Duas mortes por dia. O trágico balanço do trânsito paulistano apresentado pelo telejornal da TV Globo "Bom Dia SP" acendeu o alerta para o que a mídia convencionou chamar de "violência no trânsito". Mas o que parece ser um endurecimento do termo para chocar o espectador esconde, na verdade, uma sutil e perversa armadilha linguística. Ao focar a busca por soluções no comportamento do motorista ("o que cada um pode fazer?"), a narrativa esvazia a responsabilidade histórica do planejamento urbano focado no automóvel e na privatização do espaço pública. Trata-se da estetização de um fenômeno maior: a onguização e a moralização da linguagem que, ao poupar o capital da culpa pela miséria, pelo burnout e pela morte, entrega de bandeja o palanque perfeito para o punitivismo e o pânico moral da extrema-direita.
O
conceito de “violência no trânsito” aparece como transversal não apenas nos
telejornais e mídia impressa e eletrônica. Também aparece em artigos acadêmicos,
institutos de pesquisas (“Atlas da Violência”) e sites jurídicos e
especializados em transporte e mobilidade.
A
recente reportagem exibida no telejornal local Bom Dia SP, na TV Globo, fez uma
síntese didática desse, digamos assim, ambíguo conceito – a primeira coisa que
vem à cabeça quando se ouve essas palavras é sopapos entre motoristas, conflitos
que terminam com tiros, agressões etc. Também é isso. Mas também batidas,
excesso de velocidade e toda a sorte de sinistros que faz franzir a testa das
companhias de seguro.
A
matéria do “Bom Dia SP” noticiava um preocupante crescimento da chamada
“violência no trânsito” no comparativo com 2025. E o trágico resultado disso:
mortes crescimento de 5,5%, duas mortes por dia. E as principais vítimas
“vulneráveis” (esses entre aspas serão explicados mais à frente): motociclistas
e pedestres.
Causas?
“Imprudência do motorista, porque bebeu, porque fez uma ultrapassagem proibida,
porque estava acima do limite de velocidade, porque estava fazendo um racha...
na maioria desses casos por desrespeito às leis de trânsito”, foi enfático o
preocupado apresentador.
E,
claro, a matéria sai em busca de solução. “O que cada um pode fazer para
diminuir a gravidade dos acidentes?”, foi a pergunta feita diretamente a
motoristas, falando, da janela de seus carros, para o microfone da emissora.
É
sintomático a questão que a matéria levanta ao final: “o que cada um”, a
exortação tradicional desse viés jornalístico que acompanha uma visão de mundo
moral na qual qualquer questão pode ser explicada pelo aspecto comportamental:
“se beber, não dirija”; “beba, mas com moderação”.
O que
transborda para outros problemas, como o das bets e cassinos on line: “jogue
com responsabilidade”, recomenda-se dentro do enfoque da gravidade das
consequências morais dos nossos atos individuais
O termo
“violência no trânsito” se encaixa dentro de uma tendência linguística
generalizada de construção de figuras de linguagem usadas para suavizar ou
atenuar uma ideia, notícia ruim ou expressão que possa soar rude, desagradável
ou chocante.
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Exemplos
estão por todos os lados: pobre transforma-se em “situação de vulnerabilidade”.
Mendigo vira “pessoa em situação de rua”, direito social é “acolhimento”, empregado
passa a ser considerado “colaborador” e assim por diante.
O que
está acontecendo não é apenas uma busca por termos mais "educados" ou
politicamente corretos; é uma operação ideológica que desloca o debate da esfera
política e socioeconômica (onde cabem cobranças ao Estado e ao capital) para a esfera
psicológica, moral ou comportamental (onde a culpa é do indivíduo ou de uma
"fatalidade").
Ao
transformar problemas em termos técnicos, abstratos ou afetivos, esvazia-se a
carga de conflito de classes e a responsabilidade histórica.
Ocultar a infraestrutura “violentogênica”
O caso
dessa reportagem do “Bom Dia SP” é exemplar.
Quando
o debate sobre o trânsito na mídia migra para o termo "violência", a
intenção declarada costuma ser nobre: alertar para a gravidade das mortes.
Porém, semanticamente, a palavra "violência" pressupõe uma intencionalidade
ou um desvio de conduta moral. Quem comete violência é um sujeito
"violento", um "monstro", alguém com "raiva ao
volante" ou falta de educação.
É aqui que ocorre o fenômeno linguístico da individuação e moralização em detrimento de um debate sobre estrutura e planejamento urbano:
(a) (a) O
foco vai para o comportamento: O problema passa a ser o motorista que não tem "paz no
coração", o sujeito que bebeu, o jovem que fez racha. O debate se
transforma em uma cruzada moralista por "paz",
"consciência" e "gentileza".
(b)
A estrutura é esquecida: Ao
focar no motorista agressivo, a linguagem oculta o fato de que a própria
infraestrutura urbana é violentogênica. Oculta-se a ausência de
transporte público de massa (que força as pessoas a usarem carros e motos), a
falta de passarelas, o desenho de avenidas que parecem pistas de corrida
cortando bairros residenciais – a urbanização em torno de marginais, radiais e
perimetrais. Além da escolha política de privilegiar o transporte individual em
detrimento do coletivo.
Ao
transformar o problema em uma questão de "violência" (esfera moral),
a solução proposta pelas campanhas institucionais e pela mídia nunca é
reestruturar as cidades ou taxar a indústria do automóvel. A solução passa a
ser: (a) Campanhas de "reeducação" (como se o problema fosse
pedagógico); (b) Apelos para que as pessoas sejam "mais
compreensivas" no trânsito; (c) Punição severa e individualizada para o
"irresponsável" da vez.
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E daí
surge o clichê dos clichês midiáticos: o populismo penal. Que apenas faz
sobrar mais ventos para os moinhos da extrema direita.
Principalmente
em um ano eleitoral.
Talvez
o laboratório mais ativo de eufemismos hoje seja o mundo do trabalho. Com a
crise do emprego formal e a expansão da uberização, a linguagem foi
mobilizada para fazer a perda de direitos parecer uma conquista pessoal.
A mais
exemplar estratégia semântica é converter "Trabalhador informal/sem
direitos" para "Empreendedor" ou "Colaborador
autônomo". Transformar o entregador de aplicativo ou a
costureira terceirizada em "donos do próprio negócio". O peso de não
ter férias, décimo terceiro ou licença-médica passa a ser lido como
"autonomia" e "liberdade geográfica".
De
"Sobrecarga de trabalho/Burnout" para "Falta de
resiliência" ou "Problema de saúde mental individual": A
estrutura esmagadora da empresa é absolvida. O trabalhador que adoece é quem
falhou em não fazer mindfulness, não meditar ou não gerenciar bem o
próprio estresse.
A Despolitização da Crise Social
"Situação
de rua" é um caso do uso de termos circunstanciais que serve para dar a
entender que a miséria é um estado passageiro, quase um azar, e não o resultado
previsível de um mercado imobiliário excludente, gentrificação e da falta de
reforma agrária/urbana.
De
"Favela/Periferia abandonada" para "Comunidade resiliente"
ou de que a “a favela não é carente, mas potente”: elogiar a
"resiliência" ou a "criatividade" da periferia diante da
falta de esgoto, luz e segurança é uma forma perversa de romantizar a
negligência do Estado. Se eles são tão criativos e fortes para sobreviver na
lama, o Estado não precisa intervir com urgência.
De
"Fome" para "Insegurança alimentar": "Fome" é uma
palavra visceral, que gera incômodo ético imediato. "Insegurança alimentar
severa" soa como um indicador estatístico abstrato, um dado de relatório
que não mexe com o estômago de quem ouve.
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A Substituição de Conflito por Gestão: "A Onguização da Linguagem"
A
transformação de termos políticos em termos de "gestão de projetos"
ou "assistencialismo" retira o caráter de direito e o substitui pelo
caráter de benfeitoria.
De
"Exploração" para "Parceria": O abismo de poder entre uma
multinacional e um produtor local é aplainado sob o selo de "cadeia de
valor inclusiva" ou "parcerias estratégicas".
De
"Direito social" para "Benefício" ou
"Acolhimento": Saúde, educação e moradia deixam de ser conquistas
históricas garantidas por lei (direitos) e passam a ser lidas quase como uma
concessão benevolente do governo ou de uma fundação privada.
O impacto
disso: A construção da agenda do pânico moral
Quando
a estrutura é blindada pela linguagem, a solução proposta também muda de
natureza.
Se o
problema da pobreza não é a exploração, mas a "vulnerabilidade", a
solução não é a redistribuição de renda ou a taxação de grandes fortunas, mas
sim programas de "capacitação emocional" e
"empreendedorismo" para que o vulnerável aprenda a "vencer na
vida".
Se o
problema no trânsito é a "violência" (uma escolha moral do motorista
agressivo) e não o desenho urbano focado em rodoviarismo que sufoca pedestres e
ciclistas, a solução passa a ser o apelo moral por campanhas educativas de
"paz no trânsito" ou o pânico punitivista – como grita histericamente
a extrema direita, “A polícia prende e a Justiça solta!”
A
eufemização, portanto, opera como um anestésico social: ela acalma a
consciência das classes integradas, transforma cidadãos portadores de direitos
em "clientes" ou "beneficiários" e garante que a engrenagem
que produz a desigualdade continue girando sem ser questionada pelo nome real.
Mas num
ano eleitoral como esse, ganha uma mais-valia semiótica: empodera a retórica da
extrema direita bolsonarista.
Para a
grande mídia pouco importa: se há antipetismo, somos a favor...
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sexta-feira, junho 19, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira




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