sexta-feira, fevereiro 20, 2026

Da engrenagem à fermentação: o burnout e a metáfora do corpo colonizado em 'Kombucha'



Se no século XX o cinema nos alertava sobre o perigo de sermos esmagados pelas engrenagens industriais e corporativas do Capitalismo, o século XXI revela um horror muito mais íntimo e invasivo: a colonização da nossa própria biologia. O filme “Kombucha” (2025), de Jake Myers, eleva a metáfora da exploração corporativa ao limite do visceral, transformando o "bem-estar" do escritório em um pesadelo de body horror. Ao fundir a sátira ácida de “The Office” com a filosofia da "Sociedade do Cansaço" de Byung-Chul Han ao melhor estilo Cronenberguiano, o longa demonstra que, na era do desempenho, a empresa não quer apenas que você "vista a camisa" — ela quer fermentar a sua alma e transformar sua individualidade em uma cultura simbiótica a serviço do lucro.

Desde aquelas cenas de Charlie Chaplin sendo engolido por uma máquina na esteira de linha de montagem industrial em Tempos Modernos (1936), o cinema criou uma série de metáforas para representar como o ambiente industrial e corporativo nos explora e consome. Da literalidade física da disciplina industrial do século XX à toxicidade da cultura corporativa do século XXI.

Da metáfora da empresa como um Deus indiferente em Alien (1979) em que  a corporação Weyland-Yutani é a vilã onipresente;  do funcionário como bateria pura, pilhas biológicas para as máquinas que geravam a Matrix (Matrix, 1999);passando pela empresa WorryFree que transformava seus funcionários em “Equisapiens”, híbridos de humanos com cavalos (Sorry to Bother You, 2018); e ainda a alienação total corporativa na série Ruptura (2022) onde um microchip separa cirurgicamente as memórias do trabalho das memórias da vida pessoal; nesse filme que analisaremos a metáfora da toxicidade corporativa chega a um nível de quase literalidade.

É o filme Kombucha (2025), dirigido por Jake Myers, uma sátira ácida que utiliza o horror corporal (body horror) para dissecar as patologias do trabalho moderno. Descrito frequentemente como um encontro entre a ironia e cinismo de The Office e o cinema visceral de David Cronenberg, o longa utiliza a bebida fermentada "da moda" como um veículo para uma crítica contundente à desumanização corporativa.

"Kombucha", bebida hipster, é uma bebida fermentada feita de chá, açúcar e uma cultura de bactérias chamada SCOBY. Também conhecida como "mãe" ou "cogumelo", a SCOBY é um crescimento simbiótico de bactérias e leveduras. Realmente não parece uma bebida apetitosa, mas legiões de pessoas a consomem fervorosamente.

Bebida pró biótica, energética e natural, uma legião de fãs jura pelos seus benefícios. Mas parece que todos aqueles resíduos orgânicos que podem ser vistos flutuando no líquido inspiraram os roteiristas Geof Bakken e Jake Mayers a trazer o horror corporal para o ambiente de trabalho.

Mais precisamente para uma organização chamada Symbio. Uma daquelas empresas da Costa Oeste americana, formada por millenials em um ambiente descolado e informal, vendendo a imagem de que ser criativo e disruptivo é o que a corporação espera de você. Muito mais do que conformismo e rotina.




E nada melhor do que a bebida Kombucha, disponível para todos nas geladeiras e frigobars espalhados pela empresa, para representar esse espírito jovem corporativo. Só que tem um pequeno e estranho detalhe: no primeiro dia de trabalho, sutilmente os superiores hierárquicos o obrigam a tomar kombucha.

Se não, você será convocado para uma “reunião de re-avaliação”, e perderá os tentadores contracheques e bônus.

A bebida não apenas aumenta sua produtividade de forma sobrenatural, mas também começa a alterar sua fisiologia. Seus sentidos ficam aguçados para planilhas e prazos, mas é quando descobrirá os verdadeiros horrores que a kombucha pode causar.

Habitualmente a cultura corporativa nos incentiva a “vestir a camisa da empresa”. Em Kombucha essa cultura se converte numa cultura simbiótica de bactérias e leveduras. E os “colaboradores” se tornam literalmente “fermentados” ao se sentirem fazendo parte do transe coletivo ao fazer parte de uma “colmeia” bacteriana.

Kombucha é a versão longa-metragem do curta-metragem de comédia de terror corporal "Kombucha!", produzido por Myers e Bakken em 2024. O curta foi um grande sucesso em diversos festivais de cinema, o suficiente para dar o salto que muitos diretores de curtas almejam. Myers expandiu seu conceito central para uma produção de longa-metragem, com grande parte do mesmo elenco, e obteve resultados excelentes.

O Filme

Logo na cena de abertura, fica evidente que algo está errado na corporação Symbio.

Uma jovem visivelmente nervosa conversa com a mãe ao telefone. É tarde da noite e, em vez de preparar o jantar combinado, ela trabalhará até tarde mais uma vez. Na sociedade atual, tão focada no trabalho, isso não é novidade, mas as estranhas marcas em seus braços são, assim como sua relutância em beber o kombucha oferecido pelo escritório, preferindo, em vez disso, dar uma olhada no armário de produtos de limpeza.



Em termos de abertura, esta é realmente eficaz em prender a atenção do público e despertar a curiosidade para entender o que diabos aconteceu para levar essa mulher a tomar uma decisão tão sombria: preferir beber água sanitária ao invés da kombucha.

Após estabelecer o estranho ambiente de escritório, o filme concentra-se em Luke (Terrence Carey), um músico em dificuldades. Ele sonha com fama e fortuna, mas esses sonhos ainda não se concretizaram. Luke está preso em um ciclo familiar de apresentações em noites de microfone aberto, na esperança desesperada de que desta vez alguém importante de alguma gravadora o descubra.

A sua incapacidade de abandonar esses desejos está lhe causando problemas no seu relacionamento com a sua companheira, Elyse (Paige Bourne), que quer que ele arranje um emprego para aliviar o seu fardo de dívidas e frustrações.

Depois de receber um ultimato da sua namorada, Luke é recrutado pela Symbio depois da indicação de um amigo.  Cujo processo de contratação e salário inicial parecem bons demais para ser verdade.




Pouco depois de chegar, Luke percebe que, para manter o novo emprego, terá de beber uma espécie de refrigerante, ou melhor, a kombucha. Inicialmente eufórico com o foco que a bebida lhe proporciona, os efeitos secundários serão verdadeiros pesadelos.

O curioso é o conceito da empresa Symbio: arregimentar principalmente gente da área de humanas, artes e ciências sociais – em geral, financeiramente frustrados, fracassados e colocados em xeque-mate existencial (como Luke). Por isso, prezas fáceis, seduzidos pelos salários, bonificações e sensação de pertencimento na Symbio. Que ofereça ainda um ambiente de criatividade e informalidade.

O argumento de Kombucha funciona como uma metáfora estendida sobre como as empresas modernas tentam "colonizar" não apenas o tempo, mas a biologia e a psique de seus colaboradores.

SCOBY e burnout

No século XXI, as empresas substituíram o controle rígido por "benefícios de bem-estar". Frutas no escritório, aulas de yoga e, claro, kombucha gelada. O filme sugere que esses mimos são cavalos de Troia: eles servem para manter o funcionário saudável o suficiente para produzir mais, enquanto apagam as fronteiras entre vida pessoal e profissional.



A SCOBY é, por definição, uma colônia onde indivíduos (bactérias e leveduras) trabalham em uma simbiose total para o bem do organismo maior. No filme, isso é a representação perfeita da cultura de "time" tóxica, onde a individualidade é vista como uma contaminação. Se você não se integra perfeitamente à "cultura da empresa", você é o elemento estranho que precisa ser expelido ou transformado.

A conexão entre o filme Kombucha e a obra de Byung-Chul Han “Sociedade do Cansaço” é quase literal. Enquanto Han descreve uma patologia neuronal e psicológica, o filme a transforma em uma patologia biológica e visceral.

Se em “Sociedade do Cansaço” o indivíduo é "vítima e carrasco de si mesmo", em Kombucha o chá é o catalisador que apaga a fronteira entre o desejo do funcionário e o lucro da empresa.

Segundo Han, passamos da sociedade disciplinar (do "não pode") para a Sociedade do Desempenho (do "sim, nós podemos").

A Symbio Corporation não chicoteia Luke. Pelo contrário, ela oferece "saúde", "energia" e "foco". A kombucha é a personificação da violência da positividade: ela não proíbe Luke de fazer nada, ela apenas o "impele" a querer ser sempre melhor, mais rápido e mais produtivo. O horror não vem de uma ordem externa, mas de uma compulsão interna quimicamente induzida.

Claro que tudo isso conduz ao grande mal desse século: o burnout. O momento em que a alma se cansa de si mesma e do imperativo do desempenho.

O filme sugere que, no século XXI, o burnout não é um erro do sistema, mas um processo de reciclagem corporativa. Você é usado até o bagaço e depois substituído por uma versão "fresca" e "fermentada" (o clone).

Aqui é o momento em que o filme deixa de ser uma versão sádica de The Office para ingressar no campo dos horrores corporais ao estilo dos filmes de Cronenberg.


   

Ficha Técnica

Título:  Kombucha

Direção: Jake Myers

Roteiro: Geoff Bakken, Jake Myers

Elenco: Zoe Agapinan, Terrence Carey, Paige Bourne, Jesse Kandall, Claire McFadden

Produção: Tke Care Productions

Distribuição: Well Go USA Emtertainment

Ano: 2025

País: EUA

 

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