terça-feira, julho 28, 2026

Pós-meritocracia e luta de classes em 'Manual Prático de Vingança Corporativa'



Em um mundo onde trabalhar duro não garante ascensão social e os novos bilionários acumulam fortunas por herança e não por mérito, a juventude se depara com a era da "pós-meritocracia": quando as regras do jogo estão viciadas, o sucesso passa a exigir audácia, risco e a quebra de limites morais. É exatamente nessa ferida da luta de classes do século XXI que o diretor John Patton Ford toca em “Manual Prático de Vingança Lucrativa” (How to Make a Killing, 2026, disponível na Prime Video). Ao cruzar a estrutura dos contos morais de Charles Dickens com a célebre máxima de Balzac — de que toda grande fortuna esconde um crime —, o filme transforma a linha de sucessão de uma dinastia bilionária em um hilário e sangrento plano de otimização corporativa: cortar os galhos da árvore genealógica da Dinastia.

O diretor e roteirista John Patton Ford vem construindo uma narrativa cinematográfica sobre a falência da promessa meritocrática no século XXI.

Através de seus filmes como Emily The Criminal (2022), Ford vem capturando esse zeitgeist da Geração Z que esse humilde blogueiro vem definindo como “pós-meritocracia” - em vez de enfatizar o esforço, a capacidade e o mérito, começamos a valorizar o risco e a audácia, argumentando que o sucesso pode ser alcançado através da superação dos limites ou constrangimentos pessoais (morais, psíquicos) e do próprio sistema (regras, normas éticas).

Uma geração que está percebendo que a promessa meritocrática da geração anterior não vira, isto é, pode até eventualmente se realizar. Mas se isto acontecer, será ao custo dos melhores anos da vida de um jovem.

No filme Manual Prático de Vingança Lucrativa (How to Make a Killing, 2026), Ford reforça a ideia de que o crime não surge de uma inclinação psicopática nem do desejo de causar o caos, mas como uma resposta pragmática e racional a um sistema socioeconômico que encurralou a classe trabalhadora.

Essa uma comédia ácida de suspense que aborda a luta de classes no século XXI chega a esse poder de síntese em torno desse zeitgeist inspirado livremente no clássico britânico As Oito Vítimas (Kind Hearts and Coronets, 1949) e no romance Israel Rank (1907), atualizando a sátira social do século passado para a era atual do neoliberalismo e da desigualdade extrema.

Becket Redfellow (Glen Powell) é o filho rejeitado de uma das famílias mais fabulosamente ricas dos Estados Unidos. Sua mãe, Mary, foi deserdada e expulsa da dinastia Redfellow na juventude por se recusar a abortar o filho ilegítimo, Becket. Criado na classe trabalhadora sob a constante lembrança da mãe de que ele "merecia a vida que lhe foi tirada", Becket chega à vida adulta preso a empregos medíocres e sem perspectiva de ascensão social.



Ao descobrir que ocupa a oitava posição na linha de sucessão do império bilionário da família, Becket decide que não vai esperar pela vida que merece pelo caminho do mérito: ele arquiteta um plano frio e calculado para eliminar, um por um, os sete parentes que estão entre ele e a fortuna dos Redfellow.

Manual Prático de Vingança Lucrativa faz um curioso mix entre a atmosfera dos contos morais de Charles Dickens do século XIX (como em “Grandes Esperanças” e “Oliver Twist”) e a inspiração no emblemática máxima de 1834 do escritor francês Honoré de Balzac: “O segredo das grandes fortunas sem causa aparente é um crime esquecido, porque foi bem executado".

Temos no filme a clássica estrutura dos contos morais Dickensonianos: (a) O protagonista órfão/rejeitado e de origem humilde; (b) A descoberta de um "direito de nascença" ligado à aristocracia; (c) A busca por aceitação, status e mobilidade social em uma estrutura rígida de classes.

No entanto, John Patton Ford subverte o moralismo vitoriano. Nas histórias de Dickens, o herói costuma alcançar a redenção ou a recompensa mantendo a virtude e a integridade moral diante da corrupção do mundo.

Em How to Make a Killing, o protagonista percebe o oposto: para reivindicar seu lugar no topo da pirâmide, ele precisa assimilar a mesma sociopatia da elite que o renegou.

A tragédia moral do filme reside no fato de que o pertencimento à elite não exige virtude, mas sim a perda completa de escrúpulos.



O Filme

Manual Prático de Vingança Lucrativa começa com Becket Redfellow na prisão, a quatro horas de ser executado e fazendo sua confissão final a um padre (Sean C. Michael) — e essa é a estrutura narrativa que permite a Becket atuar como o narrador de sua própria história.

Descobrimos que Becket é membro de uma família obscenamente rica, mas depois que sua mãe (Nell Williams, em cenas de flashback) engravidou dele na adolescência, seu pai frio e cruel, Whitelaw Redfellow (Ed Harris), a baniu, deixando Becket para crescer como filho de uma mãe solteira da classe trabalhadora de Nova Jersey. O pai de Becket morre segundos após seu nascimento, numa cena tragicamente hilária.

Mesmo depois da morte da mãe de Becket, seu avô bilionário se recusa a reconhecer a existência do rapaz.

Corta para a Nova York dos dias atuais, que muitas vezes não se parece muito com a Nova York de antigamente. E há um motivo para isso: a produção foi filmado na Cidade do Cabo, África do Sul – um exemplo do fim do chamado “studio system” dos grandes estúdios anglo-saxônicos: em buca de custos mais baixos (mão de obra farta e barata, sindicatos lenientes etc.), filma-se em locações abaixo do equador.

Becket parece ser um sujeito amável, embora pouco ambicioso, mas depois de ser rebaixado de seu emprego sem futuro em uma loja de ternos masculinos e ficar constrangido com sua situação ao reencontrar sua antiga paixão de infância, a espetacularmente autoconfiante e deslumbrante Julia Steinway (Margaret Qualley), ele decide reivindicar o que é seu por direito.



Becket é o oitavo na linha de sucessão da fortuna da família Redfellow. Tudo o que ele precisa fazer é eliminar uma série de primos e outros parentes para se tornar obscenamente rico, por gerações.

Até esse momento, vimos poucos indícios de que Becket seja um sociopata frio e calculista — no entanto, ele se torna uma espécie de versão humana e caricata de Patrick Bateman (Psicopata Americano, 2000), eliminando um parente após o outro com pouco ou nenhum remorso. Os assassinatos geralmente são executados de forma absurda.

Raff Law interpreta o primo de Becket, um festeiro caricato e exagerado de Wall Street, que se torna a primeira vítima de Becket. Zach Woods arranca algumas risadas como Noah Redfellow, um artista pretensioso e sem talento que autografa uma foto com a legenda "O Basquiat Branco". Topher Grace é um evangelista bronzeado que reclama de ter sido injustamente difamado por sua amizade com El Chapo.

Claro, todos são pessoas terríveis e frívolas e que até parecem merecer, dando ao espectador a culpa de sentir um certo sabor de vingança dentro da luta de classes: "esses ricaços bem que merecem..." .

A Máxima de Balzac: "Toda Grande Fortuna Esconde um Crime"

A famosa tese do escritor francês Honoré de Balzac — de que por trás de cada grande patrimônio acumulado existe um crime esquecido ou não punido — atua em duas camadas complementares na narrativa.



Primeiro, a rota de ascensão de Becket é literalmente pavimentada por assassinatos. Ele trata o homicídio como uma "estratégia corporativa de eliminação de concorrência", otimizando sua trajetória até o topo. Ou, como diz cinicamente, “é preciso alguns galhos da árvore genealógica”.

Além disso, a própria dinastia Redfellow, liderada pelo inflexível patriarca Whitelaw (Ed Harris), já é fundamentada na violência e na amoralidade.

A decisão histórica de abandonar a própria filha grávida à miséria apenas para preservar as aparências e o controle do capital demonstra que a fortuna da família nunca foi ética. Becket não está "corrompendo" uma herança nobre; ele está apenas provando ser o herdeiro legítimo da crueldade que gerou aquele império.

O Pano de Fundo: a era dos bilionários por herança

O filme ganha contornos de sátira política ao ser lançado em um contexto global em que relatórios econômicos revelam que a maioria dos novos bilionários acumula riqueza por herança e transferência patrimonial, e não pelo empreendedorismo – leia “Novos bilionários ganharam mais dinheiro com herança do que com trabalho, mostra estudo” (CNN Economia – clique aqui).

Becket tenta o caminho do trabalho honesto e descobre que a mobilidade social por esforço próprio é um mito em uma economia dominada pelo capital acumulado.

Para ele a Herança é a única alavanca em um sistema neofeudal - a única forma real de mudar de patamar financeiro é o acesso ao patrimônio dinástico. Como Becket não possui o sobrenome ativo, ele transforma a herança em um jogo de eliminação.

Quando ele transforma a linha de sucessão hereditária em um campo de batalha sangrento, o filme satiriza a farsa da "inovação" e do "trabalho duro", escancarando que, no topo da pirâmide econômica, o acúmulo de riqueza é um jogo de soma zero mantido por privilégio de sangue.


 

Ficha Técnica

Título: Manual Prático de Vingança Lucrativa

Diretor: John Patton Ford

Roteiro: John Patton Ford, Robert Hamer

Elenco: Glen Powell, Margaret Qualley, Jessica Henwick, Ed Harris

Produção: Blueprint Pictures, StudioCanal

Distribuição: Prime Video

Ano: 2026

País: Reino Unido, França

  

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