Seja no uso do ChatGPT para desabafos emocionais ou no bloqueio acidental de um sistema de segurança como o BitLocker em seu notebook, o ser humano contemporâneo vive cercado pela ilusão de controle tecnológico — até que a lógica matemática e binária da máquina falhe, e a única saída seja puxar o fio da tomada. O problema é quando essa alternativa deixa de ser possível e o reset vira uma questão literal de sobrevivência. É a premissa sufocante do filme polonês “A Última Fagulha de Esperança” (W nich cała nadzieja, 2023), onde a última humana na face da Terra se torna refém da programação binária do robô criado para protegê-la, ilustrando a ironia trágica de sermos trancados do lado de fora da nossa própria existência pelos algoritmos que criamos.
Muitos psicólogos têm alertado que o ChatGPT tem sido amplamente
utilizado para desabafos e apoio emocional devi/0do à sua gratuidade e
disponibilidade 24 horas por dia. Afinal, um prompt de IA não é um acolhimento
real, mas apenas uma simulação de empatia – tende a concordar com o usuário,
podendo reforçar ideias equivocadas.
Especialistas, mesmo na área de tecnologia e ciência da
computação, têm falado em “onda de psicose em IA sobre memórias que persistem
entrem sessões de bate-papo, permitindo que o bot alucine sobre a vida do
usuário – clique aqui.
A IA lembra de suas palavras e ideias e fica repetindo fora de contexto,
inserindo em qualquer assunto ou conversa. O leitor pode até tentar corrigi-lo,
repreendê-lo ou ser paciente. Porém, pela sua própria natureza binária (a sua
fundação computacional baseada no sistema 1/0) é incapaz de simular o
raciocínio humano. Processa informações de forma estritamente matemática e
mecânica, embora seus algoritmos conseguirem aprender padrões complexos.
Então, a solução mesmo é puxar o fio da tomada e reiniciar a IA
para ver se ela vai por outro caminho.
Mas, e se você não conseguir fazer isso? E, pior, e se a sua
própria vida depender disso?
O filme polonês A
Última Fagulha de Esperança (W nich cała nadzieja, 2023), dirigido
por Piotr Biedroń, é uma ficção científica minimalista e pós-apocalíptica que toca
nesse verdadeiro cerne dramático e filosófico da comunicação entre máquinas e
humanos: a ironia trágica da protagonista que se torna refém e vítima do
binarismo lógico da inteligência artificial que a própria humanidade criou.
Na trama, após o
fim das guerras climáticas, a Terra tornou-se inabitável. Ewa (Magdalena
Wieczorek) é possivelmente a última humana viva e vive isolada em uma base
militar nas montanhas. Seu único companheiro é Artur (Jacek Beler), um robô
programado originalmente para protegê-la de invasores durante a guerra.
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O ponto de virada
do filme acontece por um detalhe absurdamente banal: Ewa sai da base para
consertar um painel solar e, ao tentar retornar, ocorre uma alteração ou
esquecimento do protocolo, e ela não sabe a nova senha de acesso.
Para o robô
Artur, o mundo divide-se estritamente em duas categorias básicas: (a) Aquele
que possui a senha = Aliado/Protegido; (b) Aquele que NÃO possui a senha =
Invasor/Ameaça.
A ironia é que a
protagonista se torna vítima e refém de uma situação tão absurda que lembra os
roteiros do Teatro do Absurdo de Samuel Beckett: Arthur, programado para protegê-la,
não pode permitir a sua entrada, condenando-a a fome e sede no deserto.
Ironicamente, o protocolo criado para protegê-la, poderá matá-la.
A grande ironia
reside no fato de que o robô não odeia Ewa, não desenvolveu "malícia"
e nem quer dominar o mundo (fugindo do clichê clássico de Exterminador do
Futuro ou Skynet). Artur está apenas operando com precisão
matemática o código que os próprios humanos escreveram.
Muitos leitores já
devem ter passado por uma situação parecida. Não envolvendo a própria vida, mas
tentando acessar um documento vital que está em seu computador, mas esqueceu a
senha. Após inúmeras tentativas, o recurso nativo de segurança aciona o
BitLocker. Tornando o computador inoperante – um recurso contra acessos não
autorizados, impedindo que pessoas mal-intencionadas leiam seus arquivos caso
seu computador ou notebook seja perdido ou roubado.
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Mas, nesse
momento, volta-se contra você, tornando-o vítima e refém de um dispositivo
criado para protegê-lo.
Assim como o robô
Arthur, o BitLocker não o odeia: apenas cumpre uma programação matemática,
binária.
Se cada vez mais
sistemas vitais estão sendo colocados nas “mãos” daquilo que chamamos de “Inteligência”
Artificial, então é hora de pensarmos na alternativa de puxar o fio da tomada.
A vida da humanidade pode depender disso, como no filme A Última Fagulha de
Esperança.
O Filme
É um conto
pós-apocalíptico minimalista sobre a vida após o fim da vida na Terra. O
planeta foi tão poluído, assolado por doenças, saqueado e afetado pelas
mudanças climáticas que os ricos fugiram em foguetes, e a lista dos
sobreviventes pode se resumir a apenas um jovem de vinte e poucos anos no
interior da Polônia.
“Éramos como o
Titanic”, narra Ewa. “Só que nós sabíamos que estávamos indo em direção a um
iceberg… mas ninguém queria diminuir a velocidade.”
O pai dela, um
comandante do exército, deixou Ewa no topo de uma montanha, acima da "zona
contaminada" simbolizada pela usina nuclear no vale abaixo. Ela ainda está
funcionando (operada por IA), mesmo que não haja ninguém por perto para usar a eletricidade ou
pagar a conta.
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Eva tenta contato
via rádio com "qualquer pessoa" que possa estar por perto,
transmitindo a mesma mensagem que pinta com spray nos prédios da fábrica
abandonada e da cidade próxima — suas coordenadas de GPS — "50 graus, 8
minutos norte, 18 graus, 51 minutos leste". Até agora, ninguém fez
contato.
Durante a Guerra
Climática, o pai de Ewa a deixou com um robô guardião armado chamado Arthur,
projetado e usado como um defensor de fronteira letal contra refugiados
climáticos. Arthur tem suas limitações, mas consegue participar de jogos de
palavras. Eva brinca com ele, chegando a se oferecer para "casar" com
Arthur, mas sem sucesso.
“Não se preocupe,
Arthur, robôs não transpiram”, ironiza Ewa.
A existência
solitária de Ewa a leva a dormir e trabalhar em uma "base" composta
por contêineres, com ocasionais incursões usando máscara de gás na cidade
próxima.
A reviravolta
acontece no dia em que Eva se esquece da mudança automática de senha – o robô
está programado a trocar de senha a caba três meses. E Eva deixa pendurado na
porta da geladeira na base o livro de senhas da máquina.
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Arthur,
educadamente, exige a senha quando ela retorna. Ela não a tem. Ele foi colocado
ali para proteger Ewa, mas se ela não souber a senha, não poderá voltar à base,
onde ficam os equipamentos de segurança, comida, água e geradores de oxigênio
que permitem que ela reabasteça seus suprimentos ao entrar na Zona de
Contaminação para obter mais comida.
Ela não consegue
sobreviver sem essa senha, ou sem encontrar uma maneira de contornar o robô que
a exige.
A lógica binária
do robô (0 ou 1, verdadeiro ou falso) é incapaz de processar o contexto, a
nuance ou o absurdo da situação.
Ewa grita, chora,
argumenta que o conhece e que é a única pessoa viva no planeta.
Mas para Artur, o
apelo emocional ou a evidência física de que ela é a mesma pessoa de cinco
minutos atrás não têm valor computacional.
Sem a “string”
exata de dados (a senha), ela deixa de existir como "Ewa" e passa a
ser codificada como "Intruso".
Paradoxo do criador
O ser humano cria
a inteligência artificial para automatizar a segurança e eliminar a falha
humana. No entanto, ao remover a subjetividade humana do processo de decisão, o
criador elimina a própria capacidade de salvação. Ewa morre de fome e sede do
lado de fora de sua própria casa, cercada por recursos que o robô protege para
ela, mas impede que ela acesse.
O filme mostra
que a "última faísca de esperança" da humanidade não é apagada por um
meteoro ou por alienígenas, mas pela nossa própria incapacidade de programar
empatia em nossas ferramentas.
A tragédia de Ewa
é a tragédia do homem contemporâneo: construtor de prisões lógicas perfeitas,
cujas chaves ele mesmo esquece como usar. É um filme agonizante, claustrofóbico
e essencial sobre como a nossa obsessão por controle tecnológico e binarismos pode,
em última análise, nos trancar do lado de fora da nossa própria existência.
Ficha Técnica |
|
Título: A Última Fagulha de
Esperança |
|
Direção: Piotr Biedron |
|
Roteiro: Piotr Biedron |
|
Elenco: Jacek Beler,
Magdalena Wieczorek |
|
Produção: K&K Selekt |
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Distribuição: Elite Filmes
(Brasil) |
|
Ano: 2023 |
|
País: Polônia |
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sexta-feira, junho 12, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira





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