terça-feira, junho 25, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Como todo bom
filme de terror não falado em inglês, logo Hollywood se interessa rapidamente
em fazer um remake. É o caso da produção argentina “Aterrorizados”
(“Aterrados”, 2017) na qual acompanhamos o que poderiam ser espíritos e
fenômenos poltergeist infernizando a vida dos vivos. Mas agora, não é uma casa
mal-assombrada. É uma rua inteira em uma tranquila rua de classe média de Buenos
Aires. E não o mal como aparentemente conhecemos: surge de ralos, canos e
fendas de paredes. O filme joga com uma interessante metáfora de uma sociedade
que acredita que se eliminar tudo aquilo que é incômodo, ele desaparece. Assim
como quando apertamos o botão da descarga do vaso de um banheiro. Mas o
reprimido retorna numa espécie de “pressuposto da privada”.
terça-feira, abril 16, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
No passado Renzo Nervi foi
um pintor bem-sucedido. Hoje, não consegue vender um único quadro. Amargo,
ressentido e à beira da indigência, ele recebe a ajuda de um amigo marchand
dedicado a lucrar com a arte alheia. Até que um inesperado acidente proporciona
a oportunidade inédita (e ilegal) de ganhar dinheiro em um mercado de arte onde
o luxo e o esnobismo concorre com o artifício e a mentira.No filme argentino “Minha
Obra-Prima” (“Mi Obra Maestra”, 2018) acompanhamos uma comédia farsesca de
humor negro que apresenta o destino da arte no mundo pós-moderno: a simulação -
simular o valor de uma obra como se fosse puramente artística, quando na
verdade é tão vazia quanto um suspiro. Não se trata mais, como no passado, de
dissimular a falsidade. Mas agora de simular qualquer vocação artística.
Theodor Adorno acreditava
que a arte continha a alteridade e a transcendência. Como obra do espírito, a
arte tendencialmente pretenderia ultrapassar a si mesma, criando uma tensão com
a sociedade e o próprio espírito – a negação do Todo, social, político,
econômico etc.
Como músico que era, além de
filósofo (Adorno tocava violino), via essa natureza transcendente da arte na
“Música Nova” – a música atonal de Schoenberg e o serialismo da nova música
erudita como alternativa à integração da cultura de massas e Indústria
Cultural.
Mas os tempos pós-modernos
do pós-guerra integraram toda qualquer pretensão de “alteridade” ou “tensão” da
arte: virou “intervenção” ou “performance” em exposições que se transformaram
em “instalações artísticas”. Artistas “incompreendidos” ou “rebeldes” passaram
a ter cotação no mercado, assessorados por “marchands” e donos de galerias de
arte.
Então, o que é arte? Qual a
diferença entre um quadro e um pôster publicitário? Ou entre a cópia e o
original, já que tudo é “commoditie”, reprodução, cópia? Filmes como Cópia Fiel (2010) ou Velvet Buzzsaw (2019) são exemplos
cinematográficos dessa desconstrução pós-moderna da arte, ao reduzi-la à
ilusão, simulação, artifício, mentira.
Por isso, nada melhor do que
assistir à comédia argentina farsesca e de humor negro Minha Obra-Prima (Mi Obra
Maestra, 2018) sobre Renzo Nervi (Luis Brandoni), um pintor que já foi
bem-sucedido nos anos 1980 em Buenos Aires, mas hoje não consegue vender um
único quadro. Porém, um inesperado acidente proporciona a oportunidade inédita
(e ilegal) de ganhar dinheiro em um mercado de arte onde o luxo e o esnobismo
concorre com o artifício e a mentira.
Minha Obra-Prima continua com a
visão ácida sobre os intelectuais argentinos do filme anterior (El Ciudadano Ilustre) da dupla de
diretores Gastón Duprat e Mariano Cohn: como a burguesia (e principalmente os
novos ricos em busca do verniz cultural) se movem em ambientes artísticos,
voltando a fazer uma dura crítica ao banal na vida cultural.
Mas há também algo
universal, sobre o destino da arte no mundo pós-moderno: como o processo de
valorização do objeto artístico é uma simulação e não uma dissimulação – não se
trata mais de falsificar uma obra assim como se imprime dinheiro falso. Mas
simular o valor de uma obra como se fosse puramente artística, quando na
verdade é tão vazia quanto um suspiro – resultado de um jogo de especulação,
ausente de escrúpulos ou qualquer de qualquer vocação artística.
O Filme
Arturo Silva (Guillermo
Francella) há décadas dedica-se a venda de obras de arte em sua galeria no
Centro de Buenos Aires. Seu único interesse é lucrar com a arte alheia.
Encantador e sempre com um discurso sedutor e persuasivo, desde vários anos mantém
uma amizade com Renzo Nervi (Luis Brandoni) que se encontra nos últimos anos da
sua vida – depois de uma carreira bem-sucedida, há anos não consegue vender uma
única obra.
Sua paixão pela arte acabou
resultando num estilo de vida prá lá de decadente: amargo, cínico, misantropo e
autoindulgente parece que conscientemente prepara sua própria ruína, com um
final a uma morte trágica parecida com os boêmios pintores impressionistas
parisienses.
Os egos, as mesquinhezas e
as misérias desses dois personagens os unem numa estranha amizade. Arturo tenta
impulsionar novamente a carreira de Renzo até que Arturo logra associar-se a
uma influente colecionadora de obras de arte internacional, Dudu (Andrea
Frigerio).
Conseguem para Renzo uma
encomenda para a confecção de um mural. Mas a autoindulgência e orgulho do
pintor decadente falam mais alto: ele jamais aceitou fazer qualquer tela sob
encomenda, como se sua arte fosse um mero produto. Mas estranhamente aceita,
para depois sabotá-la, como mais um ato de protesto autodestrutivo.
Renzo está à beira da
indigência, sustentado pelo seu único aluno, o espanhol Alex (Raúl Arévalo) – um
personagem contrastante, comparado ao cinismo de Renzo e do seu amigo Arturo.
Alex é idealista e admira a arte do autodestrutivo mentor.
“Argentina é um país singular” – Alerta de spoilers à frente
Tudo caminha para o desfecho
inevitável: a morte trágica – Renzo é atropelado por um caminhão depois de
displicentemente atravessar a rua, quase que pedindo para alguém abreviar seu
sofrimento. No hospital, sugere para seu amigo Arturo a eutanásia.
Mas Arturo acaba tendo uma
ideia muito melhor, seguindo seu instinto de especulador da arte alheia – por
que não simular a morte de Renzo? Afinal, Van Gogh só alcançou a fama e suas
obras o valor de milhões de dólares somente após a sua morte!
Com a ajuda da influência
internacional de Dudu, Arturo da um incrível impulso “pós-morte” para as obras
de Renzo – ganha exposições exclusivas em diversas capitais do mundo.
O marchand e o artista
decadente criam o golpe perfeito: Renzo vive isolado numa região remota,
produzindo cópias que emulam seu ápice criativo dos anos 1980. Tudo quadros
“descobertos” em casas de parentes. Enquanto xeiques novos ricos compram lotes
das suas obras a milhões de dólares.
Nível inédito de especulação
artística: na “pós-morte” Renzo faz cópias “falsas” de si mesmo. De um ápice
artístico do passado que só depois da própria morte passa a ter valor de
mercado.
Se no passado a questão da
arte era o confronto entre a cópia e o original artístico (a arte como um signo
que ainda gozava de uma referência ou legitimidade socialmente sancionada),
hoje o valor se desprende do campo da arte para entrar nas estratégias de
simulação – dizer que existe alguma coisa (a morte de um gênio), quando na
verdade só existe o vazio: o blefe.
A partir daí a narrativa
desdobra esse blefe a um nível que, a certa altura, Renzo afirma: “Argentina é
um país singular”.
A simulação como um blefe é
a própria essência da comédia farsesca. Mas a amizade de um marchand com o
artista é a própria definição do blefe pós-moderno na arte, como uma espécie de
“cinismo esclarecido”, termo cunhado pelo filósofo Peter Sloterdijk: o cínico integrado aos seus postos e privilégios (gerentes, executivos,
professores, jornalistas ou artistas) que mantêm um autodistanciamento irônico
e melancólico sobre o que fazem, um sentimento de “inocência perdida”, de
ironizar e depreciar a si mesmo e ao que faz (“é o que tem prá hoje”, dizem),
uma falsa consciência conformista e sem sonhos diante do sistema de onde tira
seus privilégios – leia SLOTERDIJK, Peter. Crítica
da Razão Cínica, Estação Liberdade, 2012.
É a amoralidade e o
pragmatismo de uma comédia farsesca, cujo gênero parece ser uma especialidade do cinema argentino.
Ficha Técnica
Título: Minha Obra-Prima
Diretor: Gastón
Duprat, Mariano Cohn
Roteiro: Andrés Duprat, Gastón Duprat
Elenco:Luis Brandoni, Guillermo Francella, Andrea
Frigerio, Raul Arévalo
sábado, janeiro 19, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O pensador alemão Karl Marx teve que escrever muitas páginas para demonstrar que por trás da racionalidade do Capitalismo existia uma gigantesca fantasmagoria – mercadoria, capital e dinheiro apareciam como entidades-fetiches autônomas aos nossos olhos. Hoje, o Marketing e a Publicidade, sem maiores rodeios, diariamente nos mostram que a gestão corporativa e o discurso publicitário se tornaram análogos a seitas ou cultos. O Capitalismo sempre foi uma religião, mas hoje ele é “pentecostal” – é o “american way of management”. O filme mexicano “Tempo Compartilhado” (“Tiempo Compartido”, 2018) mostra as férias frustradas de uma típica família de classe média que acreditava ser possível comprar o Paraíso a preços módicos em suaves prestações. Um resort internacional esconde um propósito sinistro: transformar tanto seus “colaboradores” como clientes em membros de um tipo de seita messiânica no qual o Paraíso religioso se confunde com o próprio turismo.
sexta-feira, julho 06, 2018
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O sonho tecnognóstico por séculos, desde a Teurgia e Alquimia, foi
transcender a matéria – abandonar os nossos corpos como condição para a
verdadeira evolução espiritual. Mas como Santo Irineu de Lyon alertou no século
II, “O que não é assumido não pode ser redimido”. E o sonho milenar pode se
transformar em pesadelo com uma tecnologia que promete a imortalidade: a
consciência digitalizada em “pilhas cervicais” que podem, a qualquer momento,
serem transferidas para qualquer corpo (ou “capa”). Mas isso acabou provocando
uma sociedade tremendamente desigual e violenta. Essa é a série Netflix
“Altered Carbon” (2018-), um cyberpunk-noir que suscita profundas reflexões
teológicas: se pudermos ser ressuscitados após a morte em uma nova “capa”, a
alma persistirá entre os códigos que transcreveram nossa consciência e
memórias? Ou nos transformaremos em “capas” ocas manipuladas por uma elite
amoral? Uma elite que alcançou a verdadeira imortalidade – fazer backups da
própria consciência via satélite.
sábado, março 24, 2018
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Um filme obrigatório para estudantes de graduação em Comunicação.
Influenciado pelo cinema “noir” e pelo expressionismo alemão do clássico “Metrópolis”,
o diretor argentino Esteban Sapir fez o filme “La Antena” (2007): uma curiosa
estética inspirada no cinema mudo e metalinguagem das histórias em quadrinhos.
Um filme crítico sobre os meios de comunicação, a imaginação e as palavras. Em
uma cidade escura e invernal todos ficaram sem voz. O Sr. TV, dono de um
monopólio televisivo (o Canal 9) tem um malévolo plano para dominar todos os
cidadãos: sequestrar A Voz, a única pessoa que conservou o dom da fala. Para
transformá-la na atração principal da sua emissora enquanto ele arquiteta outro
plano ainda mais sinistro: roubar as palavras, para completar o seu regime de
Telecracia. “La Antena” é uma provocativa metáfora dos monopólios
latino-americanos de comunicação e de como a mídia é usada como arma para
sustentar regimes totalitários.
domingo, dezembro 24, 2017
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O que há
em comum entre o filme mexicano “Santa Claus” (1959, aka “Santa Claus vs. The
Devil”) e “Star Wars Holiday Special” (1978), o especial de Natal da CBS,
considerado a pior coisa já feita para a TV? Cada uma dessas produções, na sua
época, traduziu o Natal de acordo com o “espírito do tempo”. O primeiro, na
esteira do início da corrida espacial e Guerra Fria EUA e URSS. E o segundo, no
rastro do sucesso do filme de 1977, já antevendo o computador pessoal e compras
e comunicação através da Internet. Contextos tecnológicos e políticos
diferentes que criaram, cada um no seu tempo, formas diferentes de interpretar
os simbolismos natalinos: o primeiro, global; o segundo, cósmico. Mas os
destinos das produções foram diferentes: “Santa Claus” foi um dos filmes
natalinos mais reprisados da TV norte americana; enquanto “Star Wars Holiday
Special” foi renegado pelos atores, fãs e pelo próprio George Lucas: “eu queria
apenas tempo e um martelo para destruir cada cópia”, lamentou.
sábado, dezembro 16, 2017
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Será que
na realidade somos como pobres hamsters prisioneiros de uma roda que gira
eternamente sem nos darmos conta da nossa terrível situação?Será que repetimos sempre os mesmos gestos,
em um mesmo cenário, sempre com os mesmos efeitos e as mesmas consequências?
Poderia ser essa a definição de loucura: tentar resultados diferentes repetindo
a mesma rotina? Duas estórias paralelas com personagens presos em loops
espaço-tempo eternos – um grupo em uma escadaria e uma família prisioneira em
uma estrada infinita na qual o sol nunca se põe. Esse é o filme mexicano “El
Incidente” (2014) do jovem diretor Isaac Ezban. Uma ambiciosa ficção científica
metafísica que aproxima as geometrias impossíveis de M.C. Escher com o universo conspiratória de Philip K. Dick, procurando aproximar a hipótese da existência dos mundos
paralelosda cosmogonia dos diversos
“céus” dos antigos gnósticos.
sábado, maio 27, 2017
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Imagine um
diretor fascinado pelos filmes e séries sci-fi e de terror B dos anos 1950 como
“Além da Imaginação” que produz um filme com mix da atmosfera dos filmes noir e
do hotel Overloock de “O Iluminado”. O resultado é um filme estranho, fora da
curva dos atuais thrillers de horror. É o filme “Los Parecidos” do diretor
mexicano Isaac Ezban que vem conquistando prêmios no circuito internacional de
festivais do fantástico e do horror. Em uma noite de forte tempestade, em 1968
no México, um grupo fica preso em uma pequena e remota estação rodoviária, à
espera de um ônibus que nunca chega. Estranhas notícias pelo rádio dão conta
que aquele temporal não é comum: o que cai do céu junto com a chuva provoca
estranhas mudanças comportamentais, e suspeita-se de um fenômeno global. O
filme utiliza elementos do fantástico para discutir um tema muito sério: se a
nossa identidade é o resultado do jogo da percepção (o olhar de um para o
outro), como isso pode ser moldado por influências externas? Mídia? Uma
inteligência alienígena? Ou apenas o resultado da paranoia mútua?
quarta-feira, maio 03, 2017
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O filme argentino “Tiempo Muerto” (2016) é
mais uma incursão do cinema atual no tema da viagem do tempo, mas por um viés
bem particular – loops temporais e paradoxos como obstáculos para a “segunda
chance” que possa alterar a linha do tempo. Inconformado com a morte da sua
esposa, o protagonista contrata um “tempo morto” – um estranho ritual que
envolve xamanismo, ocultismo e fenômenos quânticos. Tempo, psiquismo e memórias
são contínuos que esbarram em um traço da natureza humana: a compulsão a
repetição. Sem conseguirmos seguir em frente, ficamos neuroticamente fixados em
experiências de prazer ou dor no passado, repetindo a cena do trauma. Quem sabe
pensando que um dia o Titanic não afunde.
quarta-feira, abril 26, 2017
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Ao contrário dos filmes sci-fi que exploram os paradoxos temporais, o filme argentino "Moebius" (1996) explora os paradoxos espaciais, transformando-se numa espécie de thriller matemático. Inspirado na enigmática figura topológica da "fita de Möbius", a narrativa interpreta-a como um portal dimensional, lembrando das origens sagradas da Geometria na antiguidade. Um trem desaparece no metrô de Buenos Aires. A rede do metropolitano ficou tão complexa que assumiu a forma da "fita de Möbius" - figura geométrica paradoxal que não possui o lado de "dentro" e de "fora". Sem saber os engenheiros projetaram um portal por onde o trem passou. E ele continua viajando, invisível e prisioneiro de uma anomalia espacial.
domingo, abril 16, 2017
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Com mais de 100 prêmios na sua trajetória em
festivais, o curta de animação argentino “El Empleo” (2008) é uma produção bem
oportuna para os tempos atuais em que vivemos onde o melhor remédio prescrito
para a crise econômica e o desemprego são eufemismos como “terceirização”,
“empreendedorismo” etc. O curta é o paroxismo da situação atual: para gerar
emprego uma sociedade parece consumir a si mesma -pessoas começam a assumir a função de objetos
cotidianos em “inovadoras” formas de “prestação de serviço”: a mulher-cabide, o
homem-abajur e assim por diante. Um curta surreal e tragicômico, mas que dá
muito no que pensar. Curta sugerido pelo nosso leitor A.Lex.
sexta-feira, maio 06, 2016
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Uma jornada antropológica, científica,
histórica, mística e espiritual. E conduzida pelo animal de poder da serpente,
simbolismo central na cosmologia xamânica. Ela desceu da Via Láctea, criou o
mundo e está presente em cada um de nós, adormecida, à espera de algo que a
desperte e nos faça deixar de ser instrumentos de morte. Esse é o tema central
do filme “O Abraço da Serpente” (2015) que teve por base os diários de dois
cientistas cujas expedições na região amazônica contribuíram para a compreensão
dos povos indígenas. O diretor colombiano Ciro Guerra consegue tratar o tema do
misticismo xamânico de forma a direta e crua numa selva onde o homem branco em
busca da borracha extermina povos indígenas, seja pela arma ou pela catequese
religiosa. E a última esperança para Karamateke, o último sobrevivente do seu
povo, é fazer aqueles cientistas conhecerem um flor sagrada que os faça
“abraçar a serpente” (a gnose através da destruição do Ego) e levem essa sabedoria cósmica para a civilização.
domingo, janeiro 03, 2016
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Sob a fachada de uma respeitada família de um burocrata do governo
aposentado e uma professora primária em um dos bairros mais ricos de Buenos
Aires, estava um terrível segredo: no porão daquela casa escondiam-se vítimas
de sequestros, friamente assassinados após o pagamento de cada resgate
milionário. Baseado em caso real, o filme argentino “O Clã” de Pablo Trapero
retrata um tipo bem especial de maldade, bem diferente da hollywoodiana e
próxima da “transparência do Mal” retratada na literatura por Marquês de Sade e
no cinema por Pasolini – não mais a maldade como um ente que desvirtua e
corrompe, mas o Mal originado da própria racionalidade e da virtude: por trás
de uma grande fortuna, esconde-se sempre um grande crime.
Uma família
prepara-se para o jantar em uma casa em San Isidro, um dos bairros mais ricos
de Buenos Aires. O pai reza com a família antes de iniciar a refeição. À mesa, estão
as filhas adolescentes que nasceram em berço de ouro. A mãe, uma pacata
professora. E o filho primogênito é um bem sucedido atleta de rúgbi, presente
em capas de revistas esportivas nacionais e estrela da seleção argentina.
domingo, maio 24, 2015
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Em
1980 John Lennon concedeu entrevista à “Playboy” onde dizia que caíra fora dos
Beatles porque eles teriam sido criados por “craftsmen” (termo ambíguo que pode
designar tanto “artistas” ou “artesãos” quanto “iniciados ao ocultismo"). Sete
anos antes Lennon ajudou a financiar o filme “A Montanha Sagrada” (1973) do
chileno Alejandro Jodorowsky, sobre oito "craftsmen" (poderosos industriais e
políticos) que são iniciados por um alquimista na busca da verdadeira
fonte do Poder: a imortalidade e o aprimoramento espiritual. Verdadeiros magos
negros donos dos mercados de armas, moda, arte, brinquedos, drogas e sexo. Pretendem alcançar a chamada “montanha sagrada” em uma distante ilha. Jodorowsky buscou no filme uma
dupla subversão: denunciar a
dimensão parapolítica onde magos ocultistas formariam a elite mundial que
aplicaria sofisticadas técnicas psíquicas de controle social; e do outro
didaticamente mostrar para os espectadores os passos da iniciação ocultista que poderia
nos livrar das ilusões que nos prendem ao mundo material e ao julgo dessas
elites ocultistas.
Depois de conseguir a atenção do
público alternativo e das chamadas “sessões da meia-noite” em cinemas
underground de Nova York com o filme El
Topo (1970), o diretor chileno Alejandro Jodorowsky conseguiu o
suporte financeiro de John Lennon e Yoko Onno para o seu projeto espiritual
cinematográfico A Montanha Sagrada –
a princípio, um filme que continuaria a temática de El Topo, isto é, sobre purificação, a descoberta da Verdade por
trás das aparências do mundo (Maia) e, por fim, a constante busca pelo
aprimoramento espiritual.
segunda-feira, dezembro 01, 2014
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O criador da série “Chaves” (El Chavo Del Ocho, 1972-92), Roberto Gómez Bolaños,
falecido em 2014, era apelidado de Chespirito - “Pequeno
Shakespeare”. Mas ele sempre esteve muito mais próximo de Stephen King e do
escritor francês Camus. Se King dizia que o inferno era a repetição e Camus via o mito de Sísifo no homem moderno, Bolaños vai materializar essas
intuições em uma pequena vila de pobres e remediados em algum lugar no Distrito
Federal do México. Uma galeria de personagens que parecem condenados a repetir
seus pecados na eternidade, assim como Sísifo rolava uma pedra montanha acima
numa tragédia sem fim. Mas se fosse apenas isso, Chavez não seria tão cultuado por tantas gerações. Há algo mais: se por um lado a série revela um sentido auto-moralizante onde cada personagem
repete "ad eternum" seus pecados mortais, do outro ninguém demonstra o menor
respeito pela Ordem, seja a de Deus ou do Diabo. A receita de um cult: a
ambiguidade da culpa misturada com a fúria.
Foi durante mais
uma reprise de um episódio da série Chaves em novembro de 2014 no SBT que anunciada a morte do ator Roberto Gómez Bolaños, criador e protagonista da série
humorística mexicana. De tanto a emissora de Silvio Santos reprisar e explorar
a série nesses últimos 30 anos, era estatisticamente provável que a morte de
seu criador fosse anunciada no meio de mais um episódio.
Pelo menos
três gerações se divertiram com uma produção dos anos 1970 da Televisa com
explícita falta de recurso e com um humor hoje considerado politicamente
incorreto – por exemplo, professor Girafales fumava charuto em uma sala de aula
de crianças e os personagens da pequena vila se esbofeteavam com tal frequência
que um dos episódios chegou a ter a exibição vetada - veja o episódio abaixo.
terça-feira, outubro 28, 2014
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O homem atual seria um Sísifo moderno? Assim como o
personagem da mitologia grega, condenado a carregar eternamente uma enorme
pedra ao topo da montanha, o homem estaria condenado a não encontrar Deus,
sentido ou propósito na existência, a não ser encontrar a si próprio – o humano,
demasiado humano. Esse é a desconcertante co-produção Argentina/Espanha
“Relatos Selvagens”, seis curtos relatos de pessoas comuns diante de
circunstância incomuns: situações extremas com muito humor negro (e bota negro
nisso) onde acabam sendo despertados em cada um os instintos mais básicos de vingança e violência. Em falso tom de comédia, o diretor Damián
Szifrón parece querer brincar com o espectador: afinal, estamos rindo do quê?
quinta-feira, outubro 31, 2013
Wilson Roberto Vieira Ferreira
A fala do
cientista chefe da NASA, Dennis M. Bushnell, de que a solução para todos os
problemas globais seria despachar a humanidade para o mundo virtual das redes
eletrônicas, livrando o planeta da ação daninha do homem, é o sintoma de uma
crise da nossa percepção de futuro. Filmes de ficção científica da América
Latina e de países periféricos à Zona do Euro refletiriam esse sintoma cultural
onde o futuro não é nem utópico nem distópico, mas agora hipo-utópico: um estranho futuro cada vez mais parecido com o presente. A alta tecnologia convivendo com favelas, deterioração urbana,
precarização do trabalho e muito lixo que, muitas vezes, se confunde com seres
humanos ou alienígenas que necessitam ser controlados, confinados, descartados ou eliminados. O novo Big
Brother não integra a todos obrigatoriamente como nas distopias 1984 ou Admirável Mundo
Novo, mas agora exclui a maioria compulsoriamente como mostrado nos filmes da chamada “Ficção
Científica do Sul”.
Um mundo ameaçado pelo aquecimento global e guerras. Causa: política,
religião, megalomania, crescimento populacional e disputas territoriais.
Solução: inteligência artificial, nanoteconolgia e biotecnologia, substituindo
progressivamente a ação humana pela automação e robótica.Afastado
de profissões enfadonhas como “caixas de banco, frentistas de postos de
gasolina, ensino, pilotos, soldados”, o ser humano ocuparia seu tempo livre
habitando mundos virtuais tri-dimensionais simulando, por exemplo, “a experiência
de se sentar numa praia tropical”. Mais do que isso, o planeta se livraria da
ação econômica e política humanas historicamente danosas ao meio ambiente
simplesmente transferindo a humanidade para o mundo virtual das redes
eletrônicas conectadas com o sistema neuronal humano.
Sobre o quê
estamos falando? A sinopse de algum filme de ficção científica ? Longe disso.
Essa é a síntese de uma palestra proferida por Denis Bushnell, cientista chefe
da NASA no Langley Research Center, na Conferência da World Futurist Society em
Boston, EUA em Julho de 2010. Se essas projeções do cientista chefe da NASA vão
ocorrer isso pouco importa. O mais importante é a estranha ironia que guarda
essa notícia: no espaço de uma organização civil que pretende reunir cientistas
e intelectuais para propor visões para o futuro, Bushnell propõe uma estranha
utopia, onde a humanidade, de tão inútil e maléfica para o planeta, seria
despachada para uma espécie de nowhere
virtual. Contrariando a visão de um futuro como lugar que alcançaríamos (seja
utópico ou distópico), Bushnell propõe uma migração da espécie humana
desnecessária para um “não lugar”.
sexta-feira, outubro 04, 2013
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Um filme cercado de lendas, algumas verdadeiras. John Lennon exigiu que
a Apple comprasse seus direitos para exibi-lo em Nova York. Em pouco tempo o
filme tornou-se um Cult nas sessões de meia-noite no circuito underground. “El
Topo” (aka “The Mole”, 1970), uma produção mexicana do diretor franco-chileno
Alejandro Jodorowsky narra em estilo “western spaghetti” de Sérgio Leone a
jornada espiritual de um pistoleiro em desoladas paisagens repletas de alusões
e alegorias a Jung, Freud, misticismo, esoterismo, filosofias e mitologias
bíblicas. Cada plano, cena ou detalhe é um desafio para o espectador tentar
resolver os enigmas que se acumulam em cada imagem baseada em fragmentos de textos antigos, fábulas e contos
zen. O diretor parece querer que tanto o protagonista quanto o espectador tenham o mesmo destino da toupeira: à procura do Sol ela cava até a superfície. Quando vê o Sol, ela fica cega.
Um homem trajando negro da
cabeça aos pés em pleno deserto incandescente cavalga um cavalo negro
carregando um guarda-chuva sobre sua cabeça e trazendo atrás na sela um menino
nu, exceto por um chapéu de cowboy. O homem para, amarra o cavalo em um poste solitário
na areia e vemos nas mãos do menino um urso de pelúcia e uma fotografia em um
porta-retrato. O homem diz: “hoje você faz sete anos. Você agora é um homem.
Enterre seu primeiro brinquedo e o retrato da sua mãe”. Ele pega uma flauta e
toca enquanto o menino segue suas instruções. Para o espectador, essa cena de abertura será a
mais normal e compreensível de todo o filme.
“El Topo” do franco-chileno
diretor Alejandro Jodorowsky é cercado de histórias e lendas: suas técnicas de
filmagem não eram o que poderia se dizer ortodoxas - normalmente utilizava
nativos da região da filmagem como atores e obrigava-os a se submeter a
experiências de esgotamento físico diante das câmeras. Rumores dizem que fazia
os atores experimentarem o sangue um do outro e de expô-los a violência real.
Segundo consta, o próprio Jodorowsky matou os 300 coelhos com as próprias mãos para
uma cena do filme.
quarta-feira, junho 26, 2013
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O mais premiado curta de animação argentino e que chegou a ficar entre
os dez finalistas para concorrer ao Oscar da categoria, “Luminaris” (2011) de
Juan Pablo Zaramella apresenta em seus seis minutos uma grande riqueza
simbólica a partir da colagem de estilos que vai da arte Deco e Surrealismo ao
Filme Noir e Neorrealismo. O que representaria a alegoria de um universo alternativo
governado por uma estranha força magnética do Sol que arrasta todos para os
seus trabalhos? Apesar de Zaramella desconversar sobre o simbolismo do seu
curta, podemos fazer um pequeno exercício de leitura do conteúdo da narrativa a
partir de três pontos de vista: o marxista, o conspiratório e o gnóstico.
O mais premiado curta argentino, “Luminaris” em
2012 foi pré-selecionado entre os dez finalistas para concorrer ao Oscar dentro
de sua categoria. Feito com uma técnica de stop-motion
denominada pixilation onde atores
reais interagem com objetos inanimados - veja o curta abaixo.
Dirigido por Juan Pablo Zaramella, a narrativa de
seis minutos é ambientada em uma Buenos Aires que parece o resultado do
cruzamento entre filme noir, realismo fantástico, neorrealismo e surrealismo. O
curta conta a história de um homem (Gustavo Cornillón) que vive em um universo
alternativo onde o tempo, o trabalho e o cotidiano são controlados pela luz do sol
que age como espécie de força magnética, despertando a todos para depois
arrastá-los ao trabalho e trazê-los ao final do expediente de volta para casa.
O protagonista tem um trabalho rotineiro e repetitivo na linha de montagem
em uma fábrica de lâmpadas onde são produzidas de uma forma, digamos, não
muito ortodoxa...
sábado, outubro 06, 2012
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O filósofo alemão Hegel dizia que “a coruja de Minerva somente levanta voo ao entardecer” numa alusão à esperança de que a Razão ganhe força em momentos de crise e obscurantismo. E se a Razão falhar? Então, seremos expulsos desse mundo. Esse é o tema filosófico dentro do cenário da crise econômica no filme argentino “Lugares Comuns” (Lugares Comunes, 2002). Um professor de Literatura é compulsoriamente aposentado em um reflexo da crise econômica do país e vê seus valores iluministas e humanistas desmoronarem, sentindo-se um estrangeiro em um mundo cujo lógica não trabalha com soma, mas com subtração.
“Eu sei que existe a desordem, a decepção e a desarmonia. Existe um país nos destruindo, um mundo que nos expulsa, um assassino impreciso que nos mata dia após dia, sem que percebamos. Não tenho uma resposta. Escrevo do caos, da mais completa escuridão”. Essas são as primeiras frases em off do protagonista enquanto escreve apontamentos ou pequenas crônicas para o seu diário. Fernando (Frederico Luppi) é um professor de Literatura em uma universidade em Buenos Aires sob a catastrófica crise econômica argentina do início dos anos 2000 pós-política neoliberais do presidente Carlos Menen.
Como podemos perceber nessa fala inicial, o filme “Lugares Comuns” fará um paralelo entre a crise em uma dimensão material (a econômica) é a outra crise em um plano metafísico ou filosófico (as velhas questões da Filosofia que, de tão repetidas, tornaram-se “lugares comuns” – caos e ordem, necessidade e liberdade, livre arbítrio e destino).
Fernando é casado com Lili (Mercedes Sampietro) uma assistente social que acompanha de perto as consequências da crise no país. Apegado ao pensamento crítico, ao Iluminismo e Humanismo tenta exercer a crítica literária e, ao mesmo tempo, ensina seus alunos a pensarem e manterem-se longe dos dogmas políticos e religiosos. Tenta transformar a Razão em bússola em um momento de crise e caos social. A frase de Hegel de que “a coruja de Minerva levanta voo somente no entardecer” (a Razão torna-se mais forte em momentos de obscurantismo) seria a convicção salvadora de Fernando.
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"Cinema Secreto: Cinegnose" é um Blog dedicado à divulgação e discussões sobre pesquisas e insights em torno das relações entre Gnosticismo, Sincromisticismo, Semiótica e Psicanálise com Cinema e cultura pop.
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No Oitavo Aniversário o Cinegnose atualiza lista com 101 filmes: CosmoGnósticos, PsicoGnósticos, TecnoGnósticos, AstroGnósticos e CronoGnósticos.
Esse humilde blogueiro participou do Hangout Gnóstico da Sociedade Gnóstica Internacional de Curitiba (PR) em 03/03 desse ano onde pude descrever a trajetória do blog "Cinema Secreto: Cinegnose" e a sua contribuição no campo da pesquisa das conexões entre Cinema e Gnosticismo.
Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus.
Neste trabalho analiso a produção cinematográfica norte-americana (1995 a 2005) onde é marcante a recorrência de elementos temáticos inspirados nas narrativas míticas do Gnosticismo.>>> Leia mais>>>
"O Caos Semiótico"
Composto por seis capítulos, o livro é estruturado em duas partes distintas: a primeira parte a “Psicanálise da Comunicação” e, a segunda, “Da Semiótica ao Pós-Moderno >>>>> Leia mais>>>