Enquanto o Brasil estreava na Copa de 2026 contra Marrocos, os holofotes no MetLife Stadium não buscavam a bola, mas sim o banco de reservas: lá estava Neymar, convocado mesmo lesionado pelo técnico Carlo Ancelotti, mais atento aos celulares das arquibancadas e ao seu rendimento semiótico de celebridade do que ao jogo. Esse abismo entre o foco no extracampo e a bola rolando encontra um espelho retrovisor incômodo na minissérie O2 Filmes/Netflix “Brasil 70: A Saga do Tri”(2026). Ao recriar a histórica campanha do tricampeonato em meio ao caldeirão político da ditadura militar, a produção escancara, por um violento choque de contrastes, a decadência de um futebol que migrou da genialidade orgânica e descentralizada para se tornar uma engrenagem corporativa engessada e dependente de técnicos-CEOs.
Na
estreia da Seleção na Copa do Mundo 2026 contra Marrocos em New Jersey (EUA) no
último dia 13, uma imagem emblemática ajudou a ilustrar o contexto atual do
futebol brasileiro: câmeras apontadas para os jogadores brasileiros que
entravam no gramado e que, logicamente, procuravam Neymar – o personagem mais
repercutido na cobertura, não tanto pelo seu talento, mas pela controversa
convocação: por que o técnico Ancelotti convocou um jogador contundido?
Um
pouco da resposta veio nas imagens do sintomático comportamento do jogador: o
tempo inteiro olhando para as arquibancadas, sorrindo, acenando, como se
perscrutasse entre o público amigos influencers, conhecidos famosos ou,
simplesmente celulares apontados para ele.
Embora
ainda em tratamento e fora da escalação da partida, Ancelotti o levou para o
campo. Certamente para motivar o time. Mas o jogador-celebridade parecia mais
interessado em outra coisa...
É
oportuna a exibição da minissérie Netflix Brasil 70: A Saga do Tri, que
narra e dramatiza os passos do escrete liderado no campo por Pelé, Gérson e
Tostão, contextualizando o País de uma ditadura militar que se entronizava no
poder e via a camiseta canarinho não apenas como entretenimento, mas como uma
ferramenta de propaganda política e de coesão nacional.
Não
apenas pelo timing de uma produção sobre a geração de jogadores mais famosa que
acompanha como um fantasma cada convocação para as copas do mundo. Mas,
principalmente, como leva para as telas uma história de resistência contra as
transformações culturais e organizacionais do futebol brasileiro. Que deu
nisso: uma estrela do futebol mais atenta ao seu rendimento semiótico nas
arquibancadas do que para o rendimento esportivo nos gramados.
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Em
outras palavras: como aquilo deu nisso?
A
produção ilustra, precisamente por um forte choque de contrastes, como o
esporte migrou de uma manifestação cultural orgânica para uma engrenagem
corporativa verticalizada: de início, como ferramenta de propaganda política de
um regime militar; e depois como organização verticalizada corporativa.
A Minissérie
A
ficção histórica Brasil 70: A Saga do Tri (Netflix/O2 Filmes) consegue a
proeza de transformar uma história cujos resultados e lances todo mundo já
conhece em um drama humano, político e estético profundamente envolvente.
Lançada
estrategicamente no contexto da Copa do Mundo de 2026, a produção dirigida por
Paulo Morelli, Pedro Morelli e Quico Meirelles acerta ao não se limitar ao
campo de jogo, dividindo sua força em três pilares principais:
Primeiro,
consegue visualmente mostrar a plasticidade do Futebol como Coreografia e
Espetáculo Cinematográfico
Visualmente,
a série é impecável. Em vez de apenas usar imagens granuladas de arquivo, a
produção optou por recriar os lances históricos em campo utilizando tecnologia
moderna, como tracking shots e drones, mantendo uma coreografia
milimetricamente fiel às jogadas reais de 1970. O futebol ganha peso de cinema,
capturando a plasticidade da era dos "cinco camisas 10" (Pelé,
Tostão, Rivellino, Gérson e Jairzinho) e contrastando o romantismo daquele
drible com a crueza física do esporte.
Ao lado
disso, a virtude da minissérie e descrever o Caldeirão Político da Ditadura
Militar: conquista do Tri é
indissociável do momento mais sangrento da Ditadura Militar brasileira (o
governo Médici).
A série
constrói brilhantemente essa dualidade ao descrever a queda de João Saldanha
(Rodrigo Santoro): A transição do comando técnico — com a saída do jornalista
comunista e a entrada de Zagallo — ilustra o nível de interferência e
vigilância do regime.
E a
instrumentalização da Seleção: como os militares monitoravam os jogadores
(especialmente Pelé) por medo de protestos ou de supostas ameaças de sequestros
de guerrilha, enquanto o aparato estatal usava o ufanismo do "Pra
Frente, Brasil" e do "Ame-o ou Deixe-o" para mascarar
a violência dos porões da repressão.
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Contrastando
com o contexto político a minissérie consegue Humanizar os principais ícones do
escrete, mostrando-as como homens cheios de dúvidas, vaidades e medos diante de
uma pressão absurda.
Rodrigo
Santoro entrega uma atuação magnética e enérgica como João Saldanha.
Bruno
Mazzeo constrói um Mário Zagallo complexo, equilibrando suas famosas
superstições, sua inteligência estratégica e a difícil missão de assumir o time
às vésperas do Mundial.
E Lucas
Agrícola assume a responsabilidade de viver Pelé e se sai muito bem, mostrando
um Rei vulnerável, solitário e sobrecarregado pelas expectativas de uma nação
inteira e pelas cobranças silenciosas do regime político.
Corporatização do futebol
O pano
de fundo atual para analisar essa minissérie sobre a Copa de 1970 é a
irresistível tendência da corporatificação do futebol brasileiro com duas
características: primeiro a comodificação dos jogadores, formados para serem
exportados, privilegiando força e velocidade no lugar do drible (essência da
cultura brasileira do futebol).
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Segundo,
a verticalização organizacional: não há mais jogadores líderes que, dentro do
campo, durante o jogo, exortem e comandem os jogadores. Todos se tornam
dependentes do técnico, hoje elevado a um CEO, uma estrela igual ou maior do
que os jogadores. Os atletas perderam a autonomia dentro do campo e são
subordinados ao técnico-CEO, dentro de uma típica organização corporativa verticalizada.
A minissérie
resgata um futebol que não nascia em planilhas de scout ou em academias de alta
performance focadas em força e velocidade, mas sim na pura essência do drible e
da improvisação.
A
produção detalha como aquela seleção reuniu, simultaneamente, os camisas 10 de
seus respectivos clubes (Pelé, Tostão, Rivellino, Gérson e Jairzinho). Juntar
tantos criativos era um "absurdo" tático para a época, mas funcionou
porque havia espaço para a plasticidade e para a cultura brasileira do
improviso. O drible era a solução de problemas complexos na base da genialidade
individual.
Hoje, o
mercado europeu busca e formata o jovem jogador brasileiro como uma commodity
pronta para o encaixe tático: forte para recompor a marcação, veloz para
transições rápidas e disciplinado.
A série
joga luz sobre uma era onde a técnica refinada moldava o esquema, e não o
contrário.
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A liderança horizontal vs. O técnico-CEO verticalizado
O ponto
mais fascinante da produção está nos bastidores e na dinâmica de vestiário
daquela campanha.
Fica
nítido que o treinador (Zagallo) não operava no topo de uma pirâmide como um
CEO intocável. Uma das cenas mais emblemáticas da obra — baseada em relatos
históricos — mostra lideranças cascudas como Gérson, Carlos Alberto Torres (o
Capitão) e o próprio Pelé indo até os aposentos de Zagallo para interceder pela
escalação e posicionamento de Tostão. Havia um diálogo de alto nível.
Dentro
das quatro linhas, as decisões eram descentralizadas: Gérson (o
"Canhotinha de Ouro") organizava o time gritando e apontando o dedo,
e Carlos Alberto exercia uma autoridade moral e tática imediata, sem precisar
olhar para o banco de reservas a cada lance.
Atualmente,
a autonomia sumiu. O jogador virou um "cumpridor de funções"
dependente do banco de dados e das ordens do treinador. Se o time
moderno parece anestesiado e carente de líderes viscerais, é porque o sistema
corporativo do futebol transferiu todo o protagonismo e o poder de decisão para
a figura do técnico-estrela.
A
grande ironia: A Saga do Tri mostra que a comissão técnica de 1970 (que
incluía o preparador Cláudio Coutinho e o jovem Carlos Alberto Parreira)
inaugurou a introdução da ciência e da preparação física ultra-rigorosa no
futebol brasileiro.
No
entanto, aquela estrutura nascente encontrava a oposição e resistência de uma
geração marcada pela galhofa de Garrincha ao acompanhar uma detalhada preleção
tática do técnico Feola na Copa de 1958, antes da partida contra a União
Soviética: “Tudo bem, seu Feola, mas o senhor já combinou com os russos?”
Hoje, a corporatização inverteu a lógica,
usando a tática e o físico para enquadrar e limitar o talento.
Ficha Técnica |
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Título: Brasil 70: A Saga do Tri |
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Criação: Rafael Dornellas,
Naná Xavier |
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Roteiro: Maíra Oliveira, Felipe
Sant’Angelo |
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Elenco: Rodrigo Santoro, Lucas
Agrícola, Ravel Andrade, Marcelo Adnet, Bruno Mazzeo |
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Produção: O2 Filmes |
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Distribuição: Netflix |
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Ano: 2026 |
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País: Brasil |
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quinta-feira, junho 18, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira





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