segunda-feira, julho 06, 2015

"Divertida Mente" transforma pesquisas de controle da mente em entretenimento

A crítica especializada vem considerando a nova animação da Pixar, “Divertida Mente” (Inside Out, 2015), como a mais criativa e emocionante do estúdio. Certamente comprova como a Pixar é capaz de transformar em entretenimento um conteúdo politicamente sério: as pesquisas do psicólogo Paul Ekman, pioneiro dos estudos das conexões entre as emoções e expressões fisionômicas – estudos iniciados pela CIA e Departamento de Defesa dos EUA para criar modernos detectores de mentira em suspeitos de terrorismo. Dessa maneira, “Divertida Mente” é mais um produto midiático que reflete a atual agenda tecnocientífica: o projeto das cartografias e topografias da mente – criar modelos de simulação baseados nas neurociências, Cibernética e ciências da computação que desvendem o funcionamento da mente e da consciência.  Por trás do entretenimento há um propósito muito mais sério: controle e manipulação da mente, seja pela via fármaco ou pelo controle de massas através de dispositivos como o Neuromarketing.

O professor de Psicologia da Universidade da Califórnia Dacher Keltner e o roteirista e animador da Pixar Pete Docter são amigos de longa data. Certa vez conversavam sobre os misteriosos caminhos das emoções de seus filhos, de como mudam drasticamente da infância até chegarem na adolescência – há uma queda vertiginosa da felicidade e o aumento do medo e da ansiedade.

“É como se o mundo estivesse desabando sobre eles”, recorda Keltner sobre a sua conversa com Docter. Dessa conversa entre amigos surgiu a ideia para o argumento da nova animação do estúdio da Pixar, Divertida Mente (Inside Out, 2015). A partir daí, o professor Dacher Keltner transformou-se em consultor técnico da nova animação onde é narrado como as emoções da Alegria, Tristeza, Nojo, Raiva e Medo transformam-se em personagens coloridos que interagem dentro do cérebro de uma menina de 11 anos, criando situações inesperadas, ao mesmo tempo engraçadas e trágicas.

Na verdade, o filme da Pixar retrata as pesquisas do mentor de Ketner, o pesquisador Paul Ekman, o pioneiro dos estudo das relações entre as emoções e as expressões fisionômicas. Ekman e seu grupo de pesquisadores criaram um “Atlas das Emoções” com mais de dez mil expressões faciais e suas conexões com as emoções. Para Ekman, essas fisionomias são determinadas por um “kit de ferramentas padrão” em torno de seis ou sete emoções que independem da educação ou cultura. 

Por exigências técnicas do roteiro do filme, ficaram de fora as emoções da “Surpresa” e “Desprezo”.

Pesquisas de Paul Ekman sobre as relações entre emoções e fisionomias

O “Atlas das Emoções” de Ekman ganhou a reputação de “o maior detector de mentiras do mundo” ao demonstrar a universalidade e discrição das emoções num approach darwinista. Além disso, as pesquisas de Ekman são um desdobramento do seu trabalho para a CIA e Departamento de Defesa dos EUA nos anos posteriores aos atentados de 11/09/2001 no esforço do combate ao terrorismo desenvolvendo máquinas ou habilidades que ajudassem a ler expressões fisionômicas que pudessem revelar as intenções secretas de suspeitos.

 Essas informações dos bastidores da criação do filme Divertida Mente demonstram a incrível habilidade da Pixar transformar em entretenimento uma matéria-prima muito séria: de um lado o drama psíquico da socialização do indivíduo e, do outro, pesquisas neurocientíficas que surgem por exigências do complexo da inteligência bélico-militar norte-americana.

Por isso, a nova animação da Pixar deve ser analisada como um documento histórico que reflete a atual agenda tecnocientífica que esse blog denomina como “Projeto Cartografias e Topografias da Mente” – o esforço interdisciplinar das neurociências, psicologia cognitiva, cibernética, ciências computacionais, Inteligência Artificial e teoria da informação para tentar criar um mapeamento e cartografia digitais não só do funcionamento do cérebro mas também desvendar o enigma da consciência. Os objetivos são imediatamente aplicáveis: manipulação política  e controle social – mais informações sobre esse conceito clique aqui.

Em postagem anterior vimos como desde o filme Vanilla Sky (2001), passando por Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2003), chegando a A Origem (2010) ou Eva (2011), o cinema vem explorando a possibilidade de mapeamentos literais ou metafóricos da mente humana. Divertida Mente é mais um exemplo de como a indústria do entretenimento repercute as metas da atual agenda tecnocientífica.

O Filme


Divertida Mente começa com nada menos do que o nascimento da consciência humana, no momento em que Riley está sendo embalada nos braços dos seus pais – em um espaço abstrato surge um personagem amarelo em um spot de luz chamado Alegria, e pressiona o único botão em um painel de controle. Do lado de fora os olhos do bebê acendem e começa a sorrir. A vida de Riley começou.



Todo o filme joga com essas duas zonas simultaneamente: o mundo real da família de Riley e o interior da sua mente – um sistema detalhado onde as experiências da menina são transformadas em memórias esféricas que irão criar as bases da personalidade e do crescimento da mente, ao mesmo tempo em que Alegria passa a ser acompanhada por Tristeza, Raiva, Nojo e Medo, cujo papel é orientar as decisões de Riley no mundo exterior.

As emoções discutem e interagem entre si diante do painel de controle localizado no topo de uma torre de onde pode se observar a detalhada cartografia e topografia da mente com as ilhas das memórias-base – da Família, do Hóquei (esporte predileto de Hiley), da Bobeira (as memórias mais infantis), da Honestidade etc., diante uma planície onde está o labirinto das memórias de longo prazo, o vale dos pensamentos abstratos e o abismo do subconsciente para onde diligentes operários que fazem a manutenção das memórias jogam esferas de experiências que não são mais necessárias. Caem no abismo do esquecimento e desintegram-se.

Divertida Mente trata justamente dos últimos dias da infância de Riley para a entrada na pré-adolescência, quando seus pais de Minnesota estão de mudança para São Francisco em busca de nova oportunidade de trabalho. A narrativa descreve o caos mental e emocional de uma menina que deverá reconstruir sua vida em uma nova escola e fazer novos amigos.

A heroína não é exatamente Riley, mas Alegria que, numa crise emocional no primeiro dia de nova escola, é acidentalmente ejetada da sala de controle, juntamente com Tristeza, através de um tubo que as jogará para os recônditos mais obscuros da mente – a Imaginação, o labirinto das memórias, as cavernas do subconsciente, os estúdios de produção dos sonhos (análogo a estúdios cinematográficos) etc. Todo o filme é a jornada de Alegria e Tristeza, perdidas na mente, tentando encontrar o caminho de volta à torre de controle para restaurar a felicidade na vida de Riley.


Enquanto isso, a sala de controle ficará sob controle de Nojo, Raiva e Medo. Em suma, Riley se transforma na típica adolescente problemática diante dos pais perplexos.

Modelo mental cognitivo X freudiano


Fica evidente que o modelo da mente e consciência construído pela Pixar não é do psiquismo freudiano, mas o da psicologia cognitiva e evolucionista darwinista. Esse é o modelo que inspira a cibernética, a ciência dos computadores e a Inteligência Artificial. E que a agenda tecnocientífica atual pretende aplicar à interpretação da mente humana e a sua simulação.

Para esse modelo, a mente é um complexo dispositivo de input e ouput – assimilação de informação do meio ambiente, processamento e feed-back: o retorno eficaz e eficiente para o organismo se adaptar de forma bem sucedida ao meio ambiente. Adaptar-se para sobreviver e evoluir – essa é o princípio evolucionista darwiniano.

Mas seres humanos são diferentes de máquinas, como, por exemplo, um termostato que cumpre todos esses quesitos. Qual a diferença? Nós humanos temos emoções. Esse é o complicador para esse modelo cognitivo de mente: as emoções atrapalhariam tudo pois nos forçariam a dar feed-backs “errados” ao meio ambiente. E o que são emoções? Reações bioquímicas que sem sabermos podem nos controlar.

Esse parece ser o conceito de Divertida Mente: somos todos controlados por personagens em nossas cabeças. E precisamos conhece-las e controla-las – isso chama-se “inteligência emocional”.

Subconsciente e Inconsciente


No filme não há psiquismo ou inconsciente – há o abismo do “subconsciente” que nada mais é do que o depósito de memórias deletadas, assim como a pasta “Lixo” de um computador. Muito diferente do modelo dinâmico do psiquismo freudiano onde as emoções são investidas de pulsões do inconsciente, fazendo-as retornar sempre.



A luta interna entre indivíduo versus sociedade, inconsciente versus cultura é substituída pelo modelo evolucionista onde memórias e emoções são ferramentas de adaptação de um organismo ao meio ambiente – a más são deletadas e as boas tornam-se feed backs positivos.

Por isso o modelo freudiano de psiquismo é esquecido pela atual indústria do entretenimento. Pensar a passagem da infância para a adolescência como um mero problema de “inteligência emocional” é muito mais conformista do que pelo modelo psicanalítico do conflito entre indivíduo versus sociedade ou inconsciente versus consciente.

Raiva e medo adolescentes em Divertida Mente são disfuncionais, respostas emocionalmente erradas. A Pixar extrai dessas emoções qualquer momento de verdade, tal como rebeldia, contestação ou crítica. Partindo da lógica desse modelo cognitivo, poderíamos considerar que, por exemplo, toda a Contracultura jovem ou o movimento Punk nada mais foram do que respostas emocionalmente erradas de adolescentes. Ou toda raiva, depressão ou tristeza que produziram poesia, literatura ou música na história da cultura nada mais foram do que formas ineficientes de adaptação à vida social.

É sintomático que Riley aja da mesma forma que o cozinheiro Remy de outra animação da Pixar, Ratatouille (2007). Remy era controlado na cozinha por um ratinho que puxava seus cabelos por debaixo do chapéu como os fios que controlam um fantoche.

Por isso Divertida Mente quer ensinar para crianças e adultos que as emoções são perigosas... podem transformar-se em  homúnculos nas nossas cabeças.

Coerente com o atual projeto das Cartografias e Topografias da Mente, a animação nos avisa: comportem-se! Controlem-se! Seja pela via fármaco (as drogas de massas legalizadas) ou pelo controle de massas através de dispositivos como o  Neuromarketing que é, no final, a grande meta dessa agenda tecnocientífica. 



Ficha Técnica


Título: Divertida Mente (Inside Out)
Diretor: Pete Docter, Ronnie Del Carmen
Roteiro: Pete Docter, Michael Arndt, Meg LeFauve
Elenco: Amy Poehler, Phyllis Smith, Lewis Black, Bill Hader, Mindy Kaling (vozes)
Produção: Pixar Animation Studios, Walt Disney Pictures
Distribuição: Walt Disney Studios Motions Pictures
Ano: 2015
País: EUA

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