terça-feira, julho 23, 2019
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Ao lado de filmes como “Ela”, “Ex Machina”, “The Machine” e “Zoe”, a produção sérvia “A.I. Rising” (2018) faz uma reflexão das profundas mudanças no atual desenvolvimento da Inteligência Artificial, presente em cada aplicativo, motor de busca ou sistema operacional. Já não temos mais máquinas ameaçadoras querendo substituir o homem, como o computador HAL 9000 de “2001”. Através da engenharia social, agora criam-se programas sedutores e fetichistas que oferecem a aparência do controle ao usuário. Mas que, na verdade, nos monitoram, controlam e preveem cada padrão comportamental, sob a ilusão da customização e consumo. O astronauta Milutin, acompanhado de um androide feminino, percorrem uma longa missão na direção de Alfa Centauri. Trava-se uma relação intima, erótica e fetichista de um homem com uma “I.A.” corporativa, produto de ponta da engenharia social da Ederlezi Corporation.
Os leitores mais antigos deste humilde blog Cinegnose já devem estar familiarizados com a Cosmologia do Gnosticismo: uma divindade decaiu nessa esfera material e criou o Universo, tal como conhecemos. Inebriado pelo poder, por acreditar ser o Deus único e Todo Poderoso, confina a humanidade nesse cosmos, mantendo-a na ignorância através de três tentações irradiadas tanto pelos Arcontes como também pela indústria do entretenimento: as religiões consoladoras, o hedonismo (sexo perverso e consumismo) e a racionalização terapêutica (a engenharia do espírito).
São formas de esquecimento, seja pela alienação religiosa, pelos prazeres efêmeros ou pela anestesia do espírito.
À Religião, erotização do consumo e todo aparato de “cura espiritual” (da autoajuda às drogas lícitas farmacológicas), soma-se agora a engenharia social – manipulação psicológica com o objetivo de que as pessoas sigam comandos a partir de informações comportamentais e psicológicas secretamente extraídas de amplos públicos-alvo.
Principalmente na atualidade, com o desenvolvimento da Inteligência Artificial através de motores de busca na Internet, Big Data, machine learnings e algoritmos que probabilisticamente antecipam comportamentos, hábitos e atitudes.
Mas a vantagem da engenharia social em relação às formas tradicionais de esquecimento (alienação, hedonismo e anestesia) é que não precisamos mais procurar um objeto externo: um deus, um produto ou uma droga. Agora, encontramos gadgets (IAs, aplicativos, sistemas operacionais etc.) que aprendem conosco e passam a nos conhecer melhor do que nós mesmos.
Filmes como Ela, Ex Machina, The Machine ou Zoe começaram a fazer reflexões sobre o destino humano diante dessa nova engenharia, ao mesmo tempo invasiva e sedutora: porque são confessionais e até íntimas – nos conhecem, nos adulam e antecipam nossos pensamentos e ações.
Uma nova forma de esquecimento, através do solipsismo – a sensação de que o mundo não existe, a não ser nossas próprias experiências solitárias.
O filme sérvio A.I. Rising (2018), em alguns aspectos, lembra 2001 de Kubrick: o ritmo lento e as panorâmicas do espaço infinito mostrando uma nave em uma longa missão para uma colônia de Alpha Centauri. E a relação íntima de uma tripulação composta por um único astronauta, o computador da imensa nave e um androide feminino dotado de sofisticados softwares baseado nas avançadas pesquisas de engenharia social no século XXII.
Mas, ao contrário do clássico de Kubrick, não há um duelo mortal do homem contra a máquina. O protagonista luta contra si mesmo – os softwares do androide possuem todas as teorias da psicologia e da psicanálise transcodificadas em algoritmos, transformando o drama do protagonista num confronto com uma máquina que parece conhecer seu usuário mais do que ele mesmo.
Ele quer buscar algo de humano e real dentro da A.I. Enquanto para o androide tudo que importa é seduzir o “usuário” para que este cumpra a missão da Ederlezi Corporation.
O Filme
Estamos em 2.148. Social e economicamente, o mundo conseguiu estabelecer uma fusão entre Capitalismo e Socialismo: a sociedade é governada por gigantescas corporações, cuja engenharia social conseguiu transformar em algoritmos e softwares teorias sociais, psicológicas e ideologias políticas.
Depois que cada pedaço do planeta já foi explorado pelas corporações, o alvo agora são as colônias existentes em diversos planetas. Por isso, é crucial enviar para cada uma delas uma “ideologia” que rodará como um software numa colônia, dando sentido e propósito a todos.
A.I. Rising inicia com uma entrevista admissional para uma longa missão: uma engenheira social da Ederlezi Corporation entrevista Milutin (Sebastian Cavazzi), um experiente “cosmonauta” (estamos em Moscou) que deverá levar uma ideologia chamada “Juche” – um tipo de ideologia para “especialistas”. O filme não dá maiores detalhes.
Milutin é uma pessoa arredia, solitária e antipática. Um homem ao velho estilo do século XX. Sempre preferiu trabalhar em missões solitárias. Mas dessa vez, pela importância e duração da missão, Milutin terá uma companhia: um androide feminino modelo Nimani 1345 (Stoya) – uma AI avançada, customizável, mas com um programa secreto, corporativo, para o qual Milutin não terá acesso: o “TIFA”. Um programa que monitora a nave e, principalmente, comportamentos e atitudes de Milutin. Que serão reportados à Ederlezi Corporation.
Machista e misógino, Milutin resiste à inédita companhia: ele teve um histórico traumático com diversas mulheres. Principalmente porque ele descobrirá que, na verdade, é ela, Nimani, que terá o controle da missão.
Está claro que o primeiro papel da atraente Nimani é tornar a longa viagem mais agradável e suportável. A nave não é exatamente uma Enterprise, de Star Trek. Parece mais uma velha instalação industrial abandonada, com paredes de aço enferrujadas. Por isso, ter um “playtoy” erótico inteiramente sob seu controle através de um tablet, é bem sedutor.
Mas Nimani é muito mais do que um “playtoy”: todo o histórico psicológico de Milutin está no seu banco de dados. Ela simplesmente prevê os comportamentos do usuário, e manipula-os através da modulação das suas respostas.
Nimani transforma-se num objeto fetiche. Mas aos poucos, Milutin começa a cair numa situação paradoxal: entedia-se, pois sabe que aquela mulher não passa de uma máquina; mas ao mesmo tempo se apaixona. E quer a todo custo transformá-la em um ser humano, com respostas emocionais espontâneas.
Como? Desinstalando o software corporativo TIFA, somente acessível com autorização expressa da Ederlezi. Mas Milutin forçará uma situação para conseguir esse acesso privilegiado, colocando toda a nave, e a missão, em perigo entre os anéis de Saturno.
Entre o pornô-soft e o Gnosticismo
A.I. Rising tem longas cenas com os jogos eróticos de Milutin com Nimani – na verdade Stoya é uma atriz do mercado audiovisual pornográfico, portanto, acostumada em atuar nua.
Mas, apesar de todo o pornô-soft, o drama gnóstico está colocado: o poder manipulativo de um demiurgo corporativo que usa o poder da sedução para manter o protagonista na alienação. O tédio de Milutin é o sintoma de que, na verdade, ele não está no controle, mas prisioneiro de uma sofisticada estratégia de engenharia social.
Por isso, Milutin está perdido em um cenário emocional bem turbulento: entre transformar Nimani num brinquedo solipsista e fetichista (como, aliás, fazem os atuais aplicativos e sistemas operacionais baseados em machine learnings) e a busca de algo real, humano e independente naquela A.I.
Em muitos aspectos, A.I. Rising mostra a ascensão do novo paradigma da Inteligência Artificial: não mais autômatos que querem confrontar o homem para substituí-lo, como tenta fazer HAL 9000 em 2001, Uma Odisseia no Espaço.
Nimani é de uma nova geração que agora, no século XXI, se inicia: através da engenharia social, criar programas sedutores e fetichistas que oferecem a aparência de controle ao usuário. Mas que, na verdade, nos monitoram, controlam e preveem cada padrão de comportamental, sob a ilusão da customização e consumo.
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Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus.
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