sexta-feira, junho 19, 2026

Gramática da moralização: como mídia transforma tragédias estruturais em desvios morais



Duas mortes por dia. O trágico balanço do trânsito paulistano apresentado pelo telejornal da TV Globo "Bom Dia SP" acendeu o alerta para o que a mídia convencionou chamar de "violência no trânsito". Mas o que parece ser um endurecimento do termo para chocar o espectador esconde, na verdade, uma sutil e perversa armadilha linguística. Ao focar a busca por soluções no comportamento do motorista ("o que cada um pode fazer?"), a narrativa esvazia a responsabilidade histórica do planejamento urbano focado no automóvel e na privatização do espaço pública. Trata-se da estetização de um fenômeno maior: a onguização e a moralização da linguagem que, ao poupar o capital da culpa pela miséria, pelo burnout e pela morte, entrega de bandeja o palanque perfeito para o punitivismo e o pânico moral da extrema-direita.

O conceito de “violência no trânsito” aparece como transversal não apenas nos telejornais e mídia impressa e eletrônica. Também aparece em artigos acadêmicos, institutos de pesquisas (“Atlas da Violência”) e sites jurídicos e especializados em transporte e mobilidade.

A recente reportagem exibida no telejornal local Bom Dia SP, na TV Globo, fez uma síntese didática desse, digamos assim, ambíguo conceito – a primeira coisa que vem à cabeça quando se ouve essas palavras é sopapos entre motoristas, conflitos que terminam com tiros, agressões etc. Também é isso. Mas também batidas, excesso de velocidade e toda a sorte de sinistros que faz franzir a testa das companhias de seguro.

A matéria do “Bom Dia SP” noticiava um preocupante crescimento da chamada “violência no trânsito” no comparativo com 2025. E o trágico resultado disso: mortes crescimento de 5,5%, duas mortes por dia. E as principais vítimas “vulneráveis” (esses entre aspas serão explicados mais à frente): motociclistas e pedestres.

Causas? “Imprudência do motorista, porque bebeu, porque fez uma ultrapassagem proibida, porque estava acima do limite de velocidade, porque estava fazendo um racha... na maioria desses casos por desrespeito às leis de trânsito”, foi enfático o preocupado apresentador.

E, claro, a matéria sai em busca de solução. “O que cada um pode fazer para diminuir a gravidade dos acidentes?”, foi a pergunta feita diretamente a motoristas, falando, da janela de seus carros, para o microfone da emissora.

É sintomático a questão que a matéria levanta ao final: “o que cada um”, a exortação tradicional desse viés jornalístico que acompanha uma visão de mundo moral na qual qualquer questão pode ser explicada pelo aspecto comportamental: “se beber, não dirija”; “beba, mas com moderação”.

O que transborda para outros problemas, como o das bets e cassinos on line: “jogue com responsabilidade”, recomenda-se dentro do enfoque da gravidade das consequências morais dos nossos atos individuais

O termo “violência no trânsito” se encaixa dentro de uma tendência linguística generalizada de construção de figuras de linguagem usadas para suavizar ou atenuar uma ideia, notícia ruim ou expressão que possa soar rude, desagradável ou chocante.




Exemplos estão por todos os lados: pobre transforma-se em “situação de vulnerabilidade”. Mendigo vira “pessoa em situação de rua”, direito social é “acolhimento”, empregado passa a ser considerado “colaborador” e assim por diante.

O que está acontecendo não é apenas uma busca por termos mais "educados" ou politicamente corretos; é uma operação ideológica que desloca o debate da esfera política e socioeconômica (onde cabem cobranças ao Estado e ao capital) para a esfera psicológica, moral ou comportamental (onde a culpa é do indivíduo ou de uma "fatalidade").

Ao transformar problemas em termos técnicos, abstratos ou afetivos, esvazia-se a carga de conflito de classes e a responsabilidade histórica.

Ocultar a infraestrutura “violentogênica”

O caso dessa reportagem do “Bom Dia SP” é exemplar.

Quando o debate sobre o trânsito na mídia migra para o termo "violência", a intenção declarada costuma ser nobre: alertar para a gravidade das mortes. Porém, semanticamente, a palavra "violência" pressupõe uma intencionalidade ou um desvio de conduta moral. Quem comete violência é um sujeito "violento", um "monstro", alguém com "raiva ao volante" ou falta de educação.

É aqui que ocorre o fenômeno linguístico da individuação e moralização em detrimento de um debate sobre estrutura e planejamento urbano:

(a)           (a) O foco vai para o comportamento: O problema passa a ser o motorista que não tem "paz no coração", o sujeito que bebeu, o jovem que fez racha. O debate se transforma em uma cruzada moralista por "paz", "consciência" e "gentileza".

(b)    A estrutura é esquecida: Ao focar no motorista agressivo, a linguagem oculta o fato de que a própria infraestrutura urbana é violentogênica. Oculta-se a ausência de transporte público de massa (que força as pessoas a usarem carros e motos), a falta de passarelas, o desenho de avenidas que parecem pistas de corrida cortando bairros residenciais – a urbanização em torno de marginais, radiais e perimetrais. Além da escolha política de privilegiar o transporte individual em detrimento do coletivo.

Ao transformar o problema em uma questão de "violência" (esfera moral), a solução proposta pelas campanhas institucionais e pela mídia nunca é reestruturar as cidades ou taxar a indústria do automóvel. A solução passa a ser: (a) Campanhas de "reeducação" (como se o problema fosse pedagógico); (b) Apelos para que as pessoas sejam "mais compreensivas" no trânsito; (c) Punição severa e individualizada para o "irresponsável" da vez.



E daí surge o clichê dos clichês midiáticos: o populismo penal. Que apenas faz sobrar mais ventos para os moinhos da extrema direita.

Principalmente em um ano eleitoral.

Talvez o laboratório mais ativo de eufemismos hoje seja o mundo do trabalho. Com a crise do emprego formal e a expansão da uberização, a linguagem foi mobilizada para fazer a perda de direitos parecer uma conquista pessoal.

A mais exemplar estratégia semântica é converter "Trabalhador informal/sem direitos" para "Empreendedor" ou "Colaborador autônomo". Transformar o entregador de aplicativo ou a costureira terceirizada em "donos do próprio negócio". O peso de não ter férias, décimo terceiro ou licença-médica passa a ser lido como "autonomia" e "liberdade geográfica".

De "Sobrecarga de trabalho/Burnout" para "Falta de resiliência" ou "Problema de saúde mental individual": A estrutura esmagadora da empresa é absolvida. O trabalhador que adoece é quem falhou em não fazer mindfulness, não meditar ou não gerenciar bem o próprio estresse.

A Despolitização da Crise Social

"Situação de rua" é um caso do uso de termos circunstanciais que serve para dar a entender que a miséria é um estado passageiro, quase um azar, e não o resultado previsível de um mercado imobiliário excludente, gentrificação e da falta de reforma agrária/urbana.

De "Favela/Periferia abandonada" para "Comunidade resiliente" ou de que a “a favela não é carente, mas potente”: elogiar a "resiliência" ou a "criatividade" da periferia diante da falta de esgoto, luz e segurança é uma forma perversa de romantizar a negligência do Estado. Se eles são tão criativos e fortes para sobreviver na lama, o Estado não precisa intervir com urgência.

De "Fome" para "Insegurança alimentar": "Fome" é uma palavra visceral, que gera incômodo ético imediato. "Insegurança alimentar severa" soa como um indicador estatístico abstrato, um dado de relatório que não mexe com o estômago de quem ouve.



A Substituição de Conflito por Gestão: "A Onguização da Linguagem"

A transformação de termos políticos em termos de "gestão de projetos" ou "assistencialismo" retira o caráter de direito e o substitui pelo caráter de benfeitoria.

De "Exploração" para "Parceria": O abismo de poder entre uma multinacional e um produtor local é aplainado sob o selo de "cadeia de valor inclusiva" ou "parcerias estratégicas".

De "Direito social" para "Benefício" ou "Acolhimento": Saúde, educação e moradia deixam de ser conquistas históricas garantidas por lei (direitos) e passam a ser lidas quase como uma concessão benevolente do governo ou de uma fundação privada.


O impacto disso: A construção da agenda do pânico moral

Quando a estrutura é blindada pela linguagem, a solução proposta também muda de natureza.

Se o problema da pobreza não é a exploração, mas a "vulnerabilidade", a solução não é a redistribuição de renda ou a taxação de grandes fortunas, mas sim programas de "capacitação emocional" e "empreendedorismo" para que o vulnerável aprenda a "vencer na vida".

Se o problema no trânsito é a "violência" (uma escolha moral do motorista agressivo) e não o desenho urbano focado em rodoviarismo que sufoca pedestres e ciclistas, a solução passa a ser o apelo moral por campanhas educativas de "paz no trânsito" ou o pânico punitivista – como grita histericamente a extrema direita, “A polícia prende e a Justiça solta!”

A eufemização, portanto, opera como um anestésico social: ela acalma a consciência das classes integradas, transforma cidadãos portadores de direitos em "clientes" ou "beneficiários" e garante que a engrenagem que produz a desigualdade continue girando sem ser questionada pelo nome real.

Mas num ano eleitoral como esse, ganha uma mais-valia semiótica: empodera a retórica da extrema direita bolsonarista.

Para a grande mídia pouco importa: se há antipetismo, somos a favor...

  

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