Se no século XX o cinema nos alertava sobre o perigo de sermos esmagados pelas engrenagens industriais e corporativas do Capitalismo, o século XXI revela um horror muito mais íntimo e invasivo: a colonização da nossa própria biologia. O filme “Kombucha” (2025), de Jake Myers, eleva a metáfora da exploração corporativa ao limite do visceral, transformando o "bem-estar" do escritório em um pesadelo de body horror. Ao fundir a sátira ácida de “The Office” com a filosofia da "Sociedade do Cansaço" de Byung-Chul Han ao melhor estilo Cronenberguiano, o longa demonstra que, na era do desempenho, a empresa não quer apenas que você "vista a camisa" — ela quer fermentar a sua alma e transformar sua individualidade em uma cultura simbiótica a serviço do lucro.
Desde aquelas
cenas de Charlie Chaplin sendo engolido por uma máquina na esteira de linha de
montagem industrial em Tempos Modernos (1936), o cinema criou uma série de
metáforas para representar como o ambiente industrial e corporativo nos explora
e consome. Da literalidade física da disciplina industrial do século XX à
toxicidade da cultura corporativa do século XXI.
Da metáfora
da empresa como um Deus indiferente em Alien (1979) em que a corporação Weyland-Yutani é a vilã
onipresente; do funcionário como bateria
pura, pilhas biológicas para as máquinas que geravam a Matrix (Matrix, 1999);passando
pela empresa WorryFree que transformava seus funcionários em “Equisapiens”,
híbridos de humanos com cavalos (Sorry to Bother You, 2018); e ainda a alienação
total corporativa na série Ruptura (2022) onde um microchip separa
cirurgicamente as memórias do trabalho das memórias da vida pessoal; nesse
filme que analisaremos a metáfora da toxicidade corporativa chega a um nível de
quase literalidade.
É o filme Kombucha
(2025), dirigido por Jake Myers, uma sátira ácida que utiliza o horror
corporal (body horror) para dissecar as patologias do trabalho moderno.
Descrito frequentemente como um encontro entre a ironia e cinismo de The
Office e o cinema visceral de David Cronenberg, o longa utiliza a bebida
fermentada "da moda" como um veículo para uma crítica contundente à
desumanização corporativa.
"Kombucha",
bebida hipster, é uma bebida fermentada feita de chá, açúcar e uma cultura de
bactérias chamada SCOBY. Também conhecida como "mãe" ou
"cogumelo", a SCOBY é um crescimento simbiótico de bactérias e
leveduras. Realmente não parece uma bebida apetitosa, mas legiões de pessoas a
consomem fervorosamente.
Bebida pró biótica,
energética e natural, uma legião de fãs jura pelos seus benefícios. Mas parece
que todos aqueles resíduos orgânicos que podem ser vistos flutuando no líquido
inspiraram os roteiristas Geof Bakken e Jake Mayers a trazer o horror corporal
para o ambiente de trabalho.
Mais precisamente para
uma organização chamada Symbio. Uma daquelas empresas da Costa Oeste americana,
formada por millenials em um ambiente descolado e informal, vendendo a imagem
de que ser criativo e disruptivo é o que a corporação espera de você. Muito
mais do que conformismo e rotina.
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E nada melhor do que a
bebida Kombucha, disponível para todos nas geladeiras e frigobars espalhados
pela empresa, para representar esse espírito jovem corporativo. Só que tem um pequeno
e estranho detalhe: no primeiro dia de trabalho, sutilmente os superiores
hierárquicos o obrigam a tomar kombucha.
Se não, você será
convocado para uma “reunião de re-avaliação”, e perderá os tentadores contracheques
e bônus.
A bebida não apenas
aumenta sua produtividade de forma sobrenatural, mas também começa a alterar
sua fisiologia. Seus sentidos ficam aguçados para planilhas e prazos, mas é
quando descobrirá os verdadeiros horrores que a kombucha pode causar.
Habitualmente a
cultura corporativa nos incentiva a “vestir a camisa da empresa”. Em Kombucha
essa cultura se converte numa cultura simbiótica de bactérias e leveduras. E os
“colaboradores” se tornam literalmente “fermentados” ao se sentirem fazendo
parte do transe coletivo ao fazer parte de uma “colmeia” bacteriana.
Kombucha é a versão
longa-metragem do curta-metragem de comédia de terror corporal
"Kombucha!", produzido por Myers e Bakken em 2024. O curta foi um
grande sucesso em diversos festivais de cinema, o suficiente para dar o salto
que muitos diretores de curtas almejam. Myers expandiu seu conceito
central para uma produção de longa-metragem, com grande parte do mesmo elenco,
e obteve resultados excelentes.
O Filme
Logo na cena de
abertura, fica evidente que algo está errado na corporação Symbio.
Uma jovem visivelmente
nervosa conversa com a mãe ao telefone. É tarde da noite e, em vez de preparar
o jantar combinado, ela trabalhará até tarde mais uma vez. Na sociedade atual,
tão focada no trabalho, isso não é novidade, mas as estranhas marcas em seus
braços são, assim como sua relutância em beber o kombucha oferecido pelo
escritório, preferindo, em vez disso, dar uma olhada no armário de produtos de
limpeza.
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Em termos de abertura,
esta é realmente eficaz em prender a atenção do público e despertar a
curiosidade para entender o que diabos aconteceu para levar essa mulher a tomar
uma decisão tão sombria: preferir beber água sanitária ao invés da kombucha.
Após estabelecer o
estranho ambiente de escritório, o filme concentra-se em Luke
(Terrence Carey), um músico em dificuldades. Ele sonha com fama e fortuna, mas
esses sonhos ainda não se concretizaram. Luke está preso em um ciclo familiar
de apresentações em noites de microfone aberto, na esperança desesperada de que
desta vez alguém importante de alguma gravadora o descubra.
A sua incapacidade de
abandonar esses desejos está lhe causando problemas no seu relacionamento com a
sua companheira, Elyse (Paige Bourne), que quer que ele arranje um emprego para
aliviar o seu fardo de dívidas e frustrações.
Depois de receber um
ultimato da sua namorada, Luke é recrutado pela Symbio depois da indicação de
um amigo. Cujo processo de contratação e
salário inicial parecem bons demais para ser verdade.
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Pouco depois de
chegar, Luke percebe que, para manter o novo emprego, terá de beber uma espécie
de refrigerante, ou melhor, a kombucha. Inicialmente eufórico com o foco que a
bebida lhe proporciona, os efeitos secundários serão verdadeiros pesadelos.
O curioso é o conceito
da empresa Symbio: arregimentar principalmente gente da área de humanas, artes
e ciências sociais – em geral, financeiramente frustrados, fracassados e
colocados em xeque-mate existencial (como Luke). Por isso, prezas fáceis, seduzidos
pelos salários, bonificações e sensação de pertencimento na Symbio. Que ofereça
ainda um ambiente de criatividade e informalidade.
O argumento de Kombucha
funciona como uma metáfora estendida sobre como as empresas modernas tentam
"colonizar" não apenas o tempo, mas a biologia e a psique de seus
colaboradores.
SCOBY e burnout
No século XXI, as
empresas substituíram o controle rígido por "benefícios de
bem-estar". Frutas no escritório, aulas de yoga e, claro, kombucha gelada.
O filme sugere que esses mimos são cavalos de Troia: eles servem para
manter o funcionário saudável o suficiente para produzir mais, enquanto apagam
as fronteiras entre vida pessoal e profissional.
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A SCOBY é, por
definição, uma colônia onde indivíduos (bactérias e leveduras) trabalham em uma
simbiose total para o bem do organismo maior. No filme, isso é a representação
perfeita da cultura de "time" tóxica, onde a individualidade é
vista como uma contaminação. Se você não se integra perfeitamente à
"cultura da empresa", você é o elemento estranho que precisa ser
expelido ou transformado.
A conexão entre o
filme Kombucha e a obra de Byung-Chul Han “Sociedade do Cansaço” é quase
literal. Enquanto Han descreve uma patologia neuronal e psicológica, o filme a
transforma em uma patologia biológica e visceral.
Se em “Sociedade do
Cansaço” o indivíduo é "vítima e carrasco de si mesmo", em Kombucha
o chá é o catalisador que apaga a fronteira entre o desejo do funcionário e o
lucro da empresa.
Segundo Han, passamos
da sociedade disciplinar (do "não pode") para a Sociedade do
Desempenho (do "sim, nós podemos").
A Symbio Corporation
não chicoteia Luke. Pelo contrário, ela oferece "saúde",
"energia" e "foco". A kombucha é a personificação da violência
da positividade: ela não proíbe Luke de fazer nada, ela apenas o
"impele" a querer ser sempre melhor, mais rápido e mais produtivo. O
horror não vem de uma ordem externa, mas de uma compulsão interna quimicamente
induzida.
Claro que tudo isso
conduz ao grande mal desse século: o burnout. O momento em que a alma se cansa
de si mesma e do imperativo do desempenho.
O filme sugere que, no
século XXI, o burnout não é um erro do sistema, mas um processo de reciclagem
corporativa. Você é usado até o bagaço e depois substituído por uma versão
"fresca" e "fermentada" (o clone).
Aqui é o momento em
que o filme deixa de ser uma versão sádica de The Office para ingressar
no campo dos horrores corporais ao estilo dos filmes de Cronenberg.
Ficha
Técnica
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Título: Kombucha |
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Direção: Jake Myers |
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Roteiro: Geoff
Bakken, Jake Myers |
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Elenco: Zoe
Agapinan, Terrence Carey, Paige Bourne, Jesse Kandall, Claire McFadden |
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Produção: Tke
Care Productions |
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Distribuição: Well Go USA Emtertainment |
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Ano:
2025 |
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País: EUA |
sexta-feira, fevereiro 20, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira





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