças ao design de som
repleto de samples vocais de Johan Lenox – em muitos momentos nas cenas de
piscina nos sentimos como se estivéssemos afogando.
O
filme quer nos revelar que todos os fenômenos atuais de bullying digital, stalkers
e toda sorte de toxicidades nas redes sociais não é um problema atual ou
exclusiva desso geração de nativos digitais.
Vem
de muito antes, ainda do mundo analógico em que a sociabilidade era efetuada em
instituições como família, escola e acampamentos de férias como mostrado no
filme.
![]() |
O
que vemos hoje é intensificação desses problemas com o online e o tempo real
das redes sociais. Intensificou-se porque as Big Techs descobriram que o ódio e
intolerância são muito mais lucrativos do que o amor e amizade. Porque engajam,
geram clickbaits, volume de tráfego e mais visualizações.
O
título “A Praga” (The Plague) faz nos lembrar muito das teses de Freud
em "Psicologia das Massas e a Análise do Eu" (1921): o contágio
social, isto é, a ideia de que "tocar" ou se associar a alguém
"não legal" infecta sua própria reputação, gerando uma espécie de
morte social.
No
filme, a "praga" é uma doença imaginária (inicialmente) usada para
isolar o pária do acampamento, dentro da dinâmica do bode expiatório para gerar
a coesão grupal.
No
século XXI, essa dinâmica reflete perfeitamente a cultura do cancelamento e a
viralidade do ostracismo digital.
O Filme
Ambientado
no mundo isolado de um acampamento de treinamento de polo aquático para meninos
durante o verão de 2003, The Plague é ao mesmo tempo estilizado e
ascético. Grandes e ousadas mudanças na linguagem visual e no design de som se
alternam com momentos de quietude e silêncio. Essa interação entre a sobrecarga
sensorial e a solidão repentina reflete o estado de espírito do vigilante
novato Ben (Everett Blunck) enquanto processa as regras sociais estressantes
que podem levar ao seu ostracismo.
Ben
é um garoto sensível e desengonçado de 12 anos que tenta desesperadamente se
encaixar entre os colegas mais confiantes e desajeitados do acampamento de polo
aquático.
Ele
é de Boston, fruto de uma vida familiar difícil, e é notavelmente mais empático
do que seus colegas. Quando o treinador dos meninos Daddy Wags (Joel Edgerton,
que também produz o filme) pergunta a eles o que é polo aquático, Ben pensa que
se trata de "trabalhar juntos como uma grande família"; os outros
garotos, especialmente o líder Alfa brincalhão, Jake (Kayo Martin), estão mais
preocupados em desenhar pênis no quadro branco do treinador.
![]() |
Mas,
enquanto tenta navegar pelos códigos sociais confusos e muitas vezes
arbitrários do grupo, Ben se depara com um dos rituais aparentemente mais
cruéis de Jake e seus amigos: o ostracismo sistemático do outro garoto
esquisito do grupo, o barrigudo e desajeitado Eli (Kenny Rasmussen), que eles
afirmam ter "a peste".
Se
você o tocar, pega a doença, e seu "cérebro vira papinha de bebê",
explica Jake alegremente a Ben. O dilema é cristalino: Eli pode ser o único
esquisito de quem Ben realmente gosta, mas ele tem tanto medo de perder o
capital social do grupo que o defende que começa a aceitar participar do
bullying.
O
filme estabelece um campo de conflitos e opressão ao estilo do romance "Senhor
das Moscas" de William Golding com imposição de normas sociais e posturas
masculinas pré-púberes.
O
filme explora essas angústias com uma direção impecável e um domínio
surpreendente de seus jovens atores. Cada teste da capacidade de Ben de se
enturmar com a turma se desenrola como fosse uma sequência de terror: lugares
no refeitório, etiqueta no chuveiro coletivo, ostentação vulgar sobre sexo e
masturbação. Tudo é opressor para Ben, e The Plague captura essa
ansiedade em cada close-up perturbador e em cada escolha de design de som para
sustos repentinos.
![]() |
O
tema da falência da autoridade e do adulto ausente está presente no personagem
do treinador Daddy Wags representa a autoridade que vê o bullying, mas não sabe
(ou não quer) intervir de forma eficaz, oferecendo apenas clichês de autoajuda
como "seja você mesmo".
Ao
mesmo tempo reflete a desilusão atual da Geração Z com instituições e
figuras de autoridade que parecem incapazes de lidar com as complexidades da
saúde mental e do abuso sistêmico no mundo real e digital.
Como
dissemos acima, o título “A Praga” é uma relação direta com as teses freudianas
sobre a formação do Eu no grupo. Freud argumentava que um grupo se forma quando
indivíduos colocam um mesmo objeto (o líder ou uma ideia) no lugar de seu Ideal
do Eu.
O
personagem Jake (o líder alfa) torna-se esse ideal. Em consequência, Ben (o
protagonista) para de agir de acordo com sua própria bússola moral (seu Eu) e
passa a agir conforme as exigências do grupo. Para ser amado e aceito pela
"massa", ele permite que sua empatia por Eli (o “contaminado” pela
praga) seja suprimida.
Para
Freud, o que mantém um grupo unido não é apenas o medo, mas laços afetivos
(libidinais). O "Nós" contra "Eles": no filme, a invenção
da "Praga" serve para criar uma fronteira. A identificação entre os
meninos "saudáveis" é fortalecida pelo ódio comum ao
"infectado" (Eli).
Freud
afirmava que, no grupo, o indivíduo regride a estágios primitivos de
desenvolvimento. A crueldade física no polo aquático e a histeria coletiva
sobre a doença imaginária mostram essa descida ao comportamento da "horda
primeva", onde a civilidade é descartada em favor da sobrevivência tribal.
É
paradoxal como em um ambiente altamente tecnológico, em pleno século XXI, o
suprassumo do desenvolvimento tecnocientífico não foi capaz de nos transformar.
Principalmente
quando os promotores do desenvolvimento tecnocientífico descobriram que a nossa
herança psíquica primitiva é muito lucrativa.
Ficha
Técnica
|
|
Título: The Plague |
|
Direção: Charlie Polinger |
|
Roteiro: Charlie
Polinger |
|
Elenco: Joel
Edgerton, Everett Blunck, Kenny Rasmussen, Kayo Martin |
|
Produção: Doublethink,
Five Henrys |
|
Distribuição: IFC Films |
|
Ano:
2025 |
|
País: Austrália |
sexta-feira, fevereiro 13, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira





Posted in:

![Bombas Semióticas na Guerra Híbrida Brasileira (2013-2016): Por que aquilo deu nisso? por [Wilson Roberto Vieira Ferreira]](https://m.media-amazon.com/images/I/41OVdKuGcML.jpg)




